A paternidade e a maternidade na construção da identidade do adolescente e a evasão escolar

Polliane de Jesus Dorneles Oliveira

Mestranda em Educação Tecnológica (Cefet/MG), psicóloga e pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Educação Especial, Psicomotricidade Aplicada à Educação, Neuropsicopedagogia, alfabetização e letramento

Este trabalho foi pautado na busca da compreensão de quais são as repercussões que a paternidade e a maternidade acarretam na construção da identidade dos adolescentes e a evasão escolar desses jovens.

Segundo Lyra da Fonseca (1997), a gravidez pode ser considerada muito precoce, imatura e indesejável, tratando-se, assim, de um acontecimento fora do tempo quando ocorre na adolescência. Uma gravidez não planejada pode trazer várias mudanças na vida dos adolescentes e na de suas famílias. Entretanto, essa não é uma posição de consenso entre pesquisadores. Há experiências relatadas em que se pode considerar que a gravidez possibilitou o resgate da jovem grávida, pois após a gravidez ela passou a assumir compromissos e projetos de vida, refazendo escolhas e perspectivas de forma positiva para sua vida.

As variáveis como situação social, gravidez e dinâmica familiar estão envolvidas, entre outros elementos que vão além dos muros da escola, mas há posturas que podem ser adotadas e que podem melhorar gradativamente a situação. A evasão escolar tem vários motivos ligados a contextos diversos, entre eles a gravidez precoce. Antigamente, as mulheres casavam-se cedo e se dedicavam às atividades domésticas e aos filhos. Praticamente não iam à escola; os métodos contraceptivos não existiam, eram muito falhos ou seu uso era muito limitado. Os partos eram feitos em casa, sem assistência adequada; com isso, o número de mortes decorrentes das gravidezes era grande. O modelo familiar não permitia filhos fora do casamento, mas isso não quer dizer que não existiam. Esses filhos muitas vezes eram escondidos da sociedade, criados em orfanatos ou por terceiros mantidos pela família. Hoje isso não é bem assim. Homens e mulheres tendem a se casar mais tarde. O período que, antigamente, era reservado para a procriação atualmente é destinado às atividades escolares, à preparação profissional e à independência financeira. A gravidez passou a ser vista como um problema de saúde pública, familiar e estrutural, pois antes que a adolescência se conclua, ela se coloca na vida dos jovens, fazendo com que tenham que se reorganizar em projetos não previstos por eles e pelas famílias.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, nº 9.394/96) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), um número elevado de faltas sem justificativa e a evasão escolar ferem os direitos das crianças e dos adolescentes. Nesse sentido, cabe à instituição escolar valer-se de todos os recursos dos quais disponha para garantir a permanência dos alunos na escola.

A ênfase dos estudos sobre a gravidez na adolescência muitas vezes mostra o ponto de vista feminino; pouco se fala sobre o masculino, pouco se estudam os pais adolescentes. Estes geralmente são omitidos nas pesquisas ou são pouco citados. A responsabilidade de cuidar e de criar a criança, em grande parte das vezes, recai sobre a mulher e/ou sobre sua família de origem. Pouco se escuta dizer sobre os desejos, inseguranças, conflitos, medos e responsabilidades masculinas nessa circunstância da vida.

A evasão escolar é classificada como o abandono da escola antes do fim do ano letivo por alunos que não venham a concluir a série ou o ano letivo em que foram matriculados.

Pode-se dizer que o que Ariès (1978) disse é completado por Calligaris (2000), que alega que a infância é uma invenção moderna. E complementa:

entendendo aqui por infância não os primeiros anos da vida – que sempre existiram, obviamente –, mas a própria ideia de um tempo da vida bem distinto da idade adulta, miticamente feliz, protegido pelo amor dos pais e, sobretudo, não definido simplesmente pela espera apressada de se tornar adulto. Na Modernidade, a infância se tornou objeto de preocupações, meditações, planos e projetos infinitos... Aliás, essa posição aos poucos parece ser herdada pela adolescência (Calligaris, 2000, p. 61-62).

O paradigma educacional procura fazer com que todos os alunos tenham acesso à educação de qualidade nas redes regulares de ensino, procurando desenvolver da melhor forma possível suas capacidades e potencialidades. Há muitos anos a evasão e o desenvolvimento educacional de adolescentes gravidas ou seus parceiros têm sido um desafio a ser enfrentado no ambiente escolar.

O objetivo deste trabalho foi realizar uma análise com base na repercussão da paternidade e maternidade na adolescência e a evasão escolar após a gravidez desses adolescentes.

Procedimentos metodológicos

Foi realizada pesquisa qualitativa e exploratória a fim de buscar conhecer interesses, expectativas, atitudes, comportamentos, projetos de vida, além de opiniões dos adolescentes que tiveram filhos na adolescência e levantamento bibliográfico em busca de respostas referentes ao tema. Foram realizadas entrevistas individuais, semiestruturadas com quatro adolescentes (dois de cada sexo), com idades entre 15 e 18 anos, que conceberam filhos no período. Os adolescentes são de nível socioeconômico médio, com escolaridade entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio incompleto.

As entrevistas, realizadas em dezembro de 2018, foram gravadas com o consentimento por escrito dos adolescentes; depois foram transcritas e analisadas.

Estudos teóricos sobre identidade e gravidez na adolescência

O que é adolescência? Em cada época, a criança era tratada de forma diferente. Até o século XII, na época medieval, a infância era desconhecida. As crianças eram retratadas como um adulto em miniatura; seus trajes e divertimentos não eram diferentes dos adultos. Essa fase da vida era considerada um período rápido e sem importância alguma, ou seja, um período insignificante (Ariès, 1978).

A palavra infância, de origem latina foi utilizada durante muitos anos para designar a infância e a adolescência. A adolescência, tal qual a conhecemos hoje, surgiu no século XVIII. Segundo Ariès (1978), antes desse período, a adolescência era confundida com a infância. O vocabulário da infância compreendia infância e adolescência, havendo outra denominação para os jovens: juventude. Somente a partir da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o adolescente passou a ser visto como um sujeito autônomo e dotado de sentidos e valores. A adolescência torna-se a idade favorita, na qual se desejava chegar rápido e permanecer nela por um longo tempo.

Em 1990, criou-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que não somente defende direitos de crianças e adolescentes infratores, mas sim de todas as crianças e adolescentes, sem distinção. A partir dessa lei, os adolescentes tiveram atenção diferenciada, pois até o momento só existiam instituições e códigos para “menores infratores” ou “menores abandonados”. Códigos muitas vezes punitivos, que não asseguravam sua condição de sujeito de direitos.

O ECA prevê que o período que compreende a adolescência vai dos 12 aos 18 anos. A Organização Mundial da Saúde delimita a adolescência entre 10 e 19 anos. Não há, assim, concordância entre quando começa e quando termina a adolescência. Contudo, ressalta-se que não somente a idade dos jovens deve ser analisada, como também o período das mudanças que estão acontecendo, pois um adolescente de 12 anos é muito diferente de um de 18 anos nos aspectos físicos, corporais e psicológicos. Assim sendo, a adolescência pode ser considerada uma transição entre ser criança e ser adulto. Nessa fase da vida, o sujeito em questão já não é mais criança, porém ainda não é adulto.

A etimologia da palavra “adolescência” vem do latim, do verbo adolescere, que significa “crescer ou desenvolver até que seja maduro” (Lopes, 1995). A adolescência tal como é estudada hoje tem apenas um século – não era considerada um fato social que tivesse importância. Havia a preocupação com os jovens no aspecto físico, moral, econômico, mas não era um tema que interessasse à pesquisa (Calligaris, 2000). Pode-se dizer que Calligaris (2000), ao alegar que a infância é uma invenção moderna, completa o que Ariès (1978) afirmou. Para aquele autor, o adolescente é capaz de fazer sua própria história. O início da adolescência para ele é facilmente observável, por se tratar de mudanças que são fisiológicas. Essa fase da vida é marcada pela puberdade, ou seja, pelo amadurecimento dos órgãos genitais, por mudanças corporais, pela evolução da maturação sexual para ambos os sexos. Mas vale ressaltar que nem sempre o início da puberdade se dá simultaneamente ao início da adolescência, ou seja, uma ou outra pode se iniciar primeiro.

Para ele, adolescente é alguém que já assimilou os valores mais banais; o corpo chegou a uma maturação para que se possa, efetiva e eficazmente, dar tarefas que já lhe são apontadas como valores introjetados; que tem o inexplicável dever de ser feliz, por ser uma fase muito desejada e idealizada por todos. Pode-se dizer, em outras palavras, que

há um sujeito capaz, instruído e treinado por mil caminhos – pela escola, pelos pais, pela mídia – para adotar os ideais da comunidade. Ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e seu espírito estarem prontos para a competição, não é reconhecido como adulto (Calligaris, 2000, p.15).

Assim, entende-se que a adolescência é um período de transição, no qual já não se é mais criança nem se reconhece como um adulto. Mas é uma fase na qual ninguém sabe ao certo quando se torna homem ou mulher, e não se sabe precisar o que é necessário para que um adolescente se torne adulto (Calligaris, 2000).

É importante ressaltar que os conceitos de puberdade e adolescência não são idênticos. O primeiro deriva de aspectos fisiológicos do corpo; o segundo, de aspectos psicológicos, podendo aparecer juntos ou separados no curso da vida. A adolescência deixa de ser um conceito puramente biológico e passa a ser também psicossocial (Lopes, 1995). Essa variação pode ocorrer de autor para autor, pois o início e o término da adolescência são questões em relação às quais não existe consenso. Para alguns autores, ela se dará a partir da puberdade; para outros, existe uma data cronológica para tal acontecimento. Tanto o início quanto o término da adolescência são bastante discutidos – isso irá depender muito do desenvolvimento físico e emocional de cada pessoa, do meio em que está inserida e até da cultura.

A adolescência é um período do desenvolvimento pelo qual todos já passaram ou ainda irão passar; além disso, se constitui como construção cultural e irá sofrer variações dependendo do contexto no qual o sujeito estiver inserido. Questões relativas ao estilo familiar, ao gênero, ao nível socioeconômico também influenciarão na construção e na vivência da adolescência, nesse momento da vida.

Identidade e adolescência: pontos de vista

Uma pergunta fundamental a ser respondida na adolescência diz respeito à construção da identidade. Inevitavelmente, o adolescente se pergunta: “quem eu sou?”. Vários são os fatores que contribuem para o início da construção da resposta a essa pergunta, que, na verdade, se dá ao longo de toda a vida, uma vez que a identidade é algo dinâmico. Dependendo da fase da vida, muitas outras questões serão acrescentadas a essa pergunta. Diversos autores discutem a questão da identidade. Neste trabalho, são destacados os pontos de vista de Knobel e Ciampa.

Para Knobel (1981), a identidade é construída ao longo da vida; vai ser caracterizada pelo momento evolutivo que a pessoa atravessa. Ele acredita que existam alguns tipos de identidades:

Essas identidades vão sendo “utilizadas” na medida da necessidade, podendo aparecer simultânea ou isoladamente. A adolescência, segundo Knobel (1981), é vista como um período no qual o indivíduo é preparado para a maturidade.

Para Ciampa (1994), a identidade vai ser formada ao longo da vida do sujeito e está em constantes mudanças, a partir do momento em que acontecem as interações sociais, como se fosse uma metamorfose. Segundo ele, é como se a identidade tivesse um caráter temporal, pois fica restrita ao momento em que a pessoa vive, quando ela se torna algo, como: “Sou professora, mãe, tia, estudante...” – cada posição que a pessoa ocupa determina a identidade, o ser humano é a unidade da multiplicidade. De acordo com cada situação, há um comportamento diferente. Se está na escola, o papel é de estudante; se o lugar é a casa, o papel é de mãe, e assim por diante. Uma identidade se reflete na outra, não existindo, assim, “qualquer possibilidade de se estabelecer um fundamento originário para cada uma delas” (Ciampa, 1994, p. 67). Pode-se dizer que o fator social ou as relações sociais modificam como as identidades são “utilizadas”.

Como se pode perceber, não existe uma coerência entre as idades de quando começa e de quando termina o período da adolescência. Entretanto, em concordância, destaca-se que a maioria dos autores afirma que é um período de modificações, de transição entre o ser criança e o ser adulto, de mudanças físicas, psicológicas, corporais etc. A identidade vai ser formada e transformada ao longo da vida do indivíduo e de acordo com as interações sociais, situações, grupos sociais em que cada um vive; vai se construindo de acordo com cada sujeito, a partir de suas vivências dentro e fora da família e do contexto social ao qual pertença.

Evasão escolar decorrente da gravidez precoce

Questões familiares, trabalho e gravidez: esses são os três principais elementos que afastam as jovens brasileiras dos estudos, segundo pesquisa sobre evasão escolar feita em parceria com Ministério da Educação, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso). Muitos adolescentes que concebem filhos na adolescência não contam com o apoio dos pais e não têm estrutura para deixar os filhos na escola. Dessa forma, eles se veem obrigados a interromper o processo de estudo.

A porcentagem de jovens que concluem o Ensino Médio na idade certa – até os 17 anos – aumentou em 10 anos, passando de 5%, em 2004, para 19%, em 2014. Os dados estão em um estudo do Instituto Unibanco feito com base nos últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há, no entanto, 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos que deixaram a escola sem concluir os estudos; desses, 52% não concluíram sequer o Ensino Fundamental. Os dados são altos e ao mesmo tempo alarmantes: mais da metade dos jovens não conclui o Ensino Fundamental e, dos que passam para o Ensino Médio, mais de 10% não o concluem.

Muitos são os fatores que contribuem para a evasão escolar e podem ser provocados dentro e fora da escola, como a repetência escolar motivada muitas vezes pela falta de uma didática adequada por parte dos professores e pelas condições precárias na estrutura física da escola, muitas vezes esquecida pelos governos federais, estaduais e municipais. Dificuldades de acesso à instituição de ensino; espaço físico sem mobiliário e material didático básico; e falta de merenda escolar são outros aspectos que podem ser decisivos para manter o estudante dentro da sala de aula.

A gravidez pode tornar-se um empecilho para que continuem na escola, pela dificuldade de com quem deixar a criança – muitas vezes os avós não estão dispostos a ajudar ou ate mesmo não podem auxiliar por diversos fatores e motivos.

Adolescência e puberdade: transformações e mudanças

É na puberdade que o corpo, tanto dos meninos quanto das meninas, começará a se desenvolver em relação aos caracteres sexuais secundários. Segundo Lopes (1995), esse período tem início em idades diferentes, por volta dos 10 ou 11 anos na menina e 11 ou 12 nos meninos. Há mudanças na estatura, no peso, nos aspectos físicos, como aparecimento de pelos pelo corpo, mudança da voz, do peso, aparecimento de odores, início da ejaculação, menstruação nas meninas. Observa-se hoje que as puberdades femininas e masculinas estão cada vez mais precoces. São características universais, ou seja, todos irão passar por essas transformações mesmo que tardiamente.

Na puberdade, acontece o desenvolvimento e amadurecimento dos órgãos de reprodução, resultando na espermatogênese, nos meninos, e na ovulação, nas meninas (Lopes, 1995). A partir desse momento, ambos já podem reproduzir, mesmo que o corpo ainda não esteja totalmente desenvolvido.

Para Cabral (2003), a redução da idade média da menarca e a iniciação precoce da relação sexual, assim como a falta de informação sobre métodos contraceptivos e até mesmo a dificuldade em ter acesso a eles podem estar associadas a uma gravidez na adolescência.

Uma gravidez no início da puberdade pode ocasionar risco de morte tanto para a adolescente quanto para a criança, considerando aspectos fisiológicos. Além disso, pode ser uma experiência que dará sentido à vida dos envolvidos, transformando-a.

Os jovens terão consciência dessa transformação ao mesmo tempo que a estarão sofrendo. Geralmente eles não têm consciência de tudo que passarão ao longo da adolescência e da puberdade. Pode-se dizer que é na adolescência que se amplia o interesse por questões relativas à sexualidade e por escolhas sexuais – pelo sexo oposto ou não. Nesse período, existe uma identificação na relação grupal, na qual os iguais permanecem juntos e os ditos diferentes são excluídos.

Um dos argumentos, tanto na literatura quanto no senso comum, é que a gravidez na adolescência ocorre por falta de informação dos métodos contraceptivos (Cabral, 2003). Mas será que, para solucionar esse problema, seria necessário apenas informar os jovens acerca de métodos contraceptivos? Com base nos estudos realizados até o momento, a resposta seria não, por vários motivos: um deles seria que, quanto mais cedo se inicia a vida sexual, menores são as chances de os jovens se prevenirem. Em muitos estudos, os adolescentes dizem não pensar em métodos contraceptivos na hora da relação sexual. Geralmente, primeiro iniciam a prática sexual e depois pensam em contracepção.

A adolescência torna-se um período de muita turbulência para o jovem, pelas modificações ocorridas no corpo e as psicológicas. Uma fase em que não é criança e, ao mesmo tempo, ainda não é um adulto. “Querem que ele seja autônomo e lhe recusam essa autonomia. Querem que persiga o sucesso social e amoroso e lhe pedem que postergue esses esforços para ‘se preparar’ melhor” (Calligaris, 2000, p. 26).

Isso, para o adolescente, torna-se muito complexo, pois, ao mesmo tempo que desejam algo dele, pode ser que desejem algo completamente diferente e contraditório.

O fato é que a adolescência é uma interpretação de sonhos adultos, produzida por uma moratória que força o adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele. O adolescente pode encontrar e construir respostas muito diferentes a essa investigação. As condutas adolescentes, em suma, são tão variadas quanto os sonhos e os desejos reprimidos dos adultos (Calligaris, 2000, p. 33).

Gravidez na adolescência: projeto de vida ou descuido?

A gravidez na adolescência não é um acontecimento, mas sim parte do processo da busca pela identidade, na qual os adolescentes podem encontrar dificuldades em relação ao tempo e ao espaço que têm (Duarte, 2005, p. 8). De modo geral, pode-se dizer que a gravidez na adolescência é enfrentada com bastante dificuldade, um período no qual os adolescentes ainda estão em formação fisiológica e psicológica. É uma passagem do ser filho(a) para o ser pai ou mãe.

A primeira gravidez não imuniza os adolescentes; pelo contrário, ficam fragilizados, o que os prejudica em relação a algumas medidas futuras com os companheiros ou com os familiares (Duarte, 2005, p. 12). A primeira gravidez na adolescência não será necessariamente a única: há adolescentes que engravidam várias vezes nesse período da vida. Segundo Duarte (2005), geralmente, a adolescente que tem um filho engravida novamente pouco tempo depois.

Observa-se que as meninas que engravidam na adolescência são privadas de estudos e trabalho. Passam a se dedicar integralmente ao filho ou, em outros casos, sofrem preconceito e discriminação nos ambientes que frequentam, como a escola. O adolescente muitas vezes continua com a vida sem alterações significativas, pois, culturalmente, a mulher é que deve cuidar dos filhos. Alguns têm suma importância na criação do filho, mas outros se abstêm por completo, deixando a obrigação de cuidar da criança somente com a mulher.

A assunção da paternidade caracteriza a transição de uma condição para outra. Pode ser que, para alguns, ela represente a consolidação do processo de vida de adulto e outros a vejam apenas como uma experiência de transição. Dessa forma, cada um passa pelo processo de forma diferente, de maneira singular. Para alguns, significa uma transição rápida e adaptável; para outros, pode transformar a vida antiga em outra completamente nova, com a responsabilidade de adultos, uma vez que precisam cuidar de um novo ser, além da dedicação em relação aos cuidados maternos e paternos e, muitas vezes, financeiros.

Duarte (2005) alega que a sociedade atual dá valor às coisas materiais, como sucesso financeiro, profissional, educacional, ser o mais inteligente, o mais forte, o mais bonito. E será nesse sentido que mães e pais adolescentes desejam que seus filhos perpetuem e permaneçam. Porém quando ocorre uma gravidez não planejada na adolescência, parece que aconteceu alguma falha na educação dos filhos ou algo deu errado. Além disso, esse tipo de discurso mostra quanto os pais se comportam como a escola tradicional, que informa, domestica, treina, perpetua conceitos, mas não educa (Duarte, 2005, p. 14).

Muitas vezes, o adolescente do sexo masculino não consegue associar a maturação dos órgãos genitais com a probabilidade de se tornar pai. E a menina não acredita que esteja pronta ou preparada para gerar uma criança. Ambos possuem o pensamento mágico de que isso nunca acontecerá com eles. Geralmente, os meninos culpam as meninas por terem engravidado. Isso acontece porque, culturalmente, a mulher é a responsável pela criança, pelos afazeres domésticos e, nesse caso, pela prevenção da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis.

Gênero: socialização e construções de gênero

Quem nunca ouviu falar: “a mulher é o sexo frágil e o homem deve ser bruto”? Esses estigmas passam de geração a geração, muitas vezes repetidos sem ao menos se ter consciência do que é falado, ou seja, de forma a considerar natural a afirmação, desconsiderando a sua construção.

As garotas se descobrem mulheres por meio dos olhos dos outros, a partir do momento em que começam a perceber que os outros as olham de forma diferente, destacando seu desenvolvimento físico, o tratamento passa a ser diferente em casa. O desenvolvimento físico proporciona experiências não antes imaginadas, como a menstruação. Para os rapazes quase não existem restrições e proibições, culpas e cobranças (Duarte, 2005, p. 15-16). Essa perspectiva de Duarte (2005) não considera os sentimentos vivenciados pelos garotos a partir das transformações e do desenvolvimento. Entretanto, ela retrata o tratamento dado a uns e outros em seus processos de crescimento e socialização no contexto familiar e social.

Segundo Borges (2007), o gênero pode ser percebido como um processo no qual a sociedade atribui valores e dita as normas, delimitando o que seja masculino e feminino. Para ela, a iniciação sexual do sexo masculino acontece primeiro que a do sexo feminino. O gênero pode ser entendido como o processo pelo qual a sociedade classifica e atribui valores e normas, construindo, assim, as diferenças e hierarquias sexuais, delimitando o que seriam papéis masculinos e femininos (Borges, 2007, p. 598).

Isso pode proporcionar que homens e mulheres tenham reações, desejos, vontades esperados por grupos sociais nos quais estão inseridos e, até mesmo, a partir da cultura. Mas nem sempre acontece, pois as pessoas são diferentes, têm reações e desejos diferenciados. Duarte (2005) afirma que o papel da mulher na sociedade sofreu alterações a partir dos anos 1960, à época do movimento feminista. A mulher passou a exigir igualdade em relação aos homens, se dividindo entre o trabalho, o lar, o marido e os filhos. Cada um nasce com a anatomia do sexo feminino ou do sexo masculino, porém ser homem ou mulher será apreendido no processo de socialização, da cultura, da família, dos grupos que são introjetados (Duarte, 2005, p. 17).

Pesquisa de campo: paternidade e maternidade na adolescência e a evasão escolar

Com a análise dos dados coletados em campo, objetiva-se verificar a repercussão da maternidade e da paternidade na construção da identidade de adolescentes de nível socioeconômico médio e a evasão escolar quando acontece a gravidez nesse período. A seguir está a caracterização dos adolescentes entrevistados e na sequência as especificidades das experiências deles. Seus nomes são fictícios, para garantir o sigilo e a não identificação.

Alexandra, 18 anos, possui o Ensino Médio completo; é solteira, tem uma filha de dois anos. Não tem namorado. Trabalha há um ano e seis meses em uma empresa de telemarketing para sustentar a filha. Mora com a mãe, a filha, sobrinhos e mais duas irmãs. Tinha um relacionamento instável com seu parceiro quando a gravidez aconteceu. Após a gravidez, sai pouco. Diz ter boa relação com a família e com a filha.

Beatriz, 22 anos, casada há quase seis anos, é dona de casa, tem dois filhos: uma menina de cinco anos e um menino de 10 meses. Possui o Ensino Médio incompleto. Engravidou com 16 anos, enquanto seu parceiro tinha 22. Casou-se após a gravidez e mora com o marido e os dois filhos em um apartamento alugado. Namorava quando a primeira gravidez aconteceu.

Nadson, 24 anos, casado há sete anos, tem um filho de oito anos. Completou o Ensino Médio e trabalha formalmente. Quando a parceira engravidou, tinha 16 anos e ela 15. Casou-se após a gravidez. Mora hoje com a esposa e o filho em um barracão alugado próximo à casa de seus pais. Tinha uma relação instável com a parceira quando aconteceu a gravidez.

André, 23 anos, casado há quase cinco anos, tem um menino de cinco anos. Possui o Ensino Médio completo. Trabalha e não estuda, mas diz ter vontade de fazer uma faculdade. Quando aconteceu a gravidez, ele tinha 17 anos e ela 16. Mora com o filho e a esposa em um barracão nos fundos da casa de seus pais. Tinha com sua parceira uma relação estável de dois anos quando a gravidez aconteceu.

A experiência das adolescentes

Por iniciação sexual considera-se o período e o modo pelos quais os entrevistados começaram a manter relações sexuais. Nas entrevistas realizadas, ambas as participantes iniciaram a vida sexual no início da adolescência, ou seja, entre 14 e 15 anos. Para Duarte (2005), as primeiras relações sexuais não são programadas; acontecem sem qualquer previsibilidade. Tal fato indica a importância de ter diálogo na família e em outras instituições sociais frequentadas pelos adolescentes que tenham informações sobre sexo.

Como consta no relato da Alexandra, sua iniciação sexual aconteceu com 15 anos, sem nenhuma proteção contra doença ou gravidez. Para ela, isso foi um acontecimento natural. Com Beatriz aconteceu da mesma maneira, inesperadamente. Em seu relato diz que a primeira relação sexual aconteceu quando tinha 14 anos, também sem nenhuma proteção e de forma inesperada.

Há algum tempo verifica-se uma modalidade afetiva entre adolescentes denominada ficar. Pode-se dizer que o ficar é um namoro sem compromisso, é mais rápido que o namoro, não tem exigência de fidelidade entre os casais, pode durar uma noite como vários meses. Pode-se beijar, abraçar e, em alguns casos, acontece relação sexual. Segundo Alexandra, na época em que aconteceu sua gravidez estava apenas ficando com seu parceiro; o relacionamento era de alguns dias, ela engravidou na primeira relação sexual que teve com ele. “Eu sabia que tava fazendo sem nenhum preservativo, mas estava muito a fim e nem pensei no que poderia acontecer” (Alexandra, 18 anos).

A família e a gravidez na adolescência: reações diferentes? E a evasão escolar

Segundo Duarte (2005), a gravidez é vivida como um período em que os adolescentes perdem muitas coisas, como juventude, festas, amizades, formação educacional etc. O adolescente sofre um corte no desenvolvimento, a perda total da identidade: quem sou eu? Criança, adolescente, jovem ou mulher? (Duarte, 2005, p. 108). A adolescente grávida acaba sendo recriminada pela sociedade em que esta inserida. É alvo de preconceitos ou de vergonha. Elas são obrigadas a interromper os estudos, pois muitas vezes a criança nasce antes da conclusão do Ensino Médio. Dificilmente em curto prazo pensará em retomar os estudos, pelas dificuldades e por causa da criança, que não só nos primeiros meses de vida, no período de amamentação como ao longo de toda a infância. Isso pode ser observado no caso da Beatriz, que interrompeu os estudos. Segundo ela, essa interrupção se deve a dois motivos: primeiro, a criança nasceu quando estava estudando, cursava o 2º ano do Ensino Médio; segundo, quando a criança nasceu não tinha com quem deixá-la para terminar os estudos.

Com a Alexandra foi diferente. Como já haviam ocorrido outras gravidezes em sua casa, ela teve maior apoio de sua família. Sua mãe olhava a criança para que pudesse ir à escola. “Tenho o segundo grau completo. Tenho interesse em continuar por causa da minha filha. Porque eu tenho que dar exemplo pra ela, dar o melhor pra ela” (Alexandra, 18 anos).

As relações familiares irão depender do contexto e do momento familiar. A cultura na qual estão inseridos também pode interferir em alguma situação ou reação. Caso a família já tenha passado por determinada situação, pode ser que encare o problema (ou a questão) de forma mais amenizadora que outra família que tem a gravidez na adolescência como experiência nova, mas deve-se ressaltar que os pais não idealizam que os filhos terão filhos na adolescência; entretanto, há sim uma idealização quanto à carreira, à vida profissional, ao desempenho escolar e à faculdade, dentre outros.

Gravidez: mudanças na vida da adolescente

O primeiro momento da mudança na vida da adolescente é quando a gravidez é descoberta. As entrevistadas relatam no primeiro momento sentir arrependimento, raiva, tristeza, desespero. O que fazer? E como contar ao parceiro e à família? No segundo momento, a consciência: vou ser mãe.

Segundo Duarte (2005), quando a adolescente descobre que está grávida quase sempre se encontra sozinha e em grande parte dos casos deverá assumir a maternidade sozinha, sendo cobrada por todos que a cercam, como pais, irmãos, avós e até mesmo pelo parceiro. Estou grávida, e agora? Geralmente o parceiro e a adolescente já desconfiam de que algo esteja errado.

O pensamento mágico de que tal experiência (a gravidez) não irá acontecer com ela também tem destaque na gravidez na adolescência. Ou então o não uso de métodos contraceptivos, achando que na primeira relação sexual não engravida ou ainda que a gravidez nunca vai acontecer. Mesmo tendo conhecimento dos métodos contraceptivos, as adolescentes temem usá-los. Ambas as entrevistadas tiveram a iniciação sexual entre 14 e 15 anos sem uso de qualquer contraceptivo. Ao serem questionadas, conseguem dizer os métodos mais eficazes e como utilizá-los, mas quando indagadas se utilizavam na época da gravidez tentam justificar o não uso.

Nesse momento de desespero e angústia, muitos adolescentes têm vontade de fazer com que aquela criança não exista. Há vontade de voltar no tempo, mas, como isso não é possível, pensa-se em retirar, em sumir com o problema; nesse caso, o jeito seria o aborto. As duas entrevistadas disseram que, em um primeiro momento, não tiveram vontade de ter a criança. Alexandra vai além e diz:

Aí foi quando começou tudo que eu... que eu queria tirar. Aí eu comecei a correr atrás de remédio, de coisa com amigo pra saber sobre essa questão de tirar o menino, como é que era e aí eu comecei a ver se eu conseguia tirar, mas tinha que ser antes de completar um mês de gravidez... Eu usei: guiné, espada de São Jorge, citotek eu usei duas vezes, fermete, canela em pó, coca-cola com dipirona, coca-cola com aspirina (Alexandra, 18 anos).

A gravidez na adolescência não pode ser generalizada como indesejada, pois como entender que uma adolescente tem o conhecimento de como evitar a gravidez e mesmo assim não o faz? Pode-se dizer que muitas vezes não há perspectiva de vida ou desejos para o futuro. A gravidez vai muito além de gerar a criança. Também inclui cuidados, medos, angústias, mudanças no padrão de vida e muita responsabilidade para cuidar de uma criança, situações para as quais as adolescentes não se sentem preparadas.

A experiência dos adolescentes do sexo masculino

A paternidade aconteceu de forma inesperada e indesejada para os entrevistados. Mas ainda existe uma tendência de os adolescentes culparem as adolescentes por não evitarem a gravidez. Como se a responsabilidade fosse apenas da mulher, e o homem seria isento de qualquer culpa. Vale ressaltar que a camisinha é um método contraceptivo que evita não só doenças sexualmente transmissíveis como também uma gravidez não desejada. E pode ser usada tanto pelo homem quanto pela mulher. Mesmo assim, os adolescentes do sexo masculino responsabilizam as adolescentes.

Quando a gravidez da parceira aconteceu, ambos os entrevistados estavam estudando e não concluíram o Ensino Médio.

Gravidez na experiência dos adolescentes: mudanças na vida, mas diferentes daquelas para as garotas...

As mudanças ocorridas na vida do adolescente por causa da gravidez são menores que as da jovem, porque algumas vezes o adolescente continua a viver sua vida da mesma maneira. Não se pode generalizar, mas diante da gravidez na adolescência a mulher abdica de um número maior de experiências como adolescente que o homem. Ao serem questionados quanto às mudanças na vida antes e após a gravidez, dizem que perderam alguns benefícios de seus pais e ganharam muita responsabilidade.

Somente a informação dos métodos contraceptivos não basta; é necessário que tais métodos sejam usados da maneira correta. Pesquisas mostram que o jovem conhece ou já ouviu falar dos métodos, mas ainda é baixo o número de jovens que os utilizam. Com isso, o número de gravidezes na adolescência torna-se cada vez maior.

Ambos os entrevistados dizem que, se pudessem escolher hoje, jamais teriam filhos naquela época. As crianças são tratadas com amor e carinho, mas se pudessem eles as teriam evitado.

A gravidez na adolescência e a evasão escolar

Todos os entrevistados relataram que abandonaram a escola após a gravidez na adolescência. As meninas, muitas vezes por vergonha ou falta de alguém que pudesse ficar com os bebês; os do sexo masculino, para sustento e provimento da nova família que surgiu nesse ambiente.

Há nos relatos dos meninos que trabalham o dia todo e fica muito difícil frequentar a escola no período noturno. As jovens relataram que o pré-natal foi realizado nos postos de saúde e não possuíam convênio medico. Relataram também que não existem estratégias de educação em saúde na escola para capacitar os professores na abordagem das temáticas contracepção e gestação na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, drogas, nem para capacitar os próprios adolescentes sobre essas informações.

Os números são alarmantes quando pensamos na evasão escolar por causa da gravidez na adolescência; segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), mais de 309 mil meninas de 15 a 17 anos que já tiveram filhos estavam fora da escola em 2015.

Considerações finais: uma breve comparação entre a experiência dos adolescentes e das adolescentes

Verifica-se que, em relação a algumas experiências proporcionadas pela gravidez, muitas vezes as opiniões, os desejos e as vontades são muito parecidos entre ambos os sexos. Nas entrevistas, observa-se que todos eram solteiros na época em que a gravidez aconteceu. Três dos entrevistados casaram-se logo após a descoberta da gravidez; não foi um acontecimento planejado por eles, mas sim uma consequência da gravidez.

Os adolescentes do sexo masculino tiveram mais facilidade em concluir o Ensino Médio que as do sexo feminino. Uma das entrevistadas abandou os estudos pela dificuldade de cuidar da criança; a outra teve ajuda de sua mãe para a tarefa. Isso não aconteceu com os adolescentes, que não precisaram interromper os estudos em função da gravidez das parceiras. A não conclusão da educação formal acarreta perdas na vida dos envolvidos, além de impossibilitar a inserção profissional em um espaço de melhor remuneração.

As adolescentes entrevistadas nesta pesquisa e as parceiras dos entrevistados engravidaram com idades entre 15 e 16 anos. Os adolescentes entrevistados engravidaram as parceiras quando tinham entre 17 e 22 anos. Geralmente a gravidez acontece mais cedo para as adolescentes do que para adolescentes do sexo masculino. Verificam-se, com isso, algumas consequências diferentes entre os sexos: por exemplo, todos os entrevistados concluíram o Ensino Médio – diferentemente das entrevistadas. Certamente quanto mais cedo a gravidez acontece, mais interferências ela trará na vida e na construção da identidade dos envolvidos.

Quanto à iniciação da vida sexual, a idade na primeira relação sexual varia entre 14 e 15 anos para ambos os sexos. Quando a gravidez aconteceu, um casal de entrevistados apenas ficava com o parceiro(a) e o outro tinha um relacionamento estável, ou seja, namorava há algum tempo. Ou seja, a gravidez na adolescência pode ocorrer entre casais com relações mais estáveis (namoros) ou em relações ocasionais (o ficar). Tal fato indica a complexidade da experiência em meio a adolescentes no processo de aprendizado de relações afetivo-sexuais. Por meio desta pesquisa não há como afirmar se a gravidez ocorre somente em relações estáveis ou temporárias; entretanto, em outras pesquisas de cunho quantitativo, verifica-se que a ocorrência de gravidez na adolescência se dá em maior número em relações estáveis.

Nesta pesquisa, entrevistados dos dois sexos disseram não ter nada planejado para a chegada da criança nem para o futuro delas. A condição de adolescente, atravessada pelas exigências de paternidade e maternidade, além da pequena experiência de vida, faz com que os planos para as crianças fruto de gravidezes na adolescência sejam difíceis de projetar. Quando é preciso planejar algo para o filho sem ter tido oportunidade de planejar e projetar as próprias experiências, isso fica mais difícil ainda.

Nem as parceiras dos adolescentes nem as entrevistadas planejaram a gravidez na época em que elas aconteceram. Foi um acontecimento inesperado, mas não necessariamente indesejado. Nem sempre o que não está planejado, também não está inconscientemente desejado; nenhum dos entrevistados usava método contraceptivo na época da gravidez, apesar de todos terem dito conhecer algum.

Todos os entrevistados disseram que a vida após a gravidez mudou totalmente em relação à inserção profissional e às relações afetivas. Relatam que tiveram que adquirir responsabilidades que não tinham. Dois entrevistados do sexo masculino e uma do sexo feminino começaram a trabalhar. Os entrevistados de ambos os sexos disseram que suas amizades antigas terminaram ou que se afastaram delas. Os motivos são diversos: aumento da responsabilidade, necessidade de começar a trabalhar, vergonha ou até mesmo rejeição.

Observa-se que, ao referirem-se à gravidez na adolescência, ocorrem grandes mudanças nas vidas dos jovens dos dois sexos. Também existem medos, inseguranças, desejos, vontades. Por esse motivo, ao se pensar em gravidez na adolescência não se deve excluir o adolescente (masculino), que muitas vezes encontra-se como a adolescente (feminino), repleto de questões e sentimentos. Incluí-lo na gravidez é um jeito de ajudar a adolescente feminina a enfrentar a gravidez, consolidando laços já existentes e criando outros, além de não privá-lo do direito de participar.

A gravidez na adolescência decorre de vários fatores, que podem ser de ordem psicossocial, psicológica e biológica. Verifica-se que somente a informação sobre os métodos contraceptivos não é suficiente para que a gravidez não planejada ou doenças sexualmente transmissíveis não aconteçam. Os adolescentes afirmam, em seus discursos, que não querem a gravidez, mas não se protegem; quando ela acontece ficam se culpando ou responsabilizando o outro pelo acontecido, que é de responsabilidade dos dois envolvidos e de família e demais instituições sociais que devem cuidar dos adolescentes.

Pouco se tem estudado sobre a paternidade na adolescência. É de suma importância incluir esses jovens em programas de apoio, como é feito com a mulher, pois eles têm necessidade de ser assistidos, não deixando para o homem somente o provimento financeiro, pois ele também tem desejos em relação à criança.

Fomos socializados e, culturalmente, foi ensinado que a criança é mais desejada pela mulher, ela tem o dever de cuidar da criança e o pai, de sustentá-la. Hoje, verifica-se que isso está mudando: o homem está cada vez inserido nos afazeres domésticos e a mulher tem saído de casa e ingressado no mercado de trabalho.

Outro ponto que se percebe é que a adolescente grávida sofre mais preconceitos que o adolescente, pensando que o corpo que se modifica é o dela e não tem como esconder a transformação. Há dificuldades muitas vezes em andar, dormir, abaixar, fazer algumas coisas que fazia antes ou a própria negação em conceber uma criança, a não preparação para essa chegada; o afastamento de amizades que pensavam ser para toda a vida; a experiência de serem apontadas na rua por outras pessoas como exemplo negativo ou o que não deve ser feito por outras adolescentes. A reação da família, muitas vezes, negativa, em torno dos adolescentes e, consequentemente, em torno da criança; o medo de contar sobre a gravidez, a angústia, o medo, em alguns casos o abandono do parceiro são também experiências difíceis de serem enfrentadas.

O relacionamento torna-se conflituoso com o parceiro(a), pois os dois terão que assumir responsabilidades para as quais não estavam prontos. Muitas vezes, serão obrigados pelos pais a assumir um casamento sem estrutura psicológica, financeira ou amorosa.

Por isso, hoje a gravidez na adolescência é assunto de estudos. É um tema muito falado, mas mesmo assim o número de ocorrências aumenta a cada dia que passa. Somente a informação não é suficiente, é preciso conscientização. É urgente ter um olhar especial para esse assunto, a fim de que a gravidez na adolescência não torne apenas um tema a ser estudado em saúde publica, mas uma forma de alertar outros jovens para que não venha acontecer de forma não planejada, mas, caso ocorra, que seja conscientemente, desejada.

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Publicado em 25 de junho de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

OLIVEIRA, Polliane de Jesus Dorneles. Paternidade e maternidade na construção da identidade do adolescente e a evasão escolar. Educação Pública, v. 19, nº 12, 25 de junho de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/12/a-paternidade-e-a-maternidade-na-construcao-da-identidade-do-adolescente-e-a-evasao-escolar