A aula de campo como instrumento facilitador da aprendizagem em Geografia no Ensino Fundamental

Cristiane Aureliano de Sousa

Docente da rede estadual do Estado da Paraíba, geógrafa, especialista em Fundamentos da Educação (UEPB)

Monalisa Cristina Silva Medeiros

Docente da rede estadual do Estado da Paraíba, geógrafa, doutoranda em Recursos Naturais (UFCG)

José Adailton Lima Silva

Geógrafo, doutorando em Recursos Naturais (UFCG)

Laíse Nascimento Cabral

Geógrafa, doutoranda em Recursos Naturais (UFCG)

Introdução

O processo de ensino e aprendizagem é um procedimento muito complexo, que envolve entrega tanto do docente quanto dos discentes. Para que possa acontecer, deve haver uma sintonia somada a interesses e empenhos vindos de todo corpo formador do espaço escolar.

No entanto, atualmente muitas são as dificuldades enfrentadas no âmbito escolar e, em virtude disso, muitos discentes acabam desmotivados no ambiental educacional. Diante disso, cabe ao profissional da educação transformar essa realidade que tanto dificulta o processo de ensino e aprendizagem por meio de alternativas, ou seja, estratégias didáticas atraentes para o alunado.

Nesse contexto, destaca-se a aula de campo como um importante recurso didático, facilitador da aprendizagem, tendo em vista as necessidades por busca de estratégias didáticas que facilitem a relação entre professores e alunos, pois o trabalho fora da sala de aula tende a auxiliar a construção do conhecimento. De acordo com Lima e Assis (2005, p. 112), “o trabalho de campo se configura como um recurso para o aluno compreender o lugar e o mundo, articulando a teoria à prática, através da observação e da análise do espaço vivido e concebido”.

Diante da abordagem anterior, este trabalho visa discutir a importância da aula de campo como metodologia didática para facilitar a compreensão da ciência geográfica, com base em uma análise dos benefícios que a aula de campo proporciona, tendo como objeto de estudo o Ensino Fundamental.

Em suma, a presente pesquisa objetiva analisar os benefícios do uso da aula de campo como ferramenta metodológica para o ensino geográfico. Para tanto, foram realizadas aulas de campo com turmas do Ensino Fundamental II no município de Campina Grande-PB, desenvolvidas e concretizadas na cidade de Areia, no mesmo estado. Essa atividade possibilita aos discentes relacionar a teoria vista em sala de aula com a prática, em campo.

Trabalho de campo enquanto método didático

Muitos são os estudos referentes à importância da aula de campo para a construção do conhecimento e o desenvolvimento do raciocínio lógico dos educandos. Por isso, Carbonell (2002) destaca que os espaços fora da sala de aula despertam a mente e a capacidade de aprender, pois se caracterizam como espaços estimulantes que, se bem aproveitados, se classificam como um relevante cenário para a aprendizagem. Para Viveiro e Diniz (2009), a aula de campo se propaga também como um aumento de afeto e confiança entre discentes e docentes.

Nesse contexto, compreende-se que a atividade de campo consiste no contato direto com o ambiente de estudo fora dos muros burocráticos da sala de aula, que permite ao professor o conhecimento de um instrumento pedagógico eficiente e bastante proveitoso na relação ensino-aprendizagem. Mas é importante destacar que, por ser um método didático que auxilia o professor em suas aulas teóricas, não deve ser utilizada sem fundamentação prévia, tendo em vista que sua função principal é a materialização da teoria.

Diante dessa abordagem, entendemos que, para a concretização dos objetivos, a aula de campo não se configura necessariamente apenas como uma viagem ou passeio. Por isso, Passini (2007, p. 172-176) atenta que “a aula de campo seria um método ativo e interativo, pois o espaço não é fragmentado. Ele é a sala de aula, o pátio da escola, o refeitório, o corredor, a rua do colégio, a casa do aluno, o bairro, a cidade, o município, o parque florestal, o fundo de vale, entre outros”. O autor esclarece que o ambiente escolar é o meio, que pode ser utilizado para a realização de uma aula de campo, bem como a comunidade no entorno; sendo assim, não há empecilhos para a sua realização, e qualquer escola pode desenvolver esse método com os alunos.

Pelo contato direto com o conteúdo, os estudantes que participam da atividade de campo são motivados e estimulados a pensar criticamente; dessa forma, confrontam informações associando a aula teórica ao momento. Esse estímulo possibilita ao educando um motivo maior de aprender e de formar conhecimento pelo desafio do pensar crítico.

Diante da busca por alternativas que visam facilitar e dinamizar a aprendizagem, destaca-se a importância de estudar o meio, sendo este um componente que faz parte do processo de ensino. Segundo Libâneo (1994, p. 71), todos esses procedimentos que permitem uma discussão em torno do mundo concreto do aluno devem ser enriquecidos com visitas às localidades abordadas.

Nesse sentido, vale salientar que o sentido das expressões estudo do meio e atividade de campo não são sinônimas. Para Goettems (2006), o primeiro termo vem sendo utilizado de forma indiscriminada; no entanto, a atividade de campo seria uma das atividades desenvolvidas dentro do estudo do meio, prática criada por educadores ao longo de décadas, que possibilita a compreensão do mundo e a superação de desafios sócio-educacionais de cada momento histórico.

Para Rodrigues e Otaviano (2001), quando relacionamos os conteúdos vistos com a situação vivenciada na aula de campo, temos uma forte tendência em desenvolver no aluno uma sensibilização maior ao mundo natural e cultural, além de propiciar o enriquecimento harmonioso da personalidade do aluno e a aquisição de conhecimentos de conteúdos relacionados à visita.

A importância da aula de campo no ensino da Geografia

O trabalho de campo é uma técnica bastante utilizada na Geografia desde o seu surgimento, e isso é percebido pelos relatos de pesquisadores, viajantes, naturalistas que utilizavam o meio como instrumento de análise. O homem, desde sua origem, sentiu a grande necessidade de conhecer melhor o seu lugar e os recursos inerentes à sua sobrevivência. Para Hissa e Oliveira (2004), essa prática contribuiu para o fortalecimento da Geografia e o desenvolvimento da pesquisa, uma vez que a observação e a descrição foram pontos primordiais para o aperfeiçoamento dessa ciência.

Segundo os PCN o professor não deve se colocar unicamente como um profissional no ensino de Geografia, mas sim como um educador que deve buscar a realidade dos seus alunos e mostrar-lhes que importância tem a Geografia para a compreensão de seu cotidiano. E o campo dá base para a interseção da realidade do aluno com o conteúdo abordado.

Essa estratégia permite trabalhar conceitos chave da Geografia: espaço, território, paisagem e lugar como categorias imprescindíveis para a explicação e a compreensão na análise geográfica, ajudando o educando a desvendar a natureza dos lugares e do mundo como habitat do homem (PCN, 1998, p. 55).

Diante dessa abordagem, o ensino da Geografia tem uma missão importante para sensibilizar o alunado de sua participação social no mundo. Se antes a Geografia era vista como uma disciplina em que se decorava e descrevia, atualmente ela vai bem mais além, pois exige que seja feita reflexão a fim de compreender vários fenômenos nos âmbitos sociais, naturais e culturais, dentre outros. É o que afirma Antunes (apud Silva et al., 2013).

Silva, Faria et al. (2013) ressaltam que o professor deve desafiar seus alunos para que eles saibam analisar, compreender, contextualizar o conteúdo; e ainda afirmam que essa mudança exige que o professor procure outros métodos para inovação e para desenvolver essas habilidades nos alunos.

“É importante destacar também que o [...] professor deve aguçar, na medida do possível, a curiosidade dos alunos para que, a partir das suas observações e das informações coletadas, possam construir suas aprendizagens, alcançando, assim, os objetivos propostos para a saída ao campo (Falcão; Pereira et al., 2005, p. 112).

Figueiredo e Silva (2009) explicam que esses acontecimentos mostram a transição da Geografia tradicional para a Geografia crítica, tendo em vista que as observações descritivas e não contextualizadas passam agora a serem abordadas com um caráter questionador, na busca por respostas que sejam coerentes e que associem fatores, que transformam o aluno em um investigador com capacidade crítica de relacionar e questionar conteúdo.

Esse caráter crítico que a Geografia conquista e a coloca como um componente privilegiado no currículo por sua ampla definição interdisciplinar facilita as mais variadas abordagens de conteúdo no campo. Portanto, a aula de campo é uma ferramenta do ensino da Geografia que promove no discente uma melhor concepção do seu espaço, intensifica a construção do saber e desenvolve a cidadania. Para o docente, é um apoio na saída da rotina das aulas tradicionais que oferece recursos dinâmicos para despertar o interesse pela Geografia.

Neves (2010) destaca que é na aula de campo que se desenvolve o caráter pesquisador, investigador do estudante e que essa contextualização entre conteúdo e aula prática no campo influencia diretamente a construção da ciência e sua relevância social.

É de extrema importância destacar que, ao contrário do que se imagina, a aula de campo não é concretizada apenas pela visita ao meio em si, pois todo o conjunto engloba o planejamento, a delimitação dos conteúdos abordados que serão elos entre a aula teórica e a prática e a elaboração de roteiros. Ou seja, tudo que é pensado e elaborado antes, durante e depois são elementos fundamentais para o sucesso da aula de campo; da mesma forma que é importante o planejamento para a saída a campo, o retorno significa ainda mais, tendo em vista que esse é o momento para a discussão, para as contribuições que o estudo trouxe para o crescimento intelectual dos estudantes.

Nesse sentido, Barros (2010) ressalta a importância de fazer uma avaliação em torno dos resultados obtidos com a aula de campo, pois, conforme afirma Viveiro & Diniz (2009, p. 5), “limitar essa atividade apenas à visita propriamente dita constitui-se num desperdício das potencialidades passíveis de serem trabalhadas por meio das atividades de campo”.

Dentre as maiores dificuldades enfrentadas na realização de uma aula de campo, a reflexão sobre ela ainda é a parte mais difícil de compreender, pois permanece a ideia de que aula de campo não seria aula ou seria um dia de passeio – o que não é verdade, e diante dessa realidade é preciso compreender que o objetivo da aula de campo é consolidar os conteúdos dados em sala de aula. É nesse momento que todo o conteúdo indispensável para o ensino e a aprendizagem do aluno se materializa em sua frente; dessa forma, o ato de planejar milimetricamente cada detalhe da atividade de campo é indispensável, caso contrário a saída da sala de aula nada mais será que uma mera excursão recreativa, como afirma Marcos (2006).

Diante dessa abordagem, quando existe falta de planejamento dificilmente o professor conseguirá obter resultados positivos. O planejamento do trabalho de campo é fundamental para que os professores atinjam os objetivos definidos e propostos.

Procedimentos metodológicos do trabalho de campo

Planejar o que se pretende obter com essa metodologia didática é fundamental, caso contrário o momento se transformará num momento de turismo. Os passos do planejamento foram iniciados a partir de um projeto para nortear a concretização da aula de campo.

Nessa perspectiva, o planejamento começa por uma sondagem, uma análise das potencialidades do ambiente que se pretende visitar. Na atividade em questão, o município escolhido para realizar os estudos de campo foi Areia, na Paraíba. A escolha desse município se deu pelo fato de ele ser um dos mais antigos do estado, fator que o coloca como um instrumento vivo da história e cultura da região. O município de Areia fica localizado na mesorregião do Agreste e na microrregião do Brejo paraibano, com uma população de 23.837 habitantes (IBGE, 2010).

O município tem grande importância histórica e cultural, conhecida nacionalmente por seu acervo histórico, em seus museus e obras arquitetônicas, revelando e resgatando a herança cultural da região. O tombamento de seu acervo histórico em 2006 demonstra a importância e a preocupação em manter viva a formação inicial de seu território e sua arquitetura, que retoma símbolos de poder e tradição desde sua formação no século XVII (Almeida; Caldas, 2010).

Depois foi realizada a preparação pré-campo, ou seja, a realização do planejamento para assegurar o sucesso da atividade. Segundo Lima e Assis (2005), esta etapa é fundamental para o sucesso do trabalho de campo. Para Falcão (2005) e Pereira et al. (2005), “a preparação [pré-campo] é uma etapa fundamental para o sucesso do trabalho de campo. A realização de um bom planejamento pode assegurar que os objetivos traçados sejam realmente alcançados durante a saída da escola”.

Primeiramente foi realizada uma visita preliminar, essencial para a organização e estruturação da aula: desenvolvimento do roteiro, horários e lugares para refeições e descanso, contratação de um guia para orientação em relação ao roteiro escolhido. A visita previa a localidade para a realização da aula de campo; isso é indispensável na sua organização, tendo em vista que evita frustrações e fuga dos objetivos pretendidos (Barros, 2010).

A partir daí, foram definidos percurso, duração, locais a serem visitados e temas abordados. Para isso foram utilizados recursos como mapas, imagens aéreas e fotográficas e fichas de cadastro de atrativos, entre outros.

Os conteúdos abordados estrategicamente coincidiram com o que é estudado no 7º ano, a compreensão do território brasileiro desde sua ocupação e formação, porque, conforme afirma Barros (2010), esse momento é uma ponte entre teoria e prática e permite reflexões e a aproximação dos conteúdos vistos em sala de aula com os conteúdos que irão ser vivenciados.

Alentejado e Rocha-Leão (2006) afirmam que esse momento do processo de produção do conhecimento não pode prescindir da teoria, sob pena de tornar-se vazio de conteúdo, incapaz de contribuir para revelar a essência dos fenômenos geográficos.

Além disso, também houve preparação dos alunos com a exposição da proposta para eles em seminários abordando a importância histórica do Agreste, em especial dos Brejos e Areia, destacadas como ícone dessa microrregião, e o papel de zona de transição do Agreste, a produção das policulturas e da cana-de-açúcar, a importância dos engenhos não só para essa sub-região como para a economia inicial do Brasil.

Todo material utilizado nas aulas foi cuidadosamente organizado e elaborado pelos docentes; foram confeccionadas pastas com o roteiro da aula de campo, canetas e cadernetas para anotações.

Para a escolha do roteiro da aula de campo, utilizou-se como critério a diversificação, permitindo uma visão geral dos principais museus, arquiteturas e monumentos historicos, realizando uma discussão e uma atividade de pesquisa. Foram aplicados questionários previamente elaborados por alunos e professora com o objetivo de analisá-los e confrontá-los entre si e com as teorias; a análise foi concretizada na forma de um relatório final.

Trabalho de campo como ferramenta educativa: detalhando o percurso geográfico

Uma aula de campo é um momento impar para o aluno e permite a articulação dos conhecimentos apreendidos em sala de aula com a observação direta dos fenômenos do espaço.

Nesse momento é realizado o estudo do meio, que consiste numa metodologia de ensino interdisciplinar que objetiva desvendar a complexidade de determinado espaço. Além disso, segundo Pontuschka et al. (2007, p. 173), permite que o aluno e professor se embrenhem em um processo de pesquisa, pois mais importante do que dar conta de um extenso rol de conteúdo sem relação com a vivência do aluno, é saber como esses conteúdos são produzidos. O deslocamento realizado na atividade de campo proporciona a abordagem de questões pertinentes já explanadas em sala de aula. Assim, será detalhado de forma sucinta o percurso geográfico realizado.

A aula de campo com destino à cidade histórica de Areia-PB ocorreu com a presença de 50 alunos de duas turmas de 7º Ano e três professores, sendo dois de Geografia e um de Ciências da escola EEEF Dom Helder Câmara. Os alunos receberam orientações sobre o comportamento e o roteiro da viagem, que foi seguido rigorosamente e onde constava todo o fundamento dos conteúdos expostos em sala de aula.

A saída para a aula de campo ocorreu exatamente às 7h30min e a chegada foi por volta das 9h da manhã. Na ocasião, houve a recepção do guia para acompanhamento durante todo o percurso, o que foi essencial para o sucesso da aula.

A primeira visita foi à Universidade Federal da Paraíba. Na Foto 1(a), observa-se que os alunos puderam apreciar a estrutura da universidade e a diversidade da flora em uma caminhada até o Museu da Rapadura, que se encontra no próprio prédio.

Na Foto 1(b) pode ser observada a visita ao Museu da Rapadura, que permitiu compreender a importância dos engenhos no surgimento e desenvolvimento das cidades do brejo paraibano. A chegada ao museu foi de grande entusiasmo, pois os alunos puderam observar a evolução das máquinas utilizadas na fabricação dos derivados da cana-de-açúcar. Nesse momento, a aula contou com o apoio do guia, que também é professor de História e fez todo um resgate vivo daquele momento histórico.


Foto 1: Alunos caminhando em trilha em direção ao Museu da Rapadura (a)/ No Museu da Rapadura (b)
Fonte: Autores (2015)

A segunda parte da aula aconteceu no centro histórico da cidade, e os alunos puderam ir ao encontro da história de personagens historicamente importantes para a região, como o pintor Pedro Américo, conhecido por seus quadros Batalha do Avaí e Grito do Ipiranga, e o escritor José Américo de Almeida (Foto 2). Assim, assistiram a uma aula dialogada e visível, a partir de monumentos históricos da cidade e de objetos pessoais dos ilustres.


Foto 2: Alunos na Casa Pedro Américo (a)/Alunos no casarão José Rufino (b)
Fonte: Autores (2015).

Os estudantes também puderam conhecer a evolução da sociedade tradicional da localidade, vendo objetos religiosos e a vida pessoal e profissional de padres que fizeram parte da paróquia local.

A terceira etapa da atividade de campo foi o momento de descontração, relaxamento e alimentação. Após o almoço e o posterior descanso, os alunos partiram em direção a uma trilha ecológica pela Mata do Pau Ferro, uma unidade de conservação que resguarda uma diversidade de espécies da Mata Atlântica tão devastada em todo o estado (Foto 3).

Nesse momento foram explanadas detalhadamente a importância da floresta, as práticas de preservação e a relevância da Educação Ambiental. Isso porque uma aula realizada onde os alunos estão em um espaço propício para trabalhar as questões ambientais é o momento ideal para tal, uma vez que é importante fazer a conscientização sobre como o ser humano poderá preservar o meio onde ele está inserido. Como contemplam os PCN (1998, p. 46), “como o objeto de estudo da Geografia refere-se às interações entre a sociedade e a natureza, um grande leque de temática de meio ambiente está necessariamente dentro do seu estudo (...) e pode ser abordado pelo olhar da Geografia”.

Assim, o docente pode realizar uma atividade mais aprofundada abordando no campo assuntos relacionados à Educação Ambiental, conforme foi realizado na ocasião, discutindo e refletindo os problemas ambientais que o planeta vem sofrendo e as estratégias sustentáveis que exige.

Foto 3: Alunos na trilha pela Mata do Pau Ferro

Fonte: Autores (2015).

Como resultado desta aula em meio à vegetação natural, percebeu-se que o docente poderá realizar uma atividade mais aprofundada, abordando no campo assuntos relacionados à Educação Ambiental, conforme foi realizado na ocasião, discutindo e refletindo sobre os problemas ambientais e as estratégias sustentáveis que podem ser implantadas cotidianamente.

Diante da experiência, é visível que o estudo da Geografia por meio dessa ferramenta didática (aula de campo) é muito proveitoso e possibilita a melhoria do ensino, pois os discentes têm a oportunidade de observar na prática os conteúdos abordados em sala de aula. Sobre isso, Tomita (1999) ressalta que o professor deve incentivar os alunos e preocupar-se em atualizar e aperfeiçoar o conhecimento e ter satisfação em experimentar novas técnicas.

Em suma, este trabalho de campo proporcionou aos discentes o domínio cognitivo, uma relação entre teoria e prática e permitiu a apreensão de novos conhecimentos e formas de compreender e analisar o espaço; portanto, pode-se afirmar que os objetivos propostos foram alcançados.

Reflexão sobre a importância da aula de campo para discentes e docentes

A experiência dos discentes, de vivenciar uma aula de campo, foi muito gratificante, tendo em vista que para a maioria foi a primeira vez que participaram de tal atividade. Segundo Scortegagna e Negrão (2005), o trabalho de campo em Geografia é muito importante, visto que “as práticas de campo apresentam infinitas possibilidades de pesquisa e investigação, pois é na ciência geográfica que aspectos físicos e humanos se tornam objetos de estudo concomitante”. Esse momento passa por pensar, por ler a realidade, por compreender os processos, identificar problemas e gerar soluções, o que requer competências cognitivas complexas que implicam o desenvolvimento da inteligência, muito além da memória, exigindo uma articulação entre o fazer e o conhecer (Cunha et al., 2008).

A partir da aplicação de questionários, concluímos que para os alunos que participaram da aula de campo, entre os recursos mais interessantes para aprender Geografia estão debates, vídeos, jogos, informática; para a maioria, a aula de campo seria a melhor estratégia para compreender tal ciência, conforme podemos observar na Figura 1. Isso se explica porque eles conseguem assimilar melhor o conteúdo quando existe a possibilidade de conhecer pessoalmente a realidade/problemática estudada, ali onde os conteúdos dos livros didáticos podem ser compreendidos em sua essência.


Figura 1: Recursos mais favoráveis para os alunos nas aulas de Geografia

Sobre isso, Oliveira e Mendonça (2003 p. 14) destacam que

essas práticas não descartam e nem substituem o trabalho com textos e as aulas expositivas, que são a base do aprendizado do aluno, mas são ferramentas preciosas que permitem mostrar aos alunos que o espaço é algo dinâmico e que as vivências e as reflexões espaciais influenciam a sociedade em todo momento e só reconhecendo-se como integrante desse movimento é que se constrói a cidadania, e este é um desafio constante para as aulas de Geografia.

Do ponto de vista dos discentes, a aula de campo é diferente, transforma uma aula boa em uma aula inesquecível. A aluna H. M. S. L classificou a experiência: “Achei uma aula super diferente, pois saímos da sala de aula e fomos conhecer melhor as riquezas que temos no Nordeste”.

Quanto ao objetivo alcançado ao retornamos a sala de aula, os alunos foram questionados se conseguiram apreender a relação entre o conteúdo que haviam estudado em sala de aula com aquele visto na aula de campo; o resultado foi satisfatório, pois a maioria conseguiu relacionar os conteúdos dentro e fora da sala de aula (Figura 2).


Figura 2: Relação de conteúdos de sala de aula na aula de campo

Segundo a aluna E. V. M. P., foi uma experiência bastante construtiva, com “lugares interessantes e bonitos que antes eu só via em livros”. Nessa afirmativa é possível enxergar a importância da aula de campo para contextualizar a realidade que por vezes só é retratada/conhecida pela mídia ou pelos meios de comunicação (TV, internet, radio etc.).

A organização também foi um ponto questionado de forma positiva por discentes e docentes. Todos os participantes da aula de campo à cidade de Areia reconheceram que tinha sido bem planejada e estruturada; muitos exaltaram a figura de um guia que auxiliou sobremaneira os professores, pois ele tinha conhecimento mais aprofundado do local de estudo; valorizaram o almoço e as paradas para fotos e explicações, o que constituiu fator relevante para o sucesso da atividade.

Em suma: lecionar é isso, é a arte de criar e utilizar várias modalidades didáticas que irão orientar o professor no melhor desenvolvimento de seu trabalho. Essas variações que fazemos dentro e fora da sala de aula são muito atrativas para que o aluno sinta vontade de permanecer e aprender na escola.

Por fim, Martins (2009) destaca que essa ferramenta didática é um conjunto de recursos que faz com que o aluno seja autor do seu próprio conhecimento, onde ele terá a base dos conteúdos dados na sala de aula, mas será capaz de organizar essas informações de acordo com a importância e a assimilação que faz de forma presencial, além de despertar para a importância da relação com o meio. Logo, o professor que quer melhorar ou mudar suas práticas deve focar em recursos que coloquem o aluno como próprio autor de seu conhecimento; nesse sentido, a aula de campo é uma estratégia muito proveitosa.

Considerações finais

Com base neste estudo, pode-se afirmar que há uma busca constante por alternativas capazes de driblar as dificuldades enfrentadas por professores da educação básica na construção do conhecimento geográfico: o educador necessita adotar estratégias que facilitem e intensifiquem a aprendizagem, sendo a aula de campo um grandioso instrumento educacional.

Assim, o estudo desenvolvido buscou despertar nos alunos o interesse pelas aulas de Geografia, vista por muitos como uma disciplina meramente “de decoreba e descritiva”. Com a aula de campo, os alunos conseguiram identificar o conteúdo geográfico na prática, na essência, fora dos livros didáticos, e puderam ver, sentir e, consequentemente, compreender e relacionar o conteúdo teórico à prática.

As contribuições foram além dos discentes, pois professores puderam perceber que a aula de campo é uma estratégia interessante e possível. Logo, pode e deve ser implantada como ferramenta metodológica no processo de ensino-aprendizagem.

Finalmente, pode-se afirmar que o trabalho de campo é bastante útil no entendimento da ciência geográfica, assim como é imprescindível para o processo de ensino-aprendizagem em diversas ciências/disciplinas que buscam transformar nossos alunos em seres pensantes, críticos e atuantes.

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Publicado em 25 de outubro de 2016