Cultura e diversidade cultural no processo formativo educacional

Miriam Oliveira

Mestranda (PPGEn-INFES/UFF)

Adílio Jorge Marques

Professor adjunto (INFES/UFF)

O termo “cultura”, segundo Terry Eagleton (2005), “é considerado uma das duas ou três palavras mais complexas de nossa língua”.

A raiz latina da palavra “cultura” é colere, o que pode significar qualquer coisa, desde cultivar e habitar a adorar e proteger. Seu significado de “habitar” evolui do latim colonus para o contemporâneo “colonialismo”, de modo que títulos como “cultura” e “colonialismo” são, de novo, um tanto tautológicos. Mas colere também desemboca, pelo latim cultus, no termo religioso “culto”, assim como a própria ideia de cultura vem da Idade Moderna a colocar-se no lugar de um sentido desvanecente de divindade e transcendência. Verdades culturais – trata-se da arte elevada ou das tradições de um povo – são algumas vezes verdades sagradas a serem protegidas e reverenciadas. (...) Cultura é uma dessas raras ideias que têm sido tão essenciais para esquerda política quanto são vitais para a direita, o que torna sua história social excepcionalmente confusa e ambivalente (Eagleton, 2005, p. 9-10).

Cultura compreende um grupamento dos mais variados conceitos como valores, costumes, crenças, leis, moral, língua, etc. José Luiz dos Santos, em seu livro O que é cultura (2006), aborda o termo como sendo uma preocupação contemporânea, bem viva nos tempos atuais: “A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas, sejam movidas por suas forças internas, sejam em consequência desses contatos e conflitos, mais frequentemente por ambos os motivos” (Santos, 2006, p. 7).

Teixeira Coelho (2008) aponta que, quando abordamos a cultura de um povo, não devemos ter a perspectiva de que tudo que pode estar diretamente ligado ao termo. Coelho faz um levantamento acerca da utilização desse termo para representar o todo, preocupando-se unicamente em classificar como cultura tudo que está relacionado ao ser humano e à sociedade. Porém observamos sua preocupação em salientar que essa visão mudou com o passar do tempo. Eagleton (2005), em A ideia de cultura, indica que, se a palavra cultura guarda vestígios de uma passagem histórica importante, isso também quer dizer que ela seria responsável por sistematizar diversas questões filosóficas essenciais, que estariam diretamente ligadas a aspectos como liberdade e determinismo, o fazer e o sofrer, mudança e identidade, o dado e o criado. O contexto de cultura teria como significado o cultivo, um cuidar que é ativo de tudo que se desenvolve espontaneamente.

É importante perceber, de acordo com Santos (2006), que a classificação das culturas e sua divisão, no início da concepção do termo, buscava a visão do desenvolvimento segundo as concepções europeias, construindo assim a “escala evolutiva”. Nesse sentido, a classificação das culturas acontecia com o intuito de propor domínio para as sociedades capitalistas além de ideias racistas, fazendo com que os povos não europeus fossem considerados inferiores, o que acabava justificando a exploração e a dominação desses povos. A cultura pode ser apresentada como toda e qualquer forma de representação cultural de qualquer nação, grupo ou sociedade humana, como “todas as maneiras de existência humana”.

Não podemos deixar de citar a herança deixada por nossos antepassados e civilizações antigas. Eagleton (2005) menciona a importância de levar em consideração todo contexto histórico, político, artístico, social e religioso da humanidade, sendo este último a força ideológica mais poderosa que a história humana jamais testemunhou.

Quando observamos e analisamos o contexto cultural inserido no campo educacional, podemos dizer que a escola é um espaço sociocultural, como apresenta Dayrell (2001). Assim, estamos apresentando diretamente a importância dela em resgatar o papel dos indivíduos num todo para a construção e a definição da evolução social da comunidade como instituição.

Observamos, de acordo com as colocações dele, que o ambiente educacional está diretamente ligado ao contexto cultural dos alunos, que possuem hábitos e comportamentos variados e diversificados de acordo com os acontecimentos diários da escola. Tudo isso está diretamente relacionado ao que pensam e sentem com relação ao contexto educacional. São inúmeras as possibilidades de trabalho na escola; encontramos uma enorme diversidade de pessoas, cada uma com seu ponto de vista, expondo suas opiniões, sentimentos, comportamentos, ações, ou seja, toda sua diferença.

Pensar na educação sem estar diretamente ligada à cultura e à diversidade cultural é não colocar em estudo tudo o que está relacionado à sociedade como um todo. Gomes (2003) traz uma reflexão sobre esses dois termos que não diz respeito somente ao reconhecimento do outro como diferente, mas significa refletir sobre a relação existente entre o Eu e o Outro.

Quando falamos de diversidade cultural, estamos nos referindo diretamente ao conceito de diferentes contextos sociais e culturais inseridos na sociedade, sendo este um fenômeno que sempre acompanhou a humanidade. A discussão sobre esse tema ocupa lugar significativo na ordem política internacional. A Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (Unesco, 2001), resultado da Conferência de Estocolmo realizada em 1998, sinaliza a relevância do assunto, sendo colocada no mesmo patamar dos direitos econômicos e sociais. Portanto, quando nos referimos a essa diversidade em sala de aula é importante que nosso aluno entenda as inúmeras culturas e atividades culturais presentes em seu grupo, assim como as de grupos diferentes. Gadotti (1992) propõe uma educação multicultural, usando como ponto principal a ideia de uma educação igualitária, para todos, visando à redução de índices de evasão e repetência nas escolas, principalmente em sociedades menos favorecidas. Uma das tendências do mundo contemporâneo é o trabalho com o multiculturalismo. Propor a valorização e o respeito para com as diferenças socioculturais seria o caminho.

O trabalho multicultural é importante para o desenvolvimento da sociedade, levando sempre em consideração tudo que está relacionado ao contexto sociocultural, não deixando que somente grupos mais desenvolvidos sejam exemplo de grupos civilizados. Quando falamos da diversidade cultural no Brasil, por exemplo, precisamos levar em consideração toda a herança vinda dos imigrantes e que serviu para que a evolução cultural aqui seguisse um caminho muito diversificado progressivamente.

Silva e Brandim (2008) apontam a representação do multiculturalismo juntamente com a educação fazendo uma análise das concepções e do desenvolvimento de experiências pedagógicas principalmente em meados do século XX, quando elas começam a se difundir, principalmente nos Estados Unidos, seguindo para outros países do Ocidente. A busca por formas de enfrentar os conflitos e as mais variadas formas de diferença na sociedade é o ponto de partida para combater discriminações e preconceitos.

Valente argumenta que “Aceitar as diferenças e enriquecer-se com elas continua a ser um problema que hoje ninguém sabe resolver porque supõe o reconhecimento da alteridade” (1999, p. 63). Entender o quanto a diversidade está presente em nosso cotidiano é de suma importância para que possamos entender o papel de cada um de nós na sociedade. Viver em harmonia, compreendendo as diferenças e as várias formas de agir e pensar se faz necessário na sociedade atual.

Peroza (2012) diz que podemos considerar Paulo Freire, um dos mais importantes educadores brasileiros, um autor que desenvolveu as bases do seu humanismo político-pedagógico entendendo sua condição de existência somada às variadas experiências obtidas no seu contexto social. Freire parte da sensibilidade diante da realidade de opressão em que se encontra para observar-se a si mesmo em sua relação com a “fragilidade” dos demais. Peroza fala também da posição investigativa de Paulo Freire, que é a base de seus estudos educacionais, e de uma visão voltada para as experiências educativas que deram início ao seu método de alfabetização para jovens e adultos, que foi muito importante para o desenvolvimento educacional de nosso país. Paulo Freire menciona, em artigo publicado na revista Estudos Universitários (revista de cultura da Universidade do Recife): “um outro dado de que partíamos era o de que a educação trava uma relação dialética com a cultura. Dessa forma, a nossa ciência educativa não poderia sobrepor-se à realidade contextual nossa” (Freire, 1963, p. 11).

Após analisarmos as colocações de Peroza (2012) sobre a importância de Paulo Freire para o desenvolvimento da educação, devemos levar sempre em consideração a origem e a diversidade cultural de todos os indivíduos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, salientando assim a importância de um trabalho multi e transcultural. A diversidade cultural é entendida por Freire como um conceito abstrato, porém complexo, pois reflete suas próprias experiências de desenvolvimento nas diversas sociedades que frequentou.

Diversas discussões giram em torno do trabalho com a diversidade cultural no campo educacional e social.

Em síntese, podemos constatar, em vários países, uma diferença notável na emergência da temática da diversidade cultural na escola, entre os países que optaram pela utilização do termo multicultural e os que escolheram o termo educação intercultural. Os primeiros, entre os quais encontramos a maioria dos países anglófonos, focalizam a necessidade do reconhecimento e a valorização das diferenças culturais. Os segundos, entre os quais encontramos os países francófonos, demonstram a preferência pelo termo educação intercultural, visto que ele permite evidenciar as interações, as trocas e as construções originadas dos contatos entre as culturas (Akkari, 2010, p. 75).

Analisando as ideias apresentadas, entendemos que a abordagem multicultural e a intercultural são importantes para o desenvolvimento de uma educação pautada na diversidade cultural; contudo, apresentam limitações conceituais que precisam ser discutidas. A multicultural apresenta a ideia de “justaposição”, na qual as culturas se encontram num mesmo espaço, lado a lado, formando um mosaico; a intercultural destaca que as culturas se encontram por meio do contato, proporcionando a interação entre grupos diversos.

Muito ainda precisa ser discutido e trabalhado no intuito de fazer com que a diversidade cultural se torne o caminho para o desenvolvimento educativo em nosso país. A escola se coloca por inteiro, com toda a sua complexidade, e acaba se confrontando com seu maior obstáculo, que é a diversidade que constitui toda a sua estrutura docente e discente. A escola é “um espaço sociocultural”; sendo assim, “a escola, mais que um processo de socialização, torna-se um espaço de sociabilidades, ou seja, um espaço de encontros e desencontros, de buscas e de perdas, de descobertas e de encobrimentos, de vida e de negação da vida” (Gusmão, 2000, p. 20).

Por fim, percebemos que a diversidade se apresenta de várias maneiras na escola formal, como aponta Capelo (2003, p. 4): “Os alunos (crianças, adolescentes, adultos) são procedentes de famílias diferentes, possuem biografias, raízes étnicas e culturais, religiosidades, experiências de vida, valores, visões de mundo, temporalidades, espacialidades, saberes e fazeres que diferem entre si”.

Peroza (2012) diz que o conceito de transculturalidade fortalece o conceito de uma prática libertadora relacionada a ampliar os horizontes no que diz respeito à relação entre o inter e o multiculturalismo. Devem ser mencionados os mecanismos de “interpenetração das culturas de modo que não somente a harmonia, mas também o confronto propiciem as bases para um encontro significativo e respeitoso entre os indivíduos que partilham suas diferenças culturais num mesmo ambiente” (Peroza, 2012, p. 12).

Seguindo por esse caminho e analisando o contexto apresentado neste artigo, podemos interligar a transculturalidade em educação com a experiência de Paulo Freire perante a diversidade cultural. Temos como desafio pensar uma prática educativa que leve nossos alunos a pensar ativa e criticamente, estabelecendo a busca direta por conhecimento; essa é uma atividade ativa, e em nenhum momento pode ser considerada uma situação de estagnação.

Referências

AKKARI, Abdeljalil. Introdução às perspectivas interculturais em educação. Salvador: Ed. UFBA, 2010.

CAPELO, Maria Regina Clivati. Diversidade sociocultural na escola e a dialética da exclusão/inclusão. In: GUSMÃO, N. M. M. (Org.). Diversidade, cultura e educação. Olhares cruzados. São Paulo: Biruta, 2003. p. 107-134.

COELHO, Teixeira. A cultura e seu contrário: cultura, arte e política pós-2001. São Paulo: Iluminuras; Itaú Cultural, 2008.

SILVA, Maria José Albuquerque da; BRANDIM, Maria Rejane Lima. Multiculturalismo e educação: em defesa da diversidade cultural. Diversa, ano 1, p. 51-66, jan./jun. 2008.

DAYRELL, Juarez. Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: Ed. Unesp, 2005.

FREIRE, Paulo. Conscientização e alfabetização: uma nova visão do processo. Revista de Cultura da Universidade do Recife, Recife, n. 4, abr./jun. 1963.

GADOTTI, Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

GOMES, Nilma Lino. Diversidade na educação: reflexões e experiências.Coord.: Marise Nogueira, Ramos, Jorge Manoel Adão, Graciete Maria Nascimento Barros. Brasília: Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2003.

GUSMÃO, Neusa Maria Mendes. Desafio da diversidade na escola. Revista Medições, Londrina, v. 5, n. 2, p. 9-18, jul./dez. 2000.

PEROZA, Juliano. Reflexões sobre cultura e diversidade cultural em Paulo Freire: um humanismo crítico para a transculturalidade em Educação. IX Anped Sul, 2012.

SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006. Coleção primeiros passos.

UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. In: BRANT, Leonardo (Org.). Diversidade cultural. Globalização e culturas locais: dimensões, efeitos e perspectivas. São Paulo: Escritura/Instituto Pensarte, 2005. p. 207-214.

VALENTE, Ana Lucia. Educação e diversidade cultural: um desafio da atualidade. São Paulo: Moderna, 1999.

Publicado em 22 de maio de 2018