Uso em excesso do smartphone e os efeitos no cérebro adolescente

Jair Donato Lima

Mestrando, graduado em Psicologia e em Comunicação Social, docente (Universidade de Cuiabá)

Cilene Maria Lima Antunes

Doutora em Ciências da Educação, pedagoga, coordenadora do Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Ensino (Universidade de Cuiabá)

Eliza Adriana Sheuer Nantes

Doutora em Estudos da Linguagem, docente do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Metodologias para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias (Universidade Norte do Paraná)

Cleonice Terezinha Fernandes

Doutora em Ciências da Motricidade, bióloga, docente do Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Ensino (Universidade de Cuiabá)

Um dos temas da atualidade que geram impacto na vida das pessoas, sobretudo no cotidiano dos adolescentes, cujo cérebro ainda está em formação, é o uso dos dispositivos eletrônicos que propiciam acesso à internet através de redes móveis sem fio, especialmente o smartphone (Herculano-Houzel, 2005; Jensen; 2016). Devido ao uso excessivo desses dispositivos, especialmente por crianças e adolescentes, Jensen (2016) aponta que tais tecnologias podem resultar em um novo transtorno psiquiátrico e psicológico.

A existência de uso compulsivo ou dependência de internet, conexão mais acessada pelos adolescentes no smartphone já foi reconhecida na edição do DSM-V (2014), caracterizada como um transtorno. Há evidências de que o uso em excesso do dispositivo pode se tornar uma dependência, cita Jensen (2016), pois age no sistema de recompensas do cérebro, cujo efeito dopaminérgico é descrito por neurocientistas como Damásio (2012) e Herculano-Houzel (2009). Esses efeitos serão abordados de maneira breve neste artigo, objeto de uma pesquisa empírica composta também pela parte qualitativa.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS – ONU, 2018) anunciou na décima primeira versão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), a inclusão do vício em jogos de videogame como transtorno mental. 

Pesquisas mostram que o uso em excesso desse dispositivo pode afetar dimensões importantes no cérebro adolescente, uma vez que ele está em uma fase marcante de desenvolvimento, o que gera impactos hormonais e bioquímicos negativos, bem como nas relações biopsicossociais do sujeito (Herculano-Houzel, 2005; Jensen, 2016).

Jensen (2016), Setzer (2002) e Herculano-Houzel (2009) explicitam que um contexto permeado de vulnerabilidades e incertezas, por vezes incompreendido por parte de cuidadores, aumenta facilmente o risco de os adolescentes se tornarem viciados nas novas tecnologias. Sobre o sistema de recompensa do cérebro do adolescente e o efeito dopaminérgico decorrente do vício provocado pelo uso em excesso de dispositivos para acesso ao mundo virtual, Setzer (2008, p. 57) afirma: “Crianças e adolescentes são, naturalmente, propensos a se viciarem no uso de meios eletrônicos, simplesmente por não terem uma autoconsciência e um autocontrole tão desenvolvido quanto os adultos”.

É fato que, quando nosso corpo vivencia experiências agradáveis, libera neurotransmissores como a dopamina, responsável pelas sensações de prazer e motivação (Damásio, 2012). Na condição neurobiológica humana existe o sistema de recompensa cerebral (SRC), cuja função é estimular comportamentos que colaboram com a manutenção da vida, a exemplo do sexo, da alimentação e da proteção. Herculano-Houzel (2009) afirma que a ativação do sistema de recompensa é um processo que faz com que o sujeito queira mais que tudo o que foi bom ou que pode ser. Conhecer o funcionamento do SRC do adolescente, que afeta as preferências e desejos decorrentes dos efeitos da dopamina, favorece a compreensão, por parte de pais e educadores, de vários comportamentos observados. O alerta quanto ao uso do smartphone é em relação ao excesso, observação importante para pais e educadores.

Material e métodos

O estudo é constituído pela aplicação da técnica do grupo focal, com posterior análise de conteúdo de Bardin (2016), realizado com dois grupos num total de 15 estudantes do ensino básico com idade entre 11 e 17 anos de duas escolas públicas da região oeste de Cuiabá. O objetivo foi compreender hábitos e práticas, ações, reações e emoções do cotidiano dos pesquisados ao fazerem uso ou não do smartphone nos diversos ambientes que permeiam.

Resultados e discussão

Como parte qualitativa desta pesquisa, os dados estão agrupados em quatro principais categorias:

Contexto cultural

  • Normalidade, o quanto o uso do smartphone está no contexto adolescente;
  • Noção de sociabilidade/regras;
  • Conteúdos mais acessados:
    • Internet (42)
    • WhatsApp (27).

A percepção de normalidade sobre o uso do celular no dia a dia, inclusive na hora das refeições, parece algo comum para parte dos participantes. Foi apresentada uma foto com vários adolescentes que, mesmo estando próximos, estavam fazendo uso do próprio smartphone. As opiniões confirmaram que a foto se trata de uma cena normal, que isso é uma realidade na família e entre amigos, sem autocrítica. A neurociência ajuda a explicar, mediante evidências recentes, baseadas apenas no desenvolvimento do cérebro, que é difícil para os adolescentes fazer uso do raciocínio consequente, ou seja, não é fácil para eles antecipar as consequências prováveis das próprias ações (Herculano-Houzel, 2005).

Mas houve também quem discordasse, referindo-se a regras na família, que considera anormal o uso do dispositivo em determinados horários. O senso crítico e de julgamento, como se fosse de um cérebro adulto, pode surgir não da experiência ou da memória, especificamente, como mostra Herculano-Houzel (2005); resulta de uma interação entre a continuidade de uma experiência e o refinamento do cérebro adolescente, que torna possível o raciocínio emergente como se fosse adulto, capaz de avaliar consequências, um sinal de amadurecimento da região do córtex-pré-frontal do cérebro, assim como da região órbito-frontal, ligada ao julgamento moral e interações na vida em sociedade.

Nota-se ainda que a interação pessoal entre os adolescentes se dá por aplicativos de conversa, inclusive com amigos e família. Para alguns deles, a conversa com os pais ocorre mais via WhatsApp. Houve quem expressasse que esse aplicativo é o recurso utilizado para conversar mais com a família do que pessoalmente.

Contexto emocional e afetivo

  • Celular;
  • Amigos;
  • Relações com a família: distanciamento, diálogos e conflitos;
  • Relações virtuais x relações convencionais;
  • Tempo da convivência social reduzido.
    • Celular (404);
    • Amigos (37);
    • Família (11);
    • Pai (56);
    • Mãe (83).

O smartphone instiga os adolescentes pela diversidade de funções que oferece. Esse dispositivo é popularmente chamado entre os adolescentes brasileiros de “celular”, termo de maior frequência nas discussões dos grupos. O alto índice de citação (404) expõe como o dispositivo é considerado algo muito próximo, com características de indispensabilidade na vida adolescente.

A neurologista Jensen (2016, p. 183) denomina essa situação como “necessidade compulsiva de estar em uma conexão digital”. Ela esclarece que isso ocorre em dois níveis; um deles está ligado ao comportamento, o outro é bioquímico. Sobre este último: o toque do aparelho, as músicas e os bipes do smartphone, tudo isso provoca um alerta no cérebro. Cada tecla digitada, cada notificação recebida, um novo post, enfim, os sinais emitidos pelo aparelho é como se fossem presentes digitais que provocam uma descarga prazerosa de dopamina no cérebro do usuário.

Quando perguntados sobre os momentos em que ficam impossibilitados de acessar o smartphone, a síntese da resposta foi que se tratava de algo desagradável. Jensen (2016) apresenta um estudo que pesquisadores realizaram com crianças de doze países, para saber a sensação que tinham quando ficavam em abstinência de uso do smartphone e de outros meios. Elas relataram sensações e estados emocionais semelhantes aos ouvidos nos grupos focais, como: vazio, nada, loucura, desconexão, incômodo, paralisia, perda, pânico, problema, solidão, ansiedade, irritação, angústia, insegurança, negatividade, tortura, comichão, drogado. Essas palavras evidenciam uma universalização dos níveis comportamental e bioquímico discutidos pela neurologista Jensen (2016).

Sobre o que ocorre no cérebro em momentos como esses, que mostram diferentes graus de ativação decorrentes de estímulos justos ou injustos, Herculano-Houzel (2005) esclarece que pesquisadores identificaram determinadas regiões cerebrais que dão significado a isso. Quando pais e professores entenderem que há um rebuliço neuroquímico no cérebro dos adolescentes, poderão descobrir como lidar com o comportamento deles de maneira mais adequada.

Aspectos fisiológicos e psicológicos

  • Tempo de sono e outras alterações (45);
  • Vício/dependência (20).

São diversos impactos que podem ser provocados no cérebro adolescente devido ao uso do smartphone em excesso. Os relatos nos grupos focais expressaram que estão dormindo menos, entre 2 a 6 horas de sono por noite. Essas poucas horas, em função dos acessos constantes, podem torná-los mais expostos ao risco do vício e ao estresse, à perda de memória de conteúdos escolares, sobretudo, e desequilíbrio de peso provocados pelo cortisol naqueles que não tem o necessário sono noturno (Herculano-Houzel, 2005).

Os entrevistados afirmam que sentem no corpo algum impacto pelo fato de dormir menos em função do uso do smartphone à noite; dizem que o humor muda e sentem cansaço. O sono é considerado um dos aspectos mais importantes do cotidiano das pessoas, afirma Jensen (2016), quando elucida que os padrões do sono são associados a uma gama de hormônios e impulsos cerebrais regulados pelas fases de amadurecimento; ela afirma também que os adolescentes precisam de mais sono do que os adultos, corroborando o que afirma anteriormente Herculano-Houzel (2005).

Autonomia e identidade

  • Autonomia moral;
  • Necessidade dos adolescentes serem ouvidos por pais e professores:
    • Acho (63)
    • Professores (43)
    • Atenção (13)

Destaca-se nesta categoria a emissão de opiniões dos adolescentes, mesmo sem noção clara de evidências ou experiências em torno do que afirmam, sugerem ou reivindicam, pois há um desenvolvimento do raciocínio. Jensen (2016) afirma que essa capacidade está mais ou menos plena por volta dos 15 anos de idade. Mas os adolescentes nem sempre são ouvidos, e isso é algo que ocorre na escola e em casa, no seio familiar. Jensen (2016) explicita que parte do problema da não compreensão dos adolescentes está nos adultos. Por exemplo, um participante do grupo focal 2 comentou o convite recebido para a discussão: “Eu acho que é tipo bem legal, porque a gente nunca tem participação em quase nada na escola”. E complementa, sobre o fato não serem ouvidos pela instituição: “Metade das coisas que tem na escola é para os alunos mais novos que a gente. A gente já não tem tanta possibilidade de entrar nas coisas para participar”.

Nas demais discussões, os participantes expuseram que essa situação de não serem ouvidos e não receberem atenção na escola também ocorre em casa quando tentam falar com os pais, que, por afazeres ou mesmo por estarem acessando seus smartphones, não dão atenção aos filhos. Dar atenção ao que diz o adolescente, considerar o contexto dele sem punição ou julgamento é um princípio para o desenvolvimento da autonomia moral, fase em que as regras são vistas como resultado de uma decisão liberal, aceitas pelo consenso e não por imposição de fora, discorre Piaget (1994) ao abordar a teoria construtivista sobre autonomia moral e intelectual.

Em condições ideais, os adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, vão se tornando progressivamente mais autônomos à medida que crescem, mais aptos para governar a si mesmos do que por outras pessoas, como é na fase heterônoma, na infância, em que as regras são leis externas, impostas pelos adultos (Piaget, 1994). O adolescente nem sempre é entendido nessa fase. Sobre isso, na perspectiva neurocientífica, Herculano-Houzel (2005) esclarece que entender o comportamento dos adolescentes é importante para lidar com eles, que podem receber estímulos e se tornar mais motivados.

Considerações finais

Sem dúvida, o mundo digital oferece múltiplas formas de contribuir para a aprendizagem dos adolescentes, fomenta criatividade, inovação e melhoria na comunicação. Contudo, conforme evidencia este estudo, não é o aparelho smartphone o que está em jogo, mas a intensidade do seu uso.

Vislumbra-se a necessidade de as escolas darem mais atenção aos estudos e alertas disponibilizados por pesquisadores, corroborados por evidências neurocientíficas; de implementar ações que possam potencializar os valores educacionais e trabalhar com mais programas focados na construção da autonomia moral dos adolescentes. As instituições poderiam também se preocupar mais com o entendimento da neuroanatomia do cérebro, por meio de promoção de estudos do tema junto aos professores. Seguramente essa pode ser uma via para melhor entendimento do sujeito adolescente que, em paz consigo e com o meio, terá elementos no futuro para construir um mundo mais humano. 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.

DAMÁSIO, A. R. O erro de Descartes. Emoção, razão e cérebro humano.  São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

HERCULANO-HOUZEL, S. Neurociências na Educação. Rio de Janeiro: Cedic, 2009.   

______. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.   

______. Pílulas de neurociência para uma vida melhor. Rio de Janeiro: Sextante, 2009

JENSEN, Frances E. O cérebro adolescente: guia de sobrevivência para criar adolescentes e jovens adultos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

ONU – Organização das Nações Unidas. OMS inclui vício em videogame em classificação internacional de doenças. 2018. Disponível em: https://nacoesunidas.org/oms-inclui-vicio-em-videogame-em-classificacao-internacional-de-doencas/. Acesso em: 20 jul. 2018.

PIAGET, Jean. O juízo moral na criança. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1994.

ROSSA, Adriana Angelim. O sistema de recompensa do cérebro humano. Rev. Textual, v. 16, nº 2, p. 4-11, out. 2012. Disponível em:

https://www.sinprors.org.br/textual/out2012/pdfs/O_Sistema_de_recompensa.pdf. Acesso em: 30 out. 2017.

SETZER, V. W. Meios eletrônicos e educação: uma visão alternativa. São Paulo: Escrituras, 2002.

Publicado em 28 de maio de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

LIMA, Jair Donato; ANTUNES, Cilene Maria Lima; NANTES, Eliza Adriana Sheuer; FERNANDES, Cleonice, Terezinha. Uso em excesso do smartphone e os efeitos no cérebro adolescente. Educação Pública, v. 19, nº 10, 28 de maio de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/10/uso-em-excesso-do-smartphone-e-os-efeitos-no-cerebro-adolescente