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Sobre a episteme e as teorias do conhecimento

Fábio Souza Lima

Introdução

Episteme tem origem grega; quer dizer conhecimento. No decorrer da história, surgiram formas diferentes de explicação de como o conhecimento se dava ou construía no cotidiano humano. Em nosso trabalho, cuja proposta é uma visão geral da teoria do conhecimento exposta no diálogo entre Sócrates e Teeteto, escrito por Platão, consideraremos prioritariamente o platonismo e o empirismo, duas formas epistemológicas diametralmente opostas. Não obstante, prosseguiremos realizando uma breve análise das filosofias presentes no naquele texto.

Teorias de conhecimento

O conhecimento, para o filósofo grego, é contemplação; é teoria, sem a pretensão de mudar a natureza ou a realidade de alguma coisa. No entanto, percebemos que, no texto que estudamos, existem três definições de conhecimento que são trabalhadas no diálogo entre Sócrates e o jovem Teeteto. Na conversa, Sócrates utiliza a técnica de ironia por redução ao absurdo para convencer Teeteto de que apenas uma das três teorias propostas é a verdadeira. Ele utiliza o argumento contrário ao que defende para prová-lo fraco e insustentável. Durante a conversação, Sócrates se faz passar por uma pessoa que aceita os argumentos de Teeteto; contudo, no decorrer do diálogo, ele começa a mostrar os pontos fracos das proposições do jovem até colocá-las como absurdas. Com esse método, Sócrates inaugura o “conhecimento negativo”, ou seja, o conhecimento baseado no que não é, como abordaremos em nosso trabalho.

As três definições de conhecimento são:

  1. Conhecimento é sensação: nesta definição, vemos claramente que o conhecimento é baseado na experiência, pois são os sentidos humanos que forneceriam em primeiro plano as informações. Sócrates argumenta que os sentidos das pessoas são diferentes e, portanto, subjetivos. Além disso, a percepção das pessoas pode se alterar com a idade e o tempo, tornando esse conhecimento pouco confiável. Ademais, o vento que atinge as pessoas, em qualquer tempo, de qualquer forma, pode ser frio para algumas delas e quente para outras, uma conclusão que não contribui para um conhecimento universal sobre o que é o vento. Desta forma, a subjetividade defendida por Protágoras e o mobilismo defendido por Heráclito são negados por Platão, como exemplificaremos melhor mais adiante.
  2. Conhecimento é a decomposição do objeto para análise: esta é, sem dúvida, a principal proposição de defesa do empirismo, pois, para melhor análise de cada estrutura, cada cientista, de cada área do conhecimento, decompõe o objeto até buscar o seu particular. Residiria nesse particular a ideia do que é conhecimento. Esta é outra definição contestada por Platão, que busca exatamente o contrário: um conhecimento universal, imutável e eterno.
  3. Crença verdadeira justificada: nesta terceira definição de conhecimento, defendida por Platão, trabalha-se a ideia de que um conhecimento deve ser aceito no seio da sociedade onde existe. A crença são convicções aceitas por grupos de pessoas porque tem base em valores, costumes e hábitos desses grupos. Inferimos então que um conhecimento, para ser verdadeiro, dentro desta concepção, deve ser acreditado à luz de algum critério que seja aceito por todos. Dessa forma, sim, segundo Platão, pode-se construir um conhecimento capaz de transcender o particular e o tempo, capaz, finalmente, de alcançar o inteligível.

Proposta de Platão e seus concorrentes

O conhecimento em Platão está ligado à concepção de que o mundo real é o mundo das ideias, em que as experiências sensíveis não têm efetiva importância porque são subjetivas. O ideal (universal) é de fato, em Platão, o real. Nesse real, o conhecimento seria válido para todas as entidades. De forma contrária, o empirista enxerga o universal como uma coisa inexistente; flatus vocis. Sua crença baseia-se apenas na existência de particulares. Por exemplo: enquanto Platão apontaria o conceito universal de mesa, preocupando-se com as características gerais pertencentes a todas as mesas, ou seja, mesas com três pernas, com quatro, com duas, de madeira, de vidro ou de plástico…, os empiristas se preocupariam especificamente com as particularidades de cada uma delas. Não existe, para aqueles que se preocupam com as particularidades (os empiristas e os nominalistas), um conceito de mesa comum. Eles se preocupam com as características que fazem a diferença de cada entidade – as mesas com três pernas, com quatro, com duas, de madeira, de vidro ou de plástico…

O objetivo de Platão é a alma, pois ele acredita que o mundo em que o corpo está é um teatro de sobras. Enquanto olhamos para as coisas e nos enganamos, podemos fechar os olhos e nos voltar para nós mesmos, para a alma – onde está, para Platão, a realidade. Ele aponta que é preciso abandonar, portanto, o sensível, a experiência. Na filosofia platônica, a alma é o conhecimento, pois se baseia em aspectos universais, enquanto o corpo seria a doxa (i) (o que falam de…).

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Para Platão, a razão leva ao conhecimento do inteligível. Essa afirmação demonstra, além de tudo, a necessidade de o homem estar equipado para lidar com suas próprias admirações, maravilhas. Caso contrário, o jamais conseguirá deixar o mundo do sensível. No quadro, percebemos o inteligível como ponto a ser alcançado pelo filósofo. Assim, a razão estaria no controle, pois as emoções dizem respeito apenas ao que o homem teria de mais baixo, mais distante da reflexão e do conhecimento da alma. Percebemos então que o conhecimento, para Platão, é o conhecimento da alma; é a própria contemplação que nega experiência.

Platão era um crítico ferrenho do empirismo. No Teeteto, enquadra Protágoras como empirista, pois este afirma que “O homem é a medida de todas as coisas” (Homo Mesura).

Teeteto – (…) Parece-me, pois, que quem sabe alguma coisa sente o que sabe. Assim, o que se me afigura neste momento é que o conhecimento não é mais do que a sensação.
Sócrates – (…) Talvez tua definição de conhecimento tenha algum valor; é a definição de Protágoras; por outra palavra, ele dizia a mesma coisa. Afirmava que o homem é a medida de todas as coisas, da existência das que existem e das que não existem (Platão, 1973, p. 32).

Há um grande problema, como comenta Sócrates, nessa proposição: fala-se do homem como indivíduo ou do homem como espécie? Se admitirmos a primeira hipótese, cairemos no subjetivismo, em que não há verdade universalmente válida. Como espécie, negligenciaríamos a existência de todas as outras coisas. Ainda assim, o relativismo, que também está presente nessa questão, colocaria em discussão as qualidades presentes nas declarações e proposições. Esse relativismo que comentamos pode ser dividido em três formas: o cognitivo, que diz respeito à percepção; o ético, que aponta o correto em cada formação social; e o cultural, em que um objeto muda de importância de acordo com o costume (o costume é rei).

Platão não pode aceitar essas proposições, pois a sua busca diz respeito, principalmente, à busca por uma verdade universal, presente em todos os entes; portanto, não subjetiva, não relativa a outra coisa. Esse universal é imutável, não pode estar em transformação ou em movimento, o que faz com que Platão se oponha ao subjetivismo, ao relativismo e ao mobilismo, este último, considerado uma praga por ele na Hélade: “‘Se algo é em determinado momento, deixou de sê-lo em outro momento”. Com essa afirmação, Panta-Rei, o que tem uma identidade agora, não a terá poucos segundos depois. Com o mobilismo, tudo está em eterno fluxo, processo, em andamento para alguma coisa, num eterno devir, num eterno movimento. Como essas transformações são impossíveis no mundo das ideias, pois causam transformações, representações diferentes de um mesmo acontecimento, doxa (i), sensações diferentes, torna-se impossível a filosofia platônica.

Da translação das coisas, do movimento e da mistura de uma com as outras coisas é que se forma tudo que dizemos existir, sem usarmos a expressão correta, pois a rigor nada é ou existe, tudo devém. Sobre isso, com a exceção de Parmênides, todos os sábios, por ordem cronológica, estão de acordo: Protágoras, Heráclito e Empédocles, e, entre os poetas, os pontos mais altos dos dois gêneros de poesia: Epicarmo na comédia e Homero na tragédia. Quando este se refere – ao pai de todos os deuses eternos, o Oceano, e à mãe, Tétis, dá a entender que todas as coisas se originam do fluxo e do movimento (Platão, 1973, p. 33-34).

No subjetivismo, a verdade está presente em cada indivíduo. Sócrates, ao afirmar que nada sabe, utiliza uma postura falibilista para refutar os argumentos baseados na empeiria, no subjetivismo e no devir. Aponta que não podemos ter certeza absoluta de nada. A ironia, método demonstrativo usado para desmontar a argumentação daquele que supõe saber, trazendo à tona a crença sem razão e a carência de fundamentação, aparece neste trecho da conversa entre Sócrates e Teeteto.

Sócrates – Então, dize-me, uma vez mais, se aceitas que nada existe e que tudo se acha num perpétuo devir: o bem, o belo e tudo mais que enumeramos há pouco (Platão, 1973, p. 42).

A ironia socrática tem por fim derrubar as crenças sem fundamento, como já apontamos. Ele constrói seu conhecimento por meio da eliminação de erros, ou seja, em uma episteme negativa que busca aprender eliminando erros. Assim, toda e qualquer teoria é falibilista, ou seja, não é eterna e nem fixa, podendo cair a qualquer momento.

Ademais, existem formas de conhecimento mais válidas, legítimas e de melhor efeito que outras, mesmo que não tenhamos certeza absoluta delas, mesmo que o método para nos aproximarmos dele seja baseado no não saber, no que sabemos que não é. Ele fala do universal, do comum a todos. Como apontamos, o filósofo, preparado, deve usar a realidade com a perspectiva de encarar as formas puras, eternas.

Conclusão

Podemos comparar a proposta platônica de conhecimento por meio do mundo das ideias como a proposta filosófica de episteme, pela qual o filósofo se dedicaria a uma visão de verdade do todo. Dessa forma, as proposições declarativas, imperativas, prescritivas, interrogativas, exclamativas, entre outras, criadas pelos filósofos desembocariam nos diversos ismos criados para explicar o mundo em que vivemos. São as escolas filosóficas, caracterizadas por serem todas sistemas fechados de ideias que visam dar explicações sobre o mundo, como por exemplo o existencialismo, o marxismo, o aristotelismo… e o próprio platonismo.

Por outro lado, fica clara também a ligação entre a empiria e as ciências modernas, em que a experiência é a última palavra nas construções das verdades. Embora todo o conhecimento siga em direção à unificação explicativa, a ciência ramifica-se em várias áreas de atuação, apontando diferentes respostas para as mesmas questões.
Cabe aqui ressaltar que a definição de conhecimento como crença verdadeira articulada ou crença verdadeira justificada é a mais aceita, tanto por filósofos quanto por cientistas hoje em dia.

Referências

HESSEN, J. Teoria do conhecimento. Coimbra: Sucessor, 1973.

PLATÃO. Diálogos, volume IX – Teeteto – Crátilo. Belém: Universidade Federal do Pará, 1973. Coleção Amazônia.

OLIVA, Alberto. Aulas de Teoria do Conhecimento I, no 1º período de 2007. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2007.

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