Projeto E3 - Encontro de Experiências com a EJA: formando multiplicadores para debates inclusivos sobre drogas na escola

Francisco José Figueiredo Coelho

Doutorando em Ensino em Biociências e Saúde (IOC/Fiocruz), mestre em Tecnologia Educacional para Saúde (Nutes/UFRJ), especialista em Educação de Jovens e Adultos para a Diversidade e Inclusão Social (NUEC/UFF) e docente da rede estadual de ensino (RJ)

Introdução e justificativa do Projeto E3

Em diferentes esferas sociais torna-se enfática a política de guerra às drogas, marcada sobretudo pela repressão à comercialização e ao uso. Esse anseio social não é recente e, no Brasil, desde a década de 1990 já vem sendo sinalizada inclusive pelos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais). Segundo o documento, o consumo de diferentes substâncias psicoativas no trabalho, no lazer ou em rituais e festas, com papel agregador de comunidades, é comum a todas as culturas, e o uso social e religioso de drogas prazerosas, capazes de modificar o humor, as percepções e sensações, tem sido uma constante ao longo da história humana (Brasil, 1998). Nesses documentos oficiais de 1990 existe o reconhecimento da importância da discussão do tema drogas nos currículos de todos os níveis da Educação Básica a partir de uma abordagem transversal. Segundo Carlini-Cotrim (1992; 1998), a intensa preocupação dedicada ao tema do abuso de drogas entre os jovens vem atualmente constituindo um terreno propício para o desenvolvimento de ações preventivas improvisadas e acríticas. Nesse contexto, Carlini-Cotrim percebe a escola como um palco privilegiado para essas atuações, amiúde grotescas, desenvolvidas por profissionais muitas vezes mais aflitos do que propriamente cientes do que discutem ou fazem. Por isso, é importante conhecer o contexto contemporâneo para pensar em discussão e prevenção do uso abusivo de drogas. A autora lembra que há uma profusão de movimentos sociais contra essas substâncias e uma forte pressão da sociedade civil para que o Estado gaste fatia significativa de seu orçamento na repressão, educação e tratamento dos problemas associados ao uso de drogas. Também, ressalta a autora, convivemos com o gigantesco poder ilegal dos cartéis de produtores e comerciantes dessas substâncias, que não medem esforços para manter seus produtos populares (Carlini-Cotrim, 1998). Na visão da autora, essa é uma preocupação social que deve existir no âmbito educacional. Não apenas a preocupação com a droga em si, mas com a dinâmica de sua veiculação em nossa sociedade. Para Gilberta Acselrad (2005), uma questão central no trato do tema não é pensar em uma abordagem antidrogas dentro do espaço escolar. Pelo contrário, a autora acredita ser conveniente uma perspectiva crítica do mundo, nutrida pelo conhecimento das realidades de onde os alunos habitam. Para a autora, é importante compreender a utilização de drogas como uma realidade humana, comprovada historicamente, implicando admitir a ineficiência do impedimento dessa prática e considerando a diversidade e singularidades socioculturais envolvidas no uso das drogas (Acselrad, 2005; 2015). O problema da droga não existe em si, diz a autora, mas é o resultado do encontro de um produto, uma personalidade e um modelo sociocultural (Acselrad, 2015). Nessa visão, a autora percebe um grande problema de desinformação social. A combinação estranha e extremamente arriscada de preconceitos e julgamentos inadequados e cientificamente equivocados aumenta o tabu em torno do tema e dificulta a discussão do tema na escola e, sobretudo, em casa com os familiares. Os adultos, pouco informados, lembra ela, tendem a imaginar que todos os adolescentes usam drogas ilícitas. Se o adolescente é mais rebelde, se não presta atenção às aulas, se anda meio isolado dos colegas, logo tende a ser visto como quem usa drogas. A autora ressalta que cada adolescente é diferente do outro, com suas experiências, suas vivências, suas famílias, suas crenças e seu grupo social. Nesse sentido, qualquer pessoa – não apenas o adolescente, mas também o adulto –, a qualquer momento, poderá encontrar em seu caminho alguma substância psicoativa, mas a maioria não ficará doente por isso e não terá maiores problemas. Diante da droga, não existe um destino igual para todos (Acselrad, 2015; Coelho et al., 2016). Para Coelho et al. (2016), sobretudo pelo fato de as turmas de NEJA serem formadas por número significativo de alunos que já construíram famílias (algumas mães, gerenciadoras de seus lares, e alguns pais, chefes de suas casas), a sensibilização do tema drogas parece bastante convidativo por dois motivos: primeiro, afirmarem-se como cidadãos seguros e capazes de tomar e analisar suas decisões; segundo, serem capazes de dialogar e orientar pessoas que passam dificuldades, inclusive familiares e amigos. Em ambos os motivos, os autores sugerem que é convidativo sempre um diálogo pautado na troca de experiências e na ruptura de prejulgamentos. Partindo de uma premissa de Educação acolhedora, é sugestivo que o aluno da NEJA entenda que os indivíduos que interajam com eles, seja na escola, seja no trabalho ou na família, são seres únicos e passíveis de compreensão e entendimento (Coelho et al., 2016). Os autores identificam na pesquisa que, para vencer a timidez de falar sobre drogas, é importante que a escola se preocupe primeiramente em criar espaços de discussão do tema nas salas de aula noturnas. Assim, lembram os autores, os sujeitos da EJA têm a possibilidade de se familiarizar com o assunto, sensibilizando-se com a importância dos debates coletivos para instrumentalizar as pessoas próximas a tomar atitudes menos preconceituosas com temas considerados tabus. Nessa razão, Coelho et al. (2016) propõem a realização de seminários ou mesas de discussão sobre alguns tipos de drogas e, em seguida, sugerem debates mediados pelo próprio grupo que os apresentou. Dessa forma, os autores veem uma possibilidade de abertura do tema, em que todos podem se apropriar das experiências e vivências dos colegas de classe. Estratégias pedagógicas como essas podem ajudar a desmistificar o estigma do usuário como vítima isolada de um contexto, estimulando os alunos a um exercício de reposicionamento social, orientados por uma prática educativa menos julgadora e mais aberta a entender as limitações humanas; acreditamos que os estudantes tenderão a ser menos propensos ao uso problemático de substâncias psicoativas (Coelho et al., 2016). Partindo de preocupações da gestão escolar quanto a indícios de uso abusivo de drogas na comunidade e desinformação dos pais e jovens escolares em relação ao assunto drogas, e considerando o cenário tabu que a discussão do tema na escola ainda apresenta em pleno século XXI, o Projeto E3 (proveniente da sigla Encontro de Experiências com a EJA) foi elaborado e implementado no Colégio Estadual Professora Antonieta Palmeira (CEPAP). Emergindo da problemática citada e alimentada pela literatura referenciada, pensamos na possibilidade de formar os jovens e adultos no ensino noturno para o papel multiplicador e fomentador de debates e discussões com outros alunos do ensino regular e com membros da comunidade escolar (pais, parentes e colegas de alunos), repensando a escola não apenas como espaço de escolarização para os estudantes matriculados, mas aberto à comunidade escolar. Assim, resgatamos com esse projeto ações pedagógicas que estimulem os sujeitos da EJA a promover um bem-estar social não apenas para o seu turno, mas para toda a comunidade do entorno da unidade escolar, incentivando e estimulando o recurso de sua própria inteligência (Faria, 2005; Coelho et al., 2016).

Objetivos do Projeto E3

O objetivo geral do Projeto E3 foi a integração dos alunos da EJA com a comunidade escolar do Colégio Estadual Professora Antonieta Palmeira, sensibilizando-os e tornando-os multiplicadores para gerar debates sobre drogas, educação e saúde na unidade escolar com demais alunos do ensino regular.

Metodologia do Projeto E3

Partindo dos objetivos específicos do projeto, ele foi dividido em 3 etapas: Na etapa de formação geral, na disciplina de Biologia da NEJA foi aberto um momento avaliativo para a realização de seminários discentes em grupo com a turma 201 (segundo módulo). O propósito dessa etapa foi a familiarização do tema drogas com os alunos. Cada grupo foi responsável por estudar e abordar em particular uma espécie de droga psicoativa, falando de sua origem, seus principais usos sociais e terapêuticos, os principais problemas no uso abusivo dessa droga e as diferentes questões sociais envolvidas em seu uso, tanto abusivo quanto recreativo. Essa etapa teve a duração de três semanas. A segunda etapa de formação específica se iniciou com os alunos mais participativos e dialógicos em suas apresentações (independente dos seus grupos de origem), considerando também suas disponibilidades para realizar as ações educativas no horário vespertino. Essa fase aconteceu às sextas-feiras, à noite, durante três encontros, num breve curso de formação de multiplicadores para debates sobre drogas, educação e saúde na escola, ministrado pelo professor Francisco e sua equipe. A formação para os alunos da EJA partiu do aprimoramento de questões abordadas nos seminários discentes na etapa anterior. Além disso, ocorreram debates a partir de estudos de caso específicos da realidade escolar em torno do CEPAP. A etapa final foi de culminância, momento em que os alunos da EJA mediaram discussões com os alunos do regular junto a outros profissionais do ensino da escola, buscando, de forma lúdica e agradável, construir espaços de diálogo e aprendizagem sobre o tema drogas com outros alunos da escola. Essa etapa final ocorreu com duas turmas do 9º ano regular (salas 1 e 2). Dos nove alunos iniciais, apenas sete participaram dos debates. Dois tiveram problemas particulares e não puderam comparecer. Em cada sala, um aluno da NEJA foi eleito gerente de seu grupo e responsável pela organização e adoção das estratégias que fomentaram os debates. Ao final de todas as etapas do Projeto E3, os alunos da NEJA receberam certificados de participação no Projeto E3 – Debates sobre Drogas, Educação e Saúde na Escola, com carga horária de 30 horas, produzido pela unidade escolar.

Resultados e discussão do Projeto E3

Partindo de uma avaliação global e sistemática do Projeto E3, que teve sua culminância na última semana de junho (dia 29), o que foi notado em ambas as turmas (901 e 902) foi que a abordagem dialógica e a busca por seus pontos de vista tornou a discussão mais suave, e os alunos puderam se sentir produtivos e autoconfiantes por ter um espaço de troca com alunos da própria unidade escolar. Em seus depoimentos, revelaram que falar sobre algo tabu é necessário e que a discriminação muitas vezes provém de suas próprias famílias. Por meio de choros, risos e dúvidas, se sentiram, com os alunos da EJA, confortáveis para falar de suas experiências e dos casos mais difíceis em suas famílias e círculos de amigos. O Projeto E3 foi uma possibilidade de trazer a discussão sobre drogas para um espaço formal, mas afastado da formalidade do espaço escolar. Segundo os jovens do 9º ano, a proposta de falar sobre drogas, sobretudo sobre álcool e alcoolismo, deveria ser constante. Muitas pessoas sofrem e não têm com quem conversar, e essa abertura é necessária, como destacou uma das alunas, ao sair de sala aos prantos por ter lembrado de situações trágicas de alcoolismo que vivenciou em sua infância. O adolescente precisa desse espaço dialógico de troca, onde se sinta à vontade e possa ser ouvido, trazendo suas experiências e sanando suas dúvidas e angústias sobre o tema. Numa autoavaliação dos multiplicadores da EJA, em reunião posterior ao evento, este foi uma possibilidade de fazer algo informal num lugar de formalidades. Para os alunos do noturno, notamos que o projeto foi uma motivação e resgate da autoconfiança. Os jovens se sentiram capazes e acreditados para mediar grupos e a trazer suas experiências de vida e liderança para os adolescentes. Tendo em vista o comportamento aberto e discursivo dos jovens e o conforto que tiveram em se manifestar sem o peso da avaliação formal, o que se pode notar é que as ações do projeto foram positivas e permitiram que os alunos da EJA se tornassem (mesmo de forma basal) mediadores e multiplicadores de debates inclusivos sobre o tema drogas na escola, divulgando os conhecimentos adquiridos na formação somados às suas vivências. Esse projeto revelou a possibilidade que as interações entre turnos podem assumir na escola, a partir de uma mudança de olhar dos alunos do regular e da responsabilidade dada aos alunos do ensino noturno. Em uma ocasião, na sala 2 (902), uma das alunas durante a discussão se emocionou com a situação vivida do alcoolismo e violência do pai com sua mãe, o que gerou um momento de sensibilização da turma em relação à colega. Ações como o projeto E3 nas escolas públicas podem ser ferramentas geradoras de espaços de diálogo, aprendizagem e, sobretudo, de superação pessoal para aprender a falar, vencer o medo do tabu do tema e se preparar para tomar decisões na vida adolescente e adulta. Além de idealizador e coordenador desse projeto, que não contou com qualquer fomento público ou privado, me tornei acima de tudo um grande aluno de todo esse processo. Essas ações inovadoras acabam partindo muito mais de nossos ideais e desejo de transformação humana do que propriamente dos investimentos políticos. Percebi o quanto era parecido com esses alunos e o quanto sofri com problemas relacionados ao uso abusivo de drogas em minha infância e como ações como essas nas escolas podem reduzir a vulnerabilidade de muitos jovens em relação a discutir o tema e se sentir mais autoconfiantes. De tudo e todos, penso que eu, como docente, pesquisador e amante da função de ensinar, me tornei bem mais confiante com esse processo. Isso revela que, de fato, nem todo ensino gera aprendizagem, mas transformar o ensino a partir de iniciativas simples e estimuladoras pode gerar aprendizagens significativas e inesquecíveis ao aluno. Talvez, ainda que de forma romântica, possa ser um dos primeiros passos para que políticas públicas realmente efetivas melhorem o sistema público de educação e colabore para que o uso abusivo de entorpecentes não seja tão atrativo para os jovens.

Agradecimentos

Agradecimentos à parceria com a articuladora pedagógica, pedagoga e fonoaudióloga Márcia Barreto e à diretora Glaucia Maciel pela parceria e o trabalho em equipe no CEPAP. Também agradeço às professoras Priscila Martinhon e Célia Regina, do Instituto de Química da UFRJ, pelo carinho e visitas realizadas no Projeto E3.

Referências para construção do projeto

ACSELRAD, G. A educação para a autonomia: construindo um discurso democrático sobre as drogas. In: ACSELRAD, G. (Org.). Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2005. p. 183-212. ACSELRAD, G. (Org.). Quem tem medo de falar sobre drogas: Saber mais para se proteger. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais – terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: Saúde. Brasília: MEC/SEF, 1998. COELHO, F. J. F.; MARTINHON, P. T.; PORTO, P.; ARAUJO, M. Memórias sobre uso e abuso de drogas: abrindo espaços de diálogo e aprendizagem na NEJA e pensando novas formas de abordagem do tema no ensino noturno. 2016. TCC (especialização) – NUEC, Universidade Federal Fluminense, Niterói. CARLINI-COTRIM, B. Drogas na escola: prevenção, tolerância, e pluralidade. In: AQUINO, J. G. (Org.). Drogas na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998. p. 19-30. CARLINI-COTRIM, B. A escola e as drogas: realidade brasileira e contexto internacional. 1992. Tese (doutorado) – Departamento de Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia -saberes necessários à prática educativa. 36ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.