Ir para o conteúdo

Ser humano, cultura e formação social: etnoconhecimento e correlações para formação do sujeito transformador da sociedade

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Glória Cristina Cornélio do Nascimento

Professores, biólogos e doutorandos (Prodema/UFPB)

Caminhos iniciais

Conhecer para aprender e aprender para conhecer são uma condição sine qua non para todo ser humano que deseja mudar suas práticas, desenvolver-se e adquirir novos conhecimentos (Ventura, 2013).

O que somos e o modo como agimos são influenciados por um complexo biológico-cultural, no qual a biologia e a cultura influenciam-se mutuamente e compõem a natureza humana (Albuquerque; Medeiros, 2013, p. 11).

Evoluímos porque aprendemos dentro do contexto social e nas inter-relações entre os atores envolvidos no processo, de forma direta ou indireta (Ventura, 2013). Assim, a humanidade foi alicerçada pelo agrupamento social do ser humano, que gerou sua cultura ao longo do tempo e formou as sociedades existentes na atualidade (Figura 1).


Figura 1: Entrelaçamento do ser humano, da cultura e da sociedade na projeção da formação do sujeito
Fonte: Autores, 2018.

Para mudar o paradigma do processo de formação do sujeito, foi organizada uma comissão pela Unesco com vista à formulação das diretrizes de orientação para o novo milênio, intitulado Relatório Delors (Brasil, 2010). “O Relatório Delors pôs ênfase no respeito à diversidade e aposta na defesa do pluralismo como forma de melhorar o entendimento entre os povos e a construção de um mundo melhor, além de reafirmar as ideias de educação continuada” (Ventura, 2013, p. 37).

A sociedade vem despertando, porém ainda lentamente, para a necessidade de novos rumos para a educação nacional e para a formação de um novo sujeito, transformador de suas próprias práticas (Córdula; Fonseca, 2013).

Cultura e sociedade

Para Albuquerque e Medeiros (2013), a transmissão do conhecimento nas mais diversas sociedades, sejam elas primitivas/ancestrais ou evoluídas/modernas, se dá entre as gerações, dentro das famílias, reproduzindo os comportamentos dos sujeitos. Estes podem se manifestar de forma individual mesmo dentro de um grupo, em que cada um interage de forma única; nesse contexto, o conhecimento é produzido, reproduzido e armazenado – tanto de forma individual como coletiva. Dessa forma ocorre a transmissão cultural, pela imitação do que é observado ou pela oralidade contada pelos que a possuem, ao longo do tempo, no território e pelas gerações. “As sociedades tradicionais albergam um repertório de conhecimento ecológico que geralmente é local, coletivo, diacrônico, sincrético, dinâmico e holístico” (Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 35). Portanto, algumas comunidades encerram ainda em si mesmas uma cultura própria e parecem, quando observadas sem contato íntimo, estar estagnadas no tempo, devido a uma aparente rusticidade peculiar, sendo conhecidas pela ciência e popularmente como artesanais e tradicionais (Diegues, 2000).

As comunidades tradicionais são aquelas que possuem cultura própria, que diferem quanto à linguagem adotada, à forma de interação com a natureza e sua dependência dela para sobreviver, possuem rituais místicos e principalmente conhecimento muito íntimo dos recursos naturais utilizados por eles (Nascimento; Córdula, 2016; Nascimento; Nascimento; Córdula, 2014a). As comunidades locais são as pessoas que possuem essas características e estão inseridas nos centros urbanos, mudaram do território de sua naturalidade e passaram a ocupar outro espaço geográfico ou passaram por um processo de modificação de seu modo de vida, mas ainda detêm saberes, praticas, costumes e crenças originais, em que esses “sistemas cognitivos sobre os recursos naturais circundantes são, além disso, transmitidos de geração a geração” (Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 35). O conhecimento é transmitido de indivíduo a indivíduo; o primeiro adquire e armazena o conhecimento em uma tríplice dimensão temporal (Quadro 1) (Soldati, 2013; Nascimento; Nascimento; Córdula, 2014a) e assim repassa para somar aos conhecimentos do próximo, numa cadência sociocultural geracional (Penso; Costa; Ribeiro, 2008).

Quadro 1: Tríplice vertente da dimensão temporal do conhecimento de um só informante.

Dimensão Descrição
Experiência histórica “Acumulada e transmitida por meio de gerações por uma cultura rural determinada”.
Experiência social “Compartilhada pelos membros de uma mesma geração (ou um mesmo tempo geracional)”.
Experiência individual “Pessoal e particular do próprio produtor e sua família, adquirida pela repetição do ciclo produtivo (anual) paulatinamente enriquecido por variações, eventos imprevistos e surpresas diversas”.

Fonte: Toledo; Barrera-Bassols (2009, p. 35-36).

O conhecimento se perpetua ao longo das gerações quando possui importância para seus membros; ele se dá de forma intrafamiliar, extrafamiliar e transfamiliar (Figura 2). O conhecimento intrafamiliar é aquele que se manifesta e fica retido no interior da família e as demais pessoas da comunidade não possuem acesso a ele; o extrafamiliar extrapola a formação da família para outros sujeitos da comunidade ou forasteiros; o transfamiliar é aquele que perpassa as famílias da comunidade (Penso; Costa; Ribeiro, 2008; Soldati, 2013).


Figura 2: Níveis de repasse do conhecimento na comunidade local/tradicional.
Fonte: Autores, 2018.

O fenômeno resultante é um processo histórico de acumulação e transmissão de conhecimentos não isento de experimentação, que toma a forma de uma espiral em várias escalas espaço-temporais: desde a do próprio produtor, já que durante cada ciclo produtivo sua experiência se vê paulatinamente incrementada sobre a base do aprendido no ciclo imediatamente anterior, até a da comunidade cultural, já que o conhecimento vai se aperfeiçoando (e adaptando), geração após geração, à realidade local de cada presente (Toledo; Barrera-Bassols, 2009, p. 36).

Toda cultura é a gênese do acúmulo espaço-temporal do conhecimento, das práticas e das crenças de uma população. Segundo Johnson (1997, p. 59),

cultura é o conjunto acumulado de símbolos, ideias e produtos materiais associados a um sistema social, seja ele uma sociedade inteira ou uma família. Juntamente com estrutura social, população e ecologia, constitui um dos principais elementos de todos os sistemas sociais e é conceito fundamental na definição da perspectiva sociológica.

Assim, a cultura se processa nas sociedades, representando cada etnia, hábito/costumes, crenças e a infinidade de características próprias e que diferenciam umas das outras (Figura 3). E está intimamente relacionada aos aspectos sociais e ambientais nos quais as sociedades estão imersas (Nascimento; Nascimento; Córdula, 2014b; 2014c).



Figura 3:
Estruturação da cultura em uma sociedade.
Fonte: Autores, 2018.

Na coletividade da humanidade, as diferentes culturas que representam as diversas sociedades humanas formam cada uma, a sociedade estruturada e alicerçada no acúmulo de conhecimentos vivenciados e modificados ao longo do tempo, tendo como base a família e o sujeito (Córdula; Nascimento, 2014; Córdula, 2015) (Figura 4).


Figura 4: Inter-relações partindo do sujeito e expandindo para a constituição da sociedade.
Fonte: Autores, 2018.

Para Johnson (1997, p. 213), sociedade,

especificamente, é um sistema definido por um território geográfico (que pode ou não coincidir com as fronteiras de Nações-Estado), dentro do qual uma população compartilha cultura e estilo de vida comuns, em condições de autonomia, independência e autossuficiência relativas.

Sociedade, comunidades, cultura, famílias e sujeitos estão intrinsicamente conectados e interdependentes no conjunto social humano em que ocupam territórios e realizam modificações, ora no seu próprio modo de vida, ora no ambiente em seu entorno, modificando e alterando-o para suprir suas necessidades (Córdula; Nascimento, 2014).
Essas modificações, pelo desconhecimento da conexão entre as partes, com que atualmente apenas as comunidades tradicionais e locais conseguem interagir e evidenciar, provocam alterações de todos os níveis e intensidades (Córdula, 2012a). O desafio está em retornar à sociedade esses saberes para que se convertam em práticas e passem a constituir e integrar a cultura e, assim, se perpetuem ao longo do tempo.

Desafios à nova sociedade

O desafio da nova sociedade está em conseguir inserir os conhecimentos para que a sociedade possa voltar a respeitar o meio ambiente e utilizar seus recursos de forma sustentável. Assim, sociedade e natureza podem novamente interagir de forma salutar, proporcionando equilíbrio (Córdula, 2012b).

A crise ambiental que hoje ecoa nos cinco continentes é decorrente de décadas de atuação da humanidade consumindo desenfreadamente os recursos naturais, poluindo o solo, os rios, os mares e o ar, provocando desmatamentos para uso do recurso florestal e ocupando as áreas naturais com pastagens, monocultura ou urbanizando para constituição de cidades. A ecologia planetária está deteriorando rapidamente e o consumismo ainda está acelerado; a biodiversidade está sendo perdida e os desequilíbrios vêm aumentando. A falta de consciência sobre toda essa perspectiva da ação antrópica sobre o planeta, mesmo tendo acesso à era digital e à navegação na internet, leva-nos a uma fase de conhecimento e omissão perante toda a magnitude das ações e danos provocados pelas gerações anteriores e pelas atuais (Dias, 1998; Capra, 2004; Córdula, 2011; 2012a; 2012b). Assim, apenas a implantação de uma nova cultura social, por meio do sistema educacional comprometido no refazimento da condição humana neste planeta, poderia reverter esse quadro.

Para tanto, o sistema educacional precisa mudar sua forma de atuação no processo de ensino-aprendizagem; além deste, a ciência demanda esforço para que esses conhecimentos cheguem a todas as comunidades e recantos da sociedade, além de tornarem-se materiais didáticos para que os professores possam lecionar para seus educandos (Córdula, 2011; 2012a; 2013a; 2013b; Córdula; Fonseca, 2013; Córdula; Nascimento, 2012; 2014).

Nesse processo, necessita-se compreender como se dá a formação do sujeito e as influências que interagem sobre ele (Figura 5).


Figura 5: Formação do sujeito sob influência dos setores que integram, na formação de uma base educacional sólida
Fonte: Autores, 2018.

Essa formação ocorre na família, com participação da sociedade, da comunidade e da escola, em que o sujeito educando se insere no centro do processo, que, conduzido de forma humanista, proporcionará um cidadão atuante, transformador e que poderá reverter ao longo das próximas décadas todos os problemas socioambientais provocados pelas gerações anteriores (Córdula; Nascimento, 2012; Córdula, 2012b).

Portanto, entender a cultura, registrar não só os conhecimentos da ciência moderna como também das comunidades tradicionais e locais, que guardam os saberes das relações harmoniosas e dos possíveis segredos da resiliência ambiental, será imprescindível para traçar novos rumos para o futuro da humanidade (Córdula, 2012a).

No tocante ao acesso a esses conhecimentos artesanais e tradicionais, os novos rumos necessitam de uma postura mais centrada da comunidade científica. A Etnobiologia, que estuda a amplitude e a complexidade dos conhecimentos dessas populações sobre a natureza, busca em suas pesquisas estreitar essas relações e disseminar esses conhecimentos. Para que sejam tomadas todas as precauções para preservação dos saberes e acesso a eles, sem que prejudiquem as comunidades, a Etnobiologia toma como referência a Declaração de Belém (SBE, 1988), o Código de Ética da Sociedade Internacional de Etnobiologia (ISE, 2006) e a Resolução n. 510/16 do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas com seres humanos (Brasil, 2016).

Assim, os estudos são conduzidos de forma ética, profissional e considerando acima de tudo o bem-estar da comunidade, a proteção aos saberes, práticas e mitos, divulgando o que é necessário para a sociedade e para a ciência, de forma menos invasiva e sem expor as comunidades estudadas.

Considerações finais

Na busca por proporcionar a sustentabilidade socioambiental para garantir o futuro da humanidade, a sociedade esbarra na sua própria formação, que necessita ser repensada e reestruturada, visando a formação de um novo sujeito humano, que busque atuar perante o planeta não de forma a continuar os processos de degradação impostos pelo modelo socioeconômico, mas que traga a sustentabilidade e a sobrevivência da espécie humana.
Nesse contexto, por muito tempo os conhecimentos tradicionais e locais de populações artesanais e tradicionais foram desprezados, mas guardam em suas práticas, saberes e crenças a vinculação do uso dos recursos naturais, de forma a garantir sua resiliência e assim proporcionar novos comportamentos de respeito perante a relação entre ser humano e natureza.

Nesse sentido, um imenso esforço conjunto necessita ser realizado por toda a humanidade para que a cultura que constitui a base das sociedades incorpore os comportamentos ambientalmente responsáveis, a integração com a natureza e o respeito à vida.

Quando a humanidade atingir esse patamar, o ser humano dará um salto evolutivo e passará a um patamar de tecnologia, de sociedade e de cultura nunca antes vislumbrado pelos que tentam projetar uma sociedade do futuro. E tudo depende unicamente de cada indivíduo ser transformador de si mesmo e contribuir com os que estão à sua volta.

Referências

ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino; MEDEIROS, Patrícia Muniz. Introdução à Etnobiologia de bases ecológicas e evolutivas. In: ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino. Etnobiologia: bases ecológicas e evolutivas. Recife: NUPPEA, 2013, p. 9-14.

BRASIL. Educação: um tesouro a descobrir. Brasília: Unesco, 2010.

______. Resolução n. 510. Ética nas pesquisas com seres humanos. Brasília: CNS, 2016.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2004.

CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena. Educação Ambiental e sustentabilidade global. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 11, n. 49, 2011.

______. Professores e a Educação Ambiental. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 12, n. 16, 2012a.

______. O ser humano e os problemas ambientais. Educação Ambiental em Ação, Novo Hamburgo, ano XI, n. 41, set./nov. 2012b.

______. Educação Ambiental e a educação continuada de professores(as). Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 13, n. 13, 2013a.

______. Pedagogia e didática ambiental na formação do cidadão crítico-reflexivo. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 13, n. 43, 2013b.

______. A etnociência na busca de saberes de um agricultor no assentamento agrícola em Lucena, Paraíba. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 15, n. 30, 2015.

______; NASCIMENTO, Glória Cristina Cornélio. A era do ser ambiental. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 12, n. 21, 2012.

______; FONSECA, Patrícia Nunes. Atitudes pró-ambientais: intervenção através de oficinas pedagógicas. Educação Ambiental em Ação, Novo Hamburgo, ano XI, n. 43, mar./mai. 2013.

______; NASCIMENTO, Glória Cristina Cornélio. Etnoconhecimento e a escola para um futuro sustentável. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 14, n. 7, 2014.
DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. 5. ed. São Paulo: Gaia, 1998.

DIEGUES, Antonio Carlos Santana. O mito moderno da natureza intocada. 3. ed. São Paulo: Hucitec/USP, 2000.

ISE. Código de Ética da ISE (com adições em 2008). International Society of Ethnobiology, 2006. Disponível em: http://www.ethnobiology.net/ethics.php. Acesso em: 30 jan. 2018.

JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

NASCIMENTO, Glória Cristina Cornélio; CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena. Tradições, cultura e misticismo nas comunidades tradicionais: ‘A antropóloga’. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 16, n. 5, 2016.

NASCIMENTO, Maria Ernestina Cornélio; NASCIMENTO, Glória Cristina Cornélio; CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena. Cultura e a oralidade nos contos tradicionais. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 14, n. 20, 2014a.

______; ______; ______. Cultura, folclore e os saberes tradicionais. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 14, n. 21, 2014b.

______; ______; ______. Lendas e contos na cultura popular: a lenda do batatão. Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 14, n. 22, 2014c.

SBE. Sociedade Brasileira de Etnobiologia. Declaração de Belém. 1988. Disponível em: https://paginas.uepa.br/herbario/wp-content/uploads/2018/01/Decl.-Bele_m.Spanish.pdf. Acesso em: 30 jan. 2018.

SOLDATI, Gustavo Taboada. Transmissão de conhecimento: origem social das informações e da evolução cultural. In: ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino. Etnobiologia: bases ecológicas e evolutivas. Recife: NUPPEA, 2013, p. 37-62.

TOLEDO, Victor Manuel; BARRERA-BASSOLS, Narciso. A etnoecologia: uma ciência pós-normal que estuda as sabedorias tradicionais. Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, n. 20, p. 31-45, jul./dez. 2009.

VENTURA, Jaqueline. Educação ao longo da vida e organismos internacionais: apontamentos para problematizar a função qualificadora da Educação de Jovens e Adultos. Revista Brasileira de Educação de Jovens e Adultos, Salvador, v. 1, n. 1, p. 29-44, 2013.

Publicado em