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Crianças e diversidade em uma escola de Ensino Fundamental

 Anelise Monteiro do Nascimento

Doutora em Educação, Professora Adjunta da UFRRJ

Leonardo da Silva Pereira

Especialista em Educação Infantil, professor da Educação Básica nas redes municipais de Mesquita e Queimados/RJ

No século XXI, pensar a educação é um desafio tanto para pesquisadores como para os professores da Educação Básica. Este texto é fruto de uma pesquisa desenvolvida por um professor da rede pública e sua orientadora, ambos vinculados a uma universidade federal brasileira; apresenta a aproximação entre universidade e os desafios da docência. O tema surge a partir da constatação de que atualmente vemos inúmeras formas de diferenciação, provocadas por discriminações e preconceitos, entre eles os preconceitos culturais, políticos e sociais. O ser humano apresenta comportamentos variados e a escola pode ser um espaço para a aprendizagem do convívio com a diversidade, que marca a vida em sociedade. A falta de atenção a essa temática contribui para que no cotidiano escolar as crianças reproduzam preconceitos e criem estigmas que interferem no relacionamento interpessoal e convívio social.

A escola sempre teve dificuldade em lidar com a pluralidade e a diferença. Tende a silenciá-las e neutralizá-las. Sente-se mais confortável com a homogeneização e a padronização. No entanto, abrir espaços para a diversidade, a diferença e para o cruzamento de culturas constitui o grande desafio ao qual está chamada a enfrentar (Moreira; Candau, 2003, p. 161).

Na escola, podemos afirmar a igualdade reconhecendo as diferenças existentes nas suas relações. Essa é a questão central que cerca este artigo: como acontecem questões de igualdade e diferença na experiência escolar das crianças? Ao tratar de igualdade e diferença, queremos saber especialmente o que as crianças falam sobre questões de gênero, opções religiosas, diversidade raciais, pluralidade cultural e deficiências. Nossa opção tem como referência o campo da Sociologia da Infância. Como definir esse campo? No Dictionnaire encyclopédique de l’éducation et de la formation, Sirota (2005) define que a Sociologia da Infância nasce a partir da constatação de carência de um ator exposta por certo número de sociólogos no fim dos anos 1980. Respondendo ao porquê de uma Sociologia específica da infância, a autora descreve que a Sociologia da Infância deriva de um movimento geral da Sociologia marcado por um retorno ao ator e por um movimento específico da Sociologia da Educação voltado para a análise dos processos de socialização. Nesse contexto surge, como novo objeto de pesquisa sociológica, a infância. A autora também destaca o interesse político que se volta não somente para o aluno, mas também para as crianças dentro do sistema educativo. Assim, a criança passa a ser considerada como uma pessoa. Em suma, a emergência da Sociologia da Infância se situa em um duplo movimento, em que o objeto social muda pela evolução das mentalidades e das políticas públicas e provoca uma mudança paradigmática que cria um novo objeto de interesse científico em torno do qual se organizam encontros, colóquios, grupos de pesquisa, publicações e criações de revistas a partir dos anos 1980. O primeiro pressuposto da Sociologia da Infância é considerar a criança como um ator em si mesmo, digno de ser um objeto de interesse da Sociologia.

Inicialmente, a Sociologia da Infância buscava compreender as condições da escolarização – articulando, por exemplo, sociabilidade juvenil e socialização escolar – e reexaminar a relação escola-família. Colocar a criança no centro da análise conduziu a um redirecionamento do ponto de vista. Isso significou considerar as crianças não somente como seres do futuro, em devir, mas também como seres atuais, que interagem com as pessoas e as instituições, que criam um espaço dentro do mundo que as rodeia, que reagem frente aos adultos, negociam e redefinem a realidade social. As crianças passaram a ocupar uma dupla posição: são, por vezes, o “efeito” das estruturas e, outras vezes, produtores de “estrutura” (Sirota, 2005).

Uma vez definida a perspectiva de análise, optamos pela organização de oficinas como estratégia de encontro com as crianças, para conhecermos e problematizarmos a visão delas sobre os temas que apontam para a diversidade. Acreditamos que o conhecimento da perspectiva das crianças pode contribuir para a melhoria e a valorização das relações entre pares no cotidiano das instituições. As oficinas foram realizadas com crianças de nove e dez anos do quarto ano de uma escola municipal da rede de Educação de Mesquita, Baixada Fluminense.

Foram utilizados três livros de literatura infantil: Diversidade, de Tatiana Belinky (1999), O patinho feio, de Hans Christian Andersen, e Teresinha e Gabriela, de Ruth Rocha (1976). A opção pelos livros de literatura infantil como elemento para disparar o debate se dá porque acreditamos que a literatura é uma forma de expressão cultural, um caminho que leva as crianças aos mais variados mundos imaginários, trazendo o conhecimento de diversas realidades e fazendo com que elas interajam com seu contexto social e histórico.

O que dizem as crianças na escola

Os registros das oficinas apresentam o que as crianças pensam sobre o tema e sua dificuldade quando são tratadas pelos demais como diferentes. Fazer parte de uma turma se apresenta como um importante exercício para as crianças. No tocante às questões de gênero e sexualidade, as crianças falaram, criticaram e expuseram o que pensam sobre o tema. Segundo Meyer,

o conceito de gênero passa a englobar todas as formas de construção social, cultural e linguística implicadas com os processos que diferenciam mulheres de homens, incluindo aqueles processos que produzem seus corpos, distinguindo-os e separando-os como corpos dotados de sexo, gênero e sexualidade (2008, p. 16).

O conceito de gênero é fruto de construções sociais que caracterizam o masculino e o feminino e suas diferenciações. É uma construção histórica e social e fruto de uma cultura que se relaciona com outras abordagens, como raça, etnia, sexualidade, classes sociais etc.; é uma construção histórica, social que se transformou em norma.
Após a leitura do livro Teresinha e Gabriela, a dinamizadora pergunta para as meninas com quem elas se identificaram na história.

Estefani – A Melissa é igual à Gabriela, ela é menina macho.
Melissa – E você é igual à Teresinha, invejosa e recalcada.
Estefani – Tia, o Bruno é gay.
Maria – O que vale é a personalidade da pessoa.
Bruno – A Gabriela é homem por dentro e tem corpo de mulher… Falo mesmo!
Maria – Tia, a maioria das novelas explicam essas coisas de preconceito, homossexualismo…

As crianças apresentam os estereótipos que encontramos no mundo. Seus discursos não são construções individuais, são fruto de suas experiências e do diálogo com a cultura na qual estão inseridas. As crianças fazem parte de uma realidade que é socialmente construída. O conhecimento que compartilham é uma produção social, política e cultural. Nesse sentido, observar a fala de algumas crianças é uma grande contribuição para entendermos a sociedade de modo mais amplo. Na conversa apresentada, é interessante perceber que Maria faz o contraponto ao que Bruno e Estefani dizem. Ela destaca a personalidade como a característica que deve ser predominante e justifica sua fala apoiando-se na televisão, cuja experiência como cultura é compartilhada por todo o grupo. Há que se destacar também que Maria é uma criança que vive com a avó e a tia, e ambas possuem parceiras do mesmo sexo. As quatro são atuantes na educação de Maria, participando das reuniões de pais, buscando na escola, comparecendo no Dia das Mães e no Dia dos Pais. A dinamizadora intervém:

Dinamizadora – Voltando à fala da Estefani, dizendo que o Bruno é gay…
Estefani – Mas, tia, você acha isso certo, menino ficar de quatro se requebrando e se mostrando mais que as meninas?
Maria – Tia, ele é “veado”, sim!
Bruno – Eu danço mesmo. O corpo não é o meu? A bunda não é minha?
Dinamizadora – A sociedade impõe algumas coisas para a gente, alguns padrões. E rotulam assim algumas pessoas…
Bruno – É igual à Maria, que é gorda e feia, além de ser rolha de poço e chupeta de baleia.
Estefani – Tia, mas o que eu sei é que Deus fez o homem e a mulher. Não pra ficar homem com homem e nem mulher com mulher.
Maria – Isso é verdade.

As crianças reproduzem nos seus discursos os preconceitos socialmente produzidos. Estefani recorre ao mundo místico e religioso para justificar que não acha certo “menino ficar de quatro se requebrando e se mostrando mais que as meninas”. Se, por um lado, ao apelar para o campo do divino ela coloca em cheque a convicção até então apresentada por Maria, minutos depois são os meninos que questionam sua atuação, uma vez que, no recreio, logo após as oficinas, Estefani sobe com os colegas para brincar no quarto andar, onde há uma quadra coberta. Lá iniciam uma roda de funk. Os meninos observam a dança e comentam: “olha lá a Estefani, ela estava falando de Deus, dizendo que era crente, e está dançando”.

Na relação estabelecida entre as crianças, Motta destaca que

o conflito é parte integrante das relações infantis e contribui para a organização social do grupo, para a construção da identidade, para a apropriação dos valores culturais e para a definição e fortalecimento de vínculos de amizade (2007, p. 195).

Nesse sentido, é importante a presença de adultos para acompanhar as crianças, garantindo assim o convívio social e a mediação de seus conflitos, em um ambiente em que todos estejam à vontade para exercer os papéis nos quais se sentem mais confortáveis.

É interessante pensarmos e entendermos os conceitos de gênero e sexualidade no contexto educativo, uma vez que são questões que cercam a formação da identidade das crianças. A escola tende a resumir as manifestações das crianças sobre gênero e sexualidade à expressão “as crianças estão muito erotizadas” e não aprofunda a questão, esvaziando, dessa forma, seu papel político. Nesse sentido, a pesquisa evidenciou que as crianças têm muito o que falar sobre esse tema, mas que há tanto pouco espaço para o debate por parte da instituição quanto pouca escuta por parte dos colegas. É importante considerar as condições sociais em que vivem as crianças e as suas interações para pensar a infância como construção social que se perpetua entre outros elementos através das culturas de pares. Entende-se por pares de uma criança o grupo em que as crianças compartilham o espaço e criam uma relação habitual.

O diálogo que envolve Estefani e Maria está ancorado em uma cultura centrada em definições de comportamentos considerados certos e errados. Na fala das meninas pode-se observar que existe uma definição do que é “normal” e o que é “diferente”… Ser diferente é uma preocupação para as crianças. Percebe-se em suas vozes essa preocupação quando da leitura da história O patinho feio.

Bruno – Ser diferente é um problema. A gente sofre por isso.
Vitória – Das pessoas diferentes ninguém gosta. Elas sofrem preconceito.
Paulo – Mas o que é diferente ou feio pra gente pode ser bonito para outras pessoas. A gente tem que ser justo com nossos amigos.
Mateus – Tia, a gente sempre acaba zoando as pessoas feias, burras; a gente vive colocando apelidos pelo jeito da pessoa ser…

As crianças são críticas com relação às suas falas e percebem o impacto de suas ações no outro, embora constantemente a reorganização do grupo por vezes coloque alguma característica em evidência ou justifique processos de exclusão.

A relação de alteridade entre as crianças é impactada pelo contexto social no qual elas estão inseridas. Identidade e diferença se produzem no emaranhado das relações sociais que envolvem crianças, adultos e instituições sociais como a escola.

Uma das questões em destaque trazidas na fala das crianças relacionava-se à diversidade racial. Hoje, o reconhecimento da diversidade racial no Brasil é fato, mas o combate às desigualdades continua a ser um desafio que estamos longe de superar. A pluralidade cultural é marca da escola e foi uma das categorias de nossas oficinas. Atualmente, a cultura escolar não pode ter como base um único modelo, o hegemônico, mas sim múltiplas formas para garantir uma educação multicultural. De acordo com Candau (2000), a escola deve ser

um espaço de busca, construção, diálogo e confronto, prazer, desafio, conquista de espaço, descoberta de diferentes possibilidades de expressão e linguagens, aventura, organização cidadã, afirmação da dimensão ética e política de todo o processo educativo (2000, p. 15).

Concluindo…

A criança é um sujeito que produz cultura e é produzida por ela. Deve-se considerar seu conhecimento de mundo, sua fala. Quando a escola não valoriza e não reconhece o saber dos estudantes, está contribuindo para que aconteça a exclusão do sujeito, sua identidade e seu direito como cidadão. Segundo Candau (2012), é preciso “reinventar a escola”. A escola deve ser entendida como um espaço da diferença e, assim, superar toda desigualdade, reconhecendo tais diferenças, pois a diferença precisa ser entendida como um enriquecimento do processo, uma possibilidade de novas construções no dia a dia.

As vozes das crianças demonstram que elas são sujeitos que produzem cultura, que criam e compartilham situações para a vida coletiva nos seus modos de ser e agir em tempos-espaços diversificados; nesse sentido, a cultura da infância obriga a rever o absolutismo do pensamento, a intolerância das práticas discriminatórias, a considerar as possibilidades de um trânsito entre competências e sujeitos diversos, mas, nem por isso, hierarquizáveis e desiguais (Gusmão, 1999, p. 52).

Assim, ao trazer temas delicados para o debate entre as crianças, este artigo propõe que os adultos leitores sejam obrigados a “rever o absolutismo de seus pensamentos”. O fato de vermos as crianças discutindo os temas que propomos em momentos para além do espaço das oficinas nos mostrou que nossa proposta teve seu objetivo atendido. As crianças provocaram umas às outras, explicitaram suas opções, buscaram coerência entre ações e discursos e, ousamos acreditar, se fortaleceram como grupo e indivíduos.
Acreditamos, como o líder sul-africano Nelson Mandela, que “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”; ensinemos nossas crianças a amar acima de qualquer diferença que nos distinga e de qualquer igualdade que nos desconsidere.

Referências

CANDAU, V. M. Reinventar a escola. Petrópolis: Vozes, 2012.

CANDAU, V. M. A didática hoje: uma agenda de trabalho. In: CANDAU, V. M. et al. Didática, currículo e saberes escolares. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

GUSMÃO, Neusa M. M. Linguagem, cultura e alteridade: imagens do outro. Cadernos de Pesquisa, n. 107, jul. 1999.

MEYER, Dagmar Estermann. Gênero e educação: teoria e política. In: LOURO, Guacira Lopes; FELIPE, Jane; GOELLNER, Silvana Vilodre (Orgs.). Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

MOTTA, Flávia. “Estou de mal com você!” As crianças e o exercício das práticas de autoridade. Dissertação (Mestrado em Educação). PUC-Rio. Rio de Janeiro, 2007.

SIROTA, Règine. Sociologie de l’enfance. In: Dictionnaire encyclopédique de l’éducation et de la formation. Paris: Natan, 2005.

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