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O caso do Clube de Astronomia “Marcos Pontes”

Adriana Oliveira Bernardes

Mestre em Ensino de Ciências (UENF)

No Ano Internacional da Astronomia (2009) mais de duzentos nós-locais (clubes de Astronomia, astrônomos profissionais, amadores, educadores e amantes da Astronomia) de todo o Brasil realizaram atividades relacionadas à divulgação dessa ciência.

Com o evento, foi mostrado que o Brasil pode figurar junto aos Estados Unidos e a países da Europa em relação ao desenvolvimento de atividades de divulgação de Astronomia junto ao grande público.

Considerado um espaço não formal de educação, esses clubes vêm se destacando no que concerne a atividades desenvolvidas e juntando forças com quem realiza esse trabalho nacionalmente.

Nesse contexto surge o Clube de Astronomia “Marcos Pontes” (CAMP), que desde 2006 trabalha para divulgar Astronomia em escolas e junto ao público em geral.

Este trabalho visa relatar o trabalho desenvolvido pelo clube em quatro anos de atividades e apresentar os resultados de algumas pesquisas realizadas junto ao público.

Introdução

O Clube de Astronomia “Marcos Pontes” foi fundado em 26 de abril de 2006, em Itaocara, no Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.

Um clube de Astronomia pode ser considerado espaço não formal de educação. Segundo Jobin (2007, p. 3), “a partir dos anos 1990 a educação não formal assumiu maior relevância devido às mudanças na economia, na sociedade e no mundo do trabalho, onde se passou a falar em uma nova cultura organizada, que exige competências extracurriculares”.

Pela ação de voluntários, chamados monitores de Astronomia, que realizavam atividades junto às escolas no Ensino Fundamental, Médio e no EJA (Ensino de Jovens e Adultos), foram desenvolvidos projetos com o objetivo de mostrar a possibilidade de inserção da Astronomia no ensino e a importância de parcerias entre espaços formais e não formais de educação, como as escolas e os clubes de Astronomia.

Sobre esse aspecto e sobre a inserção da Astronomia nas escolas, Bisch afirma que

conteúdos diretamente ligados à Astronomia fazem parte dos currículos oficiais e são efetivamente ensinados no Ensino Fundamental, com graves problemas, ‘do jeito que dá’, pelo professor que, em geral, não possui formação e domínio suficientes sobre esses temas e acaba usando o livro didático desse nível de ensino como a principal fonte de seu próprio conhecimento (1998, p. 10).

Atuando junto a escolas do Ensino Fundamental e Médio, o clube desenvolveu desde sua formação vários projetos cujo público-alvo foi:

  • alunos do Ensino Fundamental e Médio;
  • alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos);
  • deficientes visuais.

Segundo Daminelli (2010, p. 102), “temas de Astronomia já são contemplados no Ensino Médio, mas precisam ser modernizados. Nesse nível de ensino é possível usar o céu como um vasto laboratório de Física”.

Numa atividade desenvolvida pelo clube foi criado um jogo educativo para ser utilizado em oficinas oferecidas aos membros do clube que tenham entre 6 e 13 anos de idade.


Foto 1: Alunos do Clubinho de Astronomia e o jogo didático Viajando pelo sistema solar, desenvolvido pelo CAMP com auxílio da OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica).

Desenvolvimento

O grupo que compunha o clube foi formado por professores e alunos do Colégio Estadual Teotônio Brandão Vilela (Rio de Janeiro), desenvolvendo desde sua formação um trabalho voluntário junto à comunidade escolar e ao público em geral para divulgar Astronomia.

Motivado pelo evento que envolveu o envio do primeiro brasileiro ao espaço, Marcos César Pontes, o clube recebeu seu nome; a grande maioria de seus membros nutria grande admiração pelo astronauta, principalmente os alunos do Ensino Fundamental.

O fato mostra como eventos veiculados na mídia e que caem no domínio popular atraem as pessoas para a ciência; vem daí a importância de trabalhar nesse sentido.

O clube também tem desenvolvido, desde sua fundação, projetos para o ensino e aprendizagem de Astronomia, preocupando-se com a divulgação da ciência entre jovens e adultos. A importância do dimensionamento de ações de um clube de Astronomia é visto também por Zanetic (2008, p. 5), quando ele afirma:

Em busca de alternativas que contribuam para sanar, ao menos em parte, as deficiências identificadas no processo de ensino-aprendizagem da Astronomia, seja em período escolar ou posterior, propomos um olhar diferenciado para esses espaços de ações coletivas e não formais (planetários fixos e móveis, observatórios, clubes de astronomia amadora e centros de divulgação). Assim, uma importante complementaridade entre esses diferentes espaços de aprendizagem mostra-se cada vez mais evidente, possibilitando a realização de atividades práticas e lúdicas basicamente inexistentes no sistema formal de ensino.

A estrutura institucional do Clube de Astronomia “Marcos Pontes” é formada pelos coordenadores, monitores e membros participantes, que desde 2006 em conjunto desenvolveram os seguintes projetos:

  • Astronomia para Crianças: um universo de descobertas, que visava à inserção da Astronomia no Ensino Fundamental com a utilização de objetos de aprendizagem; objeto de aprendizagem é tudo que possa incentivar e motivar o aprendizado dos alunos.
  • Astronomia, Arte e Mitologia no Ensino Fundamental: objetiva utilizar conceitos de arte e mitologia para ensinar Astronomia no Ensino Fundamental. Durante o projeto, o público envolvido utilizava recursos lúdicos para as atividades como brincadeiras, exposições de pintura e desenho, todos com a temática Astronomia.
  • Astronomia em turmas de EJA: no Ensino de Jovens e Adultos, a Astronomia serviu como estimulo ao aprendizado das disciplinas consideradas pelos alunos de difícil assimilação, como Física, Química e Matemática.
  • Recursos didáticos para o Ensino de Astronomia para deficientes visuais: neste projeto foram criados recursos didáticos de áudio e táteis para o ensino de Astronomia para deficientes visuais.
  • Olimpíadas Internas de Astronomia: foi criada uma olimpíada interna de Astronomia, com o objetivo de estimular a pesquisa de conteúdos de Astronomia por professores e alunos. A participação nessa olimpíada também preparava os alunos para a OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia).

O número de acertos dos alunos na primeira olimpíada mostrou a importância do projeto que estava sendo desenvolvido e motivou a escola parceira a continuar com ele, desenvolvendo cada vez mais temas de Astronomia junto aos alunos em parceria com o clube.

Os projetos foram desenvolvidos em parceria com escolas estaduais do Estado do Rio de Janeiro. Em contato com o público das escolas, foram desenvolvidas pesquisas sobre conhecimento de Astronomia.

Resultados

Desde sua formação em 2006, foram publicados artigos na área de Ensino de Astronomia a respeito de trabalhos desenvolvidos pelo clube:

  • Viajando pelo sistema solar: jogo educativo para o ensino de Astronomia no Ensino Fundamental, em A Física na Escola.
  • Astronomia, Arte e Mitologia no Ensino Fundamental: veiculado na Revista Latino-americana de Educação em Astronomia (RELEA).
  • Observação do céu aliada à utilização do software Stellarium no Ensino de Astronomia em Turmas de educação de jovens e adultos: também publicado na RELEA.
  • Recursos de áudio para o ensino de deficientes visuais: publicado nos Anais do Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) 2009.

Na Foto 2, estão alunos de escola pública participando da Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBFOG), evento realizado no Colégio Estadual Teotônio Brandão Vilela, em Itaocara, pelos membros do Clube de Astronomia “Marcos Pontes” (CAMP).


Foto 2: Alunos participam de olimpíada de foguetes organizada pelo Clube de Astronomia “Marcos Pontes” (CAMP).

A seguir estão gráficos com o percentual de acerto dos alunos da 2ª série do 1º segmento de três das questões da 1ª Olimpíada Interna realizada na escola, promovida pelo clube em parceria com a escola.


Gráfico 1 – Resposta à questão “qual o planeta com maior temperatura no sistema solar?”

Podemos observar que apenas 38% dos alunos responderam corretamente. Verificamos ser uma dos maiores dúvidas dos alunos e professores, já que a maioria acredita que quanto mais perto do sol, maior será a temperatura do planeta, desconsiderando outros fatores como a sua atmosfera.


Gráfico 2 – Resposta à questão: “qual o nome da estrela do nosso sistema solar?”

O Gráfico 2 mostra a proporção de respostas corretas; 73% responderam corretamente. Percebemos então que as noções básicas são acessíveis a uma grande quantidade de alunos das séries iniciais.


Gráfico 3 – Resposta à questão: “Qual o nome do nosso satélite natural?”

No Gráfico 3, podemos observar que 60% responderam corretamente.

Conclusão

Este trabalho mostra a possibilidade de um espaço não formal de educação (um clube de Astronomia) realizar, com êxito, atividades juntamente com o ensino formal.

Podemos observar também a possibilidade de tais espaços desenvolverem pesquisas no ensino de Astronomia, com a publicação de um número expressivo de artigos.

Diante do quadro que vivemos, em que são grandes as dificuldades nos processos de ensino e aprendizagem na área de Ciências Exatas, é também verificada a viabilidade da inserção da Astronomia no Ensino Fundamental e Médio.

Referências

BISCH, S. M. Astronomia no Ensino Fundamental: natureza e conteúdo do conhecimento de estudantes e professores. 310 páginas.

BRASIL. MEC. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, adaptações curriculares. Disponível em: http://www.educacaoonline.pro.br/adaptacocurriculares.asp. Acessado em: 27/09/2008.

BRASIL. MEC/SEB. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC/SEB, 2006. 135 p.

BRASIL. MEC/SEF. Parâmetros Curriculares Nacionais – introdução. Brasília: MEC/CNE, 2001.

DAMINELLI, A. Fascínio do Universo. São Paulo: Odysseus. 2010. 111 p.

GOHN, M. G. Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 27-38, jan./mar. 2006.

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