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Interdisciplinaridade: a alma da Ciência da sustentabilidade

Any Bernstein

Professora da Fundação Cecierj

Riva Roitman

Professora da UFRJ

O modelo de crescimento econômico que prevaleceu nos últimos séculos foi pautado pela separação nociva entre sistemas sociais e sistemas naturais. As cadeias produtivas estabelecidas em bases econômicas e tecnológicas estão esgotando os recursos naturais de florestas, mananciais de água, reservas de minerais e de combustíveis fósseis para fornecer bens de consumo para a população concentrada em centros urbanos.

Desse modelo produtivo emergiram problemas ecológicos que afetam a sustentabilidade do planeta e da espécie humana, fazendo com que a sociedade passe a questionar a racionalidade produtiva dominante e seus paradigmas. Esses questionamentos abrem espaço para o enfrentamento de problemas socioambientais sob novas abordagens, orientadas por processos de construção de saberes que levam em conta o conhecimento das leis que regem o mundo natural do ponto de vista científico complementadas por fontes de informações do ambiente social.

Analisando a estrutura científica reinante nas universidades brasileiras, observa-se que a estrutura do pensamento científico é fundada na produção científica de departamentos que contribuem com fragmentos de informações ao conhecimento prévio de cada área e, assim, constrói o conhecimento científico que é ministrado nas disciplinas especializadas.

A área de Ciências da Natureza segue essa fragmentação na construção curricular, apresentando-se ao estudante do Ensino Médio desmembrada em disciplinas (Química, Física e Biologia), com ênfase nos conteúdos, processos e práticas de investigação específicas de cada área.

Formação de profissionais para o ensino integrado de ciências

A excessiva compartimentalização do conhecimento em áreas científicas traz como consequência a formação de profissionais de ensino altamente especializados na própria disciplina, mas sem compromisso de aplicar o seu cabedal de conhecimento na resolução de problemas sociais.

Esses profissionais desenvolvem a pesquisa básica financiada pelo poder público devido à crença de que todo conhecimento gerado pode ser útil no futuro; estudantes de graduação são estimulados a se engajar em projetos de iniciação científica com objetivos puramente acadêmicos, dissociados de realidades locais. Na pós-graduação o problema da fragmentação é reproduzido nos cursos de especialização, mestrado e doutorado, que são verdadeiras "colchas de retalhos", em que o corpo docente apresenta aos estudantes disciplinas recheadas por fragmentos de ciências, desprezando o fato de que o processo de compreensão da natureza depende de um olhar interdisciplinar, mais abrangente, que vai além do campo de estudo.

A compreensão do sistema vivo em seu ambiente e o equacionamento de soluções plausíveis para as atuais questões socioambientais passam pela assessoria de profissionais com formação abrangente, eclética, generalista, que saibam fazer a integração das diversas áreas de conhecimento científico.

A demanda por esse tipo de formação está sendo atendida pelos profissionais que se dedicam a áreas multidisciplinares no campo da Ecologia, que incorpora conhecimentos de Biologia, Físico-Química e Matemática no estudo das relações entre populações de seres vivos e seus habitats, dentro do processo evolutivo natural que se estabelece em ecossistemas equilibrados.

Posteriormente, a Ecologia passou a levar em conta dados provenientes de áreas como a Economia e a Política criando-se (o chamado) o Movimento Ecologista, uma corrente de pensamento e de intervenção ecológica que extravasou os laboratórios, sendo assumida por grande parte da população mundial e levando mesmo à criação de partidos políticos, que advogam políticas verdes.

A Ecologia construiu saberes sobre processos de resiliência de ambientes impactados pelo homem ou por fenômenos naturais levando em conta a memória do ecossistema original equilibrado. No entanto, pela velocidade em que as mudanças ambientais estão ocorrendo, não há tempo para que formas de vida normalmente presentes na cadeia evolutiva se tornem dominantes e passem a participar de uma nova cadeia alimentar que iria estabilizar o equilíbrio ecológico em outro patamar. Durante períodos de desequilíbrio ecológico há mortandade de populações sensíveis às mudanças e outras espécies se propagam livremente por não terem predadores naturais: são as ditas "pragas ecológicas", que não conseguem ser controladas com abordagens convencionais de especialistas nas áreas específicas do conhecimento.

Tendo em conta que o reducionismo científico gerado pela fragmentação do ensino de ciências se mostra insuficiente para dar solução a problemas que atingem a população humana, surgiu um novo campo científico de estudo, "Ciências da Sustentabilidade", que utiliza conhecimentos transdisciplinares com foco nas interações dinâmicas entre natureza e sociedade. É também um novo enfoque para o ensino de ciências, que dá especial atenção para mudanças entre o meio ambiente e meio social, em que uma das partes afeta a outra.

Esse novo campo parte do princípio de que a sustentabilidade está ligada ao conceito de resiliência, em que o objetivo maior é viabilizar condições para que as mudanças ambientais aconteçam com transições suaves; o novo estado evolutivo precisa ser estabelecido evitando colapsos catastróficos do sistema socioambiental.

Tanto a Ecologia quanto a Sustentabilidade são campos de conhecimentos genéricos e transversais que estão nas interfaces das áreas que interligam as Ciências da Terra, Biológica, Agrária, Engenharia, Saúde, Ciências Sociais e Humanas.

Para romper a estrutura reinante de fragmentação e construir novas bases a partir dos princípios de sustentabilidade ecológica e equidade social, é necessário aceitar que os conhecimentos considerados válidos e verdadeiros não estão somente circunscritos ao campo científico e assumir que os saberes oriundos de outros campos, além do científico, possuem a mesma relevância.

A interdisciplinaridade surge como a única resposta acadêmica capaz de alcançar a reintegração do conhecimento requerida para lidar com os novos paradigmas com que a Ciência da Sustentabilidade desafia os pesquisadores.

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