Desafios na avaliação de redações escritas por vestibulandos surdos em um contexto de interação online

João Paulo da Silva Nascimento

Graduando em Letras (UFRJ), integrante do Núcleo de Estudos sobre Interlíngua e Surdez (NEIS-UFRJ)

Em vista das grandes mudanças de que dispôs a comunidade surda brasileira nas últimas décadas, muitas questões relacionadas aos aspectos socioculturais e socioeducativos dessa minoria linguística vieram à tona, implicando mudanças estruturais no que se refere à maneira como se dão as relações sociais protagonizadas por surdos. Um ponto de extrema relevância evocado sobretudo pelo “acolhimento” pioneiro da causa surda pela Pedagogia, por exemplo, foram as discussões quanto à acessibilidade de surdos durante a escolarização e o direito à interação e à educação como proponentes a serem defendidos. Dessa forma, surgiram políticas públicas, como a Lei n° 10.436/02 – também conhecida como “Lei de Libras” – e o Decreto n° 5.626/05, que prevê, dentre outros pontos relativos ao ensino, o tratamento da Língua Portuguesa em sua modalidade escrita como L2 de surdos.

Com isso, demandas envolvendo pessoas surdas passaram a ser evidenciadas não só na esfera educativa como também em outros setores sociais, incentivando certa mobilização para que esses cidadãos pudessem ter assegurados os seus direitos sociais de interação e participação democrática nos eventos que moldam a dinâmica da vida em sociedade. Assim, apesar de a acessibilidade contar com entraves reais que ainda precisam ser vencidos por uma política de inclusão mais consistente, pode-se dizer que hoje se caminha paulatinamente rumo a um estado de maior conscientização a respeito da importância da valorização e reconhecimento da cultura surda desgarrada de uma concepção patológica, da profissão de tradutor e intérprete de língua de sinais (TILS), do direito linguístico envolvendo o tratamento da Libras como L1 e do português como L2, entre outros.

Nesse cenário, o Enem, exame que tem sido adotado como principal forma de ingresso no Ensino Superior no Brasil, reconhecendo as especificidades do processo de escolarização de surdos e os fatores sociocognitivos envolvidos no ensino-aprendizagem de PBL2 para surdos usuários de Libras como L1, lançou mão de novos parâmetros avaliativos para membros da comunidade surda que pleiteiam o início de um curso em nível superior. Tais mudanças na conjuntura do exame incluem tanto sua aplicação em Libras com o auxílio de mídias digitais para sua reprodução em vídeo quanto a correção diferenciada da redação em língua portuguesa, em consonância com as diretrizes expressas no Art. 14, § 1°, inciso IV do decreto mencionado, que estipula a adoção de “mecanismos alternativos de avaliação coerentes com o aprendizado de L2 na correção de provas escritas” (Brasil, 2005).

Muitas instituições que preparam estudantes vestibulandos para a realização do Enem perceberam a importância da inserção de surdos em suas atividades como meio de auxiliar a política de acesso expressa pelas próprias mudanças no edital do certame quanto à inclusão da comunidade surda. Uma delas foi a Plataforma Redação Online (com sede em Florianópolis), a primeira empresa virtual de correções de redação do Brasil, à qual se atribui o reconhecimento da criação de um método inovador de correção, que passou a receber textos escritos em PBL2 de vestibulandos surdos de todo o país interessados em um feedback a respeito de suas produções em etapa de treinamento para o vestibular.

No entanto, embora a legislação oriente uma correção textual distinta, faltam ainda diretrizes consistentes para que ela seja feita de forma padronizada. A ausência de uma grade de correção específica para textos em PBL2 de surdos notadamente encontra-se atrelada de modo proporcional à escassez de descrições mais científicas a respeito da escrita de surdos com base em estudos linguísticos empíricos. Isso posto, os corretores devem se perguntar autonomamente: o que sei sobre a comunidade surda e sua relação com a língua portuguesa? O que significa tratar o português como L2 de surdos? O que considerar no texto escrito do indivíduo surdo e em que medida deve haver penalização?

Evidentemente, muitas respostas prolixas podem ser dadas a esses questionamentos, e este artigo não pretende esgotar tais possibilidades. Diferentemente, pretendemos relatar a dinâmica de correção de textos em PBL2 de surdos no trabalho na Plataforma Redação Online – a primeira plataforma de Redação a se propor à correção de textos em PBL2 – a fim de fomentar questionamentos ainda mais consistentes acerca dos desafios e possibilidades da avaliação interativa desses textos em novos ambientes de aprendizagem que têm surgido com o avanço tecnológico e suas utilizações para fins pedagógicos.

Inicialmente, o que devemos considerar?

A redação do Decreto nº 5.626/05 é muito clara quanto às prerrogativas para a oferta de um ensino funcional e dialógico de PBL2 para surdos, embora a realidade brasileira não se encontre ancorada em tais premissas devido a fatores de diferentes ordens. Em seu Art. 13, o documento define a importância da inclusão dessa temática nos cursos de formação de professores alfabetizadores e habilitados à docência de Língua Portuguesa, alegando que

Art. 13 - O ensino da modalidade escrita da Língua Portuguesa, como segunda língua para pessoas surdas, deve ser incluído como disciplina curricular nos cursos de formação de professores para a Educação Infantil e para os anos iniciais do Ensino Fundamental, de nível médio e superior, bem como nos cursos de licenciatura em Letras com habilitação em Língua Portuguesa.

Entretanto, sabe-se que, apesar de o decreto já estar em vigência há mais de uma década, essa exigência ainda não se encontra em cumprimento ideal para suprir a necessidade expressa em âmbito nacional, conforme mostram Araújo e Nascimento (2018).

De alguma maneira, isso mostra que a ausência de formação específica de professores de PBL2 para surdos precede a ausência de manejo com relação à avaliação de performances escritas desses indivíduos em situações formais, ainda que o mesmo decreto, em seu Art. 14°, considere que

Art. 14 - As instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação, desde a Educação Infantil até a Superior.

§ 1º Para garantir o atendimento educacional especializado e o acesso previsto no caput, as instituições federais de ensino devem: (…) VI - adotar mecanismos de avaliação coerentes com o aprendizado de segunda língua na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a singularidade linguística manifestada no aspecto formal da Língua Portuguesa.

Assim sendo, estamos diante de uma situação dicotômica: cobra-se uma avaliação formativa e respeitosa à identidade sociolinguística da comunidade surda, na medida em que se investe pouco em formação adequada voltada para essa finalidade social para docentes de língua portuguesa. Em contrapartida, pesquisas na área de Português como Língua Adicional – além das pesquisas em PBL2 de surdos, incluem-se aqui as pesquisas no âmbito do Português como Língua Estrangeira (PLE) – mostram que essa de modalidade de ensino carece de um tratamento mais direcionado à funcionalidade discursiva dos textos (Schoffen et al., 2013). A avaliação do processo de ensino-aprendizagem, portanto, deve refletir uma concepção que privilegie sobretudo a familiarização do aprendiz de PBL2 com o gênero textual-discursivo em uso na situação.

Além disso, sabe-se que o texto escrito do aprendiz surdo de PBL2 é moldado pela atuação de processos cognitivos que revelam tanto a maneira como se processa o conhecimento linguístico da L2 quanto a capacidade de aprendizagem de domínio geral como característica intrínseca à espécie humana (Freitas; Nascimento, no prelo). Diante disso, depreende-se que o olhar para o PBL2 de surdos não deve ser categórico, mas funcional e pragmático, a fim de levar em consideração o evento comunicativo como um todo, além de partir do conhecimento prévio, da valorização da cultura e das condições sociolinguísticas dos alunos surdos.

Desafios e métodos para garantir a interatividade na correção

A organização da área do corretor – papel geralmente desempenhado por um graduando em Letras: Língua Portuguesa – na Plataforma Redação Online conta com uma padronização adequada à promoção da interatividade entre o avaliador e o avaliando. Na medida em que são postadas as redações, os avaliadores podem optar por corrigi-las ou não, visto que a remuneração é conferida de acordo com a quantitativo corrigido. Quando há o desejo de correção, automaticamente o texto é disponibilizado ao corretor encarregado para que ele faça suas considerações por meio de comentários e anotações e atribua o grau atingido por habilidades.

As redações dos alunos surdos destinavam-se exclusivamente à minha aba de correção, dado meu histórico de experiência em ensino e pesquisa em PBL2. De modo geral, os escritos recebidos podem ser divididos em três categorias:

  1. aqueles com problemas graves de textualidade;
  2. aqueles com problemas de coesão e coerência ocasionados por prejuízo na decodificação do enunciado referente à proposta temática; e
  3. aqueles cujos desvios de norma padrão da língua portuguesa e/ou inadequações são provenientes de processos cognitivos atuantes na aquisição e desenvolvimento da L2 (Freitas; Soares; Nascimento, 2019).

Essa configuração mostra-nos como o ambiente online da plataforma é heterogêneo e implica uma correção mais incisiva.           Apesar dos desafios, o contexto online propõe uma conexão comunicativa entre o avaliador textual e o autor, o que corrobora uma avaliação colaborativa e não limitada à necessidade de penalização que parece nortear a correção de redações de vestibulares. Assim, tal flexibilidade durante o percurso online de avaliação permite que o aluno surdo tenha acesso a todo o trâmite, com o intuito de promover um ambiente de aprendizagem mais coerente com as atuais perspectivas de ensino de línguas, privilegiando a interatividade como componente basilar a quaisquer processos socioeducativos, inclusive a avaliação. Nessa perspectiva, procuramos fazer com que o aluno compreenda a função social de textos escritos em diferentes gêneros e tipologias, suas posturas discursivas como autor e leitor em formação e a importância de considerar a comunicação como fenômeno sociointerativo e, portanto, dialógico.

Ainda assim, o contexto de interação online sugere uma série de desafios que, por vezes, inibem o progresso estimado à etapa da correção. Indiscutivelmente, o maior deles é a ausência de um mecanismo de comunicação em vídeo, para que o avaliador e o avaliando comuniquem-se em Libras em respeito à identidade linguística do aluno surdo e em vias de deixá-lo mais à vontade para interagir e relatar o processo de construção textual. Os outros, embora não menos relevantes, são condições já discutidas aqui: falta de um quadro avaliativo pensado especificamente para surdos, entraves que perpassam a escolarização da maioria dos surdos brasileiros.

Como  alternativa, a comunicação se dá pelo código escrito e, quando necessário, por meio de glosas e ou palavras-chave, a depender do nível de familiarização do indivíduo com a língua portuguesa escrita. Quando são casos de extrema deficiência na escrita, procuramos manter uma comunicação constante e paulatina, buscando sempre elucidar os pontos de maior dificuldade na construção de sentidos do texto em nível de coesão e coerência. Apesar de tornar a correção um processo mais demorado, isso promove confortabilidade ao aluno surdo para debater, pensar e refletir o processo de ensino-aprendizagem de PBL2 como algo possível e denota determinadas nuances do ensino de Português que lhe é ofertado na escola: um ensino inconsistente, que se mantém em mera abstração devido à escassez metodológica e sustenta fossilizações que poderiam ser facilmente resolvidas desde que houvesse uma prática de ensino funcional de L2.

Considerações finais

Sabendo que as práticas de uso da linguagem se dão em tempos, lugares, sociedades e culturas específicas e que tais fatores não se configuram como relações extralinguísticas (Moita Lopes, 1998, p. 52), concluímos este texto sem, no entanto, lhe atribuir um encerramento, haja vista as inúmeras possibilidades de debate para essa temática. Buscamos considerar pequenas configurações e situações do ensino de PBL2 para surdos por meio de práticas de uso real da língua portuguesa em contexto de aprendizagem não formal, propondo uma análise social de concepções de ensino-aprendizagem, de avaliação do conhecimento linguístico e das demandas pedagógicas da comunidade surda brasileira no que se refere a uso, ensino e promoção da língua portuguesa escrita como direito linguístico que legitima o bilinguismo de surdos.

Referências

ARAÚJO, D. R.; NASCIMENTO, J. P. S. Interculturalismo em Educação Bilíngue de Surdos e o Ensino de PL2 no Estado do Rio de Janeiro: Demandas, Legislação e Formação de Professores. II Seminário de Idiomas no Mundo do Trabalho do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Caderno de resumos. Niterói: IFRJ, v. 01. p. 8, 2018.

BRASIL. Decreto Federal n° 5.626/05. Brasília: Ministério da Educação. 2005.

FREITAS, R.; SOARES, L. A. A.; NASCIMENTO, J. P. S. Os bastidores da escrita: análise cognitivo-funcional de processos cognitivos operantes na aquisição de PBL2 por surdos bilíngues. Revista Diálogos, Recife, no prelo (aceito para publicação em 02/2019).

______; NASCIMENTO, J. P. S. Aquisição e ensino de PBL2 de surdos: um estudo de caso sobre a hipótese do choque construcional na interlíngua (no prelo).

MOITA LOPES, L. P. Oficina de Linguística Aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino-aprendizagem de língua. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

SCHOFFEN, J. R.; GOMES, M. S.; SCHLATTER, M. Tarefas de leitura e produção de texto com base na noção bakhtiniana de gêneros do discurso. In: SILVA, Kleber Aparecido da; SANTOS, Danúsia Torres dos (Orgs.). Português como língua (inter)nacional: faces e interfaces. Campinas: Pontes, 2013. p. 259-274.

Publicado em 28 de maio de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

NASCIMENTO, João Paulo da Silva. Desafios na avaliação de redações escritas por vestibulandos surdos em um contexto de interação online. Educação Pública, v. 19, nº 10, 28 de maio de 2019. Disponível em:https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/10/desafios-na-avaliacao-de-redacoes-escritas-por-vestibulandos-surdos-em-um-contexto-de-interacao-online