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A importância da aprendizagem filosófica na Educação Básica na realização das atividades cotidianas

Renan Mota Silva

Especialista em Psicopedagogia Institucional, Clínica e Educação Infantil, docente no Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval José Maria do A. Oliveira (CIAAN)

Descrição da experiência (Dificuldade, motivação)

A motivação deste relato de experiência se deu em observação às dificuldades encontradas pelo corpo docente em um centro de instrução, em que alunos executavam mecanicamente a maioria das atividades propostas. O presente texto descreve a vida cotidiana de um jovem que doravante chamarei José. Ele possui uma rotina estritamente organizada e corriqueira: trabalho, estudo e lazer, quando possível, porém de forma metódica e automática.

José, certificando-se do seu quotidiano, chegou à breve conclusão de que estava realizando suas tarefas automaticamente. Coincidentemente, nesse mesmo dia, foi proferida uma palestra sobre a importância do saber filosófico para as atividades discentes; um dos seus tópicos retratava a Revolução Industrial, que trazia como incentivo o clássico filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin; o jovem vislumbrou uma melhor reestruturação de suas atividades diárias. Ao assistir a essa obra-prima, deparou-se com uma situação semelhante à sua; com isso, já não enxergava o seu trabalho da mesma maneira de antes. Depois de certo tempo, com tal inquietude, José se predispôs a pedir orientação ao professor, que será chamado Juarez, para saber qual caminho trilhar.

A metodologia orientou-se pela observação voltada para o ambiente escolar, focalizando as dificuldades na realização das atividades propostas pelos professores, envolvendo um trabalho de entrevista com os professores e os alunos num centro de instrução voltado para a Educação Básica.

Discussão: formulação do problema (Filosofia, questionamentos, diligências)

Segundo Basbaum, apud Luckesi (2011, p. 36),

a filosofia não é, de modo algum, uma simples abstração independente da vida. Ela é, ao contrário, a própria manifestação da vida humana e a sua mais alta expressão. Por vezes, através de uma simples atividade prática, outras vezes no fundo de uma metafísica profunda e existencial, mas sempre dentro da atividade humana, física ou espiritual, há filosofia. (…) A filosofia traduz o sentir, o pensar e o agir do homem. Evidentemente, ele não se alimenta da filosofia, mas, sem dúvida nenhuma, com a ajuda da filosofia.

Nessa mesma obra, Antonio Gramsci reafirma que todos os homens são filósofos. Mas para isso é necessário que se dediquem ao trabalho de pensar metodologicamente com condições para a reflexão crítica (Luckesi, 2011, p. 21). É notório que, de algum modo, todos nós, sem distinção, lidamos e convivemos com a Filosofia e a utilizamos no nosso dia a dia, mesmo sem a devida intenção.

A Filosofia se manifesta ao ser humano como uma forma de entendimento que tanto propicia a compreensão da sua existência, em termos de significado, como lhe oferece um direcionamento para a sua ação, um rumo a seguir ou, ao menos, para lutar por ele (Luckesi, 2011, p. 35).

José, mesmo sem ter conhecimento prévio, desenvolveu empiricamente sua filosofia espontânea (comum a todo o homem; processo de filosofar natural e pouco aprofundado, que só ocorre quando algo faz interromper o curso da vida cotidiana, obrigando-o ao exercício da reflexão), diferentemente da Filosofia sistemática, que é própria dos filósofos profissionais.

De acordo com o filme Tempos Modernos, que retrata um operário que trabalha em uma linha de montagem apertando parafusos e apresentado na palestra proferida por mim, o personagem, mesmo fora das atividades industriais, continua exprimindo movimentos como se estivesse trabalhando 24 horas por dia. Essa atitude traz alusão a questionamentos sobre a vida de José, em que ele pede ajuda ao professor Juarez para superar essa condição de vulgaridade em que se encontra. José, mesmo sem saber, coloca em prática sua filosofia espontânea, procura o professor Juarez na diligência de buscar entender o que está acontecendo consigo para um melhor entendimento do mundo, cuja compreensão pudesse esclarecer o modo real da sua vida.

Solução para o caso: correlação com a situação real (Orientação, conhecimentos, reflexão)

Segundo Luckesi (2011, p. 25),

cada um de nós vive o existencial e o espontâneo do dia a dia: ele é nosso cotidiano, nosso “feijão com arroz”, porém este, por si mesmo, é muito circunstanciado e limitado para possibilitar a sua compreensão crítica e, consequentemente, sua integração num novo patamar de entendimento que o ultrapasse. Por si mesmo, o cotidiano carece de recursos para se autoentender de forma crítica. Assim, a nosso ver, a apropriação ativa da cultura elaborada torna-se necessária para a construção e vivência de uma vida mais humana e mais consciente, inclusive para ter a possibilidade de conhecer e reivindicar direitos que pertencem a cada um de nós e que são inalienáveis.

Diante da adequada exposição, é notório que o educador Juarez deveria orientar o aluno José a se apropriar da cultura epigrafada de Luckesi, ler e reler artigos e livros indicados pelo professor.

Dessa forma, por meio de conhecimentos adquiridos, talvez José obtivesse a capacidade de se “desprender das correntes” – uma parecença ao Mito das Cavernas –, para então descobrir o mundo real/exterior que vai além do pensamento abstrato, para obter uma criticidade da sua realidade e assim poder mudá-la. Juarez poderia, também, sugerir que José dialogasse com o orientador educacional desse Centro, de forma a solicitar informações de como se tornar um estudante “multiprofissional”, habilitado a trabalhar em outros setores, o que possibilitaria se tornar conhecedor das outras partes do seu processo de trabalho, auferindo maior erudição, de modo a enxergar seu trabalho de forma mais global. Tal maestria do docente Juarez para o aluno José evidenciaria o objetivo proposto da função docente, que, pela sua norralidade, minimiza o fastio, ajudando o aluno a engrandecer e refletir sobre suas atividades cotidianas.

Referências

BRASIL ESCOLA. Significado do Mito das Cavernas. Disponível em: http://www.brasilescola.uol.com.br/filosofia/mito-caverna-platao.htm. Acesso em 15 ago. 2018.

CERQUEIRA, Wagner de. Análise do filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin. Disponível em: http://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/o-filme-tempos-modernos.htm. Acesso em 10 ago. 2018.

LUCKESI, Carlos Cipriano. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 2011.

SALVA TERRA A FILOSOFAR. Fórum de assuntos subjacentes à filosofia. Disponível em: http://salvaterraafilosofar.bigforumonline.com. Acesso em 12 ago. 2018.

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