Análise e contribuição universitária da pesquisa educacional Amor que Educa para formação de docentes e professores de Educação Física no Rio Grande do Sul

Sandro Vinholes

Docente em Educação Física, mestrando em Desenvolvimento e Metabolismo Humano (UFPEL), graduado em Personal Trainer (Faculty International School of Sport Nutrition and Human Performance - EUA), licenciado em Educação Física (UFPEL), docente do Centro Universitário Claretiano - RS), membro do Grupo de Iniciação Científica em Saúde e Movimento (Universidade Anhanguera/RS)

Conheci pessoalmente Marcelo Bittencourt Jardim, o estudioso da ciência do afeto (de afetar e ser afetado), que é um dos aspectos básicos da Psicomotricidade que estuda o sujeito nas partes intelectuais, sociais e em sua motricidade (faculdade de realizar movimentos), o educador físico Marcelo Bittencourt Jardim, que divulgou seu estudo e falou a respeito de sua atuação como coordenador em Educação Física em um programa social do Ministério do Esporte nas favelas da cidade de Niterói/RJ no 1º Congreso Internacional Iberoamericano de Observatorios del Deporte Ciodep no Chile, em Santiago, na Universidad de los Lagos em novembro de 2016. Fui convidado também para palestrar a respeito da neurociência no treinamento desportivo de alto rendimento.

Ressalto nesta análise o seu compromisso com o próximo, sua disponibilidade em desenvolver seu trabalho e estudo; ela se torna peculiar desse jovem pesquisador, tendo em vista a atualidade de suas palavras, o quanto é difícil às pessoas evitar o egocentrismo. Além disso, sua pesquisa representa para a Educação um papel promissor. Em nossas conversas no Chile tive uma conclusão: sua convicção em ajudar a disseminar a promoção das atividades físicas para melhorar a saúde mental e relacional do próximo é muito grande e ele exerce com muita humildade o conceito de igualdade, inclusão social, direitos humanos, humanização e gratidão para com mínimo gesto que lhe foi feito. Contudo, sinto-me apto para contribuir na análise da importância desse magnífico trabalho em comunidades carentes em locais de risco, tendo como parâmetro meus semestres iniciais, ESEF/UFPEL; meu primeiro estágio foi no Instituto de Menores da cidade de Pelotas/RS; lá foi desenvolvido junto com uma equipe profissional um trabalho similar ao do Marcelo com 150 crianças de rua, em circunstâncias bastante parecidas com as citadas no livro. Não posso deixar de salientar meu trabalho junto à comunidade do Bairro Cruzeiro, na periferia de minha cidade. A aceitação foi adquirida por ações de muita diplomacia e permitiu que o tráfico aceitasse minha intervenção junto às crianças de Ensino Médio, desenvolvendo um trabalho de construtivismo e formação de valores que foi importante para crianças e adolescentes inclusos no programa.

As experiências, a escrita de forma objetiva, de fácil acesso e os conhecimentos para os leitores são relevantes para o entendimento do estudo que se torna uma referência de trabalho e resgate de discentes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio em condições de marginalização social, uma contribuição importante para a formação de docentes para estimular o olhar com humanização para os discentes que vivem e estão inseridos em locais de pobreza e riscos sociais, direcionando profissionais da Educação Física a observar as condutas dos discentes durante as atividades de estimulação psicomotora e suas reações diante das dificuldades encontradas, mostrando que a família tem um poder de influência muito grande na formação das condutas positivas e ao mesmo tempo pode influenciar negativamente os alunos por problemas mal resolvidos, falta de acolhimento, falta de diálogo; o olhar e a mediação dos docentes são importantes para o desenvolvimento cognitivo, para a estimulação dos elementos psicomotores em seu crescimento e a condição relacional-afetiva-social desses jovens carentes em vários aspectos. O livro é rico de informações científicas, teorizando em relatos de vivências na prática (campo), inúmeras aplicações pedagógicas de estratégias voltadas a ações e respostas enriquecidas de informações de humanização e construtivismo.

É impressionante a capacidade desenvolvida pelo cientista para driblar as adversidades encontradas; sua eficiência bem fundamentada reflete muitos autores, como André Lapierre, Perrenoud, Piaget e outros.

No decorrer da formação docente como estudo, se torna inevitável sentir a emoção do autor ao relatar como usou conceitos da Psicomotricidade Relacional para se tornar um líder em um grupo rebelde, no qual já tinha por submissão ações de liderança. Marcelo Bittencourt Jardim teve a percepção aguçada de desenvolver elementos intrínsecos praticamente “incubados” nessas crianças; no decorrer da pesquisa, ele relata como trouxe o novo para esses alunos e como trabalhou as emoções e a Psicomotricidade; as dinâmicas envolvidas inseriam em cada aula a cognição da porção límbica cerebral das crianças, incorporando valores e afetos mútuos unindo o grupo, sendo aceito por admiração como líder, bom professor e amigo deles. 

A Filosofia e a Neurociência das dinâmicas são evidenciadas, em cada capítulo do trabalho árduo do pesquisador e de sua estagiária; muitas foram às armadilhas e situações de exigência para com o grupo. Aspectos como drogas, local geográfico das favelas, o poder do tráfico de drogas como influência na vida dos alunos, a prostituição infantil e doenças neurais acarretadas por problemas familiares e sociais também são relatados no livro como variáveis educacionais e de inclusão social. 

O papel do educador físico e da própria disciplina curricular como agentes de intervenção na formação dos sujeitos está muito bem dimensionado na obra, com uma abordagem comportamental e social, são relatadas as visões de vários alunos, as adversidades e as dificuldades enfrentadas pelo educador e sua equipe no decorrer do processo do trabalho. Com as emoções, sua pesquisa também traz a correlação dos processos de descoberta para ambos, docentes e discentes. 

Sendo assim, pelos inúmeros conceitos e temas abordados na pesquisa, esta se torna uma referência de estudo a respeito de políticas públicas e sociais que envolvem várias comunidades carentes de alto risco social do Rio de Janeiro e é enriquecida pela Psicologia do ensino, as ciências da Psicomotricidade Relacional e da Educação Física, capazes de desenvolver uma metodologia educacional pelo uso das emoções e dos afetos para inferir de forma significativa valores, estudos, conhecimentos, entendimentos e conceitos sociais de relevância na formação do indivíduo-sujeito que vive, convive, observa as condutas sociais e o poder da criminalidade que se desenvolve em locais de vulnerabilidade e riscos sociais.

Referência

JARDIM, Marcelo Bittencourt. Amor que educa: o afeto como instrumento primordial na atuação do educador físico com crianças e jovens de comunidades carentes. Rio de Janeiro: Kimera, 2016.

Publicado em 28 de maio de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

VINHOLES, Sandro. Análise e contribuição universitária da pesquisa educacional Amor que Educa para formação de docentes e professores de educação física no Rio Grande do Sul. Educação Pública, v. 19, nº 10, 28 de maio de 2019. Disponível em: