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A importância da Literatura Visual no processo de ensino-aprendizagem do(a) aluno(a) surdo(a)

Rita Wanderline Ferreira

Licenciada em Letras – Libras (UFPB)

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Doutorando (Prodema/UFPB)

Quando se realiza uma pesquisa social, muitas questões podem surgir, mas as primeiras são inerentes ao objeto do estudo em si. Estas movem os pesquisadores a buscar respostas para os problemas e fenômenos que ocorrem na sociedade e com o ser humano (Gil, 2008) (Figura 1).

Muitos problemas enfrentados por grupos sociais são foco de pesquisas para fundamentar os processos e buscas de transformações tão necessárias, para mudar a situação do paradigma em que se encontram, portanto, papel crucial da ciência e dos seus processos de investigação (Hauguette, 2010).

1-01Figura 1: Processo de pesquisa
Fonte: Autores (2017).

Este estudo tem como questionamentos iniciais: o que é Literatura Visual? O que ela revela sobre a cultura surda? Que tipos de obras existem pertencentes a ela? Que efeito a Literatura Visual pode ter na educação e na identidade do aluno surdo?
Antes de responder a essas perguntas, é importante analisar o papel da escola na educação e na formação do cidadão.

Cidadania e escola

O que significa a palavra cidadania? Dimenstein (1993, p. 20, apud Souza; Sousa, 2009, p. 3) ressalta que “cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la”. A escola tem a função não apenas de repassar conteúdos, aplicar provas, visando que seus alunos ingressem em ótimas faculdades, mas especialmente possibilitar a construção de valores educativos e morais em seus discentes, preparando-os para a vida, ensinando-os a respeitar e valorizar as diversidades ao seu redor. Cury (2003, p. 142) afirma que

há muitas escolas que só se preocupam em preparar os alunos para entrar nas melhores faculdades. Elas erram por se focarem apenas nesse objetivo. Mesmo que entrem nas melhores escolas, quando saírem esses alunos poderão ter enormes dificuldades para dar solução a seus desafios profissionais e pessoais.

A escola também deve ensinar seus alunos a tomar decisões sábias durante sua vida, motivá-los a ser pessoas boas. Além disso, é importante trabalhar a autoestima deles. Libâneo (2002, p. 7) declara:

É preciso que a escola contribua para uma nova postura ético-valorativa de recolocar valores humanos fundamentais como a justiça, a solidariedade, a honestidade, o reconhecimento da diversidade e da diferença, o respeito à vida e aos direitos humanos básicos como suportes de convicções democráticas.

Na conformação da escola atual, há também alunos com deficiências que conquistaram seu direito de inclusão pela Lei Federal nº 13.146 (Brasil, 2015), aprovada em 6 de julho de 2015. Com essa lei, crianças e jovens com necessidades educacionais especiais têm o direito de receber qualquer apoio que seja necessário para que tenham acesso a uma educação efetiva. E as escolas, ao lado do poder público, têm obrigação de preencher essas necessidades.

No que se refere à educação de surdos, o Art. 28 §4 determina: “oferta de educação bilíngue, em Libras como primeira língua e na modalidade escrita da língua portuguesa como segunda língua, em escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas” (Brasil, 2015). Em especial, os alunos surdos devem aprender duas línguas, a Libras e o português, com a finalidade de estabelecer a comunicação com as pessoas à sua volta, bem como para estar inseridos na totalidade da sociedade. Sendo assim, eles se tornam bilíngues (Pereira; Vieira, 2009).

Bilíngue é a pessoa que adquiriu duas línguas, mesmo que seja na modalidade escrita (Quadros; Sousa, 2013). No caso dos surdos, uma língua deve ser a de sinais e a outra a usada pelos ouvintes ao seu redor – o português. Para Sanches (1993, apud Lima, 2004, p. 44), “é necessário para o surdo adquirir a língua de sinais e a língua oficial de seu país apenas na modalidade escrita, e não na oral”.

Uma pessoa pode aprender a escrita de outro idioma sem saber pronunciá-lo. Da mesma forma, os surdos podem aprender a escrever e ler a língua usada pelos ouvintes do seu país sem aprender a pronunciá-la (Cavalcanti, 2010). Werneck (1997, p. 58) afirma que “incluir não é favor, mas troca. Quem sai ganhando nesta troca somos todos nós, em igual medida. Conviver com as diferenças humanas é direito do pequeno cidadão, deficiente ou não”. Sanchez (2005, p. 12), ao tratar da educação inclusiva, declara que

esta visa apoiar as qualidades e necessidades de cada um e de todos os alunos da escola. Enfatizando a necessidade de pensar na heterogeneidade do alunado como uma questão normal do grupo/classe e pôr em macha um delineamento educativo que permita aos docentes utilizar os diferentes níveis instrumentais e atitudinais como recursos intrapessoais e interpessoais que beneficiem todos os alunos.

História da educação dos surdos

Infelizmente, ao longo das primeiras décadas do século passado, os surdos não tiveram direito à educação inclusiva (Perlin; Strobel, 2008). Na Antiguidade, muitos surdos foram mortos, abandonados por seus familiares ou não tinham a oportunidade de estudar como os ouvintes. Eles eram encarados como deficientes. “Pessoas com deficiência eram discriminadas, abandonadas, eliminadas por grupos religiosos, excluídas do convívio social e educacional” (Silva; Souza, 2015, p. 3). Ainda de acordo com as autoras, as crianças com deficiências eram educadas em salas separadas, com o objetivo de permitir que as crianças consideradas normais tivessem melhor aproveitamento e aprendizado.

Reis (1992, apud Poker, 2011, p. 1) declarou: “Cardano foi o primeiro a afirmar que o surdo deveria ser educado e instruído, afirmando que era crime não instruir um surdo-mudo”. A primeira escola de surdos do mundo foi criada em 1760, na França, pelo abade Charles Michael de l’Eppè (Silva; Souza, 2010). Na rua, ele viu duas irmãs gêmeas surdas sinalizando e aprendeu com elas a língua de sinais. Ele defendia que todas as pessoas surdas tinham direito à educação gratuita, independente da sua classe social. Pessoas de vários países viajavam para estudar nessa escola de surdos, onde eles aprendiam e treinavam métodos de ensino. Ao voltar para seus países, criavam escolas de surdos usando a metodologia que lhes foi ensinada na França. L’Eppè morreu em 1789; em 29 anos, ele ajudou a criar 21 escolas para surdos na França e na Europa (Possebon; Peixoto, 2013).

Possebon e Peixoto (2013) trazem em sua obra uma passagem da história da comunidade surda: em 1834, dez surdos resolveram preparar uma grande festa com o objetivo de lembrar a vida e o trabalho de l’Eppè, na França. A festa Banquete de Surdos acontecia todos os anos. Os surdos tinham a oportunidade de conversar, contar suas histórias, criar e reproduzir suas piadas e poesias. Era a Literatura Visual. A noção de Literatura Surda começou a se expandir pela Europa, chegando aos Estados Unidos (Mourão, 2012).

Em 1864 foi fundada a Universidade Gallaudet, em Washington D.C., onde os acadêmicos passaram a divulgar materiais baseados na sua própria experiência e na de outros, distribuindo livros e vídeos da Literatura Visual que trazem a cultura e identidade surda (Mourão, 2011).

A primeira escola para surdos no Brasil foi fundada em 26 de setembro de 1857, no Rio de Janeiro, por Eduardo Huet, que era professor surdo, com mestrado e cursos em Paris (Strobel, 2009a, p. 23). Atualmente, o Dia do Surdo é comemorado em 26 de setembro para homenagear essa escola. Hoje ela é o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Muitos surdos se mudam para o Rio de Janeiro para estudar no INES. Nesse ambiente, a língua de sinais se desenvolveu, os surdos podiam usar sua língua livremente, contar suas histórias, piadas.

No entanto, em 1880, um acontecimento lamentável ocorreu quando professores ouvintes se reuniram em um congresso em Milão e decidiram que o uso das línguas de sinais seria proibido (Cavalcanti, 2010). Os alunos surdos eram obrigados a usar apenas a língua oral do seu país. Se fosse usada a língua de sinais, seriam punidos. Com essa proibição, houve prejuízos educacionais, culturais e literários – um retrocesso para o processo que estava se expandindo e as conquistas da comunidade surda. Muitas histórias, contos, anedotas e poesias foram perdidas. Antes, os surdos podiam se expressar à sua maneira e com seus sinais; a partir desse período, essas características foram se perdendo, pela não propagação entre os sujeitos (Possebon; Peixoto, 2013). Muito se perdeu da cultura surda nesse período.

Durante muitos anos, os surdos podiam escrever suas obras, mostrando suas ideias e emoções apenas usando a língua escrita vernácula do seu país, já que a língua de sinais era proibida. Isso era uma tarefa muito difícil, pois eles precisavam da ajuda de um intérprete ou conhecer muito bem a língua escrita utilizada pelos ouvintes (Cavalcanti, 2010; Mourão, 2011; Possebon; Peixoto, 2013).

Escritores surdos e a cultura surda

Alguns autores surdos se destacaram ao longo da história: Sérgio L. Guimarães, Ronise Oliveira, Olindina Coelho e Karin Strobel. Em 1961, Sérgio L. Guimarães escreveu um livro contando suas experiências, Até onde vai o Surdo (Strobel, 2009a, p. 26).

O livro Meus sentimentos em Folhas foi escrito em 2005, por Ronise Oliveira. No mesmo ano, Olindina Coelho escreveu No meu silêncio: ouvi e vivi. Em 2008, Karin Strobel escreveu As imagens do outro sobre a cultura surda. Esses são apenas alguns exemplos de livros de autores surdos que ajudaram os ouvintes a conhecer a cultura e a sua identidade surda (Possebon; Peixoto, 2013).

Uma vitória para a comunidade surda brasileira foi o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais em todo o país, pela Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Entretanto, essa lei só foi regulamentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, quando foi publicado no Diário Oficial (Cavalcanti, 2010).

Literatura Visual na prática

Atualmente, os(as) professores(as) podem utilizar inúmeros recursos didáticos e paradidáticos para ampliar a qualidade do ensino, principalmente para os alunos surdos. Usando esses meios, muitos dos quais estão disponibilizados nas escolas, o(a) professor(a) ajudará o aluno surdo, facilitando a assimilação do conteúdo que está sendo ministrado. Além disso, a sua criatividade, a ampliação dos saberes pela formação continuada, sejam teóricos e de utilização de tecnologias, possibilitarão uma atuação mais confiante, pela ampliação das habilidades e competências profissionais.

Muitas escolas, a exemplo das públicas, dispõem, pelos programas do MEC (ProInfo – Portaria MEC nº 522/97, de 9 de abril de 1997; Programa Nacional Biblioteca na Escola – PNBE, Formação Continuada de Professores etc.), de bibliotecas com acervos de livros didáticos, paradidáticos, de literatura nacional, internacional e de formação profissional; de lousas digitais, retroprojetores e computadores em salas de informática, laboratórios etc. (Souza, 2007). Paraná (2008, p. 66, apud Chiofi; Oliveira, 2014, p. 331) afirma que “o trabalho com as mídias tecnológicas insere diversas formas de ensinar e aprender e valoriza o processo de produção de conhecimentos” (Figura 2).

1-02Figura 2: Confluências necessárias para a plena formação do(a) aluno(a) surdo(a) no processo de inclusão na educação formal.
Fonte: Autores (2017).

Os livros paradidáticos, por sua vez, visam suprir ou complementar os conteúdos curriculares de forma ilustrativa; podem ser mais lúdicos que os recursos didáticos (Laguna, 2001). Menezes e Santos (2001) descrevem os paradidáticos como livros e materiais que, embora não sejam didáticos, são usados com o mesmo objetivo.
Torres (2012, apud Sousa, 2014, p. 12), afirma que

a importância dos livros paradidáticos aumenta significativamente a partir da criação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), onde se estabeleceram os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), em meados da década de 1990. Isso trouxe espaço para a produção de obras a serem utilizadas em sala de aula que tratassem de temas transversais.

Os materiais paradidáticos podem ser utilizados tanto no âmbito da sala de aula como em atividades extraescolares pela diversidade temática que possuem. Contos, fábulas também fazem parte do contexto dos materiais paradidáticos, podendo ser utilizados pelos professores, possibilitando aos alunos momentos de reflexão sobre a importância dos valores necessários para o bom convívio social. Sua riqueza de ilustrações pode levar o leitor a compreender a sua narrativa sem estar estritamente vinculadas à descrição escrita delas (Machado, 2011; Souza et al., 2012). Além disso, nesse universo paradidático, as leituras e interpretações podem ser realizadas por meio de um repertório de recursos lúdicos, o que gera encantamento, retendo a atenção do alunado e o seu envolvimento nesse processo, facilitam e ampliam o processo de aprendizagem pelo alunado (Moreno, 2009; Mateus et al., 2013).

Mas o que é Literatura Visual (LV)? Antes colocar essa descrição, deve-se compreender primeiramente o que é comunicação, linguagem, língua, leitura e literatura para depois alcançar propriamente a LV.

  • Língua – “sistema de signos orais que permitem a comunicação entre membros de uma comunidade” (Cegalla, 2005, p. 541).
  • Linguagem – “faculdade que tem o ser humano de associar uma imagem acústica de um som vocal a um conceito e de utilizar o resultado para exteriorização do pensamento e interação social” (Cegalla, 2005, p. 541).
  • Comunicação – “transmissão de informação” (Cegalla, 2005, p. 219).
  • Leitura –“arte de ler” (Cegalla, 2005, p. 535).
  • Literatura – “arte de compor ou escrever trabalhos em prova ou verso com o objetivo de atingir a sensibilidade ou emoção do leitor ou do ouvinte” (Cegalla, 2005, p. 543).

Portanto, o ser humano desenvolve a sua língua materna, com seus signos e significados expressos oralmente (a Libras, como primeira língua), passando a desenvolver a linguagem, que associa a oralidade à escrita (o visual e os significados dos símbolos), chegando à comunicação para expressarem-se (mãos, expressões faciais e o corpo) e finalmente com a leitura, que é a compreensão de todo o repertório simbólico (símbolos específicos, gestos, expressões faciais etc.) fonético e visual (numérico, alfabético, gráfico, pictórico etc.) para realizar o entendimento do mundo à sua volta (Freire, 1989; Córdula, 2011) (Figura 3).

1-03Figura 3: Construção do processo linguístico e educação do ser humano
Fonte: Autores (2017).

A Literatura é uma linguagem artística e estética que se utiliza de recursos como prosa e verso para narrar ou dissertar acontecimentos históricos ou da ficção, podendo ter um teor educacional, ético ou moral (Eagleton, 2003). Quando se trata da literatura para a comunidade surda, tem-se a Literatura Visual, que, como descrito anteriormente, é acrescida de uma predominância visual para sua interpretação, podendo ser imagens estáticas, como fotos e ilustrações, ou dinâmicas, como as produzidas por slideshows e até vídeos (Karnopp, 2006).

Como o surdo utiliza a visão para obter informações, a união da mídia e da literatura cria condições para que haja um fortalecimento da identidade, cultura e de conhecimento da surdez. Pesquisar como se desenvolvem estes aspectos conjuntamente fará com que a expressão da arte e da literatura surda seja registrada em livros e em materiais midiáticos, capazes de manifestar a diferença linguística e cultural de surdos, através do caminho da autorrepresentação (Rosa, 2006, p. 59).

Inúmeros materiais paradidáticos estão disponíveis na internet, em editoras especializadas, sites, blogs e no YouTube, compondo acervos crescentes para o ensino, via Literatura Visual (Karnopp, 2006). Quadros e Schmiedt (2006) trazem em sua obra algumas sugestões de atividade para desenvolver a língua portuguesa com alunos surdos (Quadro 1).

Quadro 1: Sugestões de atividades para desenvolvimento da língua portuguesa e que podem ser adaptadas para a Literatura Visual.

Atividade

Objetivo

Saco de novidades Levar o educando a se expressar perante o grupo
Saco de surpresas Estimular a externalização das sensações
Mesas diversificadas Favorecer a autonomia no desenvolvimento de tarefas
Vivências Promover a aprendizagem por meio de situações significativas
Leitura e vocabulário Para a aprendizagem da língua de forma lúdica
Produção escrita Estímulo para produção literária da língua portuguesa

Fonte: Quadros e Schmiedt (2006, p. 45-98).

Portanto, a Literatura Visual é usada para se referir às histórias que têm a língua de sinais, a identidade e a cultura surda incluída na narrativa. Geralmente é registrada em Libras, por meio de filmagens, e em escrita impressa de sinais e em português. Por ser uma língua visual, suas obras são compostas por várias gravuras, além da sinalização da Libras em desenhos. Rosa (2006, p. 62-63) relata que:

O desenho é importante para crianças terem o visual e maior facilidade em perceber o conteúdo do livro. Além disso, desenhos de sinais expressam e marcam a cultura surda. Possuem a possibilidade de leitura, pois dentro tem a escrita de língua de sinais. (…) Para compreender a escrita da língua de sinais a pessoa precisa conhecer a estrutura da escrita de Língua de Sinais. E, por último, a leitura do português, que também é importante para aprender a lê-lo. O objetivo desses itens é ajudar e compreender a cultura surda. (…) Além de material impresso, a mídia (CD/DVD) é muito importante para surdos, pois apresenta visual para todos do Brasil e é um meio mais fácil para entender o livro.

De acordo com Strobel (2009b, p. 62), a Literatura Surda refere-se “às experiências que o povo surdo passa, suas dificuldades e/ou vitórias das explorações e tiranias dos ouvintes, como reagem diante dessas situações; mostra também as ações de grandes militares e lideres surdos e valoriza suas identidades surdas”.

Os “surdos recontam histórias para outros surdos e reconstroem, pela língua e pela cultura, os sentidos veiculados pelo texto que serviu como ponto de partida para a criação de um outro texto” (Alves; Karnopp, 2002, apud Leite; Guimarães, 2014, p. 9).

A Literatura Visual ou Literatura Surda é importante na formação da identidade e da cultura surda. Citando Leite e Guimarães (2014, p. 5):

Nesse processo de construção de identidade do sujeito surdo e a sua relação com os seus pares, a contação de histórias e a Literatura Surda se constituem como fatores relevantes, promovendo a reflexão, a criticidade, a autonomia, dentre a consolidação de outras aprendizagens. Ao considerar a literatura como instrumento essencial na formação do imaginário do sujeito surdo, o contar e recontar histórias por meio da Língua Brasileira de Sinais possibilita significar a fantasia e produzir novos conhecimentos na ressignificação de outros contextos, utilizando a sua língua natural.

Essa literatura contribui para a aprendizagem dos alunos surdos, no que se refere à sua língua e na sua formação como bilíngue. Estimula a criatividade, a imaginação e a linguagem (Rosa, 2006). Promove também o desenvolvimento social e afetivo das crianças surdas e ouvintes (Mourão; Silveira, 2009; Mourão, 2012).

Assim, o ensino da literatura nas escolas promove a formação da identidade e do gosto pela leitura dos ouvintes, e o mesmo acontece com os alunos surdos. Quanto mais cedo forem expostos a histórias, poesias, contos, fábulas, piadas, dentre outros textos, mais propensos eles ficarão a desenvolver o gosto pela leitura na sua língua, a de sinais. Além disso, a literatura tem efeito positivo na identidade da criança surda. Muitos surdos se acham inferiores aos ouvintes, mas, ao notarem que há obras na sua língua, eles perceberão que não são inferiores, apenas utilizam uma língua diferente (Laborit, 1994, apud Mourão, 2011).

Considerações finais

A Literatura Visual está ligada a histórias, poesia, contos e outras formas literárias de que a língua de sinais se apropria para proporcionar o aprendizado, a identidade e a cultura surda. O que é preciso ainda é a ampliação do acervo disponibilizado gratuitamente na internet, devendo inclusive ser produzidas obras pela própria comunidade surda, para que atendam às necessidades da geração atual e das futuras e não apenas readaptando e recontando a literatura clássica nacional e internacional, mas sim criando as próprias histórias de vida em suas comunidades.

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