Violência de gênero: percepções de alunos do CIEP Professor Terli Fioravante da Rocha

Anaquel Gonçalves Albuquerque

Mestre em Humanidades, Cultura e Artes (Unigranrio), especialista em Educação de Jovens e Adultos (UFF), Gestão Escolar (UFF) e Gênero e Diversidade (UERJ). Graduada em Pedagogia (UERJ), integrante do grupo de pesquisa Educirs (Cefet/RJ), atua como Apoio à Direção da Escola Municipal Deputado Hilton Gama, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e como tutora de Apoio ao Professor, no Consórcio Cederj

Embora a violência não configure um fenômeno social recente, suas manifestações têm se multiplicado, assim como os fatores nela envolvidos (Candau, 2008), suscitando a importância de aprofundar estudos nessa área.

Representando um privilegiado campo de estudo sobre a temática, o espaço escolar pode possibilitar a reflexão sobre as desigualdades existentes nas relações de gênero, as quais constituem um ato de violência, como “mecanismo de poder utilizado na luta de preservação do status quo, na manutenção da organização social de gênero baseada nas desigualdades e nos desníveis de poder entre os gêneros” (Priori, 2007, p. 27).

Como formas de representação da violência, podemos citar a violência doméstica, a política e a de gênero, entre outras praticadas nos mais variados espaços da sociedade e sendo compreendida como ação praticada diretamente contra outro, interferindo na integridade moral, física ou cultural de um indivíduo ou grupo a ele pertencente, bem como nas relações pessoais e sociais dos indivíduos, afetando toda a sociedade e causando problemas que desestruturam suas relações e o meio em que vivem.

Para fins de compreensão quanto à especificidade da violência de gênero, buscou-se suporte nas concepções teóricas de Scott (1995), Foucault (2011), Bourdieu (1999; 2002), Louro (1997), Candau (2008) e Priori (2007), dentre outros estudiosos do assunto, por suas relevantes contribuições no campo de pesquisa.

Considera-se que esta pesquisa é de grande relevância para as escolas e para a sociedade, na medida em que há busca por avanços na compreensão da importância do enfrentamento da violência de gênero. Acreditamos também que a partir do momento em que tivermos consciência dessas dimensões, estaremos na caminhada para uma sociedade mais justa, solidária e plural.

Desenvolvimento

O conceito de violência é bastante amplo, por ser um fenômeno presente em todas as sociedades, manifestando expressão de poder e respectiva relação de desigualdade. Como fator inerente à vida humana, a violência pode ser explicada com base em aspectos políticos, culturais, econômicos e psicossociais.

A palavra é derivada do latim violentia, que tem como significado veemência e impetuosidade; ela tem sua origem diretamente relacionada ao termo violare, que significa violação. No que se refere a direitos humanos, a violência abrange todas as ações de violação de direitos – civis (liberdade, proteção e privacidade), sociais (saúde, segurança, moradia, educação), políticos (voto, participação nos variados processos decisórios), econômicos (emprego e devida remuneração) e culturais (manifestação da própria cultura). Talvez por essa extensa abrangência encontremos vários significados para a expressão violência, embora todos eles se articulem.

Interessante verificar que a violência não é um fator exclusivo de nenhum campo de conhecimento ou cultura, como ressalta Priori (2007, p. 15), atingindo todos os setores da sociedade e sendo algo extremamente complexo e presente em variados contextos sociais; o vocábulo é empregado para determinar desde um homicídio até delitos considerados menos graves, como maus tratos emocionais, verbais ou psicológicos, em virtude da amplitude do significado da palavra violência.

Do ponto de vista cultural, observamos o processo gradativo (desde o período colonial brasileiro, entre o século XVI até início do século XIX) de manutenção de práticas violentas, tanto em relação às mulheres como outros grupos, uma vez que violência de gênero não está restrita aos atos cometidos contra mulheres, mas também homens, crianças, adolescentes, idosos, homossexuais, lésbicas, transexuais, travestis etc.

Os estudos sobre gênero surgiram no campo das ciências sociais a partir da década de 1970, em substituição aos que seriam denominados estudos sobre a mulher, e se constituem como campo de pesquisa interdisciplinar cujo objetivo é compreender as relações de gênero no mundo social. A emergência desses estudos representou a ruptura com a tendência de buscar no determinismo biológico a explicação para as desigualdades entre homens e mulheres, promovendo assim, dentre outras coisas, a superação das teorias dos papeis sexuais e da complementaridade dos sexos. Nesse sentido, a análise das desigualdades de gênero consiste na identificação de como se constituem as relações entre homens e mulheres face à distribuição de poder ou qual a equivalência social entre os gêneros.

Butler (2015, p. 44) faz refletir sobre as questões de gênero por meio da matriz cultural de inteligibilidade, na qual torna-se possível verificar que o corpo está, portanto, submetido a uma lógica (heteros)sexual normativa que o classifica mediante o sexo e, consequentemente, gênero correspondente, discriminando qualquer outro tipo de identidade e explicitando, então, que há a legitimação de alguns indivíduos em detrimento de outros, de maneira a reafirmar uma prática excludente e preconceituosa.

A própria definição de papéis e funções diferenciadas aos sujeitos em conformidade com a identidade de gênero surge como exemplo de determinação social (Priore, 2012). Como exemplo podemos citar a situação da mulher que, no passado, já foi identificada como propriedade do pai (nos períodos colonial e imperial brasileiros), ou até mesmo do marido, sem qualquer tipo de direitos, sejam eles políticos, econômicos ou sociais. Tal desigualdade deu origem a uma intensa luta do movimento feminista como forma de não aceitação das normas desiguais que eram impostas a homens e mulheres, refletindo em um cenário em que os indivíduos configuram como dominadores ou dominados.

Para Bourdieu (1999, p. 23-24), o conceito de gênero está relacionado a uma estrutura de dominação simbólica na qual “o princípio masculino é tomado como medida de todas as coisas (...), sabendo assim que o homem e a mulher são vistos como duas variantes, superior e inferior”. A diferença biológica existente entre os sexos seria utilizada como justificativa para a diferença construída socialmente entre os gêneros. Nessa perspectiva, somente no final do século XX a categoria gênero apareceu como preocupação teórica, tendo em vista sua ausência em grande parte das teorias sociais desde o século XVII até o início do século XX (Scott, 1995).

Para melhor compreensão das relações de gênero, torna-se necessário abordar a influência das relações de poder na formação do sujeito, que é formado, definido e reproduzido em conformidade com as exigências dos sistemas jurídicos de poder vigentes na sociedade. Esse mecanismo se dá por meio “da limitação, proibição, regulamentação, controle e mesmo ‘proteção’ dos indivíduos relacionados àquela estrutura política, mediante uma ação contingente e retratável de escolha” (Foucault, 2011).

Em meio a esse cenário de reafirmação de poder, foi sancionada em 2006 a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, representando uma grande conquista para a sociedade brasileira, constituindo um importante aparato político e jurídico contra as práticas de violência impetradas contra as mulheres e sendo ponto de partida para a discussão da violência doméstica (uma das modalidades da violência de gênero existentes). A lei foi apelidada “Lei Maria da Penha” em homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, biofarmacêutica, que sofreu duas tentativas de homicídio praticadas por seu ex-marido e cuja impunidade e demora da justiça fez com que o caso chegasse à Comissão Interamericana de Direitos Humanos por meio de denúncias de organizações femininas e da própria Maria da Penha (Alves, 2007, p. 343).

Com a criação da Lei nº 11.340/06, os casos de violência doméstica e familiar não mais são atendidos pela Lei nº 9.099, na qual os Juizados Especiais Criminais utilizavam o modelo conciliatório, por ser considerado de “menor potencial ofensivo”, e a pena aplicada a esses crimes passa a ser alterada de três meses para três anos de prisão. São estabelecidas medidas preventivas (visando implementar programas educacionais no sentido de evitar a violência), de assistência às mulheres (consistindo em formas de assistência social, de saúde e jurídica), e protetivas de urgência (encaminhamentos para programas de proteção, afastamento do lar sem a perda dos direitos, restrição de contato com a vítima) e atendimento por equipes multidisciplinares. Além disso, essa lei também classifica os tipos de violência contra a mulher e dá abertura para a possibilidade de reconhecimento legal de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Ao refletir sobre a existência da violência de gênero na contemporaneidade, Louro (1997) remete ao espaço escolar como local onde mais se produzem as diferenças, sejam elas sociais, étnicas ou de gênero, por delimitar espaços e servir-se de símbolos e códigos que determinam as ações a serem praticadas por todo um grupo de indivíduos, legitimando diferenças e produzindo distinções. Segundo a autora, “todas essas dimensões precisam, pois, ser colocadas em questão. É indispensável questionar não apenas o que ensinamos, mas o modo como ensinamos e que sentidos nossos/os alunos/as dão ao que aprendem” (Louro, 1977, p. 58, 64). Entretanto, a abordagem sobre gênero nas escolas não é algo de fácil aceitação pela sociedade, visto que nos encontramos em uma sociedade marcada pela resistência, em que profissionais da área de Educação que nas escolas se utilizam de atividades objetivando trabalhar a diversidade correm o risco de ser denunciados a hierarquias superiores ou até mesmo processados (Pougy, 2017, p. 144).

Em meio a um cenário permeado pelo exercício da violência, propomo-nos a refletir sobre a violência de gênero por meio da apresentação de pesquisa desenvolvida no CIEP 200 - Professor Terli Fioravante da Rocha de abordagem quantitativa e tendo como recurso metodológico a utilização de técnicas de observação e questionário.

Atuaram como sujeitos da pesquisa quinze alunos do 2º ano do Ensino Médio da unidade escolar, dentre os dezoito que compõem a turma, pois os demais alunos inicialmente preferiram não fazer parte da pesquisa. Por questão de sigilo e segurança, estamos utilizando nomes fictícios para os participantes. Acrescenta-se ainda que, embora o quantitativo de alunos participantes da pesquisa possa parecer inexpressivo, a escolha deles se deu em virtude do pertencimento à unidade escolar desde os anos iniciais de escolaridade e por seu perfil de liderança, que pode proporcionar a formação de alunos multiplicadores acerca do conceito de violência de gênero, viabilizando consequentemente o combate a toda e qualquer forma de preconceito que se torne perceptível.

O Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) escolhido para nossa pesquisa localiza-se na cidade de Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro. A escolha por essa instituição se deu pelo seu perfil tradicional, que desde a fundação jamais havia possibilitado estudos na área de gênero, mas que recentemente, após a transição da equipe gestora, tem buscado propiciar práticas mais inclusivas e participativas, sendo esse trabalho uma forma de oportunizar aos alunos o acesso a novas informações e conhecimentos. A pesquisa deu-se por meio da aplicação de questionário. A pesquisa foi encaminhada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Iguaçu (Unig) sob o Parecer nº 2.433.506.

Sendo o questionário uma técnica de investigação cujas questões têm por objetivo, de acordo com Gil (2008, p. 128), “o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas”, esse importante instrumento de coleta de dados foi utilizado no início da pesquisa, visando buscar respostas para diversos aspectos da realidade no que se refere à violência de gênero. Optou-se pela utilização de perguntas abertas (qualitativas) e fechadas (quantitativas), visto que as primeiras possibilitam mais liberdade quanto às respostas e as segundas trazem alternativas específicas para escolha, ainda que tenham como aspecto negativo a limitação das possibilidades de resposta. Apresentamos, a seguir, o questionário e suas respectivas respostas, seguidos de análise delas:

Questão 1: Em sua casa, tem alguma mulher? (  ) sim   (  ) não

Por meio dessa questão, foi possível verificar que 100% dos alunos possuem mulheres em suas residências, expressando uma convivência que é de fundamental importância para nossa pesquisa, visto que essa convivência pode vir a influenciar nas respostas apresentadas durante as demais questões.

Questão 2: Você sabe o que é violência de gênero? (  ) sim   (  ) não 
Se a resposta for sim, do que se trata?

Pelas respostas à questão, verificou-se que 80% dos participantes assinalaram afirmativamente. No entanto, ao abordar do que se trata, as respostas destoaram entre si, expressando que o conceito de violência de gênero não é bem compreendido por todos; alguns alunos afirmaram tratar-se de:

“Violência contra alguém só por causa do gênero” (Thaysa).
“Algum tipo de violência contra alguém só pela escolha de vida dele” (Soraia).
“Violência contra um ser humano” (Stefânia).
“Discriminação contra seu tipo de opção sexual” (Lucas Mateus).
“A violência que engloba todos os tipos de agressões” (Maybelle).
“Violência em geral ao humano” (Isabela).
“Violência sobre qualquer tipo de pessoa” (João Pedro).
Em 2003 foi publicada pelo Governo Federal uma cartilha intitulada Programa de Prevenção, Assistência e Combate à Violência Contra a Mulher – Plano Nacional: diálogos sobre violência doméstica e de gênero – construindo políticas públicas. Por meio desse importante documento, é possível obter várias informações sobre o tema, inclusive o que se compreende por violência de gênero:

O fenômeno da violência de gênero, também chamado violência contra a mulher, acontece no mundo inteiro e atinge as mulheres em todas as idades, graus de instrução, classes sociais, raças, etnias e orientação sexual. (...) São muitas as formas de violência de gênero: as desigualdades salariais; o assédio sexual no trabalho; o uso do corpo da mulher como objeto, nas campanhas publicitárias; o tratamento desumano que muitas recebem nos serviços de saúde. Todas representam uma violação aos direitos humanos e atingem a cidadania das mulheres (Brasil, 2003, p. 8).

As respostas contidas no questionário ratificam a necessidade que a LMP (Lei nº 11.340/06) seja mais abordada nas escolas, dado o vago conhecimento da lei e de sua aplicabilidade, pois, embora seja perceptível a fragilidade do sistema judiciário brasileiro para aplicar efetivamente a lei na contemporaneidade, todos precisam estar cientes de que a lei popularmente conhecida como Maria da Penha tem como propósito punir atos de violência contra a mulher e praticados em função do gênero.

Questão 3: Você já presenciou algum caso de violência de gênero? (  ) sim  (  ) não
Se a resposta for sim, o que aconteceu?

Ao todo, 40% dos respondentes afirmaram já ter presenciado algum caso de violência de gênero, sendo expresso por meio de ameaça, briga, abuso sexual, agressão física e verbal, segundo colocações dos próprios alunos. No entanto, chama a atenção a afirmação de um dos alunos, que responde negativamente à questão dizendo que “namorado brigando não conta”.

Abramovay (2006) define violência de duas formas distintas: física e simbólica. A violência de natureza física se caracteriza por um ato contra a integridade do outro ou contra si mesmo, por meio da intervenção física de um indivíduo ou grupo. Outros exemplos podem ser citados: suicídios, espancamentos, furtos, homicídios, violência sexual, porte de armas ou até violência no trânsito.A violência simbólica é evidenciada por meio de situações como abusos de poder, violência verbal, marginalização, segregação, discriminação e preconceitos institucionalizados. Ao verificar as percepções dos alunos participantes da pesquisa torna-se explícito que a violência simbólica e seus efeitos ainda não são plenamente compreendidos.

Questão 4: Você sabe para onde deve ligar se presenciar algum caso de violência de gênero? (  ) sim   (  ) não

Pelas respostas apresentadas, verificou-se que 80% dos alunos têm conhecimento do contato telefônico a ser feito caso presencie algum caso de violência contra a mulher. Os outros 20% responderam negativamente à questão.

Questão 5: Você acredita que a mulher, em caso de violência sexual, se vier a prestar depoimento na delegacia, se sentirá segura? (  ) sim   (  ) não    
Se não, por quê?

Apenas 20% dos alunos responderam afirmativamente, em detrimento da maioria dos participantes (80%), que não acredita que ao prestar depoimento na delegacia em caso de violência sexual a mulher venha a se sentir segura. Os motivos apresentados pelos alunos para essa negativa estão na demora para colocar a Lei Maria da Penha em prática e a insegurança fora da delegacia, por achar que a culpa sempre é da mulher e até mesmo pela falta de proteção necessária, que deveria ser oferecida pela polícia.

Para Priori (2007, p. 86), as denúncias caracterizam uma forma de proteção e reafirmação de direitos, visto que, por meio da multiplicidade de formas assumidas pela violência de gênero, esta encontra-se enraizada e camuflada na própria cultura, sendo difícil obter sua erradicação. Priori (2007, p. 41) também afirma que o fato de não denunciar não indica que as mulheres vítimas são cúmplices, gostem ou aceitem a situação a que são submetidas; isso resulta, na maior parte das vezes, da falta de informação sobre o funcionamento do atendimento das delegacias especializadas e do tradicional atendimento que lhes é oferecido nas delegacias comuns.

As palavras da autora enfatizam a importância da denúncia; entretanto, por meio da coleta de dados obtida neste questionário, tornou-se perceptível o cenário de insegurança e desconfiança que amedronta a sociedade, dificultando que esses registros sejam efetivamente realizados.

Questão 6: Você conhece a Lei Maria da Penha? (  ) sim   (  ) não

O que é a Lei Maria da Penha?

Dentre os participantes, 77% dos alunos afirmaram conhecer a Lei Maria da Penha. Um dos importantes aspectos da LMP está em estabelecer medidas preventivas, assistência às mulheres, medidas protetivas de urgência e atendimento por equipes multidisciplinares, constituindo um importante aparato jurídico contra a violência de gênero, mas infelizmente a legislação pareceu não ser plenamente compreendida pela totalidade de alunos, devendo ser mais bem difundida entre eles, até mesmo em virtude das respostas apresentadas por alguns pesquisados, que afirmam conhecer a lei, destacaram-se as seguintes afirmativas:

“Uma lei que foi criada por  uma mulher que sofreu agressão” (Thaysa).
“Lei que defende homens e mulheres da violência” (Maybelle).
“Lei criada para proteger alguém de um relacionamento abusivo” (Thalisson).
Ampara violências no geral” (Isabela).
“Lei contra a violência de gênero” (Thayane).
“Lei que defende os tipos de gênero” (João Pedro).

A violência é uma das piores formas de expor a vulnerabilidade do indivíduo em relação a outros; de certa forma, todos nós somos frequentemente expostos a essa prática, visto que “viver é sempre viver uma vida que é vulnerável desde o início e que pode ser colocada em risco ou eliminada de uma hora para outra a partir do exterior e por motivos que nem sempre estão sob nosso controle” (Butler, 2016, p. 52). Nesse caso, a Lei Maria da Penha é um importante instrumento de combate à violência de gênero, que é praticada com frequência, levando a um cenário de vulnerabilidade que deve ser combatido permanentemente.

Questão 7: Você sabe o que é um relacionamento abusivo? ( ) sim ( ) não

Por meio das respostas à questão 07, verificou-se que 93% dos entrevistados afirmam saber o que é um relacionamento abusivo e 7% afirmam não saber. Utilizamos a expressão “afirma saber” porque fica evidente o pouco conhecimento dos respondentes quanto ao conceito de relacionamento abusivo (ainda que expresso pela minoria dos respondentes), remetendo, portanto, a Bourdieu (2002), que associa a violência simbólica a atos sutis que se fazem presentes nas relações de poder que regem a sociedade, de maneira que o poder simbólico é exercido com a cumplicidade daqueles que lhe estão sujeitos ou que o exercem, baseando-se na reprodução de crenças que situam o indivíduo no espaço social com base em padrões estabelecidos pelo discurso dominante e fazendo com que o dominado não se perceba numa relação de força, que regras e normas que lhe são impostas, mas que são aceitas naturalmente, sendo incorporadas às relações sem que perceba a sua existência, encontrando-se presente nos costumes sociais.

Questão 8: Você vivenciou ou conhece alguém que tenha vivido um relacionamento abusivo? (  ) sim   (  ) não  

O que aconteceu?
Ao todo, apenas 13% dos alunos pesquisados afirmaram conhecer alguém que tenha vivenciado um relacionamento abusivo, o qual ocorreu por meio das seguintes práticas ou indivíduos:
“O marido batia na mulher, a xingava e a humilhava na frente de todos” (Soraia).
“Com minha tia” (Maybelle).

O fenômeno da violência expressa uma relação hierárquica de desigualdade com fins de dominação e coisificação do outro, sendo também uma violação do direito de liberdade e de ser constituinte da própria história (Chauí, 1985). Por meio do relacionamento abusivo, tal prática fica ainda mais evidente, dado que a vítima geralmente passa a praticar ações que são determinadas por outro indivíduo, muitas vezes sem sequer perceber que está “abrindo mão de si mesma” em função do outro.

Questão 9: Você acha que as leis ajudam a combater a violência de gênero? (  ) sim   (  ) não

De acordo com as respostas dadas para a questão 9, verificou-se que 26,6% dos respondentes não acreditam nas leis como forma de combate à violência de gênero. Entretanto, 73,4% dos alunos responderam de maneira afirmativa, prevalecendo por parte dos alunos a confiança e a credibilidade quanto às legislações vigentes, ainda que em rodas de conversa realizadas posteriormente essa mesma credibilidade tenha sido questionada. A própria questão 5 do presente questionário (Você acredita que a mulher, em caso de violência sexual, ao prestar depoimento na delegacia, se sentirá segura?) reafirma a insegurança no que diz respeito à prática das leis vigentes, sendo expressos motivos como a demora para colocar a lei Maria da Penha em prática, a insegurança fora da delegacia, a culpa que é imputada à mulher e até mesmo a falta de proteção necessária que deveria ser oferecida pela polícia. Apresenta-se, portanto, uma contradição entre as respostas dadas, visto que em momentos prevalece a confiança e noutro não há credibilidade na maior parte dos casos.

Questão 10: Você tem alguma dúvida sobre questões relacionadas à violência de gênero? (  ) sim   (  ) não

Se a resposta for sim, qual seria a dúvida?
Foram computados 26,6% dos alunos com dúvidas sobre questões relacionadas à violência de gênero e 73,4% que não apresentam questionamentos a serem feitos. Dentre as perguntas apresentadas pelos alunos, destacam-se:
“Por que as leis não funcionam?” (Isabela).
“Por que são violentadas, só por serem mulheres?" (Thaysa).

Enfim, há descontentamento expresso pelas perguntas das alunas em relação à prática efetiva da legislação e ao tratamento dado às mulheres e, ainda que nem todos os alunos tenham feito questionamentos relativos à violência de gênero, as respostas obtidas por meio do questionário ratificam o desconhecimento dos alunos quanto ao assunto proposto, talvez pela amplitude do conceito em si ou pela escassez da abordagem. Sendo assim, não há como desconsiderar a importância da implementação de ações visando o combate a toda e qualquer forma de violência, até porque “ninguém sabe realmente de que pode tornar-se capaz em matéria de violência” (Michaud, 1989, p. 81). Desta forma, inúmeras consequências podem ser oriundas desse processo, culminando até mesmo em fatalidades.

Após o preenchimento do questionário, o assunto violência de gênero passou a ser bastante debatido em várias salas de aula, pois suscitou curiosidades que até então não haviam sido despertadas, resultando na realização de rodas de conversa semanais. Tornava-se explícita, então, a sede de conhecimento por parte dos alunos e a necessidade de adquirir conhecimento nesta área, pois os participantes da pesquisa passaram a compreender a relação de poder existente nas relações cotidianas, que surge como uma relação de forças, coagindo, disciplinando e controlando os indivíduos (Foucault, 1999). Por seus mecanismos, essa forma de controle se faz presente em toda a sociedade, nos mais diferentes lugares e em todas as pessoas, jamais sendo propriedade de uma única pessoa.

Tornou-se possível, também, verificar a criatividade e o comprometimento dos alunos envolvidos, que, motivados, reuniram-se com alunos de outras turmas e desenvolveram um trabalho extensivo a toda a comunidade escolar, sob a supervisão dos docentes da unidade escolar, como forma de luta e reflexão contra a violência de gênero. Inicialmente optou-se pela apresentação de uma peça teatral que, produzida por eles mesmos e após vários ensaios nos tempos de aula vagos, foi finalmente apresentada no 1º semestre de 2018. Posteriormente, ao longo do semestre seguinte, foram realizados novos debates, palestras, exibição de documentários e exposições, dando início a um memorável movimento de luta contra a violência de gênero.  Elaborou-se, ainda, um cronograma de ações a serem desenvolvidas no ano seguinte (2019), para que o assunto em si não se esgote e envolva o maior número de pessoas para fins de pesquisa e reformulação de práticas que venham a banir com toda e qualquer prática preconceituosa.

Considerada uma experiência exitosa na aquisição de novas aprendizagens na área de gênero e desenvolvida tão somente por adolescentes, em parceria com seus professores, a ação desenvolvida por esse grupo de alunos, juntamente com os membros da equipe pedagógica, nos leva a refletir se continuaremos inertes a esse cenário ou se buscaremos contribuir para minimizar a prática da violência, ainda que com pequenas atitudes cotidianas.

Conclusão

Chegando ao final da trilha, verificamos que a longa caminhada percorrida rumo ao alcance dos objetivos foi exitosa, ainda que novos questionamentos e ideias tenham surgido no sentido de um aprofundamento futuro do tema. Destacam-se, em especial, as contribuições dadas pelos sujeitos da pesquisa, os quais mostraram que, apesar de vivenciarem realidades diferentes, seus pensamentos convergem e não destoam das representações peculiares à adolescência.

No decorrer da pesquisa constatou-se a necessidade do debate acerca da temática, uma vez que a violência se faz presente na vida de muitos de nossos adolescentes e nós, como educadores, não podemos nos omitir, pois a escola é o local onde eles passam grande parte do tempo, sendo necessário ampliar aprendizados cotidianamente.

Concluímos, então, que a necessidade de abordar a temática da violência de gênero na sala de aula é importante principalmente por se tratar de um tema relevante, já que o Brasil é um país que mantém altos índices de violência de gênero e a educação é um importante mecanismo a ser utilizado para a prevenção e erradicação da violência por meio de práticas educativas e conscientizadoras, embora as circunstâncias nem sempre sejam favoráveis. Devemos, portanto, como educadores, abordar o tema incansavelmente a fim de que nossos alunos tenham consciência de que a violência é extremamente nociva, tanto para a família como para a sociedade, e para que eles sejam capazes de reconhecer os mais variados tipos de violência, construindo, assim, um olhar sensível e solidário em relação a esse tipo de situação. Acrescenta-se também que não há a intenção de generalizar os resultados encontrados ou finalizar as discussões sobre o tema, mas abrir espaço para que sejam realizados novos trabalhos de reflexão sobre a violência de gênero, com vistas ao seu respectivo enfrentamento.

Enfim, transformar as representações a respeito de gênero é uma ação urgente em nossa sociedade, pois elas são responsáveis pelas desigualdades e expressões de violência que tanto nos têm acometido, pois, como cita Moscovici (2003, p. 66), “todos os nossos preconceitos, sejam nacionais, raciais, geracionais ou quaisquer que alguém tenha, somente podem ser superados pela mudança de nossas representações sociais da cultura, da ‘natureza humana’ e assim por diante”.

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Publicado em 23 de julho de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

ALBUQUERQUE, Anaquel Gonçalves. Violência de gênero: percepções de alunos do CIEP Professor Terli Fioravante da Rocha. Educação Pública, v. 19, nº 14, 23 de julho de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/14/violencia-de-genero-percepcoes-de-alunos-do-ciep-professor-terli-fioravante-da-rocha