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Clube de Compras Dallas: um filme para discussão de múltiplos temas

Cássio Gomes Rosse

Mestre em Ensino de Biociências e Saúde (Fiocruz), professor de Biologia da rede estadual do Rio de Janeiro, tutor presencial do consórcio Cederj

Introdução

Apesar da crescente produção de obras cinematográficas, o cinema ainda é um recurso subutilizado em prol de ensino. Isso se deve à resistência imposta por alunos e profissionais da educação, que não acreditam que filmes podem ser utilizados como obras pedagógicas estruturadas a colaborar com o processo de ensino e aprendizagem.

Na literatura referente ao uso de cinema, há diversos apontamentos e experiências relatando os benefícios da utilização desse recurso. O cinema é capaz de reconstruir a vida social, já que expressa e deixa registrados práticas sociais, modos de pensar, valores, símbolos, sentimentos, comportamentos, expectativas, frustrações e tremores, entre outras possibilidades (Carvalho, 1998). Além disso, por explorar variadas formas de linguagem (verbal, sonora, visual), trata-se de um recurso que sensibiliza múltiplos sentidos e, dessa forma, pode funcionar como um importante veículo de difusão de informações no espaço escolar.

No que diz respeito ao uso do cinema para o ensino de Biologia, existem algumas iniciativas com resultados promissores. Em uma pesquisa que avaliou a utilização de filmes como estratégia didática entre docentes, os autores observaram que apenas uma minoria fazia uso regular desse recurso. Em parceria com docentes, eles produziram uma lista com 83 filmes e indicaram os conceitos de Biologia que podem ser contextualizados ou explorados a partir deles (Barros; Girasole; Zanella, 2013).

Outros autores exploraram a utilização de recursos audiovisuais como metodologia de ensino de Genética. Eles utilizaram cenas de séries como CSI Miami, CSI New York e Dr. House como forma de contextualizar técnicas de Genética, Biologia Molecular e Biotecnologia. Tais séries são muito populares entre os jovens e, quando utilizadas em prol do ensino, podem tornar os conteúdos curriculares mais atrativos (Guedes; Moreira, 2016). Outros pesquisadores construíram um guia do educador, no qual cenas do filme X-Men primeira classe são utilizadas como recurso didático para mediação de conceitos de Genética e temas afins (Nascimento et al., 2016). Existem também propostas que utilizam filmes de ficção científica como forma de incorporar elementos na estrutura conceitual dos educandos, partindo do princípio de que esse gênero pode ser fundamental no papel de desencadeador e facilitador da aprendizagem (Gomes-Maluf; Souza, 2008).

Neste trabalho, foi avaliado o potencial do filme Clube de Compras Dallas para discussão de temáticas como vírus, doenças sexualmente transmissíveis, sexualidade, preconceito e questões éticas. O filme foi exibido integralmente para alunos do 1º ano do Ensino Médio matriculados na rede pública de ensino do Rio de Janeiro.

O filme Clube de Compras Dallas

O filme norte-americano, dirigido por Jean-Marc Vallé, narra a história de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um texano heterossexual, diagnosticado com AIDS na década de 1980. Nesse período, pouco se sabia sobre a doença e as pessoas portadoras do vírus HIV sofriam constantes preconceitos e discriminações. Por manter relações sexuais sem uso de preservativos e por utilizar drogas injetáveis, Ron Woodroof contrai a doença e logo começa a sofrer seus sintomas mais nefastos.

Inicialmente, o personagem não aceita o diagnóstico realizado pela equipe médica por acreditar que a doença atingia apenas o público homoafetivo. Os médicos também informam que ele teria, aproximadamente, trinta dias de vida, por estar em um quadro clínico mais avançado, condição que afeta muito o lado psicológico do personagem. Por não apresentar melhoras no seu estado de saúde, Ron começa a estudar mais sobre a doença e descobre que estava infectado pelo vírus devido ao estilo de vida praticado.

Desesperado por uma melhora no seu estado de saúde, Ron passa a comprar ilegalmente o AZT, droga que ainda estava em testes iniciais para o tratamento da AIDS. No entanto, o medicamento, combinado ao uso abusivo de álcool e entorpecentes, fez com que a saúde de Woodroof declinasse. Ele parte em busca de tratamentos com drogas alternativas, porém ilegais segundo o controle realizado pela FDA (Food and Drug Administration) na época. Woodroof avalia uma oportunidade para seu tratamento e para ganhar dinheiro: ele passa a trazer as drogas de outros países e cria um clube de compras no qual os associados pagavam uma mensalidade e os medicamentos eram oferecidos de maneira “gratuita”.

O filme se mostra uma excelente oportunidade para discussão de assuntos ligados não só à Biologia, mas a várias disciplinas escolares. No contexto da Biologia, assuntos como o vírus HIV, doenças sexualmente transmissíveis, formas de prevenção, metodologia científica podem ser debatidos a partir do filme. As disciplinas da área de ciências humanas também podem se apropriar de temas como o preconceito à doença e aos homossexuais para suscitar outras discussões. Além disso, Clube de Compras Dallas também apresenta inúmeras cenas que possibilitam interessantes discussões éticas: a realização de testes duplo-cegos, na qual um grupo de pacientes recebia o tratamento com o AZT e outro apenas o placebo; a proibição, por parte da agência, de pessoas doentes utilizarem outras drogas; a possibilidade de a indústria farmacêutica estar mais interessada no aspecto financeiro são algumas possibilidades que potencialmente despertam o interesse dos jovens.

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Desenvolvimento

O filme Clube de Compras Dallas foi exibido em três turmas de 1º ano do Ensino Médio em duas escolas estaduais do Estado do Rio de Janeiro, localizadas no bairro de Campo Grande. A escolha por esse público se deu por ser uma faixa etária em que muitos jovens se iniciam na vida sexual, na maioria das vezes com poucas informações e muitos questionamentos. No total, participaram do estudo 88 discentes.

O trabalho envolveu a utilização de três tempos de aula de Biologia. Como a duração do filme é de aproximadamente duas horas, ele foi exibido integralmente em dois primeiros tempos de aulas consecutivos. No terceiro tempo foi realizado um debate com os estudantes sobre temáticas importantes do filme. Eles também responderam individualmente a um questionário no qual havia questões abertas e questões opinativas e indicaram seu grau de concordância com algumas situações polêmicas apresentadas durante o enredo.

Nas questões abertas, os estudantes avaliaram a utilização de filmes em aula, os trechos que acharam mais interessantes no filme, as formas de preconceito retratadas; foram perguntados sobre as formas de prevenção da AIDS. Nas questões opinativas, os estudantes marcaram seu grau de concordância com algumas questões polêmicas do filme. Essas questões apresentavam uma sentença e eles realizaram uma marcação em uma escala de Likert (concordo fortemente até discordo fortemente).

Resultados

Quando perguntados se aprenderam algo novo com a exibição do filme, aproximadamente 98% dos estudantes responderam afirmativamente. Eles também foram estimulados a discorrer sobre o que haviam aprendido. Essas respostas foram bastante variadas e algumas mais representativas foram destacadas:

Que não devemos tratar as pessoas diferentemente somente por portar doenças e outras coisas. Que devemos lutar por aquilo que achamos correto.

Temos que parar com esses preconceitos com essas pessoas que têm HIV.

Que não podemos acreditar no que o governo acha certo, porque nem sempre estão.

Aprendi que quando se tem uma doença, você deve se cuidar para que ela não se espalhe mais e que não se deve fazer sexo sem camisinha.

Que a pessoa com AIDS pode viver muitos anos, basta ela se esforçar.

Os alunos também foram perguntados se gostariam de ter mais aulas com a utilização de filmes. Aproximadamente 94% deles responderam que gostariam de ter mais aulas com esse recurso. As justificativas mais comuns também foram avaliadas e padrões de respostas foram destacados:

Pois vai ser uma aula mais tranquila e dinâmica, porém espero que seja algo envolvendo a matéria.

Porque é um jeito mais fácil de entender e aprender.

Pois os filmes relatam coisas que podem acontecer com a gente e nos mostra o que não devemos fazer.

Ter aulas em sala é fundamental, mas acaba se tornando chato, pelo motivo das aulas parecerem as mesmas em si, já os filmes quebram esse tabu.

A terceira questão do questionário perguntou aos estudantes o que eles acharam mais interessante no filme. Assim como nas questões anteriores, as respostas dos estudantes foram diversificadas; apesar disso, elas possuíam núcleos comuns. Em geral, o que os jovens acharam mais interessante foi a superação da expectativa de vida e evolução do personagem na superação dos seus preconceitos. Outras respostas destacaram que o mais interessante do filme foi retratar o preconceito existente na época; ainda outras valorizaram o aprendizado que o filme proporciona para o entendimento sobre a AIDS.

A força de vontade do personagem em lutar pelos medicamentos que salvariam a vida de muitas pessoas e sua persistência em viver.

Na hora que ele agarra o amigo dele e manda apertar a mão do amigo homossexual.

O jeito que retrataram o preconceito com as pessoas que têm HIV.

As duas últimas questões discursivas tinham por objetivo verificar se os estudantes conseguiam perceber as principais formas de preconceito retratadas no filme e a maneira como o protagonista poderia ter evitado a contaminação pelo vírus. Essas questões foram importantes, pois traçam um paralelo entre o que é apresentado em uma obra e a própria realidade vivenciada pelos estudantes.

Na penúltima pergunta, a grande maioria dos estudantes percebeu que uma das formas de preconceito retratadas no filme é a homofobia, uma vez que se acreditava que o vírus era transmitido apenas entre homossexuais. Alguns poucos estudantes também citaram o machismo e o racismo, retratados em algumas cenas.

O preconceito de apenas gays terem AIDS. Ron se sente ofendido quando recebe a notícia, pois para ele apenas gays poderiam ter a doença.

Do médico perguntar para o paciente se ele teve relação sexual com homens. Do amigo do Ron não querer apertar a mão do seu amigo homossexual.

A última questão foi elaborada com a intenção de identificar se os alunos do 1º ano do Ensino Médio conhecem as formas de se prevenir contra a AIDS. A maioria deles percebeu que isso pode ser feito por meio da utilização de preservativos. Poucos alunos citaram que a AIDS também pode ser transmitida pelo compartilhamento de seringas, principalmente entre usuários de drogas injetáveis (que era o caso de Ron Woodroof). Talvez pelo fato de o filme fazer forte associação da contaminação do personagem por manter relações sexuais sem uso de preservativos, os alunos acabaram dando mais ênfase nessa forma de prevenção. Algumas respostas estão exemplificadas a seguir:

Usando preservativo, camisinhas masculinas, camisinhas femininas e não ter confiado em pessoas que não conhece.

Ele poderia usar camisinha antes do sexo.

Usando preservativo e não usando drogas injetáveis.

Analisados conjuntamente, os dados referentes às cinco questões discursivas presentes no questionário permitem traçar algumas considerações sobre o uso do filme Clube de Compras Dallas como atividade didática a ser incorporada em aulas de Biologia. Inicialmente, foi possível perceber que a grande maioria dos jovens relata ter aprendido diversos conteúdos, além de atitudes que devem ou não ser seguidas. Eles também indicaram que gostariam de ter mais aulas com filmes por acreditar que esse tipo de material pode proporcionar aprendizado, ser mais dinâmico e efetivo.

Particularmente sobre o filme utilizado nesta pesquisa, eles acharam especialmente interessantes a superação pessoal do personagem, tanto do seu preconceito com os homossexuais quanto com a doença e a superação da sua expectativa de vida. As perguntas iniciais sugerem que o filme proposto para os alunos de 1º ano foi adequado ao público da pesquisa e é uma atividade que desperta o interesse dos jovens, algo frequentemente relatado pelos pesquisadores e profissionais da educação como primordial ao processo de ensino e aprendizagem.

O questionário preenchido após o filme também continha itens nos quais os estudantes deveriam realizar marcação objetiva de acordo com seu grau de concordância com algumas cenas/situações polêmicas presentes no decorrer da trama. Os contextos estão relacionado no quadro abaixo.

Contextos polêmicos do filme
1 Inicialmente, por não conseguir o tratamento com AZT, Ron Woodroof passa a comprá-lo ilegalmente por meio de esquemas de suborno.
2 Para testar a eficácia do AZT, pacientes são submetidos a teste duplo cego. Ou seja, um grupo recebe o tratamento com medicamento e o outro grupo recebe o placebo (preparação neutra, sem efeitos farmacológicos).
3 Ron Woodroof agride fisicamente seu antigo amigo, obrigando-o a apertar as mãos de seu amigo homossexual.
4 A FDA não permite a utilização de outras drogas, além do AZT, para possível tratamento da AIDS.
5 Ron Woodroof passa a contrabandear drogas não permitidas pela FDA.
6 Ron Woodroof cobra uma mensalidade para pessoas portadoras do vírus se associarem ao seu clube de compras.
7 A médica Eva Saks reduz as doses de seus pacientes a quantidades mínimas de AZT, após perceber seus efeitos danosos.
8 Ron Woodroof é absolvido dos seus crimes.

A análise dos dados das situações descritas no filme foram efetivamente polêmicas na avaliação dos estudantes, uma vez que a distribuição nas marcações realizadas variou bastante em termos de concordância (ver gráfico abaixo). A maioria dos estudantes indicou concordância apenas com as situações 3 e 7 (concordo fortemente e concordo). Essas situações dizem respeito à personalidade dos personagens que tomaram atitudes inesperadas em contextos específicos (não era esperado que Ron obrigasse seu amigo a apertar a mão de Rayon. Também não era esperado que a médica reduzisse as doses do AZT). A situação que teve maior grau de marcações discordantes (discordo fortemente e discordo) entre os estudantes foi a 6. Eles acharam injusta a cobrança de mensalidade para se associar ao clube, visto que algumas pessoas não tinham condições financeiras de se associar.

A avaliação dos alunos das situações polêmicas do filme também foi um importante recurso para promover maior reflexão pessoal, além de garantir que os estudantes ficassem atentos a essas situações durante a exibição. Essas questões também foram debatidas na discussão realizada após o filme, na qual os estudantes tiveram oportunidade de se posicionar e discutir suas opiniões. A utilização desse recurso se mostrou interessante, pois promoveu ricas discussões em sala de aula, elemento fundamental para o aprendizado de Biologia.

Cabe destacar que as discussões não se restringem a esta disciplina, uma vez que o filme proporcionou discussões éticas e morais que poderiam ser facilmente abordadas em outras disciplinas como Filosofia e Sociologia.

Considerações finais

O filme Clube de Compras Dallas se mostrou um importante recurso para o ensino de Biologia. Por meio dele é possível discutir temáticas como vírus, doenças sexualmente transmissíveis e metodologia científica, além de permitir levantar temas polêmicos presentes no enredo. O filme também possibilita fomentar discussões de cunho ético e moral, questões fundamentais para a formação de um cidadão. A avaliação realizada pelos alunos nesta pesquisa permite concluir que o filme pode ser exibido para jovens, uma vez que eles indicaram que aprenderam assuntos novos com a exibição e gostariam de ter mais aulas com uso desse recurso.

É crescente o uso de novas tecnologias para o ensino. Por mais que muitas escolas ainda careçam de aspectos estruturais básicos, um considerável número delas possui recursos audiovisuais. O professor pode fazer uso desse espaço, uma vez que existe um acervo grande de filmes interessantes que podem proporcionar novas aprendizagens, além de interessantes debates em sala de aula: é o caso de Clube de Compras Dallas.

Referências

BARROS, M. D. M.; GIRASOLE, M.; ZANELLA, P. G. O uso do cinema como estratégia pedagógica para o ensino de Ciências e de Biologia: o que pensam alguns professores da região metropolitana de Belo Horizonte. Práxis, v. 10, 2013.

CARVALHO, E. J. G. Cinema , História e Educação. Teoria e Prática da Educação, v. 3, nº 5, p. 121-131, 1998.

GOMES-MALUF, M. C.; SOUZA, A. R. A ficção científica e o ensino de Ciências: o imaginário como formador doreal e do racional. Ciências & Educação, v. 14, nº 2, p. 271-282, 2008.

GUEDES, K. C. da S.; MOREIRA, S. T. Genetikando: usando seriados de TV e simulações de laboratório para ensinar Genética. Genética na Escola, v. 11, nº 1, 2016.

NASCIMENTO, J. M. L. et al. Guia do educador para o filme X-Men Primeira Classe. Genética na Escola, v. 11, nº 1, 2016.

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