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Textos na alfabetização

Priscila Romero

A teoria construtivista afirma que “toda criança na idade da Educação Infantil deve ter contato com a língua escrita, o mais cedo possível”. O método analítico utiliza essa abordagem, uma vez que o primeiro contato da criança com a escrita é pela “contação” de histórias, notícias, poemas, lendas pela alfabetizadora. O letramento também sustenta essa abordagem.

A raiz da palavra texto é a mesma de tecer. Portanto, imaginamos que o texto é um tecido feito com palavras que têm sentido, conexão e coerência. Carvalho (2005) afirma que um texto é uma unidade significativa, pode ser curto ou longo.

Todos os indivíduos têm capacidade de entender e elaborar textos – habilidade denominada competência textual. Até mesmo as crianças pequenas têm essa capacidade, que poderá ser melhorada por atividades orais e escritas.

Observemos a abordagem de uma cartilha e, em seguida, de um livro de história.

Cartilha:
A vovó é da menina.
A menina leva doce para a vovó.
A menina vê o lobo.

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Livro de história:
Chapeuzinho Vermelho
Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho.
Um dia, sua mãe mandou que ela levasse uma cesta cheia de coisas gostosas para a vovó.
A garota foi e, no caminho, encontrou o lobo.

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O que se percebe? A cartilha tem frases isoladas, colocadas uma embaixo da outra, sem título. Não tem a ver com a língua viva que utilizamos na oralidade e na escrita. No livro, o texto é simples, mas com sentido, transmite informações, é escrito de acordo com as convenções gramaticais, próximo ao que utilizamos, com recursos para não haver repetição de palavras (chapeuzinho, ela, menina).

Abaixo encontramos um texto criado por uma criança. Analisemos o que é possível mudar nele respeitando a fala da criança, mas lembrando que não devemos repetir suas hesitações, erros gramaticais e repetições; afinal, somos educadores e devemos ensiná-las a melhorar suas capacidades (Carvalho, 2005).

Uma criança conta: “Minha mãe saiu, ela disse que ela ia trabalhar, aí ela demorou muito, aí eu fui na esquina para ver se ela tava voltando, mas ela não tava, aí tava muito escuro, eu fiquei com medo, aí minha avó me deu sopa e aí eu dormi”.

O que podemos melhorar, respeitando a fala, a emoção, a intenção da criança? Evitar a repetição do pronome ela, evitar o uso de ‘aí’ para juntar as frases, substituir ‘tava’ por estava…

Preparar para a leitura

Devemos despertar em todas as crianças o desejo de ler. Para isso, o(a) educador(a) deve ter no ambiente alfabetizador livros de histórias infantis, jornais, revistas… Enfim, material escrito de todo tipo para que as crianças percebam, manuseiem e criem vínculo com a leitura e a escrita – o processo de alfabetização.

As crianças menores se aproveitam das ilustrações e inventam histórias. Criam narrativas, das mais simples às mais espetaculares. Desenvolvem a expressão verbal e a imaginação. Estimulam a curiosidade. Ao escutar as histórias lidas em voz alta, aprendem como as frases são organizadas para haver sentido (sintaxe) e aumentam seu vocabulário (léxico). São grandes conquistas para o desenvolvimento cognitivo de todas!

A escolha do material de leitura é muito importante. Com aqueles que estão ingressando no primeiro ano, na turma de alfabetização, podemos trabalhar com histórias, poemas, trava-línguas, canções de roda. Para os maiores, ainda do segmento fundamental I, torna-se aconselhável o uso de jornais e revistas com assuntos que sejam de seu interesse, como esportes. Um pouco mais maduros, trabalhamos com letras de música, bilhetes, anúncios. E para os mais velhos, no fim do fundamental II, uma nova abordagem pode ser surpreendente: conversando sobre suas vidas, descobrimos o que gostam de fazer fora da escola, se trabalham, se têm sonhos… Com essas informações, propomos redações com o uso de suas próprias criações, elaboração de um livro etc.

Textos produzidos oralmente pelos próprios alunos podem ser um bom estímulo. A professora pede que criem uma história e a reproduzam no quadro ou no blocão – o(a) educador(a) faz as modificações que julgar necessárias, atendendo às normas da língua escrita, sempre!

Referência

CARVALHO, Marlene. Alfabetizar e letrar – um diálogo entre a teoria e a prática. Petrópolis: Vozes, 2005.

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