Educação no Povoado Quixaba em Glória/BA

José Clécio Silva e Souza

Bacharel em Serviço Social (Unopar), licenciado em História (Uniasselvi), especialista em História da Cultura Afro-Brasileira (Face Bahia), docente de História e Matemática na Escola Municipal de Educação Básica Manoel Moura de Souza (Delmiro Gouveia/AL) e de História na Escola Municipal de Educação Básica Nossa Senhora do Rosário (Inhapi/AL)

Desde a Antiguidade, as pessoas procuravam conhecer as suas origens, suas raízes. E, mesmo não dominando a escrita, diversos povos deixaram seus vestígios, suas marcas, que indubitavelmente contribuíram para o registro de diversas civilizações. Os fatos acontecem, caem no esquecimento, e somente muito tempo depois, quando emerge a vontade – muitas vezes de alguém que está fora dessa realidade – ou a necessidade de registro, por alguma razão, tenta-se voltar no “túnel do tempo” para colher informações, perde-se a riqueza de detalhes, a emoção e o sentimento contido nos acontecimentos, podendo ficar em prejuízo a veracidade dos fatos narrados. De acordo com Santos (1999, p. 7), é “através da História que conhecemos a vida dos homens: como era, como é e o que nela se modificou com o passar do tempo”. Além disso, “pensar em educação num contexto é pensar esse contexto mesmo: a ação educativa processa-se de acordo com a compreensão que se tem da realidade social em que está imerso” (Romanelli, 1978, p. 23). É de fundamental importância conhecer a história da educação escolar, pois, diante da importância que a educação alcançou, não se pode permitir que a escola continue contribuindo de maneira significativa para perpetuar as desigualdades sociais e a exclusão, negando a sua função político-pedagógica. É necessário garantir oportunidades iguais e uma vida digna para todos. O presente trabalho visa retratar, remontar, analisar todo o processo educacional do Povoado Quixaba, localizado em Glória, no Estado da Bahia. É um trabalho que não tem a pretensão de abordar todas as questões educacionais dessa comunidade por diversos motivos, entre os quais a falta de tempo para uma pesquisa mais profunda; mas o pouco que aqui será apresentado traz grande contribuição para conhecer a história da educação desse povoado. Posteriormente, será feita a contextualização histórica da fundação do Povoado Quixaba, abordando aspectos como quando ocorreu a fundação, quem participou do processo, como era a vida da população dessa comunidade nos primeiros anos, as lutas, as dificuldades que essa população passou para hoje ser uma comunidade tida como das mais importantes de Nova Glória, cidade que foi construída, como outras comunidades pertencentes à Velha Glória, devido à construção da barragem de Moxotó, atualmente conhecida como Usina Apolônio Sales (UAS); em meio à migração populacional para novas áreas, surgiu uma nova comunidade, o Alto da Quixaba, que posteriormente passou a ser denominado Povoado Quixaba. Após essa contextualização, será apresentado o foco de estudo deste trabalho: a história da educação dessa comunidade, passando por aspectos como as primeiras aulas, que aconteciam debaixo de um pé de umbuzeiro, pela fundação das escolas e como o trabalho era realizado nelas até os dias atuais, entre outros aspectos, e as considerações finais. Enfim, este trabalho visa relacionar a história da educação do Povoado Quixaba à educação nacional, enfatizando a importância da educação e a necessidade de considerá-la como o objetivo de desenvolvimento integral do ser humano e a transformação de sua vida, de suas relações e da realidade em que vive.

Metodologia aplicada

Pesquisar se faz necessário quando se quer obter respostas ou resultados que satisfaçam nossas indagações. De acordo com as elucidações feitas por Barros e Lehfeld (1986, p. 88), “através da pesquisa chega-se a um conhecimento novo ou totalmente novo, isto é, o pesquisador pode apreender algo que ignorava anteriormente, porém já conhecido por outros ou então chegar a dados desconhecidos por todos”. Na tentativa de responder a suas interrogações, a ciência possibilita ao ser humano caminhos satisfatórios para a compreensão da realidade objetiva; a pesquisa é um dos seus principais instrumentos. São vários conceitos de pesquisa, uma vez que é utilizada nos diferentes campos do saber. E, por não terem chegado a um consenso, vários estudiosos apontam seu caráter racional, definindo-a de forma adequada e precisa. De acordo com as abordagens feitas por Andrade (2001, p. 121), a pesquisa é definida como “o conjunto de procedimentos sistemáticos, baseados no raciocínio lógico, que tem por objetivo encontrar soluções para problemas propostos mediante a utilização de métodos científicos”. De maneira mais minuciosa, Lakatos e Marconi (1985, p. 15) definem pesquisa como “procedimento formal, com método de pensamento reflexivo, que requer um tratamento cientifico e se constitui no caminho para se conhecer a realidade ou para descobrir verdades parciais”. Para apreensão dos dados da pesquisa em questão, o estudo não foi feito de forma aleatória. Para esse fim, foi necessária a utilização de métodos que conduzissem aos melhores resultados. De acordo com Lakatos e Marconi (2001, p. 83),
todas as ciências caracterizam-se pela utilização de métodos científicos; em contrapartida, nem todos os ramos de estudo que empregam esses métodos são ciências. (...) Podemos concluir que a utilização de métodos científicos não é alçada exclusiva da ciência, mas não há ciência sem o emprego de métodos científicos.
Entre os vários métodos científicos, o dialético foi o que pertinentemente se configurou no desenvolvimento da pesquisa, pois fundamenta a flexibilidade e a dinâmica na interpretação dos fatos, possibilitando uma análise mais profunda da realidade.
A dialética fornece as bases para uma interpretação dinâmica e totalizante da realidade, já que estabelece que os fatos sociais não podem ser entendidos quando considerados isoladamente, abstraídos de suas influências políticas, econômicas , culturais etc. (Gil, 1999, p. 32).
Por ser esta uma pesquisa de teor social, a natureza do método possibilitou a obtenção dos resultados almejados, de modo que não frustrou aqueles que investigaram nem comprometeu a conclusão de um estudo que trará contribuições relevantes para a sociedade.

Tipos de pesquisa

Para a realização do estudo em evidência foi utilizada a pesquisa qualitativa, bibliográfica, descritiva e de campo. Desenvolver uma pesquisa de cunho social requer nortear a abordagem para além da realidade concreta, de modo que o contexto no qual os sujeitos envolvidos se inserem não sejam desconsiderados, mas analisados e interpretados holisticamente, tentando apreender e compreender principalmente aquilo que não está visível. Para tanto, a pesquisa qualitativa é a que melhor responde a essas expectativas, pois, como esclarece Minayo (1994, p. 22),
a diferença entre qualitativo e quantitativo é de natureza. Enquanto cientistas sociais que trabalham com estatística apreendem dos fenômenos apenas a região “visível, ecológica, morfológica e concreta”, a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas.
“Pela pesquisa, chega-se a uma maior precisão teórica sobre fenômenos ou problemas da realidade” (Barros; Lehfeld, 1986, p. 88). Por essa razão, no princípio foi realizada a pesquisa bibliográfica, que, segundo Gil (2002, p. 44), é aquela “desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”, que contribui significativamente para uma fundamentação teórica acerca do tema em estudo e maior conhecimento e competência para a compreensão da realidade investigada. Por isso, verifica-se que “a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente” (Gil, 2002, p. 45). As pesquisas descritivas também são necessárias, pois elas, como elucida Gil (2002, p. 42), “têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno, ou então o estabelecimento de relações entre variáveis”. Entre as pesquisas descritivas estão aquelas que têm por objetivo estudar as características de um grupo: sua distribuição por idade, sexo, procedência, nível de escolaridade, estado de saúde física e mental etc. (Gil, 2002, p. 45). Para melhor apreensão e compreensão do fenômeno em estudo, foram necessárias visitas e explorações ao campo de pesquisa, estabelecendo maior contato e reconhecimento entre os pesquisadores e os sujeitos e/ou grupos a serem pesquisados. Portanto, a pesquisa de campo se configurou como essencial ao desenvolvimento do estudo em evidência. Conforme Gil (2001, p. 53),
O estudo de campo apresenta algumas vantagens em relação principalmente aos levantamentos. Como é desenvolvido no próprio local em que ocorrem os fenômenos, seus resultados costumam ser mais fidedignos (…). E como o pesquisador apresenta nível maior de participação, torna-se maior a probabilidade de os sujeitos oferecerem respostas mais confiáveis.
A pesquisa de campo permite ao investigador manter contato com o local ou a realidade a ser investigada. De acordo com os argumentos de Lakatos e Marconi (2001, p. 186), a pesquisa de campo pode ser entendida como
aquela utilizada com o objetivo de conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema para o qual se procura uma resposta, ou de uma hipótese que se queira comprovar ou ainda descobrir novos fenômenos ou relações entre eles.

Período, informantes e espaço da pesquisa

A pesquisa foi realizada entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, tendo como informantes 10 pessoas, sendo ex-alunos, ex-funcionários das instituições de ensino do Povoado Quixaba, pessoas que vivenciaram ao longo dos anos o desenvolvimento do Povoado Quixaba e da educação na comunidade. Para manter a identidade dos entrevistados, essas pessoas serão identificadas como entrevistado A, B, C e assim por diante.
1Figura 1: O Povoado Quixaba Fonte: http://quixabacity.blogspot.com.br/. Acesso em 8 abr 2013.
O Povoado Quixaba, comunidade fundada a partir da construção da Usina Hidrelétrica do Moxotó, que inundou a Antiga Glória, levando parte da população a buscar um novo local para reconstruir suas vidas, está localizado no Município de Glória, situado na Mesorregião do São Francisco. O presente trabalho, não tem a pretensão de abordar e realizar um trabalho profundo sobre a educação no Povoado Quixaba, uma vez que isso se torna inviável devido à falta de tempo; assim, o que se procura realizar com este trabalho é uma breve caracterização do contexto educacional do povoado, que surgiu da luta de um povo que não aceitou se submeter aos desejos políticos de uma parte da população da época.

Instrumentos de coleta de dados

Os dados podem ser recolhidos de maneira válida, mais é a eficácia da análise e interpretação que determinará o valor da pesquisa. Nesse sentido, diante da grande variedade de instrumentos e procedimentos de coleta de dados, a pesquisa foi realizada por meio de entrevistas. Como elucida Gil (2002, p. 116), dentre todas as técnicas de interrogação, a entrevista é a que apresenta maior flexibilidade e pode caracterizar-se como informal, focalizada, parcialmente estruturada e totalmente estruturada. A entrevista parcialmente estruturada foi a que melhor se adequou ao estudo em evidência, pois “é guiada por relação de pontos de interesses que o entrevistador vai explorando ao longo de seu curso” (Gil, 2002, p. 117), contribuindo de forma mais precisa para que seus objetivos fossem alcançados. A entrevista é um instrumento que possibilita uma relação estreita entre entrevistador e entrevistado. “Na entrevista a relação que se cria é de interação, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde” (Ludke; André, 1986, p. 33). Segundo Minayo (1994, p. 57), a entrevista
é o procedimento mais usual no trabalho de campo. Através dela, o pesquisador busca obter informes contidos na fala dos atores sociais. Ela não significa uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se insere como meio de coleta dos fatos relatados pelos atores, enquanto sujeitos – objeto da pesquisa que vivenciam uma determinada realidade que está sendo focalizada.
Nessa perspectiva, os dados apreendidos foram finalmente articulados e analisados qualitativamente.

A fundação do Povoado Quixaba

O Povoado Quixaba é um dos mais de 70 lugares, entre povoados e sítios, que formam o município de Glória, que está localizado na Bahia, na microrregião de Paulo Afonso e na mesorregião do Vale do São Francisco da Bahia. O município de Glória está localizado a 459km da capital do estado, ligando-se a ela pela BR-110 e pela BA-120, tendo como limites geográficos os municípios de Paulo Afonso/BA e Rodelas/BA. Atualmente, Glória possui uma área equivalente a 1.402,49 km² e conta com uma população de 15.073 habitantes, de acordo como o IBGE (2010). O Povoado Quixaba, que é tido como um dos mais importantes de Glória, foi fundado em 1974 por um grupo de pessoas, tendo como líder o senhor Hortêncio Correia, cidadão munícipe de Glória, mais precisamente da antiga Queimada, pequeno povoado que foi inundado pela construção na Usina Hidrelétrica de Moxotó, que ficava localizada em uma região, que hoje é denominada Beira do Rio. Em 1971, teve início a construção da Usina Hidrelétrica de Moxotó e de seu reservatório, integrante do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso/BA, que acabou por deixar submersas a antiga cidade de Glória e parte de seu município. Com a construção da Usina, a população foi obrigada a deixar a área e tudo que levaram anos para construir e pensar em um novo lugar para reconstruir suas vidas. Com a inevitável mudança, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco – Chesf tentava negociar com as autoridades legais um novo local para a edificação da nova cidade. Em meio à negociação, os poderes Executivo e Legislativo municipais aceitaram a proposta de construir a nova cidade na Barra, uma área próxima de Paulo Afonso, a uma distância aproximada de 12km, o que contrariava a vontade de pessoas que desejavam ir para uma localidade distante apenas 5 km da antiga Glória, denominada Lagoa da Quixaba, seu primeiro nome, ou Alto da Quixaba, como depois passou a ser denominado. De acordo com Oliveira (2007, p. 201),
não foi pacífica a escolha do local de implantação da nova cidade, porém, mesmo indo de encontro à maioria dos habitantes, o projeto foi executado apenas com a aprovação do prefeito e dos vereadores de Glória. Entretanto, a maior parte dos moradores remanescentes da Glória inundada preferiu mudar-se para a Quixaba ou Alto da Quixaba, o que na realidade representava o desejo da grande maioria que sonhava com a nova cidade.
Muitas pessoas já conheciam o Alto da Quixaba, nome designado pela existência de uma grande lagoa no local; assim como grande quantidade de quixabeiras, distante aproximadamente 5km da antiga cidade. Entre as pessoas que conheciam essa área, havia criadores de animais que campeavam nesses arredores, levando os animais para saciar a sede na lagoa, “os vaqueiros que tinham o costume de reunir-se periodicamente para marcarem com ferro em brasa, as rezes novas” (Oliveira, 2007, p. 199) e alguns que no tempo de umbu se deslocavam para esse lugar para coletar o fruto e comercializá-lo. Muitos demonstravam interesse em ir para o Alto da Quixaba e não para próximo de Paulo Afonso. A intenção não foi aceita pela camada política, que imperativamente destinou as novas instalações para a Barra, nas proximidades de Paulo Afonso/BA; essa imposição, entretanto, não intimidou aqueles que desejavam ir para o Alto da Quixaba; possuidores de determinação e coragem consideráveis, mesmo em meio às adversidades, a tantas perdas, seguiram seu destino rumo às novas instalações no lugar desejado, Alto da Quixaba; houve assim uma divisão: uma parte foi para o Alto da Quixaba e outros para a nova cidade e outras partes do município.
2 Figura 2: Mercado Público Municipal FONTE: http://quixabacity.blogspot.com.br/. Acesso em 8 abr 2013.
Liderado por Hortêncio Correia, um grupo de aproximadamente trinta homens desmatou uma área onde atualmente está localizado o Mercado Público Municipal; o terreno foi dividido com seus familiares que desejavam construir suas casas ali. Com o passar do tempo, muitos começaram a construir suas casas na nova comunidade que estava surgindo.
Desordenadamente, naquele ponto, foi surgindo uma povoação sem nenhum planejamento urbano ou viário, com casas erguidas com materiais conseguidos nas demolições das residências da Velha Glória que começavam a ser desarmadas. Os caminhões descarregavam tijolos, telhas, esteios de cumeeiras de telhados e toda ordem de materiais dos desmontes que ocorriam em Glória. Esse procedimento foi tão acelerado que, com menos de um ano desde o começo da primeira edificação, o ermo que era o Alto da Quixaba já havia se transformado em povoado com mais de cem casas construídas (Oliveira, 2007, p. 201).
A submersão de várias áreas da Velha Glória extinguiu lugares como Mari, Paus Pretos, Tabuleiro e Mandacaaru, que não tiveram novas instalações; muitos habitantes dessas localidades foram para lugares como o Alto da Quixaba. Riachão, Malembá, Porto da Serra, Freitas e Ilha das Flores, entre outros, atualmente localizados na Beira do Rio em Glória, assim como parte do Rio Fundo, nas proximidades da Antiga Glória, tiveram novas instalações em substituição à antiga. Em substituição a Barra Velha, surgiu a nova, porém foi exatamente nessa área que se edificou a nova sede do município; portanto, a denominação Barra para aquela área deixava de existir para dar espaço à Nova Glória. De todos esses lugares, somente um originou-se a partir desses acontecimentos: o Alto da Quixaba; essa área, ainda coberta por vegetação, passava a configurar-se aos poucos como um lugar viável para novas instalações. Mesmo contra as autoridades, o município de Glória viu surgir um novo lugar com uma população bastante considerável, vinda da Antiga Glória e de outros povoados inundados; com o passar do tempo, a denominação Alto da Quixaba foi abandonada, utilizando-se apenas Povoado Quixaba. Várias foram as tentativas de levar aquelas pessoas a abandonar a localidade, como afirma Oliveira (2007, p. 199):
Chegaram até mesmo a informar dissimuladamente ao povo de Glória que, com o subir das águas da represa, o Alto da Quixaba ficaria completamente ilhado. As pessoas retrucavam dizendo que isso não importaria, pois se ali passasse a ser uma ilha a água seria mais abundante, o que seria muito bom, como também todos estavam acostumados à travessia do Rio São Francisco em canoas e o movimento não diminuiria.
O poder municipal continuava a sua gestão na Nova Glória; passava, a partir de então, a administrar apenas no plano legal e não no real o Alto da Quixaba, pois nada realizava em prol daquela comunidade. A base econômica do Povoado Quixaba não era solidificada; quase toda a população vivia da agricultura e nem todos tinham terras para desenvolver essa atividades; aqueles que tinham desenvolviam uma agricultura de “sequeiro”, pois não tinham motores para irrigação. Os agricultores cultivavam principalmente feijão e milho para o próprio sustento, e o excedente era vendido na feira local; com do dinheiro, compravam o que não era produzido. Para ajudar na sobrevivência, existiam aqueles que se dedicavam à criação de caprinos e ovinos; com o passar do tempo, a pesca, foi vista como uma nova fonte de sobrevivência. Aos poucos o Povoado Quixaba foi se desenvolvendo, mesmo em meio a tantas dificuldades e descaso do poder público, conforme aponta Oliveira (2006, p. 199):
Nos primeiros tempos do Alto Quixaba, os moradores, magoados, diziam que o prefeito municipal não dava nenhum apoio ao novo povoado, uma vez que os moradores dali, segundo ele, não haviam aceitado residir na Nova Glória, resistindo à mudança.
Entre os anos de 1974 e 1976, na gestão do prefeito Idalício Farias Silva, foi edificada uma pequena escola, denominada Escola Comes de Farias, fundada com apoio da Chesf, como forma de atender à população atingida pela construção da barragem; ainda no governo de Idalício, foi iniciada a construção de um mercado municipal, que não foi concluído na sua gestão. O gestor seguinte (1977-1982) assegurou aos moradores, ainda que de forma precária, os direitos à saúde e à educação, construindo um posto de saúde com assistência médica curativa e uma nova escola, aumentando assim a oferta de vagas. O Povoado Quixaba começou a evoluir e, ainda no período de 1977-1982, a comunidade começou a experimentar a energia elétrica; aos poucos, passou a abandonar lampiões, velas etc. O abandono sofrido em sua fundação foi aos poucos ficando para trás, devido às grandes conquistas nos anos seguintes que mudaram a comunidade, tornando-a diferente das outras comunidades de Glória. Durante a administração pública municipal de 1983 a 1988, o Povoado Quixaba ganhou: Em 1989, o município, passou a ter nova gestão municipal, que fez muito pouco pela comunidade. Essa gestão realizou calçamentos de algumas ruas e manteve, ainda que de forma precária, os serviços já existentes. Os novos gestores municipais nunca fizeram nada de significativo pela comunidade. Atualmente, o Povoado Quixaba, que realiza uma das maiores festas juninas da região, apresenta excelente infraestrutura, com todas as ruas asfaltadas, água encanada e tratada em todas as residências por intermédio da Embasa, luz inclusive nas residências que ficam afastadas da comunidades; conta com a feira, mercados, igrejas, escolas de Ensino Fundamental. Comparando o Povoado Quixaba de 1974 com o dos dias atuais, são notórias as grandes mudanças ocorridas e que tornaram o povo que ali reside muito mais feliz.

Evolução histórica da educação no Povoado Quixaba

O início da fundação do atual Povoado Quixaba não foi fácil, pois muitas pessoas foram ressarcidas de forma injusta pela Chesf e foram obrigadas a deixar a terra onde viveram muitos anos. Foi necessário reconstruir tudo, buscar seus direitos sociais, inclusive o direito à educação, garantido pela Constituição Federal de 1967. A educação escolarizada no Povoado Quixaba teve início de forma bastante simples em espaço improvisado, uma vez que não havia escolas na comunidade. A primeira sala de aula foi improvisada embaixo de um umbuzeiro; a professora era Antônia Maria de Araújo Silva, habitante da comunidade de Mari (também coberta pelas águas), que resolveu mudar para o Alto da Quixaba. Ela havia sido contratada pelo prefeito da Glória Velha em 1963 e continuou a exercer a sua profissão na nova comunidade debaixo de umbuzeiros enquanto ficava pronta sua casa, onde passou a lecionar depois do acabamento. Antônia Maria foi a primeira professora do povoado enquanto não existia escola e a primeira quando a escola foi edificada. A professora Antônia, popularmente conhecida como Dona Toinha, dizia que
ensinava debaixo de um umbuzeiro, até que foi construída a nova escola pela Chesf; era uma espaço pequeno, não contava com funcionários e de início tinha que fazer de tudo, ensinar, fazer merenda, era muito difícil.
Na primeira escola, Antônia desempenhava várias funções além de ser professora; foi fundada entre 1974 e 1976 pela Chesf, como Escola Cosme de Farias, para que os atingidos pela construção da barragem tivessem acesso à educação. A primeira escola era bem simples e contava apenas com duas salas de aula; recebeu esse nome em homenagem a um homem considerado símbolo do combate ao analfabetismo na Bahia, um homem que lutou pela popularização das escolas públicas. A escola funcionava inicialmente em dois turnos, oferecendo o ensino da 1ª à 4ª série, sendo ministrado por duas professoras leigas, que tinham apenas a 8ª série, não tinham formação específica e participavam de cursos de formação, como o Haprol – Projeto de Habilitação de Professores Leigos, ofertado pelo estado, curso equivalente ao de magistério. Inicialmente, o objetivo da educação no Povoado Quixaba, devido à falta de estrutura e de pessoal capacitado, entre outras limitações, era apenas ensinar a “ler e escrever” como diz um dos primeiros alunos da Instituição:
No Cosme de Farias, todos tinham acesso ao ensino, que se destinava ao processo de aquisição da leitura e escrita (Entrevistado A).
Durante muitos anos, a Escola Cosme de Farias foi a única Instituição a ofertar o ensino da 1ª à 4ª série, sendo um ensino limitado, devido à falta de recursos para a aquisição de recursos didáticos que pudessem melhorar o processo de ensino e aprendizagem para ter uma educação voltada para o exercício da cidadania. Entre os anos de 1977 e 1982, chegou ao Povoado a primeira professora formada, que veio contribuir para o desenvolvimento da educação na comunidade trazendo inovações metodológicas que levassem o aluno e ser mais crítico, deixando um pouco de lado o ensino tradicional, que visava desenvolver apenas a leitura, a escrita e o processo de contagem, entre outros aspectos. Jozenalva Soares Fernandes, conhecida popularmente como Nalvinha, foi de grande importância para que a educação evoluísse, colaborando para que fosse abolida a ideia de que o aluno é um ser passivo, mero receptor de conhecimentos prontos e acabados.
Ela não se preocupava apenas em transmitir conteúdo, em ver os alunos como seres que só deveriam aprender a ler, escrever e contar, mas uma professora que nos dava grandes exemplos, lições de vida (Entrevistado C).
Em 1982, o Povoado Quixaba ganhou uma segunda escola, que inicialmente teve o nome de Escola Pedro Antônio de Alcântara, que era membro de uma família importante de Glória. Esse nome não foi oficializado devido à não entrega da biografia para o registro, conforme consta no histórico da escola, que foi registrada como Escola Gregório de Matos, em homenagem ao escritor baiano. Em 1988, a escola ofertava o ensino de 1ª à 4ª série, contando com ampla estrutura física e profissionais capacitados; a escola, que tinha como mantenedor o Governo do Estado da Bahia, foi oficializada como Escola Estadual de 1º Grau Gregório de Matos, conforme a Portaria nº 3.863, publicada no Diário Oficial de 15 de julho de 1988. Anos mais tarde, a escola foi municipalizada e procurou manter o ensino de qualidade.
Na Escola Gregório de Matos, os professores tinham formação específica, o espaço era agradável, havia livros didáticos, merenda. Dava gosto ir para a escola (Entrevistado E).
Em 1982, o Povoado Quixaba contava com duas escolas, mas havia necessidade de uma escola que atendesse aos alunos da 5ª à 8ª série, pois estes, quando concluíam a 4ª série, iam estudar fora ou paravam de estudar. Continuar os estudos ou parar estava relacionado às condições econômicas dos estudantes, havia ainda a busca pela implantação de uma instituição que ofertasse Educação Infantil. Em 1986 foi iniciado o ensino de 5ª à 8ª série, no Centro Educacional Manoel Pedro de Alcântara – Cempa, que, por não dispor de prédio próprio, tinha suas atividades realizadas no prédio da Escola Cosme de Farias. Iniciava-se uma nova fase, pois muitos puderam dar continuidade aos estudos. Em 1988, foi iniciada a construção do prédio que se finalizou no ano seguinte. O nome Centro Educacional Manoel Pedro de Alcântara – Cempa não foi oficializado, pois, segundo consta, não foi enviada a biografia de Manoel Pedro de Alcântara, e sim a do monsenhor Emílio de Moura Ferreira Santos, pelo fato de ele ser membro da família da pessoa responsável por enviar a biografia à Salvador, fato que fez com que fosse dado o nome de Centro Educacional Monsenhor Emílio de Moura Ferreira Santos – Cememfs à nova escola. Segundo o histórico da escola, o monsenhor foi um religioso que fez muito pela educação de Glória, juntamente com seu irmão, o professor Adelino Mártir de São José Ferreira. O ato de criação da escola foi publicado em 24 de outubro de 1988 no Diário Oficial, sob o nº 083, e autorizado pela Portaria nº 200, do Diário Oficial de dezembro de 1988. Com a conquista de uma escola que ofertasse o ensino de 5ª à 8ª série, em 1987 foi fundada a Creche Casulo Teresa de Lisieux, que inicialmente deveria atender às crianças carentes da comunidade. A Escola Municipal de Ensino Infantil Teresa de Lisieux foi reconhecida pela Lei Municipal nº 331/06. Em 1987, o Povoado Quixaba, contava com quatro escolas que, juntas, ofertavam desde a Educação Infantil ao Ensino Fundamental, inclusive o ensino de 5ª à 8ª série, que só havia na sede do município. Todas essas escolas atendiam aos estudantes da comunidade e de povoados vizinhos, principalmente no ensino de 5ª à 8ª série, alunos que vinham das Queimadas e das Agrovilas da Borda do Lago, entre outras. Ter prédios não era garantia de qualidade, pois muitas escolas não contavam com o mínimo necessário para realizar um bom trabalho pedagógico, como afirma uma professora, atualmente aposentada.
Fazíamos tudo que estava ao nosso alcance, mais era difícil, pois faltavam recursos didáticos, como livros, as cadeiras não eram suficientes, e muitos alunos sentavam no chão para poder assistir às aulas; a maioria dos professores era de fora (Entrevistado G).
Nas escolas não havia equipe pedagógica, como atualmente; independente disso, muitos alunos que passaram pelas escolas elogiam o trabalho desempenhado ali, como podemos ver em um trecho da fala de um ex-aluno do Cememfs.
Apesar de muitas limitações na estrutura física e na falta de recursos modernos, que facilitassem o processo de ensino e aprendizagem, tínhamos professores comprometidos com seu trabalho e que nos preparavam bem para enfrentar o segundo grau (Entrevistado F).
Ao longo dos anos, tanto o poder municipal como o estadual continuavam mantendo a escola funcionando, mais nada de novo aconteceu para melhorar o ensino. Os alunos que concluíam a 8ª série tinham que se deslocar para as escolas de Paulo Afonso para cursar o 2º Grau e/ou iam para o CEAF – Centro Educacional Professor Adelino Mártir de São José Ferreira, localizado em Glória, que era a única Instituição que ofertava o Ensino Médio, com o curso de Magistério, com duração de três anos e mantido pelo poder municipal. Com a implantação do Colégio Estadual Reis Magalhães em Glória, pelo estado, ofertando Ensino Médio (Formação Geral), devido à falta de salas muitas turmas foram implantadas no Povoado Quixaba em 2004; as turmas funcionavam no período matutino no prédio do Cememfs atendendo os estudantes das comunidades vizinhas até 2008, quando todos os estudantes tiveram que voltar para Glória, dependendo de transporte escolar. De 1999 para cá, aconteceram profundas transformações na educação – no município como um todo e principalmente no Povoado Quixaba; dentre elas podemos destacar: em 1999, a Escola Estadual de 1º Grau Gregório de Matos foi municipalizada, sendo a Prefeitura Municipal de Glória a nova mantenedora e a instituição de ensino passando a chamar-se Escola Municipal de 1º Grau Gregório de Matos. Em 2009, com o início de nova gestão municipal, muitas mudanças ocorreram na educação no Povoado Quixaba. Com o intuito de dar suporte maior aos professores e alunos, foram contratados coordenadores pedagógicos para as escolas da comunidade, o que nunca tinha acontecido, apesar de que o único coordenador tinha e tem que dar suporte a duas ou três escolas. As escolas da Quixaba, exceto o Cememfs, deixaram de ter professores responsáveis, e foram nomeados diretores e secretários para administrar um núcleo escolar que reunia escolas de comunidades vizinhas, como as Agrovilas da Jusante, Borda do Lago e Queimadas entre outros. Com a nucleação implantada pela nova administração, no Projeto de Gestão Municipal, em que a escola permanece onde está e a gestão da escola se movimenta. Houve grande redução no quantitativo de alunos na comunidade, o que levou à desativação da Escola Municipal de 1º Grau Gregório de Matos; funciona atualmente apenas a Escola Municipal Cosme de Farias com o ensino de do 1º ao 5º ano, a Creche Casulo Teresa de Lisieux com Educação Infantil e o Cememfs com o ensino do 6º ao 9º e EJA. Em 2013, pela Gestão Democrática, tomaram posse os novos diretores do núcleo da Quixaba e do Cememfs, eleitos no dia 30 de novembro de 2012. Isto é um pouco da história da educação do Povoado Quixaba, em meio a avanços e retrocessos, uma história que possui personagens que lutaram e lutam por uma educação libertadora, que forma cidadãos para a vida, críticos, diferente daquela educação que foi ofertada no Brasil em outras épocas.

Considerações finais

A educação escolar tem papel preponderante na vida das pessoas, condicionando-as no âmbito social, político, econômico, cultural etc. Todavia, a história da educação brasileira revela o arcabouço de uma educação pensada e planejada para uns em detrimento da grande maioria, que, em lugar de equalizar oportunidades e democratizar competências para a vida social, estava atrelada a grupos hegemônicos, transformando-se num instrumento poderoso de legitimação das diferenças sociais. Neste trabalho, foi apresentada uma contextualização histórica do surgimento do Povoado Quixaba, uma comunidade nova que nasceu a partir da atitude de recusa de um grupo que defendeu seus desejos de ir para a nova cidade de Glória, mais que decidiu ir para outra área que, na visão dele, seria melhor de viver. Não foram fáceis os primeiros anos na nova comunidade; demoraram muitos anos para chegar ao que é hoje. O surgimento da educação como direito de todos na comunidade não foi fácil. As primeiras aulas foram dadas embaixo de um pé de umbuzeiro, sem qualquer conforto ou recursos que possibilitassem uma aprendizagem melhor e que desenvolvesse o pensamento críticos dos alunos, uma vez que inicialmente a educação no Povoado Quixaba era voltada única e exclusivamente para o ensino de leitura, escrita, e contagem. Vimos que em 39 anos de existência do Povoado Quixaba muito foi feito pela educação; escolas foram construídas e esforços foram realizados para que os alunos tivessem boa formação, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas pelas instituições de ensino, como falta de recursos, entre outros fatores. Muitas mudanças ocorreram ao longo dos anos, umas positivas e outras negativas, mas aos poucos teremos uma educação que alcance todas as camadas sociais, formando cidadãos. A educação tão necessária está assentada na sua função político-pedagógica e nos quatro pilares da educação: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser, em que a educação busque ultrapassar os limites do próprio sentido da palavra “aprender”, que se resume a “assimilar conhecimentos”, para dar ao conhecimento um sentido mais amplo, que é melhor compreender a si mesmo e ao mundo. É urgente construir conhecimentos voltados para a superação do preconceito e da discriminação, a fim de respeitar as diferenças; para a valorização das diferentes culturas, sem perder de vista a própria identidade; para a destruição da arrogância e da prepotência de certos países e pessoas que tentam se sobrepor diante dos mais pobres e menos favorecidos. Enfim, consiste na mudança radical de pensamentos e práticas.

Referências

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