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Leitura e escrita de surdos: dificuldades ainda enfrentadas na escolarização

Andrei Porto Meira

Graduando em Letras – Língua Portuguesa (UFCG)

 Priscila Custódio de Brito Silva

Graduanda em Letras – Língua Portuguesa (UFCG)

Toda graduação, seja ela no campo das exatas, humanas ou biológicas, é dotada de dificuldades ao levar em consideração alunos feras que são recém-concluintes do Ensino Médio, e é necessário amadurecer rapidamente para desenvolver o letramento acadêmico. Porém, enquanto não é atingida essa maturação, eles enfrentam transtornos e até mesmo problemas psicológicos, que, por sua vez, são os principais motivos de desistência no primeiro período.

Desse modo, é cientificamente comprovado que a ausência do letramento acadêmico nos alunos feras os faz desistir; esse índice torna-se maior quando se trata de deficientes auditivos. Em um contexto de início de aulas, eles necessitam se dirigir ao departamento específico de seu curso, encontrar a sala para aula, descobrir onde comer, onde comprar algo; mas como realizar todas essas tarefas se o número de pessoas usuárias de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) é pequeno?

Os indivíduos surdos lidam com esses problemas de comunicação desde a escola básica, pois não são todas as escolas que possuem intérpretes que auxiliem esses deficientes. Por isso, eles são obrigados a desenvolver mímica para tentar se comunicar; entretanto, há problemas sérios de inclusão, levando em consideração que os colegas não os entendem, nem os funcionários e, em certos casos, nem os professores.

Em 2002, a Linguagem Brasileira de Sinais foi reconhecida como a segunda língua oficial no Brasil; entretanto, a maior parte da população desconhece esse fato. Do mesmo modo, o número de usuários de Libras no país é muito pequeno, levando em consideração a quantidade de surdos que existem. O que isso implica?

Este artigo tem por objetivo aproximar os não deficientes da realidade dos estudantes surdos, além de mostrar a negligência do governo e das escolas, ao não oferecer suporte adequado para essa condição, obrigando os surdos a procurar instituições privadas capacitadas para sua escolarização; como um filho de pais pobres irá estudar com esta condição – a deficiência auditiva?

Metodologia

Foi desenvolvida uma entrevista com dois sujeitos surdos: um graduando em Letras-Libras pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), identificado como Entrevistado 1, e uma graduada em Letras-Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dita Entrevistada 2. Essa entrevista enfatiza as dificuldades reais enfrentadas por eles na sua escolarização, desde o Ensino Básico até o Ensino Superior, nos aspectos de comunicação, inclusão, leitura e escrita, além de expor os problemas que trazem a ausência de um intérprete em sala de aula. A pesquisa foi realizada via e-mail, objetivando preservar as respostas exatamente como ditas pelos entrevistados.

A dificuldade de comunicação e compreensão é um dos mais relevantes problemas que afetam a vida social de um surdo. Sabendo disso, em uma matéria desenvolvida por Daniele Pechi e disponível no site da revista Nova Escola, ela afirma existirem no Brasil cerca de 230 intérpretes capacitados em salas de aula. Entretanto, segundo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, o Brasil possui 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva. Como esses surdos – sejam eles crianças, jovens ou adultos – fazem para se escolarizar?

Há no Brasil escolas públicas para surdos em que os professores são capacitados em Libras e, desse modo, dispensam intérpretes em sala de aula. Esse foi o caso da Entrevistada 2; ao questioná-la se contou com intérpretes no seu ensino básico, ela afirmou “Não tive em sala de aula intérpretes da Libras, porque é próprio na escola de surdos (bilíngue) todos os professores terem experiência em uso de Libras para ensinar”. Entretanto, o número de escolas públicas bilíngues preparadas para lidar com esses alunos é muito menor do que das convencionais. Do mesmo modo, quase não existem intérpretes capacitados em salas de aula de escolas regulares públicas.

Os dois entrevistados, quando questionados, afirmaram que sentiram falta de inclusão no seu ensino básico, pois há tendência em acreditar que só deve aprender Libras quem conhece ou necessita se comunicar com algum surdo, o que é equivocado. Todas as pessoas, do mesmo modo que nascem e aprendem a língua portuguesa, sendo ela a língua oficial do Brasil, deveriam também ser preparadas para adquirir os conhecimentos da segunda língua oficial, Libras. Afinal, não é possível saber quando, em algum momento da vida, o indivíduo precisará se comunicar com um surdo, seja na escola, na universidade ou no trabalho. Além disso, a inclusão não deve ser pensada apenas na interação professor-aluno, mas também na relação aluno-aluno, pois a escola é o ambiente em que se aprende a olhar para o outro, contar com o outro e desenvolver laços de amizade e companheirismo, porque, mesmo sabendo que sua principal função é a transmissão de conteúdos e educação, a escola também é responsável por transformar o aluno em um cidadão.

A leitura de um surdo apresenta dificuldades, como afirma a Entrevistada 2:

Sim, [tenho] dificuldade; são os textos, jornais, literários (poemas, humor, narrativos), porque minha língua é a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua (L1) e como a segunda língua (L2), Língua Portuguesa (leitura e escrita como uso de português) eu li muito, mas tem aí significado muito das palavras, é a dificuldade. Eu percebi um texto depender de coerência e coesão pode ser informar ao contexto bem.

Conforme ela alega, eles lidam com problemas de interpretação de texto, levando em consideração que muitas vezes a compreensão está nas entrelinhas. O Entrevistado 1 afirma que sua dificuldade está em “juntar as letras”, visto que, para eles, tendo a língua de sinais como primeira língua, unir as letras e formar uma palavra dotada de significado é uma dificuldade.

Do mesmo modo, a escrita também é um obstáculo, como afirma a Entrevistada 2:

Não consigo a produção de escrita por português, deverão a gramatica de regra à organização textual como escrever. Mas eu utilizei a escrever de português (transcrição de Libras). Apenas sentiu como escrever à organização no textual de português.

Como diz ela, a organização textual e a gramática da língua portuguesa são difíceis, afinal sua língua é outra. Para compreensão dessa dificuldade, podemos comparar com as regras do espanhol; assim como a língua portuguesa, o espanhol possui inúmeras regras de pontuação, como o ponto de interrogação e o de exclamação, que eles utilizam no início e no fim da frase para que, desde o início, ela seja lida com a entonação correta. O espanhol não separa as letras “rr” ou “ll” na separação silábica, pois, para ele, elas são uma só letra. O Entrevistado 1, tomado pela mesma pergunta, responde que “entender as letras”é uma dificuldade para ele, pois lida desde o início de sua vida com os sinais.

Fundamentação teórica

As dificuldades de leitura e escrita se iniciam antes mesmo de sua prática, pois a língua de sinais é visual e espacial e a língua portuguesa é auditiva e oral, o que determina que os canais de recepção e de emissão são diferentes. Essa diferença tem uma consequência: o aprendizado da leitura e da escrita pelos surdos não segue os mesmos caminhos e processos que pela pessoa ouvinte.

Segundo Valentini e Bisol, para aprender, as pessoas surdas constroem um sistema que não mais representa a primeira língua, ou seja, a língua de sinais, mas também não representa a língua alvo, ou seja, o português escrito; por esse motivo, muitas vezes encontramos os textos das pessoas surdas com uma estrutura de difícil compreensão, pois ainda não estão usando a estrutura ou regras do português escrito e lembram um pouco a língua de sinais. Esses estágios são chamados de “interlíngua”.

Encontramos três estágios de interlínguas, segundo Quadros e Schmiedt:

  1. Escrita mais próxima à língua de sinais; apresenta falta ou inadequação de artigos, preposições, conjunções, uso de verbos no infinitivo, raro emprego de verbos de ligação (ser, estar, ficar). É comum em fase inicial de aquisição da escrita.
  2. Apresenta intensa mescla das duas línguas. A estrutura da frase possui ora características da língua de sinais, ora características gramaticais da frase do português. As frases e palavras aparecem justapostas, não resultam em efeito de sentido comunicativo. Há emprego de verbos no infinitivo e flexionados, às vezes, emprego de verbos de ligação com correção. Aparece o emprego de artigos, algumas vezes concordando com os nomes que acompanham.
  3. Mais próximo do português escrito convencional, com emprego maior e mais adequado de artigo, preposição, conjunção, flexão dos nomes, flexão verbal e emprego de verbos de ligação – ser, estar, ficar.

Fulgêncio e Liberato consideram a leitura como resultado da interação entre informações constantes no texto (informações visuais) e informações que o leitor traz para o texto, ou seja, seu conhecimento prévio (informações não visuais). Para essas autoras, é o conhecimento anterior que o leitor tem da língua e do mundo que lhe permite fazer previsões e inferências e, assim, montar o sentido do texto. Em vista disso, esse não conhecimento prévio da língua por parte do leitor (neste caso, a portuguesa) resulta em problemas de compreensão e interpretação, pois cada língua traz suas particularidades, palavras com sentidos não traduzíveis, dentre outras particularidades que só quem, de fato, se apropria da língua consegue entender.

Análise de dados

Diante das informações e contextualizações expostas até aqui, é possível analisar em que implicam na sociedade essas dificuldades enfrentadas pelos surdos nos aspectos de leitura, escrita e interação, a serem tomadas como base, ainda, as respostas dos dois sujeitos participantes surdos da entrevista que são o alicerce deste estudo.

Faz-se necessário o uso da leitura em todos os contextos da sociedade: para pegar ônibus, para encontrar endereços, para se alimentar; enfim, é indispensável essa prática. Entretanto, como afirmou a Entrevistada 2, ela tem dificuldade na identificação das letras; logo, se torna mais difícil o ato da leitura, levando em consideração que a escrita é feita na língua portuguesa em todos os anúncios e placas de identificação, além de livros, jornais impressos, panfletos. Enfim, no Brasil não há a recorrência de pensar na leitura dos surdos, de utilizar a língua de sinais, que facilitaria a compreensão dos usuários. Essa barreira acarreta implicações tanto na vida social como na vida escolar e acadêmica.

Como observamos no decorrer da entrevista, a escrita, do mesmo modo, traz dificuldades, pois o surdo necessita constantemente migrar da sua primeira língua (de sinais) para a língua portuguesa. Esse é, inclusive, um dos maiores problemas que enfrenta um concluinte do Ensino Médio surdo ao tentar uma vaga acadêmica pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), pois ele apresenta dificuldade na utilização de artigos, na flexão de verbos e em tantas outras regras que apresenta o português brasileiro. Entretanto, mesmo diante dessas barreiras, é necessário que os alunos surdos escrevam a redação tal qual um sujeito participante do exame que não é cometido pela deficiência. Embora haja nas universidades a cota de deficientes, é necessário que a redação seja pensada para todos em sua igual dificuldade e complexidade.

Portanto, os resultados da pesquisa realizada com sujeitos que enfrentam essas dificuldades foram os que imaginávamos: negligência do governo ao não preparar uma população fluente na segunda língua oficial do país: Libras; dificuldades inúmeras no que diz respeito à adequação a um idioma que não é primeiro: a língua portuguesa, adequação que inclui a leitura, a escrita e a comunicação. Por fim, a pouca preparação das escolas para lidar com alunos surdos: falta de intérpretes, falta de professores familiarizados com a língua, falta de disciplinas curriculares que ensinem a todos os alunos (surdos ou não surdos) a língua de sinais. Esta proposta, indiscutivelmente, faria uma sociedade bem preparada para lidar com os surdos no comércio, nas escolas, nas empresas. Afinal, eles estão em todos os lugares e é necessário que todos os brasileiros tenham o direito e dever de saber se comunicar com os surdos.

Considerações finais

Ainda são várias as dificuldades apresentadas pela educação em relação ao ensino da leitura e da escrita dos surdos no Brasil. Tendo em vista que o objetivo do trabalho é a dificuldade na leitura e escrita dos surdos durante todo o caminho de ensino e aprendizagem, podemos ter uma resposta nas entrevistas feitas aos dois sujeitos, já que seus relatos retratam a situação recente e atual da aprendizagem dos surdos na educação brasileira.

Pudemos observar que há uma problemática em relação à quantidade de profissionais e instituições capacitados para a prática da educação com o uso da Libras e do englobamento e engajamento dos surdos, principalmente nas dificuldades enfrentadas por eles, tanto na leitura quanto na escrita, pois o profissional e a instituição têm que ter preparo para o ensino, a fim de garantir um bom aprendizado.

Sites consultados

www.novaescola.org.br. Acesso em: 20 fev. 2018.

http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/09/apesar-de-avancos-surdos-ainda-enfrentam-barreiras-de-acessibilidade. Acesso em: 20 fev. 2018.

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/e-a-sociedade-pergunta-surdo-surdo-mudo-ou-deficiente-auditivo/21289. Acesso em: 04 mar. 2018.

https://www2.pbagora.com.br/noticia/paraiba/20121112124314/municipio-vai-criar-sala-bilingue-para-alunos-surdos. Acesso em: 04 mar. 2018.

http://www.grupoelri.com.br/Incluir/downloads/OA_SURDEZ_Escrita_Texto.pdf. Acesso em: 04 mar. 2018.

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