Elaboração e aplicação de jogo didático com temática ambiental: o aquecimento global como tema transversal no ensino de Termodinâmica

Adriana Oliveira Bernardes

Mestre em Ensino de Ciências (UENF)

Pamela Werneck Terra

Assistente Social pela UFF e graduanda em História pela UNIFRAN

Pesquisas demonstram que recursos lúdicos podem ser utilizados com êxito em sala de aula; isto revela a possibilidade de o professor não se apoiar apenas em aulas expositivas. Sabemos que a utilização de tais recursos é importante para o aprendizado dos alunos e que pode trazer melhora significativa em seu desenvolvimento, principalmente na área de Física, disciplina tida pelos alunos como de difícil assimilação. Conhecendo a importância de um trabalho diversificado em sala de aula, no qual recursos lúdicos possam ser disponibilizados aos alunos, elaboramos o jogo “Temperatura máxima”, no qual conteúdos relacionados a aquecimento global são trabalhados de forma transversal no 2º ano do Ensino Médio, a partir do tema Termodinâmica. Consideramos relevante o trabalho desenvolvido, já que as Orientações Curriculares falam na importância de envolver os alunos em questões ambientais; fizemos isso utilizando recurso lúdico, despertando nos alunos maior interesse em participar das atividades. O trabalho envolveu a criação de um recurso didático que pode ser utilizado pelos professores em sala de aula, já que cumpre as habilidades e competências do novo currículo mínimo de Física do Estado do Rio de Janeiro, elaborado em 2011 e que foi apresentado à comunidade escolar por meio de oficina oferecida em uma feira de ciências, obtendo resultados positivos, conforme verificado em pesquisa qualitativa realizada com o público participante. Neste artigo apresentamos um trabalho no qual foi desenvolvido jogo didático para o aprendizado de questões ambientais, para ser trabalhado de forma transversal ao conteúdo de Termodinâmica, além de discussões presentes nos PCN, PCN+ e Orientações Curriculares sobre a importância do trabalho com jogos em sala de aula. Na disciplina de Física, vários conceitos relacionados à questão do aquecimento global e do efeito estufa podem ser trabalhados de forma transversal associada ao conteúdo de Termodinâmica, presente no 2o ano do Ensino Médio do novo currículo mínimo estadual, através das habilidades e competências presentes na Tabela 1. Tabela 1 – Habilidades e competências do Currículo Mínimo estadual de Física
2º ano do Ensino Médio
- Reconhecer, utilizar, interpretar e propor modelos explicativos para fenômenos naturais ou sistemas tecnológicos.
- Reconhecer que trabalho e calor são diferentes formas de transferência de energia.
- Reconhecer os processos de transmissão de calor e sua importância para compreender fenômenos ambientais.
- Compreender fenômenos naturais ou sistemas tecnológicos, identificando e relacionando as grandezas envolvidas.
- Identificar a participação do calor e os processos envolvidos no funcionamento de máquinas térmicas de uso doméstico ou para outros fins, tais como geladeiras, motores de carro etc., visando sua utilização adequada.
- Identificar o calor como forma de dissipação de energia e a irreversibilidade de certas transformações para avaliar o significado da eficiência em máquinas térmicas.
- Compreender a degradação da energia evidenciada em todos os processos de troca energética.
- Identificar regularidades, invariantes e transformações.
- Compreender a conservação de energia nos processos termodinâmicos.
O Currículo Mínimo estadual de Física aborda a importância do trabalho com temas transversais no seguinte parágrafo:
Entendemos que o estabelecimento de um Currículo Mínimo é uma ação norteadora que não soluciona todas as dificuldades da Educação Básica hoje, mas que cria um solo firme para o desenvolvimento de um conjunto de boas práticas educacionais, tais quais: o ensino interdisciplinar e contextualizado; oferta de recursos didáticos adequados; a inclusão de alunos com necessidades especiais; o respeito à diversidade em suas manifestações; a utilização das novas mídias no ensino; a incorporação de projetos e temáticas transversais nos projetos pedagógicos das escolas; a oferta de formação continuada aos professores e demais profissionais da educação nas escolas; entre outras — formando um conjunto de ações importantes para a construção de uma escola e de um ensino de qualidade (Currículo Mínimo Estadual de Física, 2012, p. 2).
A questão ambiental é uma preocupação mundial nos dias de hoje e está presente na mídia quase todos os dias; vem daí a importância de trabalhar o tema junto à Física, possibilitando ao aluno uma nova visão do que pode ser o ensino da disciplina, tornando-o contextualizado e menos matematizado. Terremotos, tsunamis, ondas de calor, enchentes são temas que fazem parte do nosso cotidiano. Tais assuntos normalmente são apresentados nas disciplinas de Ciências no Ensino Médio, tendo sua importância ratificada pelos PCN. Porém também a Física pode trabalhar questões ambientais, o que foi feito neste trabalho de forma transversal ao conteúdo de Termodinâmica que faz parte do Ensino Médio. Em relação ao tema, os Parâmetros Curriculares Nacionais afirmam:
O tema Meio Ambiente pode ser mais amplamente trabalhado quanto mais se diversificarem e intensificarem a pesquisa de conhecimentos e a construção do caminho coletivo de trabalho, se possível com interações diversas dentro da escola e desta com outros setores da sociedade (Brasil, 1997, p. 192).
Em Física também é possível o trabalho transversal, que pode trazer novas perspectivas para o ensino da disciplina:
Trabalhar de forma transversal significa buscar a transformação dos conceitos, a explicitação de valores e a inclusão de procedimentos, sempre vinculados à realidade cotidiana da sociedade, de modo que obtenha cidadãos mais participantes. Cada professor, dentro da especificidade de sua área, deve adequar o tratamento dos conteúdos para contemplar o tema Meio Ambiente, assim como os demais temas transversais (Brasil, 1997, p. 194).
O trabalho foi desenvolvido a partir da elaboração de jogo didático com o tema; em relação à utilização dos jogos na educação, os PCN afirmam que
Utilizar jogos como instrumento pedagógico não se restringe a trabalhar com jogos prontos, nos quais as regras e os procedimentos já estão determinados; mas, principalmente, estimular a criação, pelos alunos, de jogos relacionados com os temas discutidos no contexto da sala de aula (PCN, 2006, p. 53).
O jogo elaborado traz a discussão de conceitos importantes relacionados ao aquecimento global, como temperatura e gases, entre outros.

Metodologia

A experiência foi realizada no Colégio Estadual Dr. Tuffy El Jaick (CETEJ); participaram dele 315 alunos do Ensino Médio e vários membros da comunidade escolar, composta por professores, funcionários e pais de alunos. O CETEJ localiza-se em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro; o colégio oferece Ensino Fundamental e Ensino Médio; do 1o ao 9o ano do Ensino Fundamental, o curso é oferecido no turno da tarde, e do 1o ao 3o ano do Ensino Médio é oferecido no turno da manhã. No total são 270 alunos matriculados no Ensino Fundamental e 315 no Ensino Médio. O colégio conta com o laboratório de informática equipado com 20 computadores do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (Proinfo) e com um orientador tecnológico (OT) que cumpre 24 horas semanais no laboratório. Inicialmente, realizamos pesquisa qualitativa com os alunos de todas as turmas do Ensino Médio, perguntando o tipo de recurso mais utilizado pelos professores. Constatando que são as aulas expositivas, prontificamo-nos a elaborar um recurso lúdico que pudesse ser utilizado em sala de aula. O jogo foi aplicado em oficina oferecida aos alunos em feira de ciências escolar. Foi elaborado em conjunto por dois alunos do Ensino Médio participantes da iniciação científica, oferecida por meio do desenvolvimento de projeto escolar. Foi escolhido o jogo de tabuleiro, por ser mais fácil de confeccionar e ser velho conhecido dos alunos. O jogo foi elaborado no Microsoft Word e é apresentado na Figura 1. No jogo há uma trilha na qual os jogadores, munidos dos pinos azul, verde, vermelho e amarelo, saem do início, progredindo nas casas jogando o dado até a chegada. Figura 1 – Tabuleiro do jogo Temperatura Máxima

Regras do jogo

Inicialmente os jogadores devem decidir quem será o primeiro, o que pode ser feito da maneira escolhida por eles. O escolhido deve jogar o dado para descobrir quantas casas irá avançar no jogo. Algumas das casas do tabuleiro possuem o item Responda; caindo nessa casa, uma carta é retirada do baralho pelo jogador a sua direita, com uma pergunta a ser lida em voz alta o jogador deve responder a essa pergunta. A resposta consta da carta; caso o aluno acerte, avança uma casa; caso erre, volta uma. Algumas casas do tabuleiro oferecem a possibilidade de leitura para os alunos, em cartões com tópicos relacionados ao assunto; isso proporcionará o aprendizado do assunto. Ganha o jogo o jogador que chegar primeiro ao final.

Questões do baralho do jogo

O jogo possui 14 cartas a serem tiradas pelos jogadores quando caem em determinadas casas do tabuleiro que têm o item Responda. As questões utilizadas são simples e visam que os alunos conheçam informações simples relacionadas ao aquecimento global. As questões do baralho estão listadas na Tabela 2. Tabela 2: Questões do baralho do jogo Temperatura Máxima
O gás metano é chamado “gás do aquecimento global”; de quais elementos ele é composto?
Qual o efeito dos gases do efeito estufa para o planeta Terra?
Em que ano foi discutido o protocolo de Quioto?
Quais os principais gases da atmosfera?
Qual o significado da sigla IPCC?
Quais são as duas correntes sobre o aquecimento global da Terra?
Quais países ficaram isentos de reduzir a emissão de gases do efeito estufa?
Com a produção dos automóveis em escala industrial, iniciada no século XX, qual foi o gás lançado na atmosfera devido à queima do petróleo?
O que é o protocolo de Quioto?
Entre as usinas existentes, qual joga dióxido de carbono na atmosfera, contribuindo para o efeito estufa?
Qual o significado da sigla CFC?
Quais os efeitos dos gases do efeito estufa para o planeta Terra?
Quais os tipos de usinas existentes?
O que é energia eólica?

Apresentação do jogo em feira de ciências escolar

O jogo Temperatura Máxima foi apresentado à comunidade escolar em feira de ciências organizada pelo professor de Física. A ideia era que toda a comunidade conhecesse o jogo, opinasse sobre ele e aprendesse alguns conceitos importantes sobre aquecimento global. O evento também daria chance aos alunos que realizavam Iniciação Científica de realizar uma apresentação oral, discutir a importância do trabalho que realizaram para motivar o aprendizado da Física, que na escola é tida por muitos alunos como de difícil assimilação. As feiras de ciências escolares trazem grandes benefícios ao aprendizado de ciências, principalmente quando refletem o aprendizado dos conteúdos trabalhados pelo professor em sala de aula. Depoimentos de alunos sobre a participação em feira de ciências apontam que
a feira é uma nova maneira de aprender a matéria. É algo importante, pois notaram que não se trata apenas de um evento escolar, mas sim da elaboração de um trabalho com fins de aprendizado para toda comunidade da escolar (Bernardes, 2013, p. 17962).
Em relação ao aprendizado dos alunos advindo da elaboração de trabalho para feira de ciências, notamos que
A construção de um equipamento para posterior apresentação à comunidade envolve:
  • Pesquisa do material a ser utilizado;
  • Pesquisa dos princípios físicos envolvidos na construção e no funcionamento do aparelho;
  • Pesquisa da parte histórica envolvida, ou seja, quem inventou, quando e em que contexto deu-se a descoberta.
  • Uma postura ativa do aluno em relação ao processo de ensino e aprendizagem Bernardes (2013, p. 17956).
Segundo Bernardes (2011), “Feiras de ciências organizadas dentro de escolas de Ensino Fundamental e Médio são importantíssimas para motivar o aprendizado do aluno e para divulgar temas científicos, atuais ou não, para a comunidade escolar”.

Resultados

Os alunos participaram da oficina com interesse e foram estimulados a ler sobre o tema nas cartas de leitura que fazem parte do jogo.

Depoimento dos alunos e professores que participaram da oficina

“Muito interessante este jogo! Pretendo ano que vem articular esse tipo de atividade aqui na escola, porque os alunos gostam e é importante para a aprendizagem deles!” (Coordenador pedagógico). “Nossa, o pessoal adora! Veja que todos foram participar da oficina! A oficina acabou por modificar toda dinâmica da feira, porque os alunos querem participar!” (Orientador educacional). “Gostei muito do jogo! Acho que todos os professores deveriam criar algum jogo que pudesse trabalhar sua matéria!” (Aluno do Ensino Médio). “Os alunos que desenvolveram esse trabalho estão de parabéns! Muito legal mesmo!” (Aluno do Ensino Médio). Observamos nos depoimentos que o trabalho foi valorizado pela comunidade escolar, tanto alunos quanto professores que tiveram oportunidade de participar da oficina.

Conclusão

É possível oferecer ao aluno do Ensino Médio recursos que facilitem a aprendizagem; neste caso, utilizando um recurso lúdico: o jogo didático, que motiva o aprendizado dos alunos. Foi verificada também a possibilidade de introdução de temas ambientais por meio da Física, o que mostrou outras possibilidades de aprendizado para os alunos da disciplina, na qual os alunos sentem grandes dificuldades. Os depoimentos listados mostram a importância de promover na escola eventos que motivem o interesse do professor em melhorar seu trabalho e a valorização que os alunos deram ao trabalho.

Referências

BERNARDES, A. O.  Feira de Ciências como recurso pedagógico para trabalhar tópicos de Astronomia do currículo mínimo estadual de Física. XI Congresso Nacional de Educação, 2013. ______. Algumas considerações sobre a importância da feira de ciências 2011. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao_em_ciencias/0006.html. Acesso em 10 dez. 2013. ______. Utilizando jogos educativos no ensino de Física: relato de experiência. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/0144.html. Acesso em 15 dez. 2013. ______; GIACOMINI, R. Viagem ao sistema solar. Um jogo educativo para o ensino de Astronomia e Física na Escola. V. 11, nº 1, 2010. BRASIL. PCN-Meio Ambiente. Acessado em 20 de dezembro de 2013.         http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/meioambiente.pdf> ______. Bases legais – Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, 1997. ______. PCN+ para o Ensino de Ciências e Matemática. Brasília: Ministério da Educação, 2002. CEDEI, M. S. Educação Ambiental e Agenda 21 Escolar – Formando Elos de Cidadania. Livro do Professor – 2ª Edição. RIO DE JANEIRO. Secretaria Estadual de Educação. Currículo mínimo estadual de Física. Fevereiro de 2012.