A produção de subjetividades pelo uso da internet e suas implicações no processo de aprendizagem

Manoel Messias Gomes

Mestre em Ciências da Educação (ISEL), doutorando em Ciências da Educação (Unigrendal), professor do Ensino Médio em Antônio Martins/RN

A história da imprensa como desenvolvimento tecnológico da comunicação e da subjetividade como experiência humana são correlatas, podendo-se pensar a criação da imprensa como um dos fatores que possibilitaram o surgimento da experiência subjetiva no ser humano, muitas vezes tornando-o um sujeito alienado. Porém a alienação é um processo inerente a toda forma de comunicação. Todavia, a alienação impressa no diálogo do sujeito com os meios informacionais, inclusive mediados pelo uso da internet, é maior, porque não existe um equilíbrio no jogo de forças, podendo se pensar num diálogo quase unilateral, porque se não sensibilizar, se não influenciar o sujeito, toda a parafernália tecnológica se torna ineficaz. Daí porque a incrementação das alterações iniciadas pela difusão dos computadores nos processos produtivos, entre eles o processo educacional, foi sentida de maneira radical. Isso significa que, com a utilização das novas tecnologias da informação nas escolas, o processo educativo nunca mais será o mesmo, pois os impactos sentidos com o advento da internet foram tão grandes que a maior parte das atividades humanas, inclusive a educação, não pode prescindir dela.

Da Pré-História à revolução digital

A produção de subjetividade no ser humano por intermédio da aprendizagem tem se dado desde que o ser humano apareceu na face da Terra, acarretando mudanças significativas de ordem física ou psicológica. Tais mudanças ocorreram ao longo de milhares de anos. A combinação entre elas fez com que os seres humanos começassem a usar pedras e madeira como ferramentas, diferentemente dos outros primatas. Essas ferramentas eram utilizadas para caçar, pescar e para a defesa do grupo. Lentamente houve o aprimoramento de tais ferramentas, com o uso de chifres e ossos como arpão e anzóis, chegando à construção do arco, primeiro instrumento concebido pelo cérebro humano. Segundo Figueira (2005, p. 10), “essa diversificação foi acompanhada do desenvolvimento de crenças e das ideias abstratas”, como marcas da necessidade humana de registrar e de se expressar, por que razão for. O cultivo de plantas e a domesticação de animais foram duas importantes atividades que começaram então a se exercitar, abandonando os hábitos nômades. Porém foi com o domínio da técnica de produzir e manter o fogo que a humanidade deu um grande salto de qualidade de vida, descobrindo a técnica de cozimento de alimentos, da produção da cerâmica e a possibilidade do desenvolvimento da técnica de fusão dos metais para a fabricação de utensílios, ferramentas para a melhoria da vida da comunidade e a produção de armas mais letais para serem utilizadas na caça, na pesca, na defesa do grupo ou, principalmente, na guerra, para o extermínio de inimigos. No entanto, uma das maiores descobertas para a produção humana de subjetividades foi o surgimento da escrita, que permitiu ao ser humano registrar as sua ideias e conquistas. Segundo Figueira (2005), “os primeiros rudimentos de escrita foram descobertos no Egito e na Mesopotâmia (atual Iraque)”. Porém não se pode esquecer que o ponto de partida para a comunicação em larga escala foi o nascimento da imprensa, no final do século XIV, por Gutenberg (1390-1468). A imprensa introduziu um novo modelo de lidar com o conhecimento e a informação: o contato com o universo intelectual não é mais privilégio de poucos, já que cada indivíduo pode ter acesso a livros; basta ter vontade e recursos suficientes para ter acesso à informação. Os livros manuscritos eram caríssimos, uma vez que exigiam trabalho manual lento, que produzia poucos exemplares. O aumento no número de exemplares à disposição de quem tivesse recursos financeiros e interesse em adquiri-los acelera a circulação do conhecimento, possibilitando a produção e a divulgação de conhecimentos em livros, folhetos etc.; a publicação de jornais só foi possível algum tempo depois. A produção de jornais relacionou-se ao desenvolvimento dos correios, que possibilitou maior e mais rápida comunicação entre as regiões distantes, tornando urgente a divulgação das notícias dos diferentes locais (Burke, 2003). Esse autor reflete sobre os problemas causados pela imprensa de Gutenberg: a “explosão” da informação, como metáfora para a pólvora, que se alastra e destrói. Nas palavras dele, a informação se alastrou “em quantidades nunca vistas e numa velocidade inaudita”; a nova invenção produziu a necessidade de novos métodos de gerenciamento da informação (Burke, 2002, p. 174), propondo assim que a criação da imprensa possibilitou o crescimento e a divulgação de conhecimentos, uma vez que estabeleceu as condições para o aumento do diálogo entre os pensadores de regiões diferentes e distantes. Seus efeitos sobre a subjetividade e suas inscrições na realidade são também inegáveis, favorecendo inclusive a criação e a valorização de um espaço do subjetivo, do íntimo. Iniciada no final da década de 1960 e início da de 1970, a chamada Revolução Digital (ou Informacional) se intensificou a partir do desenvolvimento da internet, em meados dos anos 1990, provocando mudanças significativas nas mais diversas atividades humanas. A incrementação das alterações iniciadas pela difusão dos computadores nos processos produtivos, no mercado de trabalho, na empresa, nas organizações e nas relações sociais foi sentida de maneira radical. Os impactos com o advento da internet foram tão grandes que a maior parte das atividades humanas não pode prescindir atualmente dela (Castells; Lévy, 1999). Pereira e Morais (2003) defendem a tese da internet como mídia. Nesse sentido, a mídia virtual se aproxima mais do processo de comunicação que contempla a interatividade. Dessa forma, como revela Moreira (2009), “a explosão de informações, a comunicação mundial e a cibernética constituem exemplos da novidade que a experiência subjetiva tem que abraçar no mundo virtual” (Moreira, 2009, p. 95). A nova mídia não tem espaço físico determinado, a não ser pelos milhões de computadores pessoais interconectados; assim, as limitações são menores. O sujeito pode convidar vários outros para a conexão, para a interação. Os limites de tempo, espaço e realidade são superados no espaço virtual. O apelo da mídia virtual é ainda maior, porque produz uma ficção de liberdade e de exclusividade. Cada sujeito tem um acesso ilimitado e exclusivo ao campo da informação. As ofertas de propaganda estão à disposição do desejo do sujeito; não são impostas, como na mídia televisiva. O sujeito, com um simples clicar do mouse, pode abrir um horizonte de informações com total autonomia e exclusividade, inclusive de criticar o site que disponibilizou a informação. Para Megale e Teixeira (1998), na virtualidade surge um “novo ordenamento das relações entre os indivíduos, extremamente marcado por prevalência da imagem e por desnecessária participação dos indivíduos em efetivas participações” (Megale; Teixeira, 1998, p. 49). Para esses autores, a mídia virtual pode produzir um tipo de subjetividade ilusoriamente marcada por individualidade e sentimento de autossuficiência. A cena virtual apresenta “um campo de possibilidade infinita de comunicação que convida o sujeito a se retirar dos limites do seu corpo e navegar para o ciberespaço em tempos e espaços ilimitados”. Todavia, em benefício da aprendizagem de professores e alunos, é possível o uso dessa mídia na escola de forma racional e crítica. Qual o impacto do seu uso na escola? Quais os benefícios e suas limitações para a aprendizagem dos alunos? O que o uso da internet como ferramenta de ajuda e de apoio no processo de ensino e aprendizagem pode trazer para o ambiente escolar?

Metodologia

O presente trabalho é fruto de pesquisa bibliográfica em que foram consultados livros, artigos de revistas especializadas, monografias e sites da internet, além de livros de autores consagrados, que concordam que o advento da internet também trouxe grandes impactos nas diversas áreas profissionais, inclusive na educação. As novas formas de produção, divulgação e armazenamento de conhecimentos e informações tornaram-se possíveis pela interconexão dos computadores em rede mundial, provocando grandes rupturas nos processos pedagógicos tradicionais. A respeito dos novos rumos da educação, Lévy (1999, p. 72) esclarece que:
A grande questão da cibercultura [...] é a transição de uma educação e uma formação estritamente institucionalizada (a escola, a universidade) para uma situação de troca generalizada dos saberes, o ensino da sociedade por ela mesma, do reconhecimento autogerenciado, móvel e contextual das competências.
Ao se conectar à internet, qualquer pessoa tem como buscar sozinha a informação, o conhecimento que deseja ou de que necessita e divulgar ideias ou teorias, deixando ao alcance de muitos para que possam criticar e dar as suas contribuições. Essas e outras novas formas de busca e elaboração de conhecimento vêm tendo várias consequências, tanto positivas quanto negativas, para o processo educativo. Entre os agentes do processo educativo que têm sido profundamente atingidos pelas mudanças desencadeadas pela internet estão os professores, pois sofrem pressões dos alunos, dos pais e da própria escola para utilizar a internet em sua prática cotidiana, levando a maioria dos professores a rever suas práticas e concepções de ensino. Lévy (1999, p. 170) afirma que
a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento. O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo.
Em termos gerais, a cultura digital é essa cultura da atualidade em que se pode estabelecer relações entre homens e máquinas. As sociedades contemporâneas vivenciam um modelo de interatividade, disseminado especialmente pela internet, que permite a comunicação de todos para todos ou de vários centros para outros centros. Esse conceito de cultura digital tem aproximações com outros termos, como cibercultura, era digital, sociedade da informação; cada um desses termos foi pensado para demarcar essa época em que as relações humanas têm sido fortemente mediadas por artefatos digitais. Cada interface (digital, virtual ou analógica) que surge legitima outros processos sociais. A digitalização do mundo está transformando todos os setores da sociedade, em maior ou menor grau. Por exemplo, pode-se observar uma criança ou um adolescente por algumas horas em seus habitats: em frente às telas, não só do computador, mas da televisão, dos visores de celulares, de câmeras digitais ou videogames. Pouco se pode observá-los conversando (oralmente), porém se pode percebê-los digitando velozmente, sorrindo, lendo e interagindo pela internet com colegas de sua turma da escola – inclusive dentro da sala de aula. Muitos especialistas e intelectuais têm afirmado que, por razão do uso exacerbado de aparelhos e dispositivos digitais, nosso cérebro estaria sendo alterado, deixando os sujeitos menos inteligentes, distraídos e imensamente superficiais. Segundo a reportagem veiculada na Revista Época (de janeiro de 2012) intitulada “A internet faz mal ao cérebro?”, Mark Bauerlein, autor de The dumbest generation (A geração mais estúpida), de 2008, afirma que “em vez de mentes juvenis inquietas e repletas de conhecimento, o que vemos nas escolas é uma cultura anti-intelectual e consumista, mergulhada em infantilidades e alheia à realidade adulta” (p.78). Ele acredita que as novas tecnologias contribuem para formar narcisistas e sujeitos despreparados para pensar em profundidade sobre qualquer tema. Bauerlein sugere que os mais jovens, acostumados à leitura de textos breves e pobres em termos estilísticos, estariam gerando pensamentos simplistas, sem complexidade. A geração digital se destaca por intensa relação com os aparatos tecnológicos, o que resulta no seu domínio. De acordo com Costa (2007), os jovens têm experimentado de forma intensiva esse cotidiano inundado pelas tecnologias, que não se resume ao computador em si, mas a um conjunto de materiais midiáticos que formatam os nossos modos de ver e pensar sobre o mundo em que vivemos. Costa (2007, p. 113) afirma que
isso que chamo de cultura da imagem faz parte do dia a dia e, como a educação escolarizada não dá conta disso, as crianças vão resolvendo por sua própria conta. Por exemplo, essa escrita reduzida que se usa em mensagens de internet, celular, etc. (qdo, vc, blz) e tantas outras escritas [...] que eles vão criando são tentativas de movimentar-se em meio a um novo ambiente em que as tecnologias misturam-se com o humano em novas tecnologias. Quer dizer, crianças e jovens estão inventando novas linguagens nessa simbiose com as máquinas. Parece que a escola não considera, não consagra e não está interessada em trabalhar com isso.
Porém não se pode esquecer que o desenvolvimento cognitivo do ser humano está sendo mediado por dispositivos tecnológicos, que as novas tecnologias da informação e comunicação estão ampliando o potencial humano, que a informação disponibilizada por meio de tecnologias cada vez mais inovadoras demanda novas formas de pensar, agir, conviver e principalmente aprender com e por intermédio delas. De acordo com Maturana (2001, p. 199),
Sem dúvida, a interconectividade atingida através da internet é muito maior do que a que vivemos há cem ou cinquenta anos através do telégrafo, rádio ou telefone. Todavia, nós ainda fazemos com a internet nada mais nada menos do que o que desejamos no domínio das opções que ela oferece, e se nossos desejos não mudarem, nada muda de fato, porque continuamos a viver através da mesma configuração de ações (de emocionar) que costumamos viver.

Resultados e discussões

Não se pode negar a contribuição das tecnologias ao processo de ensino e aprendizagem, bem como de sua importância na e para a formação docente, apesar de também sabermos das grandes dificuldades que a grande maioria dos professores vem encontrando no uso dessas novas tecnologias, entre elas a internet, na sua prática docente cotidiana. Entretanto, em meio à complexidade do aprender, faz-se necessária a busca de novas metodologias de ensino, e o advento da internet traz possibilidades que geram maneiras diferentes de ensinar. Moran (2009) salienta que a internet é um grande apoio à educação, uma âncora indispensável à embarcação. Ele ressalta a formação continuada dos professores, pois a internet traz saída e levanta problemas, como o saber como gerir essa grande quantidade de informação com qualidade, fazendo com que o professor seja constantemente estimulado a modificar a sua ação pedagógica. Segundo Ana Paula Rocha de Andrade, em seu trabalho sobre o uso das tecnologias na Educação: computador e internet, as pesquisas realizadas pelo Censo Escolar do Ministério da Educação em 1999 revelaram que apenas 3,5% das escolas de ensino básico tinham, naquele ano, acesso à internet e que em 1982 o MEC também traçou medidas para estabelecer a política da informática no setor da educação, cultura e desporto. O documento destaca que o “desenvolvimento e a utilização da tecnologia da informática na educação devem respeitar os valores culturais e sociopolíticos sobre os quais se assentam os objetivos do sistema educacional” (Portaria nº 1/83 – Informática na educação). De acordo com Moran (2009), “tudo que fizermos para inovar na Educação nos tempos de hoje será pouco”. Ele assinala que quanto mais tecnologias houver, maior a importância de professores competentes, confiáveis, humanos e criativos. Esse autor (2009, p. 10) registra que
o número de crianças que têm acesso ao computador e à internet vem crescendo, e a faixa etária também vem se ampliando.Antes mais acessada pelos jovens, a internet hoje vem sendo utilizada de forma crescente por crianças de 6 a 11 anos. Essas crianças já nasceram ligadas às tecnologias digitais [...], gostam de jogos, de movimentos e cores, já identificam os ícones e sabem o que clicar na tela antes mesmo de aprender a ler e escrever.
Nesse sentido, Chaves (2004) alerta para o fato de que não se pode perder de vista que a escola tem de preparar cidadãos suficientemente familiarizados com os processos tecnológicos de modo a poder participar do processo de geração e incorporação da tecnologia. E a informática, com o uso da internet, está no centro de tudo isso. Não há aprendizagem significativa se não houver organização, seriedade e critério na implantação das novas tecnologias na educação. As vantagens e as desvantagens de utilizar as tecnologias, entre elas a internet, como ferramenta pedagógica têm de ser levadas em consideração, principalmente quando o intuito é estimular os alunos, dinamizar os conteúdos e fomentar a autonomia e a criatividade. As desvantagens aparecem quando não há organização, critério e capacitação dos profissionais envolvidos, pois, à medida que o sistema educacional utiliza as tecnologias da informação e comunicação com critério e de forma racional, há diminuição da exclusão digital e a educação como um todo ultrapassa as paredes das salas de aula. Segundo os especialistas, o computador pode, sim, trazer grandes contribuições à sala de aula, mas tudo depende de como se dá o uso das tecnologias. Nesse contexto, a postura do docente tem que mudar radicalmente: ele precisa ser instruído a ser mediador dessas novas tecnologias. A comunidade escolar precisa estar preparada para essas mudanças. Apesar das resistências, existe grande parcela de docentes abertos à mudança, porém o que falta, na maioria dos casos, são as condições para que haja capacitação e qualificação, seja inicial e/ou continuada. Demo (2008, p. 134) alerta para o fato de que
temos que cuidar dos professores, porque todas essas mudanças só entram bem na escola se entrarem pelo professor, ele é a figura fundamental. Não há como substituir o professor. Ele é a tecnologia das tecnologias, e deve se portar como tal.
Para o professor, que historicamente tem sido o responsável por apresentar o conhecimento aos alunos, tal processo de mudança exige rupturas, reconstruções e reaprendizagens; disposição para enfrentar os novos desafios e disponibilidade para se abrir ao desconhecido; abandonar práticas cristalizadas e concepções estabelecidas. Porém percebe-se que não tem sido fácil para o professor, seja por medo de enfrentar as suas dificuldades, principalmente com relação ao manuseio dessas novas tecnologias, ou pela falta de qualificação e habilidades necessárias para utilização das tecnologias em sua prática docente. Provavelmente também pelo fato de ser tudo muito novo na vida da grande maioria, é compreensível que grande parcela dos docentes enfrente grandes dificuldades perante o desafio de fazer uso dos novos ambientes, ferramentas, metodologias e técnica oferecidos pelos meios informacionais, inclusive com o uso da internet, no desenvolvimento de conteúdos escolares que, queiramos ou não, estabelecem um novo paradigma em relação ao papel do professor, em que se percebe as suas ansiedades, os seus medos, preocupações e, em muitos deles, a satisfação ao fazer uso dos recursos multimídias da internet de forma crítica, vivenciando um confronto entre o “velho” regime cognitivo escolar de recepção de conhecimentos prontos e o “novo” regime cognitivo da busca de conhecimentos e descobertas de um mundo novo. Além dos conflitos cognitivos, esses aspectos afetivos do desafio com o qual os educadores estão sendo confrontados, não há na literatura brasileira muitos registros de estudos sobre o uso da internet na Educação em nosso país. Principalmente porque tudo ainda é muito recente. O fato é que ainda se sabe muito pouco sobre os impactos que a penetração social e educacional da internet vem gerando no cotidiano de professores e alunos, principalmente da escola pública, como as novidades implementadas pelo uso das tecnologias informacionais e da internet nos processos de produção, divulgação e armazenamento de conhecimentos estão afetando suas práticas docentes e seus próprios modos de ser. Muitos educadores sentem-se preocupados com os efeitos pedagógicos do excesso e da superficialidade da informação via internet. Para eles, esses fenômenos estão impedindo que os alunos se tornem mais críticos, mais criativos e mais cuidadosos e que processem os dados de forma mais aprofundada, porque, segundo eles, na maioria das vezes, os alunos obtêm a informação, mas não querem escrever ou fazer a crítica sobre aquela informação, muitas vezes sequer refletem sobre o conteúdo da informação, ou seja, não a transformam em conhecimento ou aprendizagem significativa. É evidente que os educadores estão se defrontando com uma nova e grande questão pedagógica: ensinar aos seus alunos a transformar a informação em conhecimento. Ou, dito de outra forma, que consigam fazer com que seus alunos possam transformar as informações em aprendizagem, de maneira que a informação obtida possa ser útil para a sua vida. De fato, a maneira pela qual a maioria dos alunos usa a rede para as suas pesquisas escolares tem gerado polêmicas e discussões, já que, para a grande maioria dos professores, todo mundo quer fazer pesquisa, ninguém quer ir mais à biblioteca; aliás, segundo eles, muitos nem sabem onde fica a biblioteca da escola ou a biblioteca municipal. Para alguns professores, a internet virou fonte de pesquisa para tudo, aposentou até mesmo a vontade de ler. Muitos simplesmente copiam e colam e entregam ao professor, sem se preocupar sequer em passar a limpo. Vai com o nome do site e tudo. Muitas vezes sem se preocupar com a qualidade da informação. Diante da dificuldade de controlar as informações veiculadas na internet, restam alguns mecanismos de proteção que podem ser empregados por educadores, como orientar seus alunos no uso de sites mais seguros, como sites de universidades, ou aqueles com terminação .edu, pois garante a qualidade da informação. Usar referências sugeridas por fontes seguras, como livros didáticos, artigos científicos, facilita a seleção de conteúdos. De acordo com Lévy (1999, p. 55),
o saber prendia-se ao fundamento; hoje se mostra como figura móvel. Tendia para a contemplação, para o imutável, ei-lo agora transformado em fluxo, alimentando as operações eficazes, ele próprio operação. [...] A grande massa de pessoas que são levadas a aprender, transmitir e produzir conhecimentos de maneira cooperativa em sua atividade cotidiana.
Assim, percebe-se que a adesão a essas tecnologias não acontece de forma incondicional, como se fossem solucionar todos os problemas educacionais. Todas as potencialidades das tecnologias da informação precisam ser exploradas em situações de ensino-aprendizagem, atentando para “evitar o deslumbramento que tende a levar ao uso mais ou menos indiscriminado dessas tecnologias por si e em si, ou seja, mais por suas virtualidades técnicas do que por suas virtudes pedagógicas” (Belloni, 2003, p. 73). Porém não se pode negar que a chegada de novas e diferentes tecnologias na escola, entre elas o uso da internet, tem oportunizado uma grande melhoria do trabalho coletivo, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade dos atores envolvidos no processo pedagógico. O professor assume um novo papel: o de parceiro e orientador do processo de produção do saber, em práticas mediadas pelas tecnologias da informação sem perder o seu lugar de mediador do processo ensinar-aprender. Segundo Rifkin (2000, p. 10), “a era do acesso também está trazendo consigo um novo tipo de ser humano”, porque os jovens dessa nova geração sentem-se muito mais à vontade para se engajar em atividades sociais no ciberespaço e se adaptam com muito mais facilidade aos vários mundos simulados que compõem a economia cultural. O acesso para eles se tornou uma forma de vida. Eles entendem e navegam muito mais que os professores. No entanto, será que, mesmo com toda essa facilidade que têm, eles sabem buscar via essa mediação as informações que lhes ajudarão na busca do conhecimento científico e tecnológico que realmente são necessários à sua formação crítica como cidadão?

Conclusão

Segundo Pozo (2000), a informatização está gerando uma explosão de saberes e, nesse sentido, é imprescindível que os professores acompanhem as mudanças tecnológicas que estão surgindo a cada dia. Como diz Perrenoud (1999), a formação continuada auxilia o professor no seu desenvolvimento profissional, fazendo-o adquirir reflexão crítica, permitindo avaliar a qualidade do ensino. Portanto, pode-se perceber que os computadores e a internet na escola, ainda subutilizados, podem ser de importantes ferramentas de apoio, pois, quando empregados de forma adequada, podem gerar aprendizagem significativa, aumentando a criatividade e a motivação dos alunos, produzindo subjetividades e tornando a sala de aula mais dinâmica e interativa. Todavia, se usados sem critério, planejamento ou metodologia clara, poderão tornar-se uma máquina usada somente para o acesso às redes sociais, como Facebook, e-mails e acesso a jogos, sem qualquer função educativa, tornado-se, consequentemente, mais uma parafernália sem utilidade para o processo ensinar-aprender, porque aprender na era da informação passou a depender em grande parte da capacidade ativa e dinâmica de professores e alunos. Assim, o que temos que aprender na e da vida não é propriamente a resolver problemas, mas administrá-los com inteligência. Dessa forma, “aprender não pode aludir, nunca, a uma tarefa completa, a um procedimento acabado ou a uma pretensão totalmente realizada; ao contrário, indica vivamente a dinâmica da realidade complexa, a finitude das soluções e a incompletude do conhecimento” (Demo, 2000, p. 49). Por tudo isso, o conceito de aprendizagem precisa ser ampliado, numa direção que articule objetividade e subjetividade, respeitando não só os conhecimentos prévios dos alunos como também outros aspectos ou processos psicológicos que agem como mediadores entre o ensino e os resultados da aprendizagem.

Referências

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