Design Thinking como oportunidade para fortalecer a carreira docente

Fernanda Pereira da Silva

Mestre em Relações Étnico-Raciais (CEFET/RJ), especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)

A carreira docente é tema que proporciona grandes debates e questionamentos. Ao refletirmos sobre a importância do professor para a sociedade, encontraremos opiniões divergentes. Um ponto que podemos encontrar como convergente nessa discussão é que o fazer docente é um lugar comprometido com a produção de práticas educacionais que buscam o aperfeiçoamento de alunos, professores e profissionais da Educação em prol de uma sociedade mais justa e igualitária para os cidadãos.

A profissão de professor não vem atraindo novos profissionais; tornou-se uma segunda opção para muitos docentes e estudantes. Os cursos de licenciatura apresentam baixa procura nas universidades, conforme exposto em diversas notícias veiculadas na mídia, como neste trecho da matéria publicada pela Agência Brasil (2017):

Uma pesquisa do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp) mostra que o número de alunos que ingressaram em cursos de licenciatura presenciais caiu 10% entre 2010 e 2016. No mesmo período, o número de concluintes desses cursos caiu 7,6%.

Este texto se propõe a fazer uma reflexão sobre a importância da criação de novas estratégias que renovem a segurança e a confiança na profissão de professor. Diante do exposto, o Design Thinking surge como alternativa para pensarmos sobre a carreira docente.

Possíveis contribuições do Design Thinking para práticas educacionais

O Design Thinking, que em tradução literal podemos chamar “design do pensamento”, reconhece que o aprendizado começa durante o processo de produção de determinado produto/serviço. A trajetória do fazer proporciona a construção do sentimento de pertencimento nos usuários envolvidos, mostrando que somos parte de uma rede e que todos podem contribuir com alguma forma de mudança. A partir do questionamento “Como posso impactar a vida daquela pessoa?”, o Design Thinking coloca o usuário/sujeito no centro da pesquisa, construindo um ciclo de aprendizado colaborativo que produz dados sobre quem são as pessoas envolvidas nesse processo (personas).

Teixeira (2014, p. 143) complementa que,

à medida que você vai conversando com mais usuários, é possível criar personas para o seu projeto: uma documentação de quem é esse consumidor, qual o seu perfil demográfico, quais as suas necessidades, os desejos e anseios quando estão buscando uma solução para seu problema.

Esses dados contribuem para a construção de uma rede de conhecimentos que busca despertar a empatia em todos os envolvidos no projeto em questão. A transparência das informações também é um fator de destaque que se torna um importante aliado para fortalecer a identidade docente. Imbernón (2009, p. 72) norteia nossa leitura para o entendimento do termo “identidade docente”:

Quando falamos de identidade docente, não queremos apenas vê-la como conjunto de traços ou informações que individualizavam ou distinguiam algo, mas sim como o resultado da capacidade de reflexão; é a capacidade da pessoa ou grupo intimamente conectado de tornar-se objeto de si mesmo que dá sentido à experiência, integra novas experiências e harmoniza os processos às vezes contraditórios e conflitos que se dão na integração do que acreditamos que somos e do que gostaríamos de ser; entre o que fomos no passado e o que somos hoje.

Podemos identificar na imagem a seguir o ciclo de contribuições que o Design Thinking pode produzir ao inserirmo-lo no cenário da educação.


Figura 1: Ciclo de contribuições do Design Thinking para práticas educacionais.
Fonte: A autora (2019).

Planejar ações formativas que coloquem o professor como sujeito possibilita construir uma trajetória para o seu desenvolvimento profissional, reconhecendo nas vivências do professor formas de aprimorar a interação com as instituições de ensino e, consequentemente, aperfeiçoar a abordagem de temas que envolvam as diversidades das relações sociais. Nóvoa (2009, p. 4) afirma que

os professores reaparecem, neste início do século XXI, como elementos insubstituíveis não só na promoção das aprendizagens, mas também na construção de processos de inclusão que respondam aos desafios da diversidade e no desenvolvimento de métodos apropriados de utilização das novas tecnologias. Reconhecer a identidade docente amplia as percepções sobre as vivências coletivas que o ambiente educacional proporciona.

A construção de projetos educacionais que identifiquem a importância de um planejamento criativo, em que o usuário fique no centro da pesquisa e que valorize a inovação como norteadora de suas ações poderá reconhecer na sensibilidade e intuição um caminho para buscar as melhores práticas para o aperfeiçoamento e incentivo à carreira docente. As principais etapas para construção de um planejamento criativo que se utiliza da inovação proposta pelo Design Thinking dividem-se em:

  • Imersão preliminar: quando compreendemos que o problema é um ponto de partida para descobrir o que está por trás dele. É compreender o contexto em que o problema está inserido para poder solucioná-lo.
  • Imersão profunda: É o momento de produzir empatia e colocar-se no lugar do usuário e buscar compreender suas dificuldades e aspirações.
  • Análise e síntese de dados: Tão fundamental quanto coletar informações é saber interpretá-las. Encontrar interpretações relevantes e gerar insights significativos.
  • Ideação e prototipação: Gerar ideias para o projeto que estimulem a criatividade. Todo mapeamento de dados é transformado em ideias, com base em múltiplos olhares. Após a ideação, são construídos os protótipos para que as ideias sejam apresentadas para os usuários e, assim, reconhecer suas forças e fraquezas.
  • Testes: É a etapa em que podemos ver as soluções aplicadas em contextos reais, ou seja, ao invés de uma formação ser lançada diretamente aos servidores, ela poderá ser testada com usuários convidados para verificar sua performance e assim aprimorá-la.

Uma das grandes contribuições do Design Thinking para educação é a utilização de equipes multidisciplinares. Diferentes profissionais com diferentes formações produzirão um diálogo rico a partir de diferentes olhares.

O Design Thinking pode contribuir para a elaboração de projetos educacionais que visam fortalecer a carreira docente, pois estimula o aprender fazendo e possibilita a criação de empatia com o usuário. O pensar de forma abdutiva e dedutiva, ou seja, utilizando raciocínio lógico e criativo na análise de repertórios por meio de informações obtidas com usuários, além de incentivar a elaboração de perguntas e não tentar apenas achar respostas em busca de soluções inovadoras, é contribuição que o Design Thinking pode proporcionar.

Os conteúdos produzidos provêm de múltiplos olhares para enxergar determinada situação, a partir de diferentes perspectivas e ângulos construindo um local para produção de discussões para aproximar as intenções do pensamento crítico e afastando ideias previsíveis e lineares. Ao capturar as impressões dos usuários, o Design Thinking auxilia as instituições de ensino a reduzir incertezas e direcionar caminhos mais assertivos, evitando alternativas que não são factíveis e bem recebidas pelos usuários.

A construção de protótipos e ambientes de testes auxilia no amadurecimento de equipes e profissionais de educação, estimulando o foco na interação das ideias. O erro é identificado pelo Design Thinking como parte de um processo de aprendizagem que possibilita a construção de novos conhecimentos.

O Design Thinking pode agregar valor para as instituições de ensino, pois reconhece na inovação formas de pensar as pessoas, causando impacto em suas vidas e não apenas apresentando novas formas predeterminadas de como fazer ou como ser professor. A chave essencial do Design Thinking é o intelectual das pessoas; logo, poderá otimizar custos nas instituições. O foco é dialogar e produzir novas formas de pensar, trazendo novos valores para os usuários envolvidos e para a instituição.

Como foi apresentado no início, temos um problema que é a baixa procura pela profissão de professor. Uma das possibilidades com que o Design Thinking pode contribuir para as instituições de ensino é a criação de incubadoras de projetos, caracterizando-se como local destinado a acolher profissionais da Educação que discutirão coletivamente e construirão projetos educacionais que visem estimular o fazer docente. Com base na visão sistemática e crítica que o Design Thinking apresenta, podemos reconhecer na evasão de professores uma oportunidade para produzir novas formas de pensar e fortalecer a identidade docente.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Pesquisa mostra queda no interesse por cursos de licenciatura. Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2017-11/pesquisa-mostra-queda-no-interesse-por-cursos-de-licenciatura. Acesso em 27 jan. 2019.

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BURNETT, Bill; EVANS, Dave; SAAD, Juliana. O design da sua vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

CAVALCANTI, Carolina Costa; FILATRO, Andrea. Design Thinking na Educação presencial, a distância e corporativa. São Paulo: Saraiva, 2017.

IMBERNON, Francisco. Formação permanente do professorado - novas tendências. São Paulo: Cortez, 2009.

INCUBADORA COPPE/UFRJ. Capacitação. Disponível em http://www.incubadora.coppe.ufrj.br/servicos/capacitacao. Acesso em 29 jan. 2018.

INSTITUTO FEDERAL DO MARANHÃO. Incubadora de Ideias promove palestra sobre empreendedorismo. Disponível em https://portal.ifma.edu.br/2018/04/06/incubadora-de-ideias-promove-palestra-sobre-empreendedorismo/. Acesso em 07 fev. 2019.

NÓVOA, António. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009. Disponível em https://rosaurasoligo.files.wordpress.com/2017/04/antc3b3nio-nc3b3voa-professores-imagens-do-futuro-presente.pdf. Acesso em 18 jan. 2019.

Publicado em 11 de junho de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Fernanda Pereira da. Design Thinking como oportunidade para fortalecer a carreira docente. Educação Pública, v. 19, nº 11, 11 de junho de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/11/design-thinking-como-oportunidade-para-fortalecer-a-carreira-docente