O Construtivismo e Jean Piaget

Priscila Maria Romero Barbosa

Pedagoga, orientadora educacional e especialista em Educação Especial e Inclusiva

Construtivismo é uma teoria sobre a origem do conhecimento que considera que a criança passa por estágios para adquirir e construir o conhecimento. Tem como objeto de estudo da alfabetização a língua escrita (Nunes, 1990).

HTML_clip_image002Piaget, o criador da teoria Construtivista, considera quatro fatores como essenciais para o desenvolvimento cognitivo da criança:

  1. Biológico: relacionado ao crescimento orgânico e à maturação do sistema nervoso;
  2. De experiências e de exercícios: é obtido na ação da criança sobre os objetos;
  3. De interações sociais: se desenvolve por meio da linguagem e da educação;
  4. De equilibração das ações: relacionado à adaptação ao meio e/ou às situações (Fossile, 2010).

Conhecimento/Aprendizagem

O Construtivismo afirma que o conhecimento é resultado da construção pessoal do aluno; o professor é um importante mediador do processo ensino-aprendizagem. A aprendizagem não pode ser entendida como resultado do desenvolvimento do aluno, mas sim como o próprio desenvolvimento do aluno (Fossile, 2010).

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Piaget afirma que quando uma criança interage com o mundo à sua volta, ela atua (interna e externamente) e muda a realidade que vivencia. Para que isso ocorra, a criança deve ter um esquema de ação. É por meio do esquema de ação que a criança organiza e interpreta a ação, para que esta seja praticada. É uma estratégia de ação generalizável, de forma que a criança consiga se adaptar às mudanças ocorridas no seu meio. Consequentemente, surgem dois mecanismos necessários à elaboração de novos esquemas: assimilação e acomodação (Fossile, 2010).

Assimilação e acomodação: equilibração

Para o construtivismo, o ambiente social e o ambiente físico ocasionam oportunidades de interação entre sujeito e objeto, gerando conflitos e, consequentemente, uma reestruturação, pelo sujeito, de suas construções mentais anteriores. O equilíbrio/equilibração surge quando o indivíduo organiza o conhecimento (Nunes, 1990).

A assimilação ocorre quando novas experiências ou informações são introduzidas na estrutura cognitiva da criança, não havendo modificação em suas estruturas mentais. A acomodação acontece quando a criança modifica suas estruturas cognitivas para “enfrentar” o novo.

Quando ocorrem esses mecanismos, a criança encontra-se no estado de equilibração.

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Pensamento e Linguagem

Para Piaget, “a linguagem não é suficiente para explicar o pensamento, uma vez que este tem raízes na ação e nos mecanismos sensório-motores”. A origem do pensamento é anterior à linguagem (e independente dela) (Miranda e Senra, 2012; Magalhães). A linguagem é uma construção da inteligência (Magalhães) e tem origem no estágio sensório-motor, quando se inicia a função simbólica (Miranda e Senra, 2012).

HTML_clip_image008As estruturas da linguagem não são ofertadas pelo meio ambiente, mas sim concebidas pelo nascimento e desenvolvidas no dia a dia. Piaget afirma que o desenvolvimento da linguagem é um processo de equilibração progressiva: “uma permanente passagem de um estágio de menor equilíbrio para outro” (Magalhães).

Piaget denomina a fala privada de “fala egocêntrica”, uma vez que a função simbólica não está desenvolvida inteiramente (Miranda e Senra, 2012).

O alfabetizador/professor

Para trabalharmos sob a visão do Construtivismo, primeiramente, devemos conhecer as concepções que uma criança tem da língua escrita. Logicamente, a compreensão da criança é diferente da compreensão dos adultos, sendo obrigação do educador entender esse processo. Ao mesmo tempo, o professor deve lembrar à criança as conquistas que ela fez antes de formular sua ideia “errada”, com o objetivo de estimular seu entendimento. Esse olhar do educador sobre tais acréscimos obtidos pela criança é de extrema importância e característica principal do Construtivismo. Os alfabetizadores devem compreender as produções da criança e saber respeitá-las, vendo-as como construções genuínas, indicadoras de progresso e não de erros. São os “erros” construtivos (Nunes, 1990).

O professor deve criar desafios para seus alunos em contextos que façam sentido para eles. Deve estimular a criticidade, a pesquisa, a discussão, o debate (Fossile, 2010).

O ambiente alfabetizador

O construtivismo defende que as crianças da Educação Infantil devem ter contato com a língua escrita. A professora, ao ler para a criança, proporciona que esta perceba a leitura em si e adquira interesse em escrever. Tanto a leitura quanto a escrita devem estar presentes no ambiente alfabetizador (Nunes, 1990).

Após essa descoberta, entendemos as ideias que a criança tem de escrita e leitura. Todos “os processos que ocasionam mudanças nas concepções infantis devem ser ligados aos conflitos gerados pela interação sujeito-objeto” (Nunes, 1990).

A sala de aula deve ser enriquecida com atividades que englobem discussão, reflexão e tomada de decisões; os alunos são os responsáveis pela defesa, pela justificativa e pelas ideias (Fossile, 2010).

Os estágios de desenvolvimento

Piaget divide o desenvolvimento cognitivo em quatro estágios:

  1. Sensório-motor: ocorre entre 0 e 2 anos de idade. Tudo se dá pelas sensações e pelos movimentos da criança, o que coopera para que ela desenvolva seus primeiros esquemas de ação. Aparecem os reflexos básicos dos bebês, que mudam conforme a maturação do sistema nervoso e a interação com o meio. Ainda não estão envolvidos representações mentais e pensamentos.
  2. Pré-operatório: entre 2 e 7 anos de idade. A criança começa a desenvolver sua capacidade simbólica, não dependendo exclusivamente de suas sensações e movimentos. Passa a distinguir o significante (imagem/palavra/símbolo) do significado (conceito). Exemplo: a criança, ao ver a mãe com uma bolsa, compreende que ela sairá de casa. Ainda não compreende a reversibilidade – compreende que 6 + 1 = 7, mas não compreende que 7 – 1 = 6. Tem pensamento animista (dá vida aos seres inanimados), pensamentos egocêntricos (particulares da realidade), raciocínio transdutivo – raciocínio particular (banana verde causa dor de barriga, então abacate verde também causa dor de barriga).
  3. Operatório concreto: entre 7 e 11 anos de idade. A criança começa a pensar de forma lógica; no entanto, ainda precisa do auxílio da realidade concreta. Consegue desenvolver o pensamento reversível. Sai o pensamento transdutivo e começa o pensamento indutivo – interioriza a ação ou a previsão do resultado que vai do particular para o geral. Abandona o pensamento egocêntrico e passa a pensar o mundo de forma sociável. Dessa forma, percebe que existem regras para todos e tenta compreender o pensamento dos outros, ao mesmo tempo que procura transmitir seu próprio pensamento.
  4. Operatório formal: dos 11/12 anos em diante. Encontramos nessa fase um adolescente, que utiliza o raciocínio hipotético-dedutivo, elabora e testa suas hipóteses, alcança a abstração, entende que a linguagem é de importância extrema, pois com ela poderá formular hipóteses e realizar pesquisas (Fossile, 2010).

Referências

FOSSILE, Dieysa K. Construtivismo versus sociointeracionismo: uma introdução às teorias cognitivas. Revista Alpha, Patos de Minas, UNIPAM. 2010. Disponível em: http://alpha.unipam.edu.br/documents/18125/23730/construtivismo_versus_socio_interacionsimo.pdf.

MAGALHÃES, Mônica M. G. A perspectiva da linguística: linguagem, língua e fala. Rio de Janeiro, 2007.

MIRANDA, Josete Barbosa; SENRA, Luciana Xavier. Aquisição e desenvolvimento da linguagem: contribuições de Piaget, Vygotsky e Maturana. 2012.

NUNES, Therezinha. Construtivismo e alfabetização: um balanço crítico. Educ. Revista, Belo Horizonte, 1990. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?pid=S0102-46981990000200004&script=sci_arttext.

PICOLLI, Luciana; CAMINI, Patrícia. Práticas pedagógicas em alfabetização: espaço, tempo e corporeidade. Porto Alegre: Edelbra, 2013.

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Publicado em 23 de junho de 2015