Curso de Letramento Interdisciplinar em Ciências

Any Bernstein

Docente associada, Fundação Cecierj

Docentes de diferentes áreas das Ciências, participantes do curso de extensão Letramento Interdisciplinar em Ciências (LIC), com duração de 30h distribuídas em 12 semanas e oferecido a três turmas entre 2017 e 2018, fizeram diversas reflexões sobre alfabetização e letramento científicos que apresentamos a seguir. O curso foi ministrado a distância utilizando a sala de aula virtual da Fundação Cecierj; visava atender à demanda de formação continuada de professores em exercício nos diferentes municípios do Rio de Janeiro e mesmo em outros estados, sendo também aberto a licenciandos de último período. Foi fruto da preocupação com os resultados das avaliações feitas entre 2015 e 2017 pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que apontam declínio no índice de desenvolvimento no ensino básico (Ideb) dos estudantes fluminenses. A concepção do LIC se inspirou nas ideias de Paulo Freire e Ausubel sobre aprendizagem significativa e crítica com foco nos conhecimentos científicos relacionados a saúde, nutrição e sustentabilidade ambiental necessários para a vida em sociedade. A cada semestre eram selecionados 100 candidatos com idades variadas residentes na Região Metropolitana e no interior do Estado do Rio de Janeiro. Essa abrangência é um fator enriquecedor, pois amplia o universo social dos cursistas, levando a trocas de percepções de diferentes contextos e realidades. Os licenciados em Biologia foram maioria em todos os cursos LIC; os participantes de outras áreas seguiam, de modo geral, uma proporção de químicos (15 a 25%), físicos (5 a 10%) e geólogos ou engenheiros que exerciam o magistério (1%). O caráter multidisciplinar das turmas favoreceu a produção de significados na interface das diferentes áreas de Ciências da Natureza. O curso teve como objetivo a construção do sentido de conhecimento científico pelo professor de Ciências. Partiu-se do pressuposto que professores já são alfabetizados e dominam a linguagem científica e os conceitos básicos ministrados em disciplinas curriculares. A mobilização dos conhecimentos prévios é necessária e suficiente para resolução de problemas práticos presentes em contextos da vida cotidiana. Nas várias práticas docentes oferecidas adotou-se a estratégia de considerar alfabetização e letramento como domínios diferentes da educação científica: a alfabetização como etapa inicial de aprendizagem da linguagem, enquanto letramento seria um processo dinâmico que pressupõe a compreensão das relações existentes entre áreas, dando sentido ao conhecimento científico. Mais do que uma discussão semântica, ao adotar essa diferença de terminologia entre os dois domínios buscou-se destacar que a aplicação de um conhecimento científico requer a etapa preliminar de alfabetização, sem a qual a comunicação fica comprometida. A alfabetização científica que ocorre na Escola Básica está focada na leitura e na escrita de conteúdos de natureza científica. Entretanto, para que o estudante dê sentido à leitura e à escrita científica e incorpore em sua vida social práticas e habilidades associadas ao saber científico, é necessário que os códigos utilizados pelas Ciências sejam compreendidos, interpretados e significados. É exatamente nesse ponto que se torna relevante o conceito de letramento científico, definido como a extrapolação de conhecimentos adquiridos no processo de alfabetização científica para situações cotidianas diferentes daquelas originalmente propostas. Esse conceito amplia habilidades adquiridas na alfabetização e capacita o estudante a articular informações que circulam em distintos campos de saberes, estabelecendo um diálogo interdisciplinar que ultrapassa os aparentes limites da Matemática, da Física, da Química e da Biologia com a Língua Portuguesa. O letramento científico é alcançado quando se consegue estabelecer critérios para aplicar conhecimentos científicos na resolução de problemas do seu dia a dia.

A construção do conceito de letramento científico

O pensamento de Paulo Freire, de que “educar é um ato de conhecimento da realidade concreta, das situações vividas e um processo de aproximação crítica da própria realidade”, permeou todo o desenvolvimento do curso. Em trabalhos a distância é possível explorar a realidade do ambiente do cursista com práticas docentes sem ser necessário o uso de um laboratório específico. Nas práticas, a aprendizagem foi mediada pelas professoras que conduziram a organização do pensamento para que o cursista, apoiado em seus conhecimentos prévios, usasse critérios científicos e fizesse complexas inter-relações de informações científicas. Os desafios apresentados envolviam avaliações de ingredientes culinários, remédios, alimentos, bebidas etc.; havia total liberdade na escolha de materiais informativos de fácil acesso, como receitas culinárias, manuais de equipamentos e produtos comerciais, bulas de remédios, rótulos de alimentos, produtos de limpeza, resultados de testes bioquímicos de fluidos fisiológicos. A avaliação desses materiais despertou o potencial intelectual e investigativo do cursista, estimulando-o a pesquisar informações científicas e a realizar reflexões críticas sobre benefícios e riscos sociais para tomadas de decisão. As competências trabalhadas foram: capacidade de decodificar, interpretar dados científicos, avaliar os procedimentos e instrumentos utilizados para a coleta de informações, integrar conhecimentos sem as fronteiras impostas pelas disciplinas específicas, relacionar causas e consequência para fazer previsões. O cursista direcionou a própria aprendizagem, escolhendo o material de seu interesse, desenvolvendo o trabalho de forma autônoma. Colocou foco em sua área de formação e fez as devidas articulações interdisciplinares para gerar seu relatório, orientado por um roteiro. A análise desse relatório permitiu verificar se o cursista conseguiu transformar informação em conhecimento. Para isso, levou em conta a adequação do material selecionado, as fontes pesquisadas, os critérios científicos utilizados na interpretação de dados e se na reflexão feita houve integração de diferentes áreas das Ciências. O conjunto de relatórios compôs um acervo didático interdisciplinar, diversificado e inspirador de novas metodologias de ensino associadas ao cotidiano do cidadão. Alguns relatórios realizados por docentes de diferentes áreas das Ciências mereceram destaque e geraram publicações: Esses artigos apresentam questões sociais das comunidades locais e ilustram como ocorreu o desdobramento da alfabetização no letramento. Em paralelo às práticas docentes foram trabalhados fóruns e questionários que complementaram o processo de aprendizagem significativa e crítica. Os fóruns de discussão seguiram princípios freirianos de argumentação dialógica e reflexão crítica coletiva. Os temas geradores problematizaram dificuldades no Ensino Básico que levam à evasão e ao fracasso em Ciências e promoveram a reflexão sobre o papel do professor de Ciências na perspectiva da educação científica do cidadão. A baixa capacidade de implementar inovações tecnológicas no Brasil foi também alvo de discussão. O artigo “Como incentivar a criatividade e a inovação ensinando Ciências?”, publicado na revista Educação Pública, apresenta um resumo do debate ocorrido em um dos cursos sobre como os professores podem ajudar nesse sentido. Os cursistas manifestaram preocupação com a falta de investimentos públicos no setor de Ciência e Tecnologia e compararam a situação do Brasil com a de países onde há pesquisa com maior participação financeira do capital privado e mais ênfase na inovação e valorização da produção científica. Esses argumentos reforçam tendências globais para abordagens educacionais baseadas nos princípios de mercado, em que a inovação tecnológica é colocada como saída estratégica para o desenvolvimento econômico. As discussões em fóruns ressaltaram dificuldades enfrentadas na realidade escolar que interferem no processo de ensino-aprendizagem, como: situação econômica precária das famílias; analfabetismo funcional; linguagem coloquial que contrasta com a sofisticação da linguagem científica e seus códigos; distanciamento entre conteúdos curriculares e aplicações concretas. Foram feitas reflexões com comentários críticos sobre a formação inicial nos cursos de licenciatura; os principais pontos levantados foram: Quanto ao aprimoramento em nível de pós-graduação, os cursistas valorizam cursos de formação continuada a distância, em que encontram respostas não existentes na formação inicial e na prática docente. Houve consenso sobre a necessidade de mudanças na estrutura curricular das licenciaturas, que apresenta fragmentação do ensino de Ciências em disciplinas rígidas, chegando a uma organização que permita a correlação entre o que o estudante aprendeu na Escola Básica e o mundo em que vive. Os questionários online de múltipla escolha foram estruturados de forma a permitir o levantamento das opiniões dos cursistas sobre as principais dificuldades e causas do insucesso dos alunos, tanto nas avaliações nacionais organizadas pelo Saeb quanto nas internacionais organizadas pelo Inep (Pisa). Em relação a dificuldades relacionadas ao corpo discente, as respostas prevalentes foram: ausência de hábito de leitura, distanciamento entre linguagem científica e coloquial; analfabetismo funcional e dificuldade de acesso a fontes de informação. Quanto às condições de trabalho na Escola, a maioria dos cursistas enfatizou a precariedade ou ausência de infraestrutura (laboratórios, bibliotecas, recursos tecnológicos) e má gestão das verbas. Surgiram críticas sobre a falta de aplicação do projeto político-pedagógico das escolas, considerado desatualizado e, algumas vezes, indiferente aos anseios da comunidade local. Alguns cursistas relataram restrições impostas aos professores em relação à abordagem do conteúdo, introdução de novos materiais didáticos e atividades de campo. Ao tratar da formação do professor nas licenciaturas, a maioria destacou o preparo insuficiente em metodologias para o ensino a distância. Outros pontos considerados relevantes foram: fragmentação do currículo em disciplinas isoladas, sem integração de conhecimentos; instrumentação precária em tecnologias de informação e comunicação e ênfase em conteúdos com pouca vivência em práticas cotidianas. A troca de opiniões e de experiências entre colegas de profissão resultou em alguns consensos sobre alterações que podem ajudar a formar cidadãos letrados, capazes de dar soluções criativas, utilizando para isso os conhecimentos adquiridos na escola. As principais sugestões para melhorar o letramento científico nas aulas incluíam: A implementação dessas melhorias requer a oferta de cursos de formação continuada a distância que auxiliem o docente a assumir seu novo papel de professor problematizador e o apoio dos gestores na busca de condições e recursos para torná-las realidade.

O novo papel do professor no letramento científico

As reflexões críticas contidas nos depoimentos dos professores cursistas retratam um conjunto de situações que envolvem desde questões salariais até desprestígio social da profissão e esgotamento de expectativas, passam pelas difíceis condições de trabalho nas escolas e pela falta de esforço intelectual e pedagógico dos professores universitários para adaptar as disciplinas que lecionam às reais necessidades da formação do docente da Escola Básica. Foi possível perceber um sentimento de esperança de que a educação possa auxiliar na construção de um Brasil melhor, com menos injustiça social e mais desenvolvimento sustentável e que é possível aproximar o ensino de contextos reais. Os professores cursistas reconhecem que o desafio a ser vencido envolve também questões políticas, mas concordam que a transformação nas condições objetivas da escola só ocorrerá com mudanças na própria concepção do papel do professor. O novo papel do professor, em sintonia com as necessidades do século XXI, é de construir sentido para o conhecimento escolar. Cabe ao docente fazer a seleção crítica do que é necessário aprender e transformar informação em conhecimento, porque o conhecimento é a informação que faz sentido para quem aprende (Gadotti).

Referências

OLIVEIRA, Carla Adelina I.; BERNSTEIN, Any. Você sabe interpretar um exame de sangue? Educação Pública, v. 18, nº 1, 9 de janeiro de 2018. Disponível em: http://educacaopublica.cederj.edu.br/revista/artigos/voce-sabe-interpretar-um-exame-de-sangue. Acesso em nov. 2018. OLIVEIRA, Gabriela Sant’Anna de; BERNSTEIN, Any. Aulas de Química inovadoras ajudam ao combate ao consumo de álcool. Educação Pública, v. 17, nº 24, 12 de dezembro de 2017. Disponível em: http://educacaopublica.cederj.edu.br/revista/artigos/aulas-de-quimica-inovadoras-ajudam-o-combate-ao-consumo-de-alcool. ONU. Organização das Nações Unidas. Suíça lidera índice global de inovação; Índia é um dos mercados emergentes em ascensão. 2017. Disponível em: https://nacoesunidas.org/suica-lidera-indice-global-de-inovacao-india-e-um-dos-mercados-emergentes-em-ascensao/. Acesso em out. 2018. SILVA, Victor, Rocha Rodrigues da; BERNSTEIN, Any. O abastecimento de água em Angra dos Reis; educação científica numa visão multidisciplinar. Educação Pública, v. 18, nº 4, 20 de fevereiro de 2018. Disponível em: http://educacaopublica.cederj.edu.br/revista/artigos/o-abastecimento-de-agua-em-angra-dos-reis-educacao-cientifica-numa-visao-multidisciplinar.