Planejamento escolar: um guia da prática docente

José Clécio Silva de Souza

Bacharel em Serviço Social (Unopar), licenciado em História (Uniasselvi) especialista em História da Cultura Afro-Brasileira (Face Bahia), docente de História e Matemática na Escola Municipal de Educação Básica Manoel Moura de Souza, em Delmiro Gouveia/AL, e de História na Escola Municipal de Educação Básica Nossa Senhora do Rosário, em Inhapi/AL

Mathéus Conceição Santos

Licenciado em Educação Física (UniAGES)

A perspectiva do planejamento não é privilégio de uma área profissional apenas, mas de várias; é um instrumento de trabalho e de ação, da própria vida e de outras profissões – como professores.

O planejamento é, ao mesmo tempo, um processo natural e racional. O homem sempre planejou, desde quando se preocupava como faria para sobreviver. Em outras palavras, o homem sempre se preocupou com a sua sobrevivência.

Planejar é algo natural da racionalidade do homem, e se sistematiza e se aprimora à medida que os desafios aumentam. Já o processo racional do planejamento consiste em refletir, agir, avaliar e refazer. Tal processo é desenvolvido de forma cíclica.

O planejamento, no contexto escolar, é uma tarefa do docente que inclui tanto a previsão de atividades didáticas em termos da sua organização e coordenação em face dos objetivos propostos quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. O planejamento é um meio para programar as ações docentes, mas é também um momento de pesquisa e reflexão intimamente ligado à avaliação.

Este trabalho tem como objetivo conhecer melhor os diversos aspectos do planejamento escolar e o seu papel na construção de um ensino de qualidade. Com o intuito de conhecer mais o planejamento, realizou-se um estudo bibliográfico de alguns autores que tratam do assunto, como Gandin e Libâneo, entre outros, e uma pesquisa de campo com professores e coordenador de uma escola pública de Delmiro Gouveia-AL que possui o maior Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da rede municipal de ensino, que, segundo os entrevistados da escola, tem grande contribuição do planejamento que é feito pela comunidade escolar, que é um orientador da prática docente.

O planejamento como necessidade humana

O homem, no seu dia a dia, organiza a sua vida pelo planejamento. Planejar é uma necessidade humana e faz parte da sua história; de maneira empírica ou científica, o homem sempre planeja suas ações, isto é, desde o período primitivo o homem planejava suas ações mesmo que de maneira informal; um exemplo dessa situação é a transformação do homem nômade em agricultor.

Nosso planejamento diário nem sempre é realizado em etapas concretas de ação, uma vez que pertence ao contexto da nossa rotina. Entretanto, para a realização de atividades que estão inseridas em nosso cotidiano, usamos os processos racionais para alcançar o que desejamos.

No decorrer da história, podemos constatar que o ser humano, por meio de seu pensamento (reflexão), desenvolve níveis cada vez mais aprimorados de discernimento, compreensão e julgamento da realidade, o que favorece uma conduta comprometida com novas situações da vida. Pelo planejamento, o ser humano organiza e disciplina a ação, tornando-a mais responsável, partindo sempre de ações mais complexas, produtivas e eficazes.

Afinal, o que é planejamento?

Para Vasconcelos (2000), planejar é “antecipar mentalmente uma ação ou um conjunto de ações a serem realizadas, é agir de acordo como o previsto”. Ele afirma ainda que “planejar não é apenas algo que se faz antes de agir, é também agir em função daquilo que se pensa”.

O ato de planejar pode ser obra de um indivíduo ou de um grupo que tem objetivos e traça estratégias, define recursos para alcançá-los. O conceito de planejamento é amplo. De acordo com Gandin (1993), planejar é “transformar a realidade em uma direção escolhida, é implantar um processo de intervenção da realidade; enfim, é agir racionalmente, dando clareza e precisão a ação individual ou do grupo”.

Completando o pensamento de Gandin, Castro (1997) afirma que o planejamento é uma “tentativa de antecipar e ordenar decisões que deverão ser tomadas, visando atingir algum conjunto de objetivos especificados”.

Todo planejamento possui teoria e prática; ele não é neutro, pois há objetivos a alcançar e uma realidade a ser transformada. Assim, o ato de planejar exige uma tomada de decisões. O planejamento é um ato construído, e essa característica é muito importante; afinal, planejar não é algo estanque, mas uma ação contínua globalizante.

O planejamento é um processo de busca de equilíbrio entre os meios e o fim, entre recursos e objetivos visando melhorar o funcionamento de empresas, instituições, setores de trabalho, organizações grupais e outras atividades humanas.

Planejar, segundo Padilha (2000), é sempre um processo de reflexão, de tomada de decisão sobre a ação, processo de previsão de necessidades e racionalização de empregos de meios (materiais) e recursos disponíveis, visando à concretização de objetivos e prazos determinados e etapas definidas, com base em avaliações.

Na educação, temos diversos níveis de planejamento:

  • Planejamento em um sistema educacional – realizado em nível nacional, estadual ou municipal;
  • Planejamento escolar – a organização geral das atividades de uma unidade escolar;
  • Planejamento curricular – consiste em estabelecer os componentes curriculares que irão fazer parte do curso;
  • Plano de ensino – a organização das unidades didáticas
  • Plano de aula – o detalhamento do planejamento diário de cada disciplina/aula.

Para ensinar, é fundamental que seja realizado um planejamento, o qual serve como guia para o professor na sua prática. Portanto, planejar é uma atividade que está presente na educação, na qual é indispensável na busca por uma educação de qualidade.

O planejamento tem como características básicas:

  • Evitar o improviso;
  • Prever o futuro e estabelecer caminhos que posso nortear mais apropriadamente a ação da educação;
  • Prever o acompanhamento e a avaliação da própria ação; avaliação e ação andam lado a lado numa relação de complementação. 

De acordo com Santana (1995), o planejamento educacional pode ser caracterizado como “processo contínuo que se preocupa para onde ir e quais maneiras de chegar lá, tendo em vista a situação presente e possibilidades futuras, que atenda as necessidades da sociedade”.

Diante do exposto, entende-se que o plano de ensino é um processo de decisão sobre a atuação concreta do professor no cotidiano de seu trabalho pedagógico, envolvendo as ações e situações em constantes interações entre professor e alunos e entre os próprios alunos.

A importância do planejamento no contexto escolar

Como já foi dito, o planejamento funciona como guia de orientação, pois nele são estabelecidos as diretrizes e os meios da realização do trabalho docente. Como sua função é orientar a prática, ele não pode ser feito sem um estudo prévio da realidade escolar e não pode ser um documento rígido e absoluto, pois o processo de ensino está sempre em constante movimento – que é onde entra a flexibilidade do planejamento, ou seja, ele deve estar aberto a modificações, tendo em vista as condições reais da comunidade escolar.

A elaboração do planejamento escolar deve se iniciar com um estudo acerca da realidade da escola, um diagnóstico do nível de aprendizagem dos alunos, o perfil deles e os recursos disponíveis na escola, entre outros aspectos.

O planejamento deve ter caráter político-social, ou seja, necessita se preocupar com questões com “para que”, “para quem” e “o que planejar”, que são questões que podem ser respondidas mediante um diagnóstico da realidade.

Segundo Gandin (1993, p. 55), a preocupação central do planejamento é “definir fins, buscar conceber visões globalizantes e de eficácia”, quer dizer, para elaborar um planejamento no contexto escolar é necessário que sejam levados em consideração os aspectos político, social, econômico, cultural e educacional.

Assim o planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade a cada problemática do contexto social. Logo, a escola, os professores e os alunos são integrantes da dinâmica das relações sociais; tudo que acontece no meio escolar está atravessado por influências econômicas, políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classe, o que significa que os elementos do planejamento escolar – objetivos, conteúdos, métodos – estão cheios de implicações sociais; por essa razão, o planejamento é uma atividade de reflexão das nossas opções e ações.

Em síntese, a ação de planejar não se caracteriza ou reduz ao simples preenchimento de formulários para controle administrativo; é antes a atividade consciente de previsão das ações docentes, fundamentadas em opções político-pedagógicas para ter um processo de ensino-aprendizagem de qualidade.

Levando em conta os aspectos apresentados, a próxima etapa do planejamento é organizar os elementos que o constituem:

  • Objetivos – metas traçadas, o que se pretende alcançar; a sua formulação está diretamente relacionada à seleção de conteúdo.
  • Conteúdo – área de conhecimento, saber sistematizado, hábitos, atitudes, valores e convicções.
  • Metodologia – o que faremos para alcançar os objetivos propostos, conjunto de métodos aplicados à situação didático-pedagógica.
  • Recursos – consiste na utilização de materiais físicos e humanos no processo de ensino-aprendizagem.
  • Avaliação – momento de reflexão de todo o processo. É uma etapa presente cotidianamente em sala de aula, exercendo função diagnóstica, uma vez que identifica as dificuldades e os avanços na aprendizagem do aluno e na própria prática docente, proporcionando melhoria nesse processo, através da reflexão constante.

Planejamento escolar: como acontece, o que pensam os profissionais da educação?

Com base nas discussões teóricas sobre planejamento abordadas anteriormente e no decorrer da elaboração deste trabalho, sentiu-se a necessidade de conhecer como se dá o planejamento escolar na realidade, entender o que pensam o corpo docente e os coordenadores do papel do planejamento na busca de um ensino e uma formação de qualidade.

Para responder a tais indagações, realizou-se uma pesquisa de campo na Escola Municipal de Ensino Fundamental Castro Alves, no distrito de Barragem Leste, Delmiro Gouveia/AL; os entrevistados foram os professores e a coordenadora pedagógica, para obter informações sobre o planejamento da instituição de ensino.

O planejamento dos professores da instituição é realizado coletivamente, com o apoio da coordenadora e baseado em um estudo da realidade do aluno. Segundo os professores, é de fundamental importância realizar um planejamento voltado para os interesses e as necessidades dos alunos; eles são o centro do processo de ensino-aprendizagem; leva em conta também aspectos como a experiência de vida dos discentes, para assim desenvolver um planejamento que foque o desenvolvimento do aluno.

A coordenadora e professores em sua maioria veem o planejamento como uma organização de atividades não só da vida pessoal, como também da vida profissional. Para o grupo entrevistado, é de fundamental importância que se tracem objetivos a ser alcançados e que sejam desenvolvidos estratégias e recursos que possibilitem alcança-los.
O processo de elaboração de planejamento da escola começa com a aplicação de uma avaliação diagnóstica, que é elaborada com base em habilidades e competências traçadas pela equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação para assim verificar o nível de aprendizagem dos alunos, identificando suas dificuldades e potencialidades. Com os resultados em mãos, identificadas as principais dificuldades dos alunos e com base também em estudo da realidade social dos alunos, chega o momento de organizar o planejamento, traçando objetivos, escolhendo conteúdos, metodologias, selecionando recursos didáticos e definindo formas de avaliação, esta voltada para verificar o nível de aprendizagem dos alunos e a própria atuação do professor.

Segundo a coordenadora, o planejamento nesta unidade de ensino é bem flexível, pois é revisado semanalmente; no departamento (reunião pedagógica entre professores e coordenação) é exposto o que cada professor alcançou durante o período anterior de trabalho. Diante disso, em que o que foi planejado não foi atingido, o planejamento é refeito, modificando a metodologia, os recursos e o que for necessário para que o aluno consiga avançar.

As avaliações diagnósticas são realizadas quatro vezes por ano: uma no início do ano letivo e as demais ao final de cada bimestre, para ver como se encontra a aprendizagem dos alunos e, assim, elaborar o planejamento da unidade.

Para o grupo de professores entrevistados, o planejamento guia a prática docente e melhora o processo de ensino-aprendizagem, por ser desenvolvido com base em resultados de estudo da realidade dos alunos. Como resultado desse trabalho, a escola tem o maior Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), do município, que é 3,9. A meta traçada pelo MEC para a escola é 4,2.

Considerações finais

No decorrer deste trabalho, pudemos buscar conhecimentos acerca de planejamento, procurando compreender melhor essa etapa de organização, que está presente no desenvolvimento de diversas atividades profissionais. Entendemos melhor o que é planejamento e compreendemos aspectos como tipos, estrutura, fatores relevantes para iniciar a elaboração do planejamento, e sua contribuição para melhorar o processo de ensino-aprendizagem.

Com base nos estudos realizados, tendo como referência diversos autores, seu conteúdo teórico sobre o tema e o pensamento de profissionais da educação, pudemos perceber a importância do planejamento no fazer profissional deles para que se possa realizar um bom trabalho, uma vez que dentre as diversas funções do planejamento está nortear as ações do profissional; o planejamento deve ser dotado de flexibilidade e construído a partir de um contexto, levando em consideração aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais, entre outros.

Em síntese: devemos ver o planejamento escolar como forma de melhorar nossa atuação como profissionais da educação, comprometidos com a construção do conhecimento e a formação dos nossos alunos e não vendo sua construção como um documento resultante da burocracia, ou seja, realizado pelo simples fato de que a coordenação da escola exige para deixar arquivado na sua secretaria.

Realizar um planejamento para atender somente às “necessidades da escola (burocracia)” não é válido; o planejamento deve atender essa exigência; porém, mais do que isso, deve estar voltado para o fazer profissional do docente e principalmente para a aprendizagem do aluno.

Referências

GANDIN, Danilo. Planejamento como prática educativa. São Paulo: Loyola, 1993.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez,1991.

PADILHA, Paulo R. Planejamento educacional: a visão do Plano Decenal de Educação para Todos: 1993-2003.1998. Dissertação (mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1998.

SANT’ANNA, F. M. et al. Planejamento de ensino e avaliação. 2ª ed. Porto Alegre: Sagra/DC Luzzatto, 1995.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo – elementos metodológicos para a elaboração e realização. São Paulo: Libertad, 1995.

Publicado em 06 de agosto de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

SOUZA, José Clécio Silva de; SANTOS, Mathéus Conceição. Planejamento escolar: um guia da prática docente. Educação Pública, v. 19, nº 15, 6 de agosto de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/15/planejamento-escolar-um-guia-da-pratica-docente