Ir para o conteúdo

Intertextualidade e paródia no mito de Odisseu e Penélope

Isabelle Rodrigues de Mattos Costa

Mestre em Literaturas de Língua Inglesa (UERJ)

O objetivo deste artigo é investigar de que maneira Margaret Atwood apropria-se do mito de Penélope e Odisseu e o reinventa na obra The Penelopiad, questionando a teoria do culto da deusa proposta pelo antropólogo Robert Graves.

Em seu livro sobre o pós-modernismo, Linda Hutcheon (1988) afirma que esse movimento reconstrói conceitos e análises, revisitando obras e realizando novas críticas, podendo se basear em referências sociais e históricas para suas releituras. No Pós-Modernismo, discursos são analisados numa tentativa de revelar pontos de vista nunca antes utilizados. Para tanto, entre outras coisas, pode-se utilizar técnicas como fragmentação e paradoxos, além de contestar sem obrigatoriedade de fornecer respostas às perguntas levantadas.

A mencionada obra de Margaret Atwood pode ser considerada pós-modernista em muitos aspectos: ela descontrói a aura heroica da Odisseia de Homero, obra canônica que, como as outras grandes narrativas épicas da Grécia Antiga, perpetuava as ideias de patriarcalismo e autoridade masculina. Atwood quebra a tradição canônica ao dar voz a Penélope, esposa de Odisseu, trazendo para a luz essa personagem que permanecia marginalizada na obra de Homero, que lhe delegava papel pequeno e passivo em comparação com o de Odisseu. Em The Penelopiad, é Penélope quem narra a história, dando sua perspectiva.

Para Julie Sanders (2006), todo texto imita ou transforma um texto que existia previamente. Assim, cada texto se alimenta de outros e dá origem a novos materiais. Embora um texto possa ser “emancipado” de sua fonte (ou seja, possa ser lido e apreciado por si só), ele não deixa de dialogar com o texto que o originou. Ela acredita que a intertextualidade existe em cada obra e que o leitor é capaz de fazer associações, em vez de apenas apreciar uma obra como se fosse algo único.

Sanders afirma que a apropriação é uma forma de reinterpretar textos já existentes, originando novos significados. A apropriação, então, poderia apresentar uma história já conhecida com um novo objetivo político, induzindo o leitor a reinterpretar tudo que tenha lido antes. Nesse sentido, histórias antigas poderiam ser reescritas sob distintos pontos de vista, trazendo à luz novas perspectivas.

De acordo com essa linha de pensamento, a obra The Penelopiad pode ser considerada uma apropriação do mito de Odisseu e Penélope. Na edição de 2005, Atwood cita o antropólogo Robert Graves como referência: “It is to Graves that I owe the theory of Penelope as a possible female-goddess cult leader (Atwood, 2005, p. 197)”.

Tendo lido Graves, Atwood parece familiarizada com suas teorias a respeito do culto a uma deusa, segundo a qual, nas sociedades primitivas do Neolítico, as mulheres desempenhavam papel dominante nas atividades de plantio e colheita, conectando-se dessa forma ao cultivo da terra e, por extensão, ao processo de dar a vida e alimentar. Devido a esse papel, as mulheres eram consideradas os membros mais importantes da sociedade, e acreditava-se que sua capacidade de gerar vida era algo quase mágico, sendo comumente associada à Natureza. Assim, durante a época em que os homens viviam do cultivo, a figura mítica dominante era a de uma deusa.

Para Joseph Campbell (1990), os mitos carregam significados profundos, servindo como uma espécie de literatura espiritual, refletindo nossas dúvidas e preocupações sobre nós mesmos e a vida ao nosso redor: sobre a ordem do cosmos, as deidades que (supostamente) nos controlavam e sobre nossa condição como seres humanos. Desse modo, parece natural que, durante o Neolítico, aqueles que buscassem compreender as maravilhas do universo considerassem a figura feminina como uma explicação para tudo aquilo que percebiam em suas vidas.

Para Graves, o estudo da mitologia grega deveria levar em consideração os sistemas político-religiosos que existiam na Europa Antiga, nos quais os povos eram governados por uma mulher que servia como rainha e líder espiritual, possuindo tanto poder político quanto religioso. Essa líder (que Graves denomina Ninfa tribal) podia escolher um amante por ano: um homem que poderia liderar ao seu lado como rei, mas que seria sacrificado ao término do ano.

Esse rei sagrado era escolhido pela rainha (geralmente após ganhar uma corrida, luta ou competição de arco e flecha) para reinar com ela até a época de seu sacrifício. Assim, qualquer que fosse a causa, a morte do rei era uma certeza, pois se acreditava que ela traria fertilidade às plantações. Após o sacrifício, outro homem seria escolhido para ser o amante da Ninfa tribal e o ciclo seria reiniciado.

Seu reinado era relacionado às estações, pois o rei era escolhido quando o Sol estava no auge (antes do verão) e sacrificado quando a incidência do sol diminua, durante o inverno. Assim, o Sol tornou-se um símbolo da fertilidade masculina e a Lua passou a ser considerada um símbolo do poder e da fertilidade da mulher – e assim a Grande Deusa também passou a ser referida como Deusa Lunar.

Nessas sociedades, os homens eram considerados o sexo fraco – pelo menos politicamente, uma vez que eram as mulheres que detinham o poder politico e religioso. Quando os povos arianos invadiram a Grécia e a Ásia Menor, por volta de 2000 a.C., mesmo sendo patriarcais, pareceram a princípio aceitar a deusa local e alguns até se tornaram reis ao lado da Ninfa tribal. Contudo, frequentemente eles começaram a desafiar o poder da deusa: o rei passou a evitar o sacrifício ritual e a continuar reinando após o ciclo anual. Repetidas invasões enfraqueceram ainda mais a tradição matrilinear, e, além de o rei agora reinar por todo o tempo que vivesse, “não abandonava mais a casa paterna para se casar com uma princesa estrangeira. Ela vinha até ele, assim como Odisseu (Ulisses) persuadira Penélope a fazer” (Graves, 2008, p. 25). Assim, eventualmente a sucessão ao trono tornou-se patrilinear.

O antropólogo Robert Graves compilou seus estudos sobre mitologia em O grande livro dos mitos gregos (1955), oferecendo ao leitor não apenas sua versão dos mitos, mas também explicações antropológicas de mitos clássicos: ele parecia convencido de que alguns eventos mitológicos apresentavam significados alegóricos, que poderiam ter sido implantados propositalmente para representar situações que ocorreram na Antiguidade ou com o propósito de parodiar algum evento antigo: para Graves, um mito poderia ser considerado um correspondente das charges políticas contemporâneas, criticando algo ao torná-lo explícito em diálogos e eventos. Assim, os mitos representariam a história político-religiosa da Grécia Antiga.

No seu livro, além de recontar algumas histórias, Graves também investigou o culto à Grande Deusa que era reverenciada antes dos deuses olimpianos. Nesse culto, como já mencionamos, as mulheres detinham supremacia política. Segundo Graves, os mitos poderiam representar a inversão de poder político conforme o culto à Grande Deusa extinguia-se e era substituído pelo culto aos deuses olimpianos – e o sistema matrilinear dava lugar ao patrilinear –, como se tais mitos explicitamente representassem tal mudança. Para ele, muitos mitos refletiam ainda o advento da posição de rei sagrado por meio do casamento com a Ninfa tribal: “Todos os mitos antigos sobre deuses seduzindo ninfas referem-se, ao que parece, a casamentos entre chefes de tribo helenos e sacerdotisas lunares locais” (1955, p. 24).

De acordo com essa teoria, Graves acredita ser possível identificar algumas alegorias nas histórias de Odisseu e Penélope. Por exemplo: Odisseu conquistou o direito de casar-se com ela após vencer uma corrida, da mesma maneira que os reis sagrados escolhidos pela Ninfa costumavam ser os vencedores de alguma competição. Assim, Odisseu teria se tornado rei sagrado ao casar-se com Penélope (supostamente a Ninfa tribal) e evitado o sacrifício ritual após o período de seu reinado – dessa maneira, todas as suas aventuras e os perigos que enfrentou seriam metáforas para a morte ritualística que ele evitara.

Outros símbolos também poderiam ser identificados no mito de Odisseu: a caverna dos ciclopes pode ser considerada metáfora para a morte (cavernas escuras serviam como portal para o mundo dos mortos) e os treze companheiros de Odisseu representariam os treze meses de seu reinado, em referência ao ciclo anual do rei sagrado. Durante sua aventura, Odisseu teve pelo menos duas amantes: Circe e Calypso. Ambas eram descritas como sobre-humanas (deusas ou feiticeiras) e lhe ofereceram conforto e imortalidade. Mas ele rejeitou tal oferta, abandonando as duas mulheres com o intuito de regressar à sua terra – a rejeição dessas mulheres poderosas, essas deusas, poderia ser interpretada então como rejeição ao culto da Grande Deusa.

Além disso, para Graves, uma maneira comum de sacrificar o rei sagrado era fazer com que um javali o atacasse na coxa, e o fato de que Odisseu possuía uma cicatriz na coxa (pela qual sua antiga ama o reconhecera quando ele retornou a Ítaca) poderia indicar que ele havia sobrevivido ao ritual de sacrifício do rei.

O assassinato dos pretendentes de Penélope também poderia ser interpretado como outro exemplo de evitar o término de seu reinado: Odisseu mata todos os candidatos ao interferir na competição de arco e flecha (que poderia ser uma competição para eleger seu sucessor); “vence” a competição e estende seu reinado, recusando-se a passar sua posição a outro homem.

Graves não só assemelha os aspectos de Odisseu aos de um rei sagrado como também interpreta a posição de Penélope como a de líder do culto da deusa, portanto uma sacerdotisa. Para ele, algumas versões de mitos que acusam Penélope de ser a mãe do deus Pã (cujo pai seria Hermes ou algum dos seus pretendentes de Ítaca) poderiam ser referência a orgias religiosas. Segundo essa linha de pensamento, ela não teria sido fiel a Odisseu, mas o traído e retornado à Mantinea – revoltando-se contra ele por ter sido forçada a mudar-se para Ítaca, o que contrariava o costume matrilinear.

Essa é a interpretação de Graves para a história de Odisseu – mas, se considerarmos que os mitos eram contados e recontados oralmente pelos séculos, portanto, dando origem a múltiplas versões de uma mesma história em locais e períodos diferentes, entendemos que os mitos não possuem um único autor, pois são construídos por diferentes narrativas ao longo dos tempos; assim, existem muitas versões de uma mesma história – que justamente por isso tornam-se novas histórias.

Ao ler The Penelopiad, percebemos que Atwood utiliza a teoria do culto da deusa de Graves, segundo a qual Penélope poderia ser considerada líder do culto; assim, Odisseu tornar-se-ia rei sagrado ao desposá-la (e posteriormente inverteria a ordem a favor do poder patrilinear, como já discutimos), ideia que transparece quando as damas de Penélope (que poderiam então ser consideradas suas seguidoras religiosas) declaram que

Thus possibly our rape and subsequent hanging represent the overthrow of a matrilineal moon-cult by an incoming group of usurping patriarchal father-god-worshipping barbarians. The chief of this group, notably Odysseus, would then claim kingship by marrying the High Priestess of our cult, namely Penelope (Atwood, 2005, p. 165).

Talvez se referindo aos acadêmicos em geral ou ainda diretamente a Robert Graves.

As damas dirigem-se à audiência (tratando-os constantemente por “o senhor” e “pessoas de mentes educadas”) expondo alguns fatos que poderiam ser interpretados de maneira simbólica, como: o número de12 damas no total, correspondendo aos 12 meses do ano; os machados de Ítaca como armas ritualísticas; e a própria condição de Odisseu como rei sagrado:

Both acts, the hanging and the genital-tearing-off, would have ensured the fertility of the crops. But usurping strongman Odysseus refused to die at the end of his rightful term. Greedy for prolonged life and power, he found substitutes. Genitals were indeed torn off, but they were not his – they belonged to the goatherd Melanthius. Hanging did indeed take place, but it was we, the twelve moon-maidens, who did the swinging in his place (Atwood, 2005, p. 167).

O tom é severo, como se o assunto as incomodasse, e parecem tratá-lo como uma piada, sugerindo que as evidências históricas e arqueológicas não eram suficientemente persuasivas. De fato, parecem desapontadas e revoltadas com o fato de que aquelas “mentes educadas” se importassem tanto com o simbolismo e tão pouco com sua condição: pelo fato de serem exploradas, estupradas e assassinadas de maneira pouco chocante, como se nada daquilo importasse já que se tratava de servas: “You don’t have to think of us as real girls, real flesh and blood, real pain, real injustice. […] Consider us pure symbol” (Atwood, 2005, p. 168). É justamente essa crítica à teoria de Graves que conecta as duas obras.

Para Linda Hutcheon (1988, p. 26), a paródia pode ser definida como uma “repetition with critical distance that allows ironic signalling of difference at the very heart of similarity” e, uma vez que Atwood traz a teoria de Graves para questionar seu foco no simbolismo em detrimento da condição servil, percebemos que para Atwood havia assuntos mais importantes para serem discutidos, como as diferenças entre classes.
As alegorias de Graves não parecem ter sido suficientes para convencer Margaret Atwood; do contrário ela poderia ter reescrito essa história de maneira mais fiel à versão de Graves – e sem o tom irônico.

A Penélope de Atwood é descrita como uma dona de casa e rainha, e não líder de cultos religiosos – tal alegoria somente é sugerida como paródia na cena das damas, que servem para criticar a pesquisa de Graves e sua falta de comoção com os problemas de classe que preocupavam Atwood. Ao criticar seu ponto de vista dessa maneira, ela parodia Graves enquanto reconstrói o mito de Odisseu e Penélope da sua própria maneira, apropriando-se dele para servir a seus propósitos e oferecer ao público uma reinterpretação da história sob um novo ponto de vista.

Percebemos, portanto, que, como uma obra pós-moderna, The Penelopiad apropria-se dos personagens de Penélope e Odisseu para desconstruir o mito pelo uso da paródia da teoria do culto da deusa, de Robert Graves. Desse modo, História, religião e feminismo são interligados e contestados pela narrativa de Atwood, construindo a atmosfera crítica pretendida pela autora.

Referências

ATWOOD, Margaret. The Penelopiad. Edinburgh: Canongate, 2005.

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

GRAVES, Robert. O grande livro dos mitos gregos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2008.

HUTCHEON, Linda. A poetics of postmodernism: History, Theory, Fiction. London: Routledge, 1988.

SANDERS, Julie. Adaptation and appropriation. Oxfordshire: Routledge, 2006.

Publicado em