Projeto Maré de Poemas: relatando experiências pedagógicas e educacionais

Ailza de Freitas Oliveira

Doutoranda em Educação (PPGE/UFPB)

Fernando A. Abath L. C. Cananéa

Doutor em Educação (PPGE/UFPB)

Lisianne Matias Saraiva

Mestra em Artes (ProfArtes/UFPB)

Soraya de Souza de Oliveira

Mestra em Linguística (ProLing/UFPB)

Princípio das motivações

Motivação para aprender e ensinar é um ponto de partida básico e funcional em sala de aula e nas atividades decorrentes desse fazer pedagógico coletivo realizado entre estudantes e professores(as). Segundo Freire (2011), ninguém educa sozinho nem aprende sozinho, mas na coletividade. Aprendemos em conjunto, numa harmonia entre o fazer e o gostar de fazer, com o outro, motivando e motivado(a).

A beleza desse trabalho está em reconhecermos nossa condição natural de eternos aprendizes, como seres humanos e, sobretudo, como educadores(as), quando escolhemos por profissão e compromisso o magistério. Dessa forma, a motivação para esse exercício prático e teórico do cotidiano é vital para o bom desempenho do dueto aprender e ensinar.

No magistério, o ato de planejar culmina em assertivas educacionais. Atividades de planejamento motivadas são tão importantes para o sucesso das experiências escolares quanto o próprio ímpeto do fazer pedagógico. Agir com motivação nos processos pedagógicos é a mola mestra para o sucesso das ações planejadas.

Para Cananéa (2015), “planejar é saber onde estou e aonde eu quero chegar”. É ter consciência crítica para o fazer pedagógico, com responsabilidade educacional e amorosidade tal qual referenciada pela proposta da escola, como um espaço ímpar para florir aprendizagens múltiplas. Nela, podemos aprender e ensinar em todos os ambientes, com todos os envolvidos, da portaria ao intervalo das aulas, da cantina aos corredores, com estudantes, outros(as) professores(as) e demais profissionais que atuam na escola, sendo um ambiente propício a compartilhamentos de temas que estão além do conteúdo específico institucional.

Esse mar de possibilidades abre outro leque que nos fortalece e complementa nossa atuação pedagógica, em que podemos trilhar os vieses paralelos aos conteúdos específicos de cada habilitação artística e suas interfaces com a vivência dos estudantes e da comunidade escolar; eis o fio de motivação para que estejamos nesse exercício do fazer e do pensar e repensar a prática educativa.

Neste trabalho, almejamos relatar como se efetivou nosso planejamento, como foi a realização e a posterior reflexão pedagógica sobre a ação educacional coletiva resultante da concretização do Projeto Maré de Poemas.

O acontecer do Projeto Maré de Poemas

Maré de Poemas é um dos 14 projetos da ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais, existente há mais de 15 anos. A Maré é composta por um grupo de aproximadamente 30 integrantes, em sua maioria educadores(as), e atua com atividades direcionadas à autoformação contínua e integral de seus membros, fortalecendo projetos que culminam em cursos, oficinas, concursos, mostras e demais ações que estimulam a formação acadêmica, profissional, psicológica, sensitiva e integral dos(as) envolvidos(as).
Tendo como característica principal a formação integral e contínua dos membros, a ONG pratica a economia solidária em todos os seus projetos e ações. Dessa forma, os trabalhos desenvolvidos por, para e com seus membros são autofinanciados por eles, o que identifica nosso grupo como uma equipe de profissionais autônomos do fazer financiado por órgãos – públicos e/ou privados – e fortalece nossa independência no pensar, agir e produzir pedagogicamente. Livres das amarras que algemam pelo capital, atuamos na educação com independência financeira em respeito ao que pensamos criticamente.


Criação da arte: Cely Sousa, presidenta da Maré

Pautados na partilha de saberes e nos demais princípios colocados por Freire (2011) como importantes para uma atuação mergulhada na consciência crítica, marinheiros e marinheiras interagem compartilhando saberes com amorosidade, solidariedade, envolvimento, dedicação, união, companheirismo e respeito, numa comunhão de agir em sintonia com o pensar pedagógico livre de preconceitos, sejam eles de qualquer espécie.

O Projeto Maré de Poemas é um concurso realizado nas disciplinas de Arte e Língua Portuguesa ou, no caso do Ensino Fundamental I, também com pedagogas, por intermédio de professores(as) que integram a Maré, nas escolas em que atuam, tanto na educação formal quanto na informal, no Ensino Fundamental I, II, Médio e Educação de Jovens e Adultos – EJA.


Criação da arte: Cely Sousa, presidenta da Maré.

Existindo desde 2014, com cinco edições, os editais anuais propõem temáticas específicas planejadas com antecedência por todos(as) os(as) professores(as) envolvidos(as) e lançados numa perspectiva que atrairá o desejo dos estudantes em participar. A primeira edição teve o mar como temática para as produções escritas dos poemas. Nas imagens a seguir, podemos visualizar o registro da tempestade de ideias, em que os estudantes falam palavras relacionadas ao tema de que tratará os poemas; depois podemos observar uma estudante em momento de produção do poema; imagens da mostra em uma das escolas onde os poemas são expostos e apreciados pela comunidade.


Discussão de ideias, seleção de palavras, poesias produzidas
Fonte: Arquivos da Maré

A premiação da 1ª edição ocorreu em 2014, no Teatro Santa Catarina, em Cabedelo/PB, durante a Mostra Cultural da Maré, em que anualmente mostramos as ações desenvolvidas, conforme registros abaixo.


Mostra Cultural da Maré
Fonte: Arquivos da ONG.

Em sua 2ª edição, no ano de 2015, o projeto propôs a temática “Amigo é” e utilizou como material base a música Canção da América, de Milton Nascimento e Fernando Brandt (1979), como primeiro estímulo às discussões para o processo de inspiração, partindo do coletivo para o indivíduo com atividades discursivas e de interpretação textual. Como professoras de Arte, fizemos algumas atividades envolvendo colagem e desenho para complementar a expressão do tema e posteriormente adentramos a escrita propriamente dita.

Participaram desta edição seis escolas; a premiação foi entregue a estudantes, professores(as) e escolas premiadas. Ocorrida em 2015, as produções poéticas sobre “Amigo é” contaram com os educadores Leila Barbosa, Eduardo Córdula e Karla Mendonça no júri.


Jurados analisam as obras concorrentes
Fonte: Arquivos da ONG.

Essa edição contou com duas categorias de premiação: Fundamental I e II; participaram as escolas: Menino Jesus; E. M. Rosa Figueiredo de Lima; E. M. Carlos Neves; E. M. Dom Helder Câmara; E. E. José Guedes e Cedras, de João Pessoa e Cabedelo.

Na categoria correspondente ao Ensino Fundamental I, foram premiados em 1º lugar Laís de Souza Ribeiro, da E. M. Rosa Figueiredo de Lima, orientada pela arte-educadora Shirley Batista; em 2º lugar, Lais Kathleen Souza Nascimento; e em 3º lugar, o estudante Iago, ambos da Escola Cedras, orientados pela pedagoga Gláucia Dantas.


Premiação da 2ª edição
Fonte: Arquivos da ONG.

Os estudantes premiados na categoria Fundamental II foram: em 1º lugar, Patrick Vinícius da Silva; em 2º lugar, Edilton Alves Araújo, ambos da E. M. Dom Helder Câmara, orientados pela arte-educadora Lisianne Saraiva. O 3º lugar foi dado a Matheus Alexandre Farias da Silva, da Escola Menino Jesus, orientado pela arte-educadora Cely Sousa.

Em 2016 ocorreu a 3ª edição do Projeto Maré de Poemas; a temática proposta foi “Brincadeiras populares”. O júri foi composto pelos educadores Karla Mendonça, Fernando Abath Cananéa e Ana Tavares.


Terceira edição do Projeto Maré de Poemas
Fonte: Arquivos da ONG.

A exemplo da edição anterior e dos demais projetos da ONG, estudantes, escolas e professores(as) premiados(as) receberam certificação, troféus e kits de escrita, todos adquiridos com recursos próprios dos integrantes da Maré por intermédio de bingos, sorteios e venda de livros da ONG. A cerimônia ocorreu no lançamento de um dos livros da ONG na Usina Cultural da Energisa.

Nessa edição tivemos as seguintes classificações: em 1° lugar, John Carlos Cornélio da Silva, da Escola José Guedes; em 2° lugar, Ana Beatriz Santos de Macedo, do IE; e, em 3° lugar, Nilzélia Fernandes Farias, da E.M. Seráfico da Nóbrega.


4ª edição do projeto
Fonte: Arquivos da ONG.

Na 4ª edição, fomos provocados pelo golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2016, e a temática “Democracia” foi abordada no edital de 2017; dessa forma, professores(as) e estudantes promoveram debates sobre o assunto em questão, ampliando assim os saberes referentes a democracia, sua importância para as sociedades e necessidade vital como sinônimo de respeito aos fazeres e pensares diversos, respaldados no que sugerem os PCN quando colocam em seus objetivos que os alunos sejam capazes de:

Compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia a dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito (Brasil, 2001, p. 7).

Como complemento pedagógico, pensando no link entre a produção e suas referências culturais, nessa edição a temática democracia foi trabalhada por intermédio do gênero literário literatura de cordel, uma pauta presente na cultura popular nacional, especialmente na Região Nordeste, intensa na realidade dos estudantes que integram as escolas participantes. Assim, além de se tratar de algo peculiar à realidade dos envolvidos e como gênero literário que desperta interesse e consciência da necessidade de valorização e preservação, com reconhecimento de sua importância.

A seguir estão imagens de três etapas do projeto: produção escrita dos poemas, exposição dos poemas em uma das escolas participantes e júri analisando as produções. Foram juradas as educadoras Nyldete de Deus, Soraya de Souza e Lisianne Saraiva; as duas últimas são coautoras deste percurso escrito.


Escrita, seleção e apresentação dos trabalhos
Fonte: Arquivos da ONG.

Na edição de 2017, o 1º lugar foi dado à estudante Kaline Pereira Lopes, da E. M. Rosa Figueiredo de Lima, de Cabedelo/PB, orientada pela arte-educadora Shirley Batista; em 2º lugar foi classificada a estudante Maria Luisa Sousa Lima, da E. M. Seráfico da Nóbrega, de João Pessoa/PB, orientada pela arte-educadora Ailza Freitas; e o 3º lugar foi direcionado à estudante Ester Firmino Meireles Silva, da E. E. Héliton Santana, de Santa Rita/PB, orientada pela professora de Português Lívia Teixeira. A cerimônia de premiação aconteceu na Usina Cultural da Energisa.


Entrega da premiação de 2017
Fonte: Arquivos da ONG.

De acordo com o edital, Maré de Poemas é um projeto que tem como objetivo “descobrir novos talentos incentivando a leitura e a escrita dos(as) alunos(as), visando promover a literatura brasileira” (Maré, 2017, p. 1). Outrossim, julgamos ser uma escolha assertiva para nosso público-alvo na motivação de escrever e ler, nos debruçando em compartilhar essas reflexões cheias de movimento que expressam nosso comprometimento com o processo de aprender e ensinar, pois corroboramos Reverbel (1989, p. 160) quando cita a responsabilidade dos processos pedagógicos.

Não cabe exclusivamente à Pedagogia o desenvolvimento desse trabalho, o qual exige um esforço conjunto de todas as ciências humanas, pois o estudo do processo de aprendizagem abrange a natureza do homem, a gênese do próprio conhecimento e, consequentemente, tudo que se relaciona com mudanças sociais.

Diversificar os gêneros nos editais é uma forma de promover o incentivo à pesquisa na diversidade literária; ao completar o exercício com a produção do estudante, pretendemos estreitar a distância entre os grandes nomes da literatura e os alunos, ainda buscando formas de codificar sua escrita e seus anseios.

Relatando experiências pedagógicas e educacionais

Com intuito de ampliar a compreensão dos leitores sobre como ocorrem as etapas de nosso projeto, elaboramos o fluxograma, que demonstra as fases de realização das atividades.

Iniciamos nossa prática pedagógica no Projeto Maré de Poemas com a primeira etapa, que corresponde à elaboração coletiva do edital. Em reunião presencial dos membros da ONG que desejam participar do projeto, são debatidas e votadas opiniões sobre temáticas a serem abordadas no edital, bem como a metodologia adotada; nesse encontro o edital é elaborado e divulgado.

Lançado o edital, passamos para a segunda etapa do projeto: a coleta de materiais a serem utilizados para fundamentação das aulas teóricas sobre o conteúdo abordado. Nessa etapa, cada membro busca em seus arquivos pessoais e passíveis de aquisição materiais que possam dar suporte às aulas teóricas, como vídeos, objetos, músicas, imagens etc. Esses materiais são utilizados por todos que participam do projeto por intermédio de um cronograma de utilização.

A terceira etapa corresponde à execução do projeto nas escolas participantes; cada partícipe apresenta, fundamenta, executa, produz e coleta o material elaborado – no caso, os poemas. Diante da importância pedagógica que julgamos ter essa etapa educacional, descreveremos com detalhes suas fases em tópico posterior.

Como produtos resultantes dos processos pedagógicos desenvolvidos no projeto, temos os poemas. A entrega deles ao júri técnico representa a quarta etapa do projeto. O corpo de jurados é composto por um trio de profissionais voluntários que, com qualificação acadêmica na área do projeto, julga os poemas, selecionando os 1º, 2º e 3º lugares por escola participante; depois, entre todas as escolas, o júri elege os três primeiros lugares gerais de participantes.

Esses selecionados entre todas as escolas recebem premiação, conforme reza o edital. O evento de premiação acontece com a presença de estudantes, professores(as) e representantes das escolas premiadas, familiares e público em geral, tornando os momentos importantes para a elevação da autoestima dos estudantes envolvidos e valorização profissional dos(as) professores(as) e coordenadores(as) escolares.


Eventos de premiação
Fonte: Arquivos da ONG.

A avaliação coletiva do projeto acontece sempre que se findam as etapas anteriores, visando ao aprimoramento das edições futuras, minimizando falhas ocorridas por meio do diálogo sobre os fatos. Um dos aspectos que modificam nosso planejamento são as greves e reformas escolares, que alteram o calendário letivo e atrapalham a execução em algumas escolas participantes. Embora tudo seja planejado para execução similar em todas as etapas, são respeitadas as peculiaridades das escolas e das pessoas envolvidas.

Refletindo sobre nosso fazer pedagógico e educacional: tempestade de ideias

Detalharemos agora, por julgarmos uma etapa importante do projeto, como acontece a execução nas escolas envolvidas.


Etapas da execução do Projeto Maré de Poemas nas escolas

Desde a elaboração do edital até a premiação, as etapas são executadas de forma coletiva, mesmo quando cada um desenvolve individualmente em sala de aula suas práticas; elas são divididas nos encontros das marinheiras e assim se ressignificando em ações colaborativas. Pensamos e escrevemos o edital; esta é a primeira etapa, executada entre os membros da Maré.

A segunda etapa é levar a proposta para a unidade escolar onde atuamos, compartilhar com a equipe pedagógica e/ou com outros colegas as regras do edital.
Planejamos um formato de contextualização do tema e do gênero literário, de forma que os estudantes possam se envolver na atividade e que desde esse primeiro contato possa haver o estímulo de seu processo criativo. Essa ação é executada com recursos pedagógicos como apreciação de vídeos, imagens, rodas de conversa e leituras de autores que contemplam o gênero literário em questão. 

As atividades também são motivadas com músicas, trabalhos corporais e de expressão das artes visuais, de acordo com a habilidade do(a) professor(a), que também atua como facilitador nesse processo de construção criativa, ampliando a percepção do(a) estudante.

O que caracteriza os processos intuitivos e os torna expressivos é a qualidade nova da percepção. É a maneira pela qual a intuição se interliga com os processos de percepção e nessa interligação reformula os dados circunstanciais do mundo externo e interno a um novo grau de essencialidade estrutural, e dados circunstanciais tornam-se significativos (Ostrower, 1991, p. 57).

Depois de ampliarmos as percepções, passamos à produção, à reformulação do que foi aprendido dialogando com os saberes existentes. Concluímos com revisão ortográfica esta etapa, para podermos seguir para a seguinte, em que propomos a exposição, recitais e leituras coletivas dos textos produzidos.

Dentro de todo o processo, nosso pensamento é direcionado à vivência, à experiência. Experiência não só do estudante, mas nossa. Experiência significante que venha a desencadear outras experiências, pois dentro dessa rotatividade somos contemplados com Dewey (2012, p. 544) acerca das possibilidades a que uma experiência efetiva pode nos levar.

O valor da experiência não está apenas nos ideais que ela revela, mas em seu poder de revelar muitos ideais, um poder mais germinante e significativo do que qualquer ideal revelado, uma vez que inclui os ideais em seu avanço, esfacela-os e os reconstrói.

A 5ª edição do projeto está em andamento, ocorrendo com o gênero literário poesia concreta; essa experiência certamente será relatada em artigo posterior e provavelmente seguirá os passos das edições anteriores: reconstruirá ideias.

Referências

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte. Brasília: MEC/SEF, 2001.

CANANÉA, Fernando Antonio Abath Luna Cardoso. Política cultural: um olhar identitário. In: CANANÉA, Fernando A. Abath L. Cardoso. (Org.). Educação: um encontro com o outro. João Pessoa: Imprell, 2015.

DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

MARÉ. Edital 2018 do Projeto Maré de Poemas. Disponível em: mareproducoes.blogspot.com.br. Acesso em: 30 dez. 2016.

NASCIMENTO, Milton; BRANDT, Fernando. Canção da América. Disponível em: https:/ /www.youtube.com/watch?v=OlcQE4NeXow. Acesso em: 31 mai. 2018.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 1999.

REVERBEL, Olga. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1989.

Publicado em 25 de setembro de 2018