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Construindo abayomi e fortalecendo a identidade cultural

Fernando Antonio Abath Luna Cardoso Cananéa

Doutor em Educação (UFPB), professor de Planejamento Estratégico, Planejamento Educacional, Metodologia do Trabalho Científico e Gestão Educacional

Ailza de Freitas Oliveira

Doutoranda em Educação (UFPB), professora de Artes Cênicas (PMJP)

Processos legais que respaldam o fortalecimento da identidade cultural

No calendário escolar estão muitas festividades, datas alusivas a comemorações que perpassam a cultura nacional, estadual e local; obrigatórias de serem celebradas numa inserção de cunho pedagógico e educativo, ao mesmo tempo, mas que geralmente representam momentos festivos e desejados por todos os estudantes.

Celebrar o dia e/ou semana da consciência negra nas e com as escolas do país tem se tornado uma prática constante na atualidade, após algumas conquistas recentes, como a lei que trata da obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena e da adoção de livros didáticos e material de apoio que contam a real história de nosso invadido país, onde os índios foram desrespeitados, assim como os negros foram maltratados e explorados.

A Lei nº 9.394, que estabeleceu as diretrizes e bases da educação brasileira, traçou algumas obrigatoriedades dos conteúdos programáticos ministrados nas escolas país afora. Algumas metas foram estabelecidas e prazos estipulados para que se efetivassem etapas importantes da qualificação do ensino.

Posteriormente, com o país governado por uma gestão democrática que garantiu conquistas aos menos favorecidos, a população negra vibrou com o respeito recebido por intermédio da implantação da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, alterando a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996”.

Dessa forma, em seu Art. 1o, a Lei no 9.394 passou a vigorar acrescida dos Arts. 26-A, 79-A e 79-B:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Também complementa a lei em seu Art. 79-B, determinando que “o calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’”. Estabelecida no calendário escolar e tornada obrigatoriedade de ensino, a temática da consciência negra vem à tona e levanta questionamentos variados sobre nossas raízes culturais e históricas.

Mais tarde, a Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, aponta o reforço ao estudo da história da cultura afro-brasileira e a inclusão da história da cultura indígena. Em seu Art. 1o,faz oArt. 26-A da Lei no 9.394passar a vigorar com a seguinte redação:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

§ 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.

Respaldados legalmente, começamos a reflexão de como a temática poderia ser tratada na modalidade de Educação de Jovens e Adultos – EJA e convidamos o leitor para conhecer nosso relato de experiência com sequência didática.

Identidade cultural e seu fortalecimento

Para situarmos o leitor no ponto em que falamos e produzimos, vamos grifar o conceito de identidade cultural que nos constitui e representa nosso fazer pedagógico e cultural. “Identidade é a fonte de significado e experiência de um povo” (Cananéa, 2016, p. 212). Dessa forma, para fortalecer nossa identidade cultural, precisamos conhecê-la, e só de posse desse saber fortalecê-la.

Como fortalecer a identidade cultural sem ter conhecimento dela? Como se identificar e orgulhar por ser negro quando o que impera é a humilhação sofrida pela cor da pele? Como nos orgulharmos do que temos da cultura afrodescendente se não sabemos as origens? Sobre isso, Vicente (2015, p. 158) afirma que

negro é identidade, e identidade é aceitação. No Brasil, a pessoa é tachada de negra pela tonalidade de sua pele. Mas ser negro é descendência, é herança. Como forma de amenizar esse rótulo, o IBGE abre a possibilidade de cada um se intitular negro. Sou negro porque eu quero ser.

Quanto da herança afrodescendente temos em nossa cultura? Brincadeiras, hábitos, vocabulários, alimentos, religiosidades, músicas, enfim, são muitas as áreas em que o povo brasileiro se constitui a partir das origens miscigenadas que nos formam, sobretudo, das bases afrodescendentes.


Fonte: Registros dos autores na culminância da ação pedagógica.

Concordamos em“resgatar de forma heroica o que foi destruído de forma covarde. Pensar na contribuição da luta desses grupos étnicos dentro da história da humanidade é entender o que é resistência” (Vicente, 2015, p. 153).Assim pautamos nosso fazer pedagógico. O ponto de partida para a prática foi a reflexão sobre o que de negro somos e temos para que possamos valorizar e fortalecer nossa identidade cultural.

Motivações com a temática: planejamento interdisciplinar virtual

O uso das novas tecnologias se faz necessário e prático no cotidiano de planejamento dos professores. A utilização da rede social de mensagens rápidas de texto e áudio agilizou o planejamento interdisciplinar, tornando-o virtual.

Assim, o aparelho celular participou ativamente das etapas de planejamento pedagógico, e a internet veiculou a possibilidade de acessar conceitos, trocar ideias, fortalecer consensos e realizar os registros das ações desenvolvidas.

Na Semana da Consciência Negra, com ênfase no dia 20 de novembro, as escolas geralmente se mobilizam na realização de atividades festivas que celebrem a data. Pensando nisso, um trio de educadoras que ministram as disciplinas Artes Cênicas, Educação Física e História na rede pública da cidade de João Pessoa/PB, no Ensino Fundamental II e na EJA planejaram coletivamente ações que abrangessem a temática com embasamento teórico e experimentação prática.

Nossa sequência didática diretamente realizada na escola teve início no final do mês de outubro e como data de culminância 24 de novembro de 2016. No primeiro momento, com aproximadamente oito horas-aula em cada disciplina participante, totalizando24horas-aula de embasamento teórico interdisciplinar, somadas às 4horas-aula da execução do cronograma na culminância, as atividades desenvolvidas nas duas modalidades de ensino buscaram promover a integração das práticas e teorias no momento de encerramento.

Da ideia à ação: processo de construção

Num segundo momento, como motivação teórica para a temática, tivemos oficinas vivenciadas no Projeto Compartilhando Saberes, da ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais, em que aprendemos participando das oficinas intituladas: “Como trabalhar com a temática do racismo em sala de aula”, ministrada pelo historiador Lissandro Saraiva, e “África lúdica: construção de abayomi”, ministrada pela pedagoga Gláucia Dantas. Tais oficinas aconteceram nos meses de abril e junho de 2016, respectivamente.

Por ser EJA, são adultos. Por serem adultos não podem ser lúdicos? Podem sim. No terceiro momento, nosso fazer pedagógico pontuou a ludicidade da confecção da abayomi, com o explicito carinho do instinto materno, tão amplamente conhecido na comunidade da EJA, constituída em sua maioria por mulheres, mães, avós.

Nossa sequência didática partiu do desejo de executar alguma ação diferenciada junto aos estudantes para um planejamento que teve como marco inicial do quarto momento a tempestade de ideias sobre a temática, seguida da seleção das propostas viáveis de execução, que corresponde ao quinto momento.

Listadas as ideias passíveis de aplicabilidade, partimos para o sexto momento,a divisão dos temas entre as educadoras envolvidas, de acordo com as suas áreas de atuação. Como sétimo momento, realizamos as pesquisas individuais sobre cada possibilidade pontuada. Após as pesquisas executadas, fomos compartilhando na rede social umas com as outras o descarte de alguns dos tópicos e o fortalecimento do desejo na execução de outros, o que representou o oitavo momento de nossa sequência didática.

Assim, partimos para o nono momento, a elaboração de um cronograma de execução que teve como marco a construção da abayomi, boneca negra artesanal, feita com nós em retalhos de tecidos por mães negras que presenteavam suas crianças, viajantes em navios negreiros, na época da escravidão;elas rasgavam pedaços de suas saias para, com carinho maternal, confeccionar o brinquedo.

Para acalentar seus filhos durante as terríveis viagens a bordo dos tumbeiros – navio de pequeno porte que realizava o transporte de escravos entre África e Brasil –, as mães africanas rasgavam retalhos de suas saias e a partir deles criavam pequenas bonecas, feitas de tranças ou nós, que serviam como amuleto de proteção. As bonecas, símbolo de resistência, ficaram conhecidas como abayomi, termo que significa ‘Encontro precioso’, em ioruba, uma das maiores etnias do continente africano, cuja população habita parte da Nigéria, Benin, Togo e Costa do Marfim (Vieira, 2016, p. 2).

A história da abayomi por si só, já fornece material para muitas discussões reflexivas em sala de aula. Confeccioná-la, mediante explanação teórica crítica sobre a prática, fortaleceu nossa identidade cultural com riqueza ampla de herança negra.

Explicando a ação executada coletivamente

Na data proposta para a realização da ação, a equipe tríade de planejamento seguiu as seguintes etapas de execução, conforme cronograma a seguir, que representa o décimo momento executado:

– Abertura com a gestão escolar

– Fala da historiadora Ana Bezerra

– Coreografia de música sobre identidade cultural – estudantes do 8º ano

– Demonstração de capoeira com estudantes do 7º ano

– Exposição ilustrativa sobre Cultura Africana do E.F. II

– Jogo africano ioruba-picula com a educadora física Joana de Angeles;

– Contação de história sobre a abayomi com a arte-educadora Ailza Freitas

– Confecção de abayomi com Ailza Freitas

– Momento musical de vozes e violão sobre identidade cultural

Iniciamos nossa culminância com a fala da gestora geral, que é historiadora e situou o tema com a sensibilidade ideal para o debate florescer. Em seguida, a professora de História que participou do planejamento das etapas da ação relembrou aspectos anteriormente abordados em sala de aula, complementando e fortalecendo as colocações iniciais.


Fonte: Registros dos autores.

Em seguida, convidamos uma estudante para fazer a leitura do termo “negro” no dicionário, o que vivenciamos na oficina que cursamos na Maré e, como na oficina, tal leitura levantou surpresas e debates variados, diante do preconceito explicito de forma registrada por escrito; num livro onde buscamos conceitos, percebemos que inclusive nele o negro é apontado como inferior, ruim, obscuro, perverso, entre outros adjetivos negativos.


Fonte: Registros dos autores.

Após o debate sobre a leitura no dicionário e a distribuição dos folders, realizamos a apresentação coreográfica com estudantes do 8º ano com base na canção Nossa cor, interpretada por Léo Santana, seguida de roda de capoeira de angola, com estudantes do 7º ano.


Fonte: Registros dos autores.

A exposição ilustrativa confeccionada por estudantes do Ensino Fundamental II compôs o painel de fundo das atividades e mostrou em desenhos individuais a compreensão da temática sobre a cultura africana.

O jogo africano ioruba-picula, atualmente conhecido como toca, também foi executado com a orientação da educadora física, segunda professora a participar do planejamento interdisciplinar virtual. Logo após realizamos a contação de histórias sobre a abayomi, utilizando como empréstimo o livro confeccionado para a oficina da Maré, o que tornou o momento mais lúdico.


Fonte: Registros dos autores.

Para finalizar nossa ação, confeccionamos individualmente as abayomis e nos rendemos aos encantos mágicos do passo a passo ao ver em nossas mãos o tecer constitutivo de bonecas repletas de cultura de raiz, nossa negritude se moldando ao mesmo tempo que nossa identidade se fortalecia.


Fonte: Registros dos autores.

Ao som de músicas que retratam o fortalecimento identitário como negros, finalizamos nossa ação e convidamos os envolvidos a presentear seus entes queridos com as bonecas confeccionadas, explicando a história ouvida e divulgando características da cultura afrodescendente para valorizá-la.


Fonte: Registros dos autores.

Reflexões sobre as ações desenvolvidas

Abayomi é sem dúvida um símbolo de identidade, recheadode tradição, pautado no criativo poder feminino, sinônimo de obstinação. Percebemos que o negro em sua força e garra, diferentemente do que se apregoa, é antônimo de inferioridade e sinônimo de resistência.

Sendo a abayomi um presente precioso, assim como é a educação, objetivamos por meio deste registro reflexivo acerca da prática educacional partilhar nosso fazer pedagógico com os leitores, que se tornam agora nosso presente precioso.

Referências

BRASIL. Maré Produções Artísticas e Educacionais. Projeto Compartilhando Saberes. Disponível emhttp://mareproducoes.blogspot.com.br/. Acesso em 6 dez. 2016.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm. Acesso em 06 dez. 2016.

BRASIL.Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003.Estabelece a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm. Acesso em 6 dez. 2016.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº11.645, de 10 de março de 2008. Estabelece a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11645.htm#art1. Acesso em 6 dez. 2016.

CANANÉA, Fernando A. Abath L. C. Educação popular e identidade cultural. João Pessoa: Imprell, 2016.

VICENTE, Lisianne M. Saraiva. História e Cultura Afro-Brasileira na Escola: obrigatoriedade, resistência e fragilidades. In: CANANÉA. Fernando A. Abath L. C. (Org.). Percursos educacionais ação-reflexão-ação. João Pessoa: Imprell, 2015.

VIEIRA, Kauê. Bonecas abayomi: símbolo de resistência, tradição e poder feminino. Afreaka. Disponível em http://www.afreaka.com.br/notas/bonecas-abayomi-simbolo-de-resistencia-tradicao-e-poder-feminino/. Acesso em 6 dez. 2016.

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