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Uma estagiária (in)feliz?!

Cristina Ganço Machado

Graduanda de Letras (UFRJ), estagiária na Escola Municipal Professor Lourenço Filho

Tudo começou quase dois anos atrás. Eu precisava estagiar, precisava de contato com os alunos, e por isso procurei a CRE, a Coordenadoria Regional de Educação, responsável pelos estágios remunerados e não remunerados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Por sorte, havia uma vaga para estágio remunerado em uma escola municipal no Grajaú, e me indicaram para lá.

Cheguei com a carta de apresentação em mãos e logo fui conhecendo todos da escola: professores, estagiários já existentes, inspetores, merendeiras. A verdade é que eu sabia que o desafio seria grande; eu estava apenas no quarto período de Letras da UFRJ e não tinha noção de como seria lecionar, e mais: lecionar em uma escola pública.

Fiquei responsável pelo Projeto Entre Jovens, financiado pelo Instituto Unibanco, que tinha como objetivo preparar os alunos do nono ano para entrar no Ensino Médio. Lembro-me bem como foi o primeiro dia de aula: os alunos me olhando, perguntando quantos anos eu tinha e como uma professora poderia ser tão nova… Incrivelmente, a primeira aula dada foi sobre Clarice Lispector e foi impressionante como eles se interessaram, como eles realmente queriam aprender. Vou ser sincera: creio que nunca mais me depararei com uma turma daquelas, e foi muita sorte a minha ter começado assim. A verdade é que me apaixonei. Aquilo me deixava viva, me trazia segurança. E o ensinamento dado àqueles alunos só me satisfazia.

O resultado da escola no projeto foi mais do que satisfatório. A maioria dos meus alunos passou para escolas públicas renomadas do Rio de Janeiro, como, Cefet, Faetec, Pedro II, Nave; muitos outros, conseguiram bolsas para estudar em escolas particulares de excelente ensino.

Semestre finalizado, acreditei que o projeto, devido ao sucesso, fosse continuar, mas infelizmente a disciplina que continuou foi Matemática.

Não estando mais à frente do projeto como tutora, fiquei responsável pelo reforço escolar de Língua Portuguesa e, aí sim, vi como a realidade era assustadora.

Deparando-me com a sala de aula e as aulas de reforço, tudo ficou um pouco mais complicado. No fundo, eu não sabia se era capaz de dar conta e por isso as coisas fugiram um pouco do meu controle.

Primeiramente, porque a equipe de estagiários não participa de capacitação alguma quando entra na escola; em segundo lugar porque, além disso, os estagiários entram em sala sem ter professores auxiliando-os a lecionar; e, por fim, porque nunca havia estado em uma sala de aula antes.

Controlando meus nervos, entrei. Lembro-me bem da primeira aula que dei, de Geografia. Um professor havia faltado, e eu tinha que “substituí-lo” para os alunos não ficarem “à toa” no pátio. E lá fui eu, sem ter noção alguma de Geografia, dar uma aula.

Achei que fosse ficar nervosa, mas acabou que nada do que eu pensara aconteceu. Eu estava conseguindo controlar a turma, e mais: consegui pensar, em um flash de segundo, num tema: meio ambiente, fazendo a turma entrar num debate sobre o desmatamento e a poluição dos rios. Quando saí da sala, respirei fundo e sorri. Era a única coisa que eu conseguia fazer: sorrir. Eu descobri que “levava jeito pra coisa”, sabe? Descobri que todo o meu nervosismo passava ao entrar em uma sala de aula.

Passado um ano, a escola integrou em suas turmas projetos como “Acelera”, que tinham como objetivo acelerar o aprendizado de alunos que estavam fora da faixa etária correspondente ao seu ano original. Foram divididos em II (com duração de dois anos) e III (com duração de três anos). Esses projetos trouxeram alunos com alto nível de defasagem escolar e alguns até analfabetos funcionais – aqueles que decodificam as letras e consequentemente leem mas não conseguem interpretar ou fazer operações matemáticas. Com isso, minha tarefa na escola se tornou muito mais do que árdua.

Na turma do Acelera II entrou um menino de dezesseis anos, Bento. Era um garoto complexo demais para a sua idade: era violento e não aceitava nenhum tipo de avaliação, já que não conseguia ler. O meu trabalho, especificamente no Acelera II, foi dar atenção total aos alunos que não conseguiam acompanhar as aulas. Eram apenas três: a Andressa, o Bento e o Lauro. Andressa conseguia ler e escrever, mas não conseguia formular respostas coerentes e coesas; Lauro sabia ler, mas tinha dificuldades em escrever, pois trocava letras, como o “p” pelo “b”; por fim, Bento, que não conseguia ler nem escrever.

Durante os últimos seis meses do meu primeiro ano naquela escola da Prefeitura do Rio de Janeiro, entraram mais dois estagiários, e eles, que também eram de Língua Portuguesa, puderam auxiliar os outros alunos, enquanto eu destinava a minha atenção completamente a Bento.

O início foi muito difícil. Bento não me aceitava e não aceitava aprender nada. Dizia que não precisava aprender Português, só Matemática, já que afirmava a todos que gostaria de ser traficante. Quando ouvi tais afirmações de Bento, me apavorei e perdi um pouco as esperanças. Nunca havia alfabetizado ninguém antes. Estava trabalhando na escola há tão pouco tempo que não sabia nem por onde começar a lidar com aquele menino.

Comecei tentando agradá-lo, trazendo doces, e depois comecei a falar com o mesmo linguajar dele – até que ser nova me auxiliou nessa parte – e ele começou a ser mais receptivo comigo. Além de acompanhá-lo em sala de aula, nós trabalhávamos juntos todas as segundas e terças-feiras, um pouco antes do horário das aulas dele.

Pedi ajuda à coordenadora pedagógica da escola, e ela conseguiu que uma alfabetizadora acompanhasse o caso do Bento, já que ele era o único da escola em tal situação. Dava para perceber que no fundo, bem lá no fundo, Bento não queria se submeter ao tráfico de drogas; Bento queria ser alguém, e o fato de não saber ler nem escrever o deixava muito abalado e envergonhado. Os colegas não se metiam com ele, pois sabiam que o garoto era daquele tipo de pessoa que resolvia as suas pendências na marra, mas na realidade todos temiam que Bento fizesse alguma besteira.

A alfabetizadora trouxe inúmeras atividades para eu trabalhar com o menino. Eram trabalhos de preencher lacunas, onde faltavam as letras corretas, era oficina de incentivo à leitura, que, com textos bem fáceis, introduzia o Bento no universo dos livros, e muitas outras coisas mais. Foram meses que se passaram arrastados: alfabetizar crianças já é difícil, agora imagine alfabetizar um menino que tinha sonho de ser traficante e que a cada dia agia de maneira diferente?

Chegamos a um estágio em que Bento começou a acertar as letras nas palavras, e isso o deixava cada vez mais radiante, pois começou a perceber que era, sim, capaz de aprender. Começamos então a forçá-lo a ler. Iniciamos com fábulas pequenas e depois incitamos o garoto com algumas histórias do Monteiro Lobato. A cada palavra acertada e aprendida, ele queria acertar mais e mais, e o motivo da sua alegria passou a ser o motivo da minha alegria também.

Lembro-me como se fosse hoje o primeiro dia em que Bento conseguiu ler: foi uma emoção tão grande, minha e dele, que chegamos a nos abraçar e ele disse:

– Obrigado, professora. Desculpa por tudo que eu fiz com a senhora.

E eu, com lágrimas nos olhos, apenas respondi:

– Relaxa, Bento! Conseguimos cumprir nossa missão juntos! Espero que você faça bom proveito!

Depois desse dia, passadas algumas semanas, Bento resolveu sair da escola e alegou que tinha que trabalhar para ajudar a família. Meses depois, descobrimos que ele estava praticando pequenos furtos no bairro da Tijuca.

Isso me deixou muito abalada. Eu achava que, finalmente, ele havia entendido que precisava crescer como ser humano, que podia ter seu espaço na sociedade de forma correta e justa. Mas não. Bento resolvera voltar ao seu antigo mundo de submissão aos traficantes de drogas, que viviam na mesma comunidade que ele.

É triste sim, caro leitor. Trabalhamos exaustivamente para obter um resultado satisfatório com aquele menino. Não podemos entrar no mérito de que ele não teve oportunidade, já que demos a ele todas as possíveis. Eu não o julguei, sei das dificuldades passadas pelos meus alunos, sei que muitos deles sofrem abusos dentro da própria casa, sei que não têm o que comer, sei que carecem de educação.

Há alguns meses atrás reencontrei Bento. Ele estava na porta da escola e, fumando um cigarro, disse para mim que havia decidido voltar a estudar. Perguntei-lhe se havia parado de fazer “coisas ruins” e ele afirmou que sim. Ele queria entrar no PEJA (Programa de Educação de Jovens e Adultos) para recuperar o tempo perdido, já que hoje tem dezoito anos. Toda a euforia que me dominou no passado havia voltado. Eu tinha esperanças de novo! Ele disse que sofreu muito em casa, mas que conseguiu um emprego numa farmácia e podia estudar à noite.

Fiz o que pude, entrei com ele na escola e conversamos durante um longo tempo com a diretora. Ela resistia, mas a cada argumento dela eu rebatia com um contra-argumento que a deixava sem saída: Bento ingressaria no ano de 2013 na escola novamente. Saímos de lá juntos e, mais uma vez, ele me agradeceu. Creio que eu tenha sido a única que conseguiu “domar” os instintos de Bento, que conseguiu trazê-lo de volta para a educação.

Essa é apenas uma das histórias vivenciadas por mim naquela não tão pacata escola. Há crianças do sexto ano que não conseguem ler, que não conseguem formular respostas; há adolescentes nessa mesma situação.

Os professores se sentem desmotivados. Não são bem remunerados, não são valorizados e são, sim, altamente desrespeitados pelos seus alunos.

Eu não sei se há solução para tantos problemas, mas sei que deve haver uma postura diferente da parte dos professores. Devemos inovar. Se não trouxermos atividades diferentes, trabalhos que os motivem, tudo ficará da mesma forma. Afinal, somos também educadores, e, apesar de muitos alunos não receberem a educação devida dentro de casa, na escola eles devem aprender a ser cidadãos e a respeitar o próximo.

Já ensinei com músicas de pagode e funk, já dei aulas de todas as matérias – inclusive Matemática – e já enfrentei muito a ira de professores. Quando o meu segundo ano na escola se iniciou, as diretoras me avisaram que o trabalho dos estagiários estava muito mal organizado (não diga, hein?!) e, por isso, entraríamos junto com os professores nas salas de aula, para que não ficássemos tão perdidos. Afinal, eu possuía experiência, mas os outros estagiários estavam mais tensos do que eu na época em que ingressei na escola.

O problema era que havia muita resistência dos professores de Língua Portuguesa. Eles acreditavam que entrávamos na sala de aula para avaliá-los, e isso era completamente incoerente. Nós, como estagiários, possuímos a única e exclusiva vontade de ajudar e aprender; por que acharíamos que somos bons o suficiente para julgar o trabalho dos professores da casa? Não havia motivos para tal preconceito.

Depois de muitas discussões e reuniões, entramos em sala. E ajudávamos muito. Os alunos não respeitavam seus professores, e nós auxiliávamos nas tarefas propostas. Infelizmente, a resistência se manteve e eu decidi não ajudá-los mais.

É uma pena que tenhamos profissionais que, ao invés de ajudar os estagiários, não aceitem nenhum tipo de ajuda.

A vida profissional é assim: sempre teremos obstáculos a enfrentar e pessoas que não ajudarão. O problema é que lidamos com alunos, e eles precisam aprender e estudar. Creio que, sem a ajuda dos estagiários, os professores nunca teriam obtido resultados tão positivos. Porém, cada um tem suas ideias.

Às vezes penso que a educação está abandonada. As crianças estão perdidas. Os professores estão desmotivados. Como o Bento, há inúmeras de crianças e adolescentes que dariam tudo para estudar, e, no entanto, não fazem nada do que gostariam, porque a vida desenhou outra história para eles.

Apesar de todo o descaso, de todo o desrespeito e de toda a dificuldade, eu continuo. Continuo porque acredito na educação como instrumento de cidadania. Se eu pudesse, faria tudo de novo. Nós, como futuros professores, somos o exemplo para essas crianças e adolescentes, e isso sempre será impagável: o sorriso do aprender, a felicidade do ensinar e a esperança de vivenciar um mundo melhor.

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