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Brincadeira e Psicomotricidade: encontros na Educação Infantil

Eduardo Rodrigues da Silva

>Mestre em Educação Física e Cultura (UGF), pesquisador nas áreas da Educação Física, Representações Sociais e Meio Ambiente; professor na Licenciatura de Pedagogia (Faculdade Fernanda Bicchieri/Fabel), coordenador do Grupo de Estudos Educação, Corpo e Cultura (GEECC), professor na Educação Básica

Marcélia Amorim Cardoso

>Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc), professora na Licenciatura de Pedagogia (Faculdade Fernanda Bicchieri/Fabel), Componente do GEECC, professora do Curso Normal de Nível Médio (Seeduc/RJ)

Maria de Fátima Marques da Silva Machado

Graduada em Pedagogia (Faculdade Fernanda Bicchieri/Fabel)

A brincadeira é fator muito importante no desenvolvimento da criança. Está inserida no ser humano desde seus primeiros dias de vida. Em sociedades medievais, a existência da infância é desconsiderada. Essa perspectiva foi reconfigurada somente a partir do século XV, quando a criança começou a ter tratamento especial, diferenciado dos adultos. A ênfase deste estudo está na importância da brincadeira em turmas de Educação Infantil, na necessidade de disponibilizar espaço e tempo para as brincadeiras na rotina escolar, percebendo o momento em que a pessoa adulta deve coordenar a brincadeira, observar ou participar dela. Nesse contexto, leva-se em consideração que a brincadeira é uma das linguagens que mais aproxima a criança do mundo, sendo uma importante forma de comunicação. Nesse contexto, o estudo que se segue apresenta a Psicomotricidade e a Educação Infantil em um diálogo necessário e urgente.

A primeira possibilita a ampliação das potencialidades, habilidades, competências e subjetividade do ser humano pelos movimentos e pela expressividade; a segunda, como espaço privilegiado para a ocorrência desse processo.

Considerando a criança como ser social e cultural em processo de desenvolvimento e que possui a capacidade de reconstruir brincadeiras transmitidas por geração mais velha à cultura de sua época, propõe-se aqui nesse estudo a defesa da inserção da brincadeira como eixo central das práticas pedagógicas cotidianas da Educação Infantil.

Neste estudo, iremos refletir sobre a brincadeira em espaços de Educação Infantil, analisando o papel do professor como mediador capaz de contribuir para o desenvolvimento da criança por meio do movimento e das brincadeiras.

A brincadeira em espaços da Educação Infantil

Segundo o Dicionário Aurélio (1999, p. 332), a palavra brincar está associada à diversão, ao mundo infantil. Até mesmo nas sociedades medievais, em que a infância ainda não se revelava como elemento social e estava envolvida na demanda do trabalho, o brincar já fazia parte de práticas culturais.

A ‘descoberta’ da infância teria de esperar pelos séculos XV, XVI e XVII, quando então se reconheceria que as crianças precisavam de tratamento especial, ‘uma espécie de quarentena’, antes que pudessem integrar o mundo dos adultos (Heywood, 2004, p. 23).

Essa fase da vida era tratada com pouco interesse, já que a alta taxa de mortalidade infantil era frequente, não trazendo expectativas que justificassem uma atenção maior. Heywood (2004, p. 10) afirma que “somente em épocas comparativamente recentes veio a surgir um sentimento de que as crianças são especiais e diferentes e, portanto, dignas de ser estudadas por si sós”. Tal mudança de paradigma constitui-se em campo de estudos e pesquisas em diversas áreas do conhecimento que mobilizaram construções em dimensões teóricas e práticas que impulsionaram o outro/novo olhar sobre a infância e sobre a criança.

Atualmente, esse olhar que considera a infância uma construção histórico-social e a criança um ser pensante, cultural, social e cidadã de direitos permeia uma série de argumentações nas explicitações sobre a infância e a Educação Infantil. O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – RCNEI (Brasil, 1998, p. 22) afirma que

as crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. […] As crianças se utilizam das mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem ideias e hipóteses originais sobre aquilo que procuram desvendar.

A brincadeira, considerada uma das linguagens que mais aproxima a criança do mundo que a rodeia, traz o brincar presente na vida da criança desde seus primeiros dias de vida. Segundo Heloysa Dantas (2013, p. 115), “o recém-nascido ‘brinca’ (exercita) suas possibilidades sensoriais (mais do que motoras) nascentes. Brinca de ‘gorjear’, brinca de se olhar: suas reações circulares primárias não passam de brincadeiras funcionais”.

O brincar aparece na vida da criança como manifestação cultural em relação aos aspectos biológicos, mediada na relação com o mundo físico e social, atuando em suas relações com outras crianças e com o mundo. Assim, no âmbito educacional a brincadeira tem papel fundamental na medida em que ajuda na formação da identidade, na capacidade de autonomia e principalmente na evolução da imaginação.

Se a brincadeira é uma ação que ocorre no plano da imaginação, isso implica que aquele que brinca tenha o domínio da linguagem simbólica. Isso quer dizer que é preciso haver consciência da diferença existente entre a brincadeira e a realidade imediata que lhe forneceu conteúdo para realizar-se (Brasil, 1998, p. 27).

O brincar, segundo o Referencial para a Educação Infantil, apresenta-se por meio de categorias de experiências que podem ser agrupadas em três modalidades: brincar de faz de conta, brincar com materiais de construção e brincar com regras.

Na brincadeira de faz de conta a criança cria uma situação imaginária, podendo ser assumindo um papel a partir de uma imitação ou com determinado objeto que irá ser transformado em outro em sua imaginação. No faz de conta, a criança está construindo seu mundo através da imaginação, de forma espontânea.

No brincar com materiais, a criança constrói utilizando pecinhas de brinquedo contando com memórias e a imaginação desenvolvendo sua criatividade na produção de estruturas.

Ao brincar com regras além daquelas criadas pelos pares ou pelo grupo, há regras com a coordenação do professor; nesses tipos de brincadeira, a criança aprende a respeitar regras, limites, esperar a vez e aceitar resultados.

Durante as experiências vividas em escolas de Educação Infantil que motivaram este estudo, pudemos constatar que as brincadeiras de faz de conta são as menos realizadas. O fato de o professor fazer mais as atividades dirigidas relacionadas à transcrição de conceitos está relacionado à concepção de que a escola constitui o lugar onde o professor deve sempre estar comandando as atividades. Segundo Oliveira (1992, apud Cerisara, 2013, p. 45),

o educador pode desempenhar um importante papel no transcorrer das brincadeiras se consegue discernir os momentos em que deve só observar, em que deve intervir na coordenação da brincadeira ou em que deve integrar-se como participante das mesmas.

O papel do adulto nesse sentido é sair da perspectiva adultocêntrica aclamada pelas linhas de educação de cunho epistemológico-reprodutivista de transmissor para mediador, participante e observador. E a escola de Educação Infantil rompe com a premissa de antecipação de conteúdos escolares em detrimento da transformação do ambiente em lugar de trocas, identidades, experiências e linguagem, afetando profundamente os direitos da criança e seu processo de desenvolvimento.

A BNCC – Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017) alerta e aponta que devem ser assegurados seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento, dentre eles o brincar. Ou seja, mesmo com as modificações em documentos norteadores legais da Educação Infantil, o brincar está no cerne do fazer pedagógico.

A Psicomotricidade e a criança: o movimento como forma de linguagem

O movimento é fator muito importante para a formação e o desenvolvimento da criança. Ao se movimentar, os bebês já estão expressando seus sentimentos. O movimento do bebê não é somente mexer as partes do corpo, mas também expressar uma linguagem que permita aos adultos identificar seus desejos e necessidades. Psicomotricidade é um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito, cuja ação é resultante de sua individualidade, sua linguagem e sua socialização (Almeida, 2007, apud Machado; Nunes, 2011, p. 27); em consonância com os eixos norteadores das interações e a brincadeira das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Brasil, 2010, p. 25), as escolas de Educação Infantil devem garantir experiências que: “promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, que possibilitem movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança”.

A criança, ao brincar, constrói sua própria cultura, tendo contato com a cultura oferecida por outras gerações. Podemos ver também a influência de valores culturais em brincadeiras marcadas pelo gênero, pois em gerações passadas somente meninos brincavam de carrinho e de bola e meninas brincavam de boneca. Quando brincavam de casinha, em que a criança imita os adultos, só havia a presença das meninas. Na geração atual, as brincadeiras não são totalmente marcadas por gênero, pois existem jogadoras de futebol, então as meninas passaram também a brincar de bola, assim como o carrinho foi incluído em suas brincadeiras, sendo o carro das bonecas, pois hoje existe um número maior de mulheres que dirigem. Os meninos também têm participação nas brincadeiras de casinha, representando o pai ou outra figura masculina, reproduzindo a participação mais ativa que o pai tem hoje no cotidiano da família.

Além das brincadeiras relacionadas a práticas culturais, o movimento precisa ser inserido também na Educação Infantil via jogos psicomotores, ampliando o conhecimento da criança sobre seu corpo em movimento, sua identidade, e valorizando-o também como capacidade expressiva. Como exemplo de movimento e expressividade, recorremos a Machado e Nunes (2011, p. 128), que desenvolveram 100 jogos; dentre eles destacamos um para exemplificar.

Encenação dos animais
Desenvolvimento: esta brincadeira de simulação é rica, pois recorre à criatividade, seja de sons, gestos e movimentos. Além disso, promove a interação do grupo. O professor dividirá o grupo em equipes de três a cinco participantes, de forma que cada equipe deverá se reunir em local afastado e escolher um animal que considerar interessante. As equipes terão cinco minutos aproximadamente para ensaiar, antes de apresentar sua performance para as outras equipes. As equipes, uma de cada vez, deverão apresentar seu animal e, ao final da apresentação, as outras equipes tentarão adivinhar qual animal está sendo imitado. Cada pessoa deverá representar uma parte do animal e, juntos, formarão o animal por completo. O animal formado deverá apresentar-se, locomover-se e mostrar algum aspecto de seu comportamento.

Em adaptação para turmas da Educação Infantil na faixa etária de cinco anos, não estipularíamos os cinco minutos para ensaio, pois a criança dessa modalidade, devido à fase do desenvolvimento em que se encontra, ainda não tem o autocontrole e a paciência para esse tipo de conduta. O grupo seria dividido em equipes de três a quatro participantes e cada uma iria permanecer em um círculo desenhado no chão, um ao lado do outro, formando uma roda. O professor deixaria que cada equipe escolhesse o animal e todos fariam a imitação, sem separar cada criança para uma parte do animal. A imitação seria realizada no centro da roda. As outras equipes tentariam adivinhar qual animal está sendo imitado. Após a adivinhação, todas as equipes iriam imitar esse animal. Então, a equipe que fez a imitação volta para o seu círculo e outra equipe se coloca no centro da roda para dar continuidade ao jogo.

O RCNEI (Brasil, 1998, p. 22) ensina que “as mímicas faciais e gestos possuem papel importante na expressão de sentimentos e em sua comunicação”; a BNCC (Brasil, 2017, p. 37) lembra que “o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão”.

O papel dos adultos no contexto de Educação Infantil é favorecer oportunidades de práticas recreativas psicomotoras orientadas ou livres que valorizem não somente o movimento corporal, mas também a dimensão expressiva do movimento, que engloba as expressões e comunicação de ideias, sensações e sentimentos, fundamentais na construção de sua identidade.

Considerações

Este artigo teve como objetivo realizar um estudo acerca das brincadeiras em espaços da Educação Infantil, refletindo sobre o papel dos adultos como mediador na realização de brincadeiras espontâneas ou coordenadas.

Foi possível concluir que o brincar é uma prática cultural e que até mesmo nas sociedades medievais, quando as crianças eram tratadas com pouco interesse, elas brincavam, como na célebre obra de Pieter Brouger, Jogos infantis (Kinderspiele), de1560.

Consideramos que o brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança na formação de sua identidade, autonomia, expressividade e principalmente no cultivo da imaginação.

Concluímos que, em algumas escolas da Educação Infantil, o brincar de faz de conta não é uma prática muito presente; as brincadeiras mais realizadas são aquelas em que o professor está no papel de coordenador; existe a concepção de que, mesmo em turmas de Educação Infantil, a escola é lugar de aprender e não de brincar. Aí há uma antecipação de conteúdos, o que afeta profundamente os direitos da criança.

Consideramos que o movimento é de grande importância para o desenvolvimento da criança, sendo sua primeira forma de se expressar. Portanto, é importante inserir no currículo e nas práticas cotidianas a Psicomotricidade, visando ao desenvolvimento das crianças pelo movimento como forma de linguagem e através da qual o sujeito se constitui como pessoa.

Também foi possível perceber que o brincar está relacionado às práticas culturais, a criança é capaz de reconstruir uma brincadeira antiga para a cultura de sua época. Por fim, as brincadeiras contribuem para o desenvolvimento da criança nos aspectos físico, social e cultural; nesse sentido, o papel da Educação Infantil é considerar o brincar no cerne de sua função pedagógica.

Referências

BRASIL. Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil – RCNEI. Brasília: MEC/SEF/DPE/Coedi, 1998. v. 1, 2 e 3.

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.

BRASIL. Resolução CNE/CP nº 2, de 22 de dezembro de 2017. Institui e orienta a implantação da Base Nacional Comum Curricular, a ser respeitada obrigatoriamente ao longo das etapas e respectivas modalidades no âmbito da Educação Básica. Brasília: MEC/SEB, 2017.

CERISARA, A. B. De como o Papai do Céu, o Coelhinho da Páscoa, os anjos e o Papai Noel foram viver juntos no Céu. In: KISHIMOTO. O brincar e suas teorias. São Paulo: Cengage Learning, 2013. p. 123-138.

DANTAS, H. Brincar e trabalhar. In: KISHIMOTO. O brincar e suas teorias. São Paulo: Cengage Learning, 2013. p. 111-121.

FERREIRA, A. B. de H. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

HEYWOOD, C. Uma história da infância: da Idade Média à Época Contemporânea no Ocidente. Porto Alegre: Artmed, 2004.

MACHADO, R. M.; NUNES M. V. 100 jogos psicomotores: uma prática relacional na escola. Rio de Janeiro: Wak, 2011.

QUEIROZ, N. L. N. de; MACIEL, D. A.; BRANCO, A. U. Brincadeira e desenvolvimento infantil: um olhar sociocultural construtivista. Paideia, Ribeirão Preto, v. 16, n. 36, p.169-179, ago. 2006.

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