Empatia, exigência do mundo atual

Claudia Nunes

Na atualidade, precisamos do homo empaticus mais do que do homo ‘vingativus’. Empatia significa capacidade psicológica para sentir o que sentiria outra pessoa caso estivesse na mesma situação. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo. A empatia leva as pessoas a ajudar umas às outras; está intimamente ligada ao altruísmo – amor e interesse pelo próximo – e à capacidade de ajudar. Quando um indivíduo consegue sentir a dor ou o sofrimento do outro ao se colocar no seu lugar, desperta a vontade de ajudar e de agir seguindo princípios morais.
A capacidade de se colocar no lugar do outro, que se desenvolve pela empatia, ajuda a compreender melhor o comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como o outro toma as decisões. Ser empático é ter afinidades e se identificar com outra pessoa. É saber ouvir os outros, compreender os seus problemas e emoções. Quando alguém diz “houve uma empatia imediata entre nós”, significa que houve grande envolvimento, identificação imediata. O contato com a outra pessoa gerou prazer, alegria e satisfação. Houve compatibilidade. Nesse contexto, a empatia pode ser considerada o oposto de antipatia.
Com origem no termo em grego empatheia, que significava "paixão", a empatia pressupõe comunicação afetiva com outra pessoa; é um dos fundamentos da identificação e da compreensão psicológica de outros indivíduos. A empatia é diferente da simpatia, porque a simpatia é majoritariamente uma resposta intelectual, enquanto a empatia é uma fusão emotiva. Enquanto a simpatia indica vontade de estar na presença de outra pessoa e de agradar a ela, a empatia faz brotar a vontade de compreender e conhecer outra pessoa.
Na Psicanálise, por exemplo, a empatia significa a capacidade de um terapeuta de se identificar com o seu paciente, havendo conexão afetiva e intuitiva. A empatia é, de fato, um ideal que tem o poder tanto de transformar nossas vidas quanto de promover profundas mudanças sociais. A empatia pode gerar uma revolução: uma revolução nas relações humanas.
Centenas de milhares de crianças em idade escolar aprenderam habilidades empáticas por meio do Roots of Empathy, um programa canadense de educação hoje também praticado na Grã-Bretanha, na Nova Zelândia e outros países; o programa coloca bebês em sala de aula e os transforma em professores.
Estamos excessivamente absortos em nossas próprias vidas para dedicar muita atenção a qualquer outra pessoa.
Empatia é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e suas perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações. A empatia é uma questão de descobrir esses gostos diferentes. Patrícia Moore sugeriu mudar o design de uma geladeira para que esta se adaptasse a uma pessoa com artrite foi ignorada e ironizada. Daí resolveu experimentar ser uma mulher de 85 anos com todas as dificuldades da idade, apesar dos seus 20 e poucos anos. Nada de fingir ser uma idosa, ela queria ser mesmo, daí incluiu impedimentos no corpo e em alguns sentidos (óculos que borravam a visão; obstrução dos ouvidos; bandagens no torso como se estivesse enrugada; braços e pernas com talas para impedir movimentos etc.) para iniciar seu transito na cidade. Com isso, projetou vários produtos inovadores que se prestavam a ser usados por pessoas idosas, inclusive aquelas com artrite, e todas as pessoas com deficiência, quer tenham 5 ou 85 anos. Ela tornou-se a fundadora do design ‘inclusivo’ ou ‘universal’ = ‘modelo empático’.
Por essa atitude, nasce o reconhecimento da importância de tentar olhar por meio dos olhos das pessoas que usarão os produtos que são criados. Olhar com os olhos dos outros torna-se um esforço pessoalmente desafiador (às vezes divertido), mas tem extraordinário potencial como força de mudança social.
Empatia = compreensão de que o tamanho único não serve para todos
A ideia de empatia não é nova. Na última década, porém, apesar da força da ideia de que somos criaturas egoístas por definição, preocupadas em se autoproteger, voltadas para os próprios fins individualistas, essa ideia foi deixada de lado por evidências de que somos também homo empathicus – fisicamente equipados para sentir empatia. E três frentes tornaram o avanço da empatia algo importante:

slide Figura 1: O processo de despertar da empatia.


Fonte: https://pt.slideshare.net/CorSilva/empatia-a-habilidade-fundamental-para-os-novos-tempos-54803766

É preciso pensar novas rotinas, novos desafios, novas ações, novas sensações, pois cuidar de si mesmo está se tornando uma aspiração ultrapassada, à medida que começamos a perceber que a empatia está no cerne do ser humano. Estamos no meio de uma grande transição da era cartesiana, de ‘penso, logo sou’ para uma era empática de ‘você é, logo sou’.
Podemos ser fisicamente equipados para a empatia; ainda assim precisamos pensar em como ativar nossos circuitos (ativar e qualificar = desenvolvimento). Pessoas extremamente empáticas se esforçam para cultivar seis hábitos (um conjunto de atitudes e práticas diárias que animam os conjuntos de circuitos empáticos em seus cérebros, permitindo compreender como os outros veem o mundo) o melhor que podem:
Hábitos Características
01 Acione seu cérebro empático Mudar nossas estruturas mentais para reconhecer que a empatia está no cerne da natureza humana e pode ser expandida ao longo de nossas vidas.
02 Dê o salto empático Fazer um esforço consciente para colocar-se no lugar de outras pessoas – inclusive no de nossos ‘inimigos’ – para reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas.
03 Busque aventuras experienciais Explorar vidas e culturas diferentes das nossas por meio de imersão direta, viagem empática e cooperação social.
04 Pratique a arte da convenção Incentivar a curiosidade pelo estranho e escuta radical e tirar nossas máscaras emocionais.
05 Viaje em sua poltrona Transportar-se para a mente de outras pessoas com a ajuda de arte, da literatura, do cinema e das redes sociais na internet.
06 Inspire uma revolução Gerar empatia numa escala de massa para promover mudança social e estender nossas habilidades empáticas para abraçar a natureza.

Fonte: KRZNARIC, Roman. O poder da empatia. Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p. 15. Acesso em 13 dez. 2016.


Quase todas as pessoas possuem capacidade de criar empatia, ainda que nem todos a usem. Mas há pessoas com ‘zero grau de empatia’. Segundo Simon Baron-Cohen, psicopatas (que têm a capacidade cognitiva de entrar em nossas mentes, mas não estabelecem ligação emocional conosco, como Hannibal Lecter) e pessoas com transtorno do espectro autista leve. Mas não vivemos num mundo insensível: a empatia é a matéria em meio à qual nos movemos.
Só que, neste momento da História, estamos sofrendo um ‘déficit de empatia’ crônico, tanto na sociedade quanto em nossa vida pessoal. Há mais pessoas morando sozinhas e passando menos tempo envolvidas em atividades sociais e comunitárias que promovam a sensibilidade empática. As redes sociais são boas para disseminar informações, mas – pelo menos até agora – pouco competentes em difundir empatia.
Violência urbana, política e étnica, intolerância religiosa, pobreza e fome, abusos dos direitos humanos, aquecimento global – há uma necessidade urgente de utilizar o poder da empatia para enfrentar essas crises e transpor as divisões sociais. Isso exige que pensemos sobre a empatia não apenas como uma relação entre indivíduos, mas como uma força coletiva que pode alterar os contornos da paisagem social e política.
Precisamos reconhecer que a empatia não apenas nos torna bons – ela nos faz bem. Stephen Covey afirma que "‘a comunicação empática’ é uma das chaves para o aperfeiçoamento das relações interpessoais. (...) O pensamento criativo também melhora com uma injeção de empatia, pois ela nos permite ver problemas e perspectivas que de outra maneira permaneceriam ocultos".
Patrícia Moore explica por que a empatia é tão importante:
a empatia é uma consciência constante do fato de que nossos interesses não são os interesses de todo mundo e de que nossas necessidades não são as necessidades de todo mundo; que algumas concessões devem ser feitas a cada momento. Não acho que empatia seja caridade, não acho que seja sacrifício pessoa, não acho que seja prescritiva. Acho que a empatia é uma maneira em permanente evolução, é viver tão plenamente quanto possível porque ela expande nosso invólucro e nos leva a novas experiências que não poderíamos esperar ou apreciar ate que nos fosse dada a oportunidade.

Empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo que herdamos do século passado. Vamos pensar em uma era da ‘outrospecção’, na qual encontramos melhor equilíbrio entre olhar para dentro e olhar para fora; é a ideia de descobrir quem somos e como devemos viver saindo de nós mesmos e explorando as vidas e perspectivas de outras pessoas. E a forma de arte essencial para Era da Outrospecção é a empatia. O movimento do pêndulo histórico equilibra melhor a introspecção aceitando o movimento de outrospecção. Precisamos de um movimento para fora do ‘eu’.
Mas não sejamos ingênuos. A empatia não é uma panaceia para todos os problemas do mundo, nem para todas as lutas que enfrentamos em nossas vidas. É importante ser realista com relação ao que ela pode e não pode realizar. A forma maneira mais eficaz de promover uma profunda mudança social não está nos meios tradicionais da política partidária e na introdução de novas leis e políticas, mas na mudança do modo como as pessoas se tratam umas às outras num plano individual – em outras palavras, por meio da empatia.

Referência

KRZNARIC, Roman. O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

Como citar este artigo (ABNT)

NUNES, Claudia. Empatia, exigência do mundo atual. Educação Pública, v. 19, nº 1, 8 de janeiro de 2019.