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Aprendizagem e avaliação: um processo intrínseco

Sabrina Guedes de Oliveira

Mestranda em Novas Tecnologias Digitais na Educação, especialista em Psicopedagogia, Mídias Educativas, Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica. Professora da rede municipal de ensino, atualmente na coordenação pedagógica de uma escola da rede

Introdução

Falar de aprendizagem e avaliação é entrar no campo das relações que se estabelecem entre os diferentes atores que atuam nesse processo, especialmente professor-aluno, e na construção de como se processa a assimilação e a aquisição do conhecimento.

A aprendizagem é um processo natural do ser humano, mas, no contexto da escola, ela implica uma dada concepção de aprendizagem. Essa fundamentação irá tecer um modelo de aprendizagem que necessita de ação intencional.

Os primeiros anos de escolaridade exemplificam de forma muito contundente como nós, educadores, nos posicionamos frente à alfabetização/letramento a fim de solucionar possíveis problemas, minimizando as dificuldades, compreendendo e atribuindo significado à aprendizagem dos nossos alunos.

Falar em avaliação é antes de tudo ter claro que as concepções de aprendizagem dão um significado a esses procedimentos pedagógicos.

Celso Vasconcellos (apud Silva et al., 2006, p. 163) aponta o objetivo da avaliação quando diz que ela “implica uma reflexão crítica sobre a prática no sentido de captar seus avanços, suas resistências, suas dificuldades e possibilita a tomada de decisão sobre o que fazer para superar os obstáculos”.

Numa avaliação global todos possam analisar, por meios de variados instrumentos, a fórmula mais adequada para atingir os objetivos da aprendizagem, tendo assim uma gama/variedade de informações sobre o trabalho docente e sobre os percursos e a reflexão acerca dos conhecimentos que estão sendo produzidos.

Desenvolvimento

A avaliação necessita ser contínua; tem como objetivo intensificar e aprimorar a qualidade do aprendizado. Somente mediante observação sistemática o professor consegue otimizar as suas aulas, o tempo empregado, de forma que garanta que todos os alunos aprendam. A avaliação permite que o professor perceba a real intencionalidade do seu trabalho, ajuda no uso dos recursos adequados e na reflexão da práxis pedagógica.

Uma avaliação comprometida necessita fundamentar-se nos processos de aprendizagem, em seus aspectos cognitivos, afetivos e relacionais. Uma aprendizagem significativa e funcional é aquela que tem relevância para atores envolvidos, alunos e professores, sendo aplicada em diversos contextos e se atualiza de acordo com os diferentes contextos históricos e culturais.

De acordo com Luckesi (1998, p. 1), é ideal e importante que o processo de avaliação seja constante para que se pense e analise que dificuldades são essas e de que maneira estão resolvidas e/ou solucionadas.

A avaliação da aprendizagem escolar adquire seu sentido e é ressignificada na medida em que se articula com o projeto político-pedagógico, com seu projeto de ensino e, mais do que isso, com uma política pública séria e comprometida.

A revista Nova Escola explica por que o PPP tem esse nome:

projeto porque reúne propostas de ação concreta a executar durante determinado período de tempo. É político por considerar a escola como um espaço de formação de cidadãos conscientes, responsáveis e críticos, que atuarão individual e coletivamente na sociedade, modificando os rumos que ela vai seguir. É pedagógico porque define e organiza as atividades e os projetos educativos necessários ao processo de ensino e aprendizagem.

A avaliação subsidia decisões a respeito do processo de ensino-aprendizagem, tendo em vista garantir a qualidade do resultado que a educação pretende construir. É necessária uma articulação entre esses eixos para que de fato haja qualidade nesse movimento que ultrapasse os muros da escola e solidifique as relações existentes e aprendizados construídos.

Nessa perspectiva da avaliação como processo, algumas ações, como organizar, fazer análises mais precisas sobre sua evolução, comparar tarefas e estabelecer relações entre respostas, são fundamentais. É possível desenvolver proximidade e intimidade maior com o processo ensino-aprendizagem, transformando a ação avaliativa em um momento de ação da aprendizagem e em um momento de ação-reflexão-ação que apoiará futuras intervenções no que diz respeito ao currículo e seus desdobramentos no projeto político-pedagógico de um curso. (Carminatti; Borges, 2012).

Uma ação crítica e transformadora, em que o professor acompanha o seu grupo, investigando, observando e refletindo sobre a criança, o grupo, a sua prática pedagógica e a instituição, é importante na medida em que nem tudo que avaliamos é visível e, na maioria das vezes, ultrapassa a dimensão da observação.

Avaliar é estar voltado para uma intenção pedagógica que trará condições para o professor criar objetivos e planejar atividades adequadas, dando assim um real ponto de partida para essa observação. É clara a necessidade de construir conhecimentos e reflexão por parte de professores e educadores acerca do processo avaliativo formal.

A avaliação gradual, sistemática é um processo que deve ser incorporado à prática do professor, em que todas as experiências, manifestações, vivências, descobertas e conquistas das crianças devem ser valorizadas, com o objetivo de revelar o que a criança já alcançou, suas potencialidades, dificuldades, o que deveria ainda atingir.

Uma adequada prática avaliativa passa necessariamente pelo conhecimento da tríade funcional da educação, que compreende as funções conativas, executivas e cognitivas do ser humano.

Podemos exemplificar de forma sintética que as funções conativas possuem relação direta como terreno das emoções, do temperamento e da personalidade do indivíduo.

Esse campo traz pistas importantes para o educador na condução da sua prática, trazendo à tona aspectos que o questionam, tais como:

  • Meu aluno tem o claro objetivo de por que é necessária a realização de determinadas tarefas?
  • Qual o principal objetivo da realização das atividades que proponho para o meu aluno?
  • Qual a real expectativa que meu aluno tem para com a atividade que recomendo?
  • Qual o estado emocional de meu aluno neste momento da atividade?

A função cognitiva emerge do cérebro e tem como fundamento alguns conceitos, como: integração, interdependência, maturidade e complexidade, autorregulação, intercâmbio, equilíbrio e adaptabilidade.

A função executiva coordena e integra a tríade neurofuncional da aprendizagem: planejar, gerir, antecipar tarefas, textos e trabalhos; organizar, pensar, reter, memorizar e resumir.

O afetivo, o cognitivo e o executivo estão em interação no processo constante de aprendizagem, o que possibilita que as interpretações relativas à aprendizagem escolar sejam decodificadas pelo profissional que registra as suas impressões como (in)adaptado.

De acordo com profissionais da área, a aprendizagem “é um processo de mudanças, de conhecimento, de comportamento que se obtém por meio das vivências construídas por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais” (Waldir, 2017, p. 54).

Além dos fatores intrínsecos ao indivíduo, sabemos que as construções que são calcadas nas experiências sociais também trazem informações a serem consideradas para uma boa aprendizagem. Além de oportunizar a interação, a socialização, a construção do conhecimento real, é preciso que a escola abarque as lacunas emocionais e familiares, dando motivação e confiança nesse aprendizado.

O olhar avaliativo da escola e do educador precisa estabelecer vínculos sólidos, promovendo a segurança, a confiança e o afeto, dirimindo em parceria com o aluno as “deficiências”, “faltas”, “ausências” que porventura apareçam, mas fundamentalmente permitindo que as experiências se coadunem em significados e representações para os alunos.

A mente humana é muito complexa e carrega em si um arcabouço de informações que permitem associações e comparações do ontem com o hoje, refletindo assim para com o amanhã. Nesse sentido, o cérebro tem uma função das mais holísticas, transcendendo a própria condição biológica.

Para uma avaliação além dos resultados numéricos, é preciso que o profissional da educação carregue na sua formação uma característica multidisciplinar, com capacidade de transformar habilidades previamente constituídas e construídas pelos alunos em novos constituintes teóricos. É necessário que a formação inicial e a permanente promovam uma bagagem teórico-prática para que ocorra aprendizado por parte desse professor.

É preciso que o trabalho estimule a autonomia e esta se transforme em aprendizagem, em raciocínio, em tomada de decisão, planejamento, execução, análise, síntese, a fim de uma escolha consciente no mundo que o rodeia.

De acordo com Eugênio Cunha, há quatro estágios de aprendizagem humana:

  • Estágio diretivo: o educando aprende com o auxílio do professor. Período de experimentação em contato com novos saberes. O educador precisa motivar a descoberta sem emitir juízo de valor entre o certo e o errado.
  • Estágio da autonomia: o educando aprende novas habilidades por iniciativa própria. Nesse estágio, o aluno aprende com o acerto e o erro. Age sem a permanência constante do professor. Constrói suas escolhas e já adquire a autoavaliação.
  • Estágio criativo: é uma aprendizagem que transforma, que traz algo inédito, original. Há novas alternativas de apropriação do conhecimento.
  • Estágio colaborativo: construção do conhecimento por meio de novos caminhos e habilidades. Há comunicação entre diferentes atores e ferramentas. O mundo digital é um representante desse estágio de aprendizagem.

Para que a aprendizagem seja efetiva, é preciso que o professor seja de fato um observador do aluno e um mediador do processo, possibilitando uma avaliação que seja a mais fidedigna.

A avaliação é um assunto muito discutido por nós, educadores, e em vários momentos as controvérsias surgem, principalmente porque validam/confirmam ou refutam as concepções e as teorias de aprendizagem.

Avaliar é um ato que traz no seu nicho um arcabouço de teorias e práticas que passam por processos de inclusão e exclusão, em que a própria sociedade dialoga com a escola e vice-versa; um contributo, uma troca que demonstra o quanto julgamos, comparamos, analisamos, diagnosticamos o processo formativo e o somativo.

Durante muito tempo, a avaliação foi usada como instrumento de classificação, punição e bonificação, servindo para confirmar o poderio do saber do professor. Nas últimas décadas, conseguimos pensar a avaliação sob a perspectiva, principalmente, da qualidade processual, objetivando uma aprendizagem que leve em consideração o desenvolvimento das potencialidades do aluno, organizando, orientando e colaborando para planejar e melhorar o ensino. É preciso pensar, discutir e refletir os critérios de avaliação usando os seguintes questionamentos: Para quê? Por quê?

Os resultados de uma avaliação precisam ser subsídios para que o aluno conheça o seu aprendizado; para os responsáveis participantes da educação escolar de seus filhos; para o corpo docente, que se torna elemento importante na intermediação do conhecimento, tendo como função o diálogo com os alunos sobre os processos de ensinagem e aprendizagem.

Bem sabemos que é necessária a mudança/transformação do ensino, da gestão, da aula, já que há muito tempo a escola, em sua postura tradicional, incorporou práticas excludentes, com o intuito de classificação em aptos ou inaptos.

O trabalho do professor deve ser de observação, sabendo dos limites e potencialidades dos alunos e, assim, mediar a interlocução com o saber, criar vínculos. Para a aprendizagem, é preciso que o afeto e as relações estejam presentes na constituição de vínculos, com o envolvimento de fato entre professor-aluno.

É fato que a aprendizagem é considerada um processo que engloba os indivíduos em questão como um todo. É importante que o professor perceba-se como facilitador do processo de aprendizagem, pois, quando a relação que estabelece com seu aluno é pautada no vínculo e no afeto, propicia a ele a oportunidade de: mostrar, guardar, criar, entregar o conhecimento e permite que o outro possa investigar, incorporar e apropriar-se do conhecimento. Dessa forma, há uma relação que ultrapassa o nível acadêmico e permite que ocorra um olhar diferenciado em direção ao desconhecido. Quando esse olhar permeado de afetos, em que os diferentes vínculos circularam, acontece, há espaço para que o aluno seja ativo e autor do próprio conhecimento. Aí, sim, há um despertar, uma vontade de apropriar-se do conhecimento. Há então um real aprendizado e o encontro efetivo de quem ensina com quem aprende. Esse envolvimento dá a oportunidade para que haja um movimento na direção do desabrochar de cada um (Faro, s/d).

A avaliação escolar precisa ser um instrumento de melhoria do processo ensino-aprendizagem, pois auxilia na verificação e no acompanhamento do progresso de cada indivíduo.

A função formativa da avaliação é a que mais corresponde ao projeto de uma educação democrática e emancipatória. Essa função busca incluir e proporcionar que todos aprendam; temos a avaliação voltada para a inclusão de todos também por meio do próprio acesso ao conteúdo e a pertinência do que é ensinado.

Conclusão

Os processos de ensinagem e aprendizagem estão intrinsecamente ligados às diversas concepções de educação e a seus distintos momentos na história, mas fundamentalmente às políticas públicas que determinam o caminho a ser percorrido no âmbito escolar. Nas últimas décadas, as políticas públicas estiveram atreladas a movimentos e/ou organismos internacionais/externos que corporificam na avaliação a ingerência do Estado, revelando com isso as concepções de aprendizagem.

A avaliação escolar está presente como instrumento para verificar. A avaliação permite a teoria-ação-teoria, movimento que chamamos de práxis pedagógica do professor. A avaliação permite que a reflexão sobre esse movimento ocorra de fato. Para isso, a postura e o olhar do professor passam a ser de pesquisador.

Podemos afirmar que são dois processos intrínsecos, em que a interdependência acompanha e faz dessa relação um ponto norteador e importante para que professor e aluno se percebam participantes.

Para que a aprendizagem seja qualitativa, é preciso considerar que aspectos das ordens biológica, cultural e social estão presentes, interferindo e sofrendo interferências do que se encontra ao redor. Pensar o biológico no aluno é necessário para que o professor tenha consciência do desenvolvimento, da maturação neuronal, da faixa etária, do físico e da saúde.

A complexidade do processo traz revelações e consequências importantes para uma análise mais apurada da realidade de cada indivíduo e, em especial, de todo o grupo de alunos que está sendo trabalhado, possibilitando a melhoria na qualidade da ensinagem, assegurando uma significação na aprendizagem que na atualidade estabelece um diálogo com a tecnologia como ferramental importante e necessário para a sociedade atual, fator de mudança de paradigma, tendo a interlocução como auxílio de linguagem.

Referências

CARMINATTI, S.; BORGES, M. Perspectivas da avaliação da aprendizagem na contemporaneidade. Est. Aval. Educ., São Paulo,v. 23, n. 52, p. 160-178, maio/ago. 2012.

FARO, C. O vínculo afetivo na relação ensino-aprendizagem. s/d. Disponível em: http://www.profala.com/arteducesp81.htm.

LOPES, Noêmia. O que é o projeto político-pedagógico. Nova Escola, 1 dez. 2010. Disponível em: https://gestaoescolar.org.br/conteudo/560/o-que-e-o-projeto-politico-pedagogico-ppp.

LUCKESI. Verificação ou avaliação: o que pratica a escola? São Paulo: FDE, 1998. Série Ideias, n. 8.

SILVA, Maria de Fátima Minetto Caldeira et al. Currículo estruturado: implementação de programas pedagógicos. Curitiba: Iesde Brasil, 2006.

WALDIR, P. Guia prático de neuroeducação. Rio de Janeiro: Wak, 2017.

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