Biologia na palma da mão – desenvolvimento do aplicativo BioAulas

Irapoan Bertholdo dos Santos Júnior

Mestrando em Ciência e Tecnologia Ambiental (Centro Universitário Estadual da Zona Oeste – Uezo), professor da rede Seeduc/RJ

A tecnologia permitiu transformações em nosso mundo de modo outrora inimaginável. Dispositivos móveis permeiam nossas vidas diárias, provendo um acesso sem precedentes à comunicação e à informação. No final de 2012 já se estimava que o número de dispositivos móveis superaria o total da população mundial (Cisco, 2012). O conceito de tecnologias da informação e da comunicação (TIC) é utilizado para expressar a convergência entre a informática e as telecomunicações. As TIC agrupam ferramentas informáticas e telecomunicativas, como televisão, vídeo, rádio, internet etc. Todas essas tecnologias têm em comum a utilização de meios telecomunicativos que facilitam a difusão da informação (Leite, 2014). De acordo com as definições encontradas na literatura, o mobile learning é o emprego de tecnologias específicas que diferenciam a aprendizagem móvel de outras aprendizagens eletrônicas (e-learning). Sua definição envolve a utilização de equipamentos de informação e comunicação móveis e sem fio em processos de aprendizagem, mas não se resume a isso. A definição de mobile learning pode ser ampliada para qualquer tipo de aprendizagem que ocorre quando o estudante não está em um local estático e estipulado ou em que a aprendizagem acontece quando o estudante “tira” vantagem das oportunidades de aprendizagem oferecidas por tecnologias móveis. Entretanto, não podemos conjecturar que usar um celular para realizar uma atividade durante a aula de Química caracteriza o m-learning. O mobile learning aproveita as potencialidades de dispositivos móveis (celular, PDA, PSP, pocket PC, tablet, PC, netbook) usufruindo de oportunidades de aprendizagem em diferentes contextos e tempos. Pensando em mobilidade numa perspectiva do aluno, o m-learning se torna mais importante, visto que a aprendizagem pode ocorrer em qualquer ambiente – na escola, na universidade, em casa, em lugares públicos (Tarouco, 2014). O crescimento e a popularização da internet vêm tornando possível utilizar novas estratégias e ferramentas para apoiar o aprendizado a distância, oferecendo novas possibilidades para o processo de ensino-aprendizagem (Tarouco, 2014). Melo e Carvalho (2014) evidenciam que dispositivos móveis podem ampliar o acesso a conteúdos pedagógicos e favorecer a aprendizagem ativa. Entretanto, por serem vistos como fator prejudicial por causa da possibilidade de criar distrações, especialmente os telefones celulares, esses dispositivos têm seu uso proibido em sala de aula na maioria das instituições educacionais brasileiras. A ampliação do acesso aos dispositivos móveis em todo o mundo tem promovido mudanças no modo de produção e compartilhamento do conhecimento. A aprendizagem móvel viabiliza a criação de uma ampla rede de comunicação e de oportunidades de aprendizagem. Essa perspectiva reposiciona a sala de aula e todos os espaços fora dela como lugares possíveis para ensinar e aprender (Melo; Carvalho, 2014). De acordo com as Diretrizes para as Políticas de Aprendizagem Móvel (Unesco, 2013), a facilidade de acesso aos dispositivos e a crescente disseminação do uso na sociedade faz com que cada vez mais pessoas tenham ao menos um dispositivo ao seu dispor e saibam como utilizá-lo. Os dispositivos móveis são ferramentas importantes, com capacidade para contribuir com a melhoria e a ampliação da aprendizagem, principalmente para estudantes com escasso acesso à educação de qualidade em razão de fatores geográficos, econômicos e sociais. Embora alguns educadores ainda se sintam despreparados e até mesmo letárgicos em face a esse crescente avanço tecnológico, muitos já perceberam seu potencial e sua importância como facilitador no processo de ensino. Percebe-se que a tecnologia é uma grande aliada da educação, uma poderosa ferramenta que amplia e leva o processo de ensinar a um patamar diferenciado do ensino tradicional (Santos; Freitas, 2017). Santos e Freitas (2017) discutem o fato de muitas escolas já incorporarem a tecnologia ao seu método de ensino. Essa sintonia entre aluno e tecnologia é fundamental para prepará-los para ingressar no mundo digital atual. O uso da tecnologia em sala de aula aproxima o professor do universo do aluno, fazendo com que este passe de mero espectador a participante, em uma aula mais interativa. A ideia não é abandonar o quadro-negro, e sim agregar novas possibilidades ao atual cenário do ensino. Cada vez mais conectados, atrair a atenção dos jovens dentro da sala de aula tem se tornado bastante desafiador. A união da educação com a tecnologia possui grande capacidade de tornar a escola um ambiente mais moderno e motivador. Os dispositivos móveis vêm sendo utilizados nas mais diversas áreas. Essa utilização tem se expandido, pois há uma natural evolução social em que as gerações anteriores têm se apropriado cada vez mais dessas tecnologias, e as novas gerações, agora consideradas “nativos digitais”, já incorporam tais dispositivos como extensão do lar ou de seu próprio corpo (Saboia et al., 2013). De acordo com Dalmon e Brandão (2012), aplicativos educacionais oferecem diversas contribuições para os processos de ensino e aprendizagem, podendo tanto melhorar o desempenho de alunos nas provas quanto despertar o interesse e a motivação pelo uso de um dispositivo como o celular para estudo. Sonego e Behar (2015) mostram que existem softwares que permitem que professores e estudantes construam seus próprios aplicativos educacionais. Algumas dessas ferramentas estão disponíveis em versões gratuitas, possibilitando inovações e desafios no processo de ensino e aprendizagem associados a mobilidade, conectividade e flexibilidade que os dispositivos móveis podem oferecer para os processos educativos. Nesse contexto, pode-se destacar a plataforma Fab App, que permite criar aplicativos com várias funcionalidades e em diversas áreas de conhecimento sem necessidade de saber programar. A produção de um aplicativo pode gerar diversas perspectivas de aprendizagem individual, colaborativa, presencial ou virtual; é capaz de promover situações de compartilhamento de conhecimento e informações. Pode também proporcionar condições para ampliar a interação e a comunicação entre os envolvidos (professor e estudantes) via conectividade e mobilidade. Assim, acredita-se que o estudante que utiliza essa tecnologia tem um aliado no processo educacional, amplificando situações de aprendizagem, ultrapassando barreiras e encontrando novas possibilidades para compreender os conteúdos escolares (Sonego; Behar, 2015). A Biologia é vista por muitos alunos como uma disciplina extensa. Uma queixa recorrente deles é a dificuldade em prestar atenção nas explicações e ao mesmo tempo fazer anotações; e a falta dessas anotações aumenta a dificuldade na hora de revisar a matéria. Nesse sentido, o desenvolvimento de um aplicativo que permita o acesso ao resumo dos conteúdos trabalhados em sala de aula a qualquer hora e local pode servir como poderosa estratégia de auxílio e estímulo para aprendizagem.

Objetivo

Nosso foco é o desenvolvimento de um aplicativo que permita aos alunos ter acesso aos resumos dos conteúdos abordados nas aulas de Biologia.

Materiais e métodos

O aplicativo BioAulas foi criado para utilização dos alunos de 1º, 2º e 3º anos do Colégio Estadual Marieta Cunha da Silva, localizado no Rio de Janeiro. O app foi desenvolvido por meio da plataforma Fab App, que permite a criação gratuita de apps sem necessidade de saber linguagem de programação. As Figuras 1, 2 e 3 mostram o ambiente da plataforma.
Figura 1: Ambiente de criação de apps na plataforma Fab App Fonte: Fab App.
Figura 2: Ambiente de criação de apps na plataforma Fab App Fonte: Fab App.
Figura 3: Ambiente de criação de apps na plataforma Fab App Fonte: Fab App.
O download do aplicativo é feito no endereço http://app.vc/bioaulas. O primeiro acesso deve ser feito via navegador do celular, para que seja possível baixar o app diretamente no telefone. Um treinamento foi feito com os alunos para que aprendessem a utilizar a ferramenta. Além disso, um vídeo tutorial explicando como ter acesso ao app foi postado no Youtube, como é mostrado na Figura 4.
Figura 4: Vídeo tutorial sobre como baixar e utilizar o aplicativo BioAulas Fonte: Youtube.

Resultados e discussão

O aplicativo BioAulas foi criado para ser uma ferramenta de apoio ao processo de ensino-aprendizagem de Biologia. É construído em uma plataforma gratuita e autoexplicativa. Em seu primeiro acesso, o novo usuário deverá fazer um login (Figura 5) para ter acesso ao conteúdo do app. Existem duas opções para tal: um cadastro, em que deverá criar um usuário e senha, ou utilizar seus dados do Facebook. Os dados de usuários do app (Figura 6) mostram que 82% dos cadastros foram feitos via Facebook. Esse resultado pode ser explicado pelo fato de o perfil dos alunos ser de jovens entre 14 e 17 anos que utilizam ativamente as redes sociais.
Figura 5: Tela de primeiro acesso ao aplicativo Fonte: Fab App.
Figura 6: Percentual de usuários que fizeram login no app via Facebook ou cadastro de dados Fonte: O autor.
Na tela inicial, é possível escolher entre nove categorias para navegar, como mostrado na Figura 7. Nas opções 1º, 2º e 3º ano, os alunos contam com uma série de resumos produzidos de acordo com as aulas dadas em sala (Figura 8). Esses resumos são produzidos pelo criador do aplicativo ou por colaboradores. Os resumos são um ponto muito importante no aplicativo. As escolas estaduais do Rio de Janeiro contam apenas com dois tempos de cinquenta minutos por semana para Biologia; um desses tempos é gasto só com os alunos copiando a matéria do quadro. O acesso ao resumo das aulas permite que o aluno foque mais em participar das aulas, ao invés de se preocupar em copiar a matéria.
Figura 7: Tela inicial Fonte: Fab App.
Figura 8: Resumos das aulas Fonte: Fab App.
Na categoria Artigos (Figura 9), são postados textos relacionados a temas discutidos em aula ou que de alguma forma possam contribuir para o estudo dos alunos.
Figura 9: Artigos Fonte: Fab App
A categoria Fotos (Figura 10) foi criada para serem colocadas imagens dos eventos que os alunos participam.
Figura 10: Fotos Fonte: Fab App.
A categoria Vídeos (Figura 11) é alimentada com gravações produzidas por alunos e professores.
Figura 11: Vídeos Fonte: Fab App.
A parte de eventos (Figura 12) é utilizada para compartilhar as datas em que acontecerá algo na escola, como atividades internas ou externas.
Figura 12: Eventos Fonte: Fab App.
Foi criado um espaço onde os alunos podem tirar suas dúvidas (Figura 13) a distância. Além disso, também existe uma área em que estão listados os contatos do criador do aplicativo.
Figura 13: Espaço criado para postagem de dúvidas Fonte: Fab App.
Após acessar uma das categorias, caso o aluno deseje navegar nas outras, basta acessar o menu, que uma barra lateral é carregada com todas as informações, conforme evidenciado na Figura 14.
Figura 14: Menu lateral Fonte: Fab App.

Conclusões

O aplicativo BioAulas foi desenvolvido para permitir que os alunos tenham acesso, a qualquer hora e em qualquer local, ao resumo dos conteúdos de Biologia trabalhados em sala de aula. Além disso, outras opções – como calendário de eventos, fotos, vídeos, artigos e possibilidade de tirar dúvidas a distância – tornam o app funcional e bastante útil para estreitar a relação de aluno e professor. O aplicativo é de fácil instalação e navegação, permitindo que seus usuários o utilizem de maneira intuitiva. Um ponto negativo da ferramenta é a necessidade de estar conectado à internet para sua utilização. Além disso, o app não está disponível nas lojas de aplicativos Google Play nem Apple Store, e sim hospedado no servidor da plataforma Fab App. Esse fato não atrapalha seu funcionamento, apenas a divulgação em massa do aplicativo. Futuramente, será analisada a contribuição da utilização do app no desempenho escolar dos alunos. Dados preliminares mostram aumento das notas, quando se comparam turmas que utilizam a ferramenta a outras da mesma série que não utilizam.

Referências

CISCO. Cisco visual networking index: global mobile data traffic forecast update. 2011-2016. San Jose, 2012. Disponível em: http://www.cisco.com/en/US/solutions/collateral/ns341/ns525/ns537/ns705/ns827/white_paper_c11-520862.html. Acesso em: 29 jul. 2018. DALMON, L.; BRANDÃO, L. O. Uma linha de produtos de software para os módulos de aprendizagem interativa. Anais do Simpósio Brasileiro de Informática na Educação, 2012. FAB APP. Fábrica de Aplicativos. Disponível em: https://fabricadeaplicativos.com.br/. Acesso em: 28 jul. 2018. LEITE, B. S. M-Learning: o uso de dispositivos móveis como ferramenta didática no ensino de Química. Revista Brasileira de Informática na Educação, v. 22, n. 3, 2014. MELO, Rafaela da S.; CARVALHO, Maria J. S. Aplicativos educacionais livres para mobile learning. Revista Tecnologias na Educação, ano 6, nº 10, jul. 2014. Disponível em: http://tecnologiasnaeducacao.pro.br/?page_id=605. Acesso em 13 jun. 2018. SABOIA, J.; VARGAS, P. L.; VIVA, M. A. O uso dos dispositivos móveis no processo de ensino e aprendizagem no meio virtual. Revista Cesuca Virtual: Conhecimento sem Fronteiras v.1, n. 1, jul. 2013. SANTOS, F. M. V.; FREITAS, S. F. Avaliação da usabilidade de ícones de aplicativo de dispositivo móvel utilizado como apoio educacional para crianças na idade pré-escolar. Revista Ação Ergonômica, v. 11, n. 1, 2017. SONEGO, A. H. S.; BEHAR, P. A. M-learning: reflexões e perspectivas com o uso de aplicativos educacionais. In: XX Congresso Internacional de Informática Educativa (TISE). 2015. p. 521-526. TAROUCO, L. M. R. et al. Objetos de aprendizagem para m-learning. 2004. Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/CESTA/objetosdeaprendizagem_sucesu.pdf. Acesso em: 20 maio 2018. UNESCO. Policy guidelines for mobile learning. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0021/002196/219641E.pdf. Acesso em: 13 jun. 2018.