Biologia e Geografia em foco: a interdisciplinaridade como investigação da interface entre teoria e prática além dos muros da escola

José Ribeiro dos Santos

Mestre em Educação, licenciado em Biologia e bacharel em Enfermagem; professor da Faculdade Associada Brasil e da Escola Técnica Sequencial

Dorival Rosendo Máximo

Mestrando em Educação, licenciado em Geografia, bacharel em Direito, professor da Escola Estadual Eunice Marques

A escola é um ambiente que constitui um sistema de significações com produções artísticas culturais e uma pedagogia própria, ensinar. É possível afirmar que tudo o que ocorre na escola é educação, mas nem tudo que é educação ocorre necessariamente na escola (Santos, 2007).

Não se ensina nem se aprende a interdisciplinaridade; apenas vive-se, exerce-se. Por isso, exige uma nova pedagogia: a da comunicação. É preciso que a escola trabalhe em conjunto para que a interdisciplinaridade possa acontecer. Obrigatoriamente deve estar presente no projeto político-pedagógico.

A humanidade vive um processo acelerado de transformações e rupturas que se reflete em todos os setores da sociedade; pelo diagnóstico dos dias atuais, a escola vem lutando contra essa avalanche, em especial a invasão das tecnologias e a falta de interesse dos alunos em estudar os conteúdos que são passados em sala de aula da forma como ainda são passados nos dias atuais. A Biologia combinada com a Geografia fazem o estudo da evolução das espécies e do modo como as diversas condições ambientais influenciam no desenvolvimento da vida.

Fazer pedagogia não deve estar relacionado apenas a um fazer restrito, professoral, formacional dos profissionais da educação escolar; de acordo Santos, a educação escolar, no decorrer de sua longa caminhada histórica, tem acumulado muito mais derrotas do que vitórias e propõe mudanças para transcender as barreiras tradicionais impostas por muros que isolam a organização escolar.

A proposta da interdisciplinaridade traz modos de trabalhar o conhecimento visando à reintegração de dimensões isoladas uns dos outros pelo tratamento disciplinar para contemplar uma visão mais ampla da realidade; na atividade educacional, temos feito referências à interdisciplinaridade, discutimos a transversalidade, principalmente por ocasião da elaboração dos planejamentos escolares anuais (Bovo, 2004).

Ao falamos na integração de disciplinas, cogitamos a elaboração de projetos pedagógicos, envolvimento com diversos outros professores e coordenação; todavia, nunca chegamos a um consenso. Quase sempre a não efetivação dessas práticas decorre do equívoco na interpretação dos PCN e dos conceitos de interdisciplinaridade e transversalidade, embora sejam termos parecidos e muito utilizados no meio pedagógico.

A interdisciplinaridade não é algo tão recente assim; Pedro Ramus desenvolveu toda a sua teoria na reforma educacional que se baseava prioritariamente em três ideias básicas: natureza, sistema e prática. Humanos e natureza já não são vistos como polos opostos; tradicionalmente, a natureza tem sido considerada recurso infinito, mas surgiram problemas ambientais como efeito estufa, diminuição da camada de ozônio, perda da biodiversidade e excesso de desmatamento. Tudo isso tem impacto muito grande na sociedade. O sistema seria algo a ser estruturado, pensado e a prática seria a ação do homem frente a um dilema.

A interdisciplinaridade surgiu no final do século XIX, pela necessidade de dar uma resposta à fragmentação causada pela concepção positivista, pois as ciências foram subdivididas, surgindo várias  disciplinas. Após longas décadas convivendo com um reducionismo científico, a ideia de interdisciplinaridade foi elaborada visando restabelecer um diálogo entre as diversas áreas dos conhecimentos científicos (Costa, 2008).

A ideia de natureza estava associada à experiência e à vivência; a ideia de sistema estava relacionada à organização do saber; a ideia da prática relacionava-se ao método de ensino e ao uso da criatividade. Deve haver um programa bem estruturado e contextualizado com o cotidiano do aluno para que de fato as aulas se tornem atrativas e despertem o interesse do aluno nesse novo século.

Podemos perceber que a interdisciplinaridade pretende garantir a construção de conhecimentos que rompam as fronteiras entre as disciplinas, com maior envolvimento por parte de todos envolvidos no processo.

Várias perspectivas da natureza e do ambiente têm sido identificadas principalmente propostas para o desenvolvimento sustentável; o ensino de Geografia no final do século XX e início do século XXI vem deixando de ser uma ciência de síntese em busca da interdisciplinaridade com outras ciências sem perder sua identidade; as interconexões entre conhecimento científico, valores e práticas são ferramentas úteis na transposição didática facilitando a compreensão dos conteúdos de forma integrada (Barros, 2010).

A Biologia é o estudo da vida; então estuda, em si, a natureza, seus processos de geração e de transformação. A Geografia estuda o espaço geográfico, ou seja, a natureza que foi alterada pela sociedade do homem, um ser vivo que integra a natureza, porém é racional, tomando escolhas que alteram os ciclos naturais de outros animais.

Então a Biologia analisa essas transformações de modo mais específico, construindo uma relação direta com a Geografia. Para esta, uma paisagem é uma associação típica de características geográficas concretas que se dão numa região ou numa extensão específica do espaço físico; a paisagem pode coincidir com uma “região natural”.

Na perspectiva da educação escolar, a aproximação do individuo com o ambiente pode ser estimulada pela valorização; a ação pedagógica da interdisciplinaridade aponta a construção de uma escola participativa. De acordo com Reis (2017), a gestão escolar nos dias atuais está estabelecida em novo paradigma que exige habilidades técnicas e analíticas, riscos e incertezas que desafiam.

A perda de noção de pertencimento, da necessidade de preservação do meio ambiente é um problema ambiental, pois durante o processo educacional o individuo precisa se sentir parte do meio em que vive; apesar de sua importância para o aprendizado, essa valorização nem sempre é feita pelo professor, isto é, deve fazer parte do cotidiano do aluno fora dos muros da escola.

O termo interdisciplinaridade tem diversos significados; entretanto, pode ser entendido como uma cooperação, uma troca de informações, integração entre as disciplinas. Considerando a relevância da problemática levantada, se faz necessário analisar os fatos, tecer informações, necessidade de conectar conhecimentos e relacionar com a contextualização. É necessário compreender que existem diferentes culturas que se colocam sob o alicerce de diferenciações conceituais a respeito da interdisciplinaridade.

Objetivo

Identificar, pela literatura, as principais dificuldades da efetivação da interdisciplinaridade nas salas de aula brasileira.

Metodologia

Revisão integrativa de literatura. Como embasamento teórico, buscou-se dialogar com autores que fundamentam a educação, com base em vários artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais em bases de dados como SciELO, Lilacs, além de livros, trabalhos monográficos, dissertações de mestrado e doutorado que discutem essa temática e sua influência no processo de aprendizagem, com pesquisa de caráter qualitativo, que tem a característica de aproximar os estudos teóricos com a realidade dos fatos.

Na tentativa de responder a suas indagações, a Ciência, pela pesquisa possibilita ao ser humano caminhos satisfatórios para a compreensão da realidade. Lakatos e Marconi definem pesquisa como um "procedimento formal com método e pensamentos reflexivos".

A pesquisa qualitativa deve partir de questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que interessem à pesquisa e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante. "Organizações do conhecimento" são aquelas que fazem uso estratégico da informação para atuação em três arenas distintas e imbricadas: a) sensemaking, ou a construção de sentido; b) criação de conhecimento, por intermédio da aprendizagem organizacional; e c) tomada de decisão, com base no princípio da racionalidade (Neto et al., 2006).

Resultados e discussão

Estudos apontados por Sales et al. (2009) revelam que na maioria das salas de aula das escolas públicas brasileiras, o livro didático continua como o único instrumento de trabalho do professor; de acordo com o autor, ao limitar ao livro o professor de Biologia ou de Geografia transmite ao aluno uma noção de ambiente sem localização espaço-temporal.

Nos livros didáticos de Biologia das escolas dos estados do Nordeste, em particular, o problema é a falta de contextualização devido aos autores e editores serem do Sudeste do Brasil, os quais podem não focar com o devido cuidado os ecossistemas presentes nessas regiões.

A Geografia, ao trabalhar noções e conceitos da natureza e da sociedade, pode articulá-los por meio da interdisciplinaridade, pois o homem como animal faz parte da natureza em que vive, lutando permanentemente com ela, transformando-a de acordo com seus interesses. A inclusão das Ciências Biológicas, sociais e do comportamento junto com a moderna tecnologia exige a generalização de conceitos básicos da Ciência; dessa forma, é grande a responsabilidade do professor em atualizar-se.

De acordo com Prestini (2005), o que distingue as disciplinas tradicionais dos conteúdos transversais não é a sua classificação em conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, mas sim o fato de que as disciplinas tradicionais encerram essa classificação em si mesmas, enquanto os conteúdos transversais "promovem atitudes que incidem nos valores pessoais e globais".

A organização das aulas em torno dos temas e a prioridade de sua vinculação às atividades de leitura são dilemas das narrativas; e as barreiras à expansão do conhecimento na atualidade têm sido a excessiva especialização dos profissionais de varias áreas e a hiperfragmentação do saber perante os desafios da globalidade.

Mesmo sendo um tema atual, a interdisciplinaridade já fazia parte da práxis dos filósofos gregos, visto que nessa época o conhecimento não seguia uma cadeia hierárquica de disciplinas como ocorre atualmente (Cardoso et al., 2008). Observamos que esse diálogo entre as áreas do conhecimento influenciou não apenas a pesquisa em educação, mas também a gestão educacional e a sala de aula.

A interdisciplinaridade é um processo que necessita de acesso continuo e um conhecimento amplo do professor; a prática interdisciplinar tem potencial para aliar metodologias de ensino das áreas envolvidas no contexto brasileiro; ainda que a conceituação de interdisciplinaridade não seja clara, a gestão escolar e as políticas públicas educacionais sugerem que a prática docente deve ser guiada por essa abordagem.

De forma mais sucinta, a interdisciplinaridade pode ser descrita como a “integração de objetivos, atividades, procedimentos e planejamentos, visando o intercâmbio, a troca, o diálogo, o conhecimento conexo e não mais a compartimentalização das disciplinas” (Cardoso et al., 2008, p. 25).

A transversalidade difere da interdisciplinaridade porque, apesar de ambas rejeitarem a concepção de conhecimento que toma a realidade como conjunto de dados estáveis, ou seja, a transversalidade pode ser compreendida como meio de organização didática que permite a integração eixos temáticos, a interdisciplinaridade é a comunicação entre eles; a prática pedagógica deve estar apoiada na interdisciplinaridade e na transversalidade, do contrário a qualidade do aprendizado fica comprometida e não colabora com o desenvolvimento cognitivo do aluno.

De acordo com Ocampo et al. (2016), a atitude interdisciplinar deve ser uma característica dos professores formadores de professores, para que os docentes que atuam na Escola Básica possam auxiliar cada vez mais na formação de cidadãos que enxerguem o mundo com as lentes da interdisciplinaridade.

A interdisciplinar no ensino supera a simples troca de conhecimento entre uma disciplina e seus pares; é sim uma complexa síntese entre conhecimentos e metodologias das áreas envolvidas que resultam em um entendimento mais holístico do tema estudado.

No século XIX, foram formados os institutos de pesquisas em Geografia, contribuindo com a difusão desse saber. No inicio do século XX, iniciou-se a concepção de Geografia na escola. Com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, foram definidos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que, por sua vez, orientam para a aplicação da transversalidade. No âmbito dos PCN, a transversalidade diz respeito à possibilidade de estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real e de sua transformação (aprender na realidade e da realidade) (Prestini, 2005).

Resistência dos professores quanto a abordagem interdisciplinar, turmas com excessivo número de alunos, a insegurança o despreparo do professor dificultam a integração das diversas disciplinas devido à fragmentação de sua formação. Embora a interdisciplinaridade aponte para a atualização dos conteúdos, a formação do professor no Brasil ainda é estanque, tornando-se enfadonha nos dias atuais para um público que já nasceu na era da modernização, das novas tecnologias.

Entender o ser humano como se achando em uma importante relação com o lugar ou o espaço geográfico é já pressupor uma homogeneidade da cultura e da identidade em relação a esse lugar e excluir outros; em geral esse é um argumento frequentemente usado para demonstrar o suposto caráter do pensamento geográfico (Malpas, 2009).

Atualmente, na sociedade globalizada, levando em consideração os fenômenos da mundialização, em que as políticas atuantes neoliberais tendem a sufocar e até anular as diferenças culturais, a interdisciplinaridade aponta para tentar responder às questões do mundo contemporâneo, caracterizado por sua extrema complexidade, estando intimamente ligada às necessidades de nossa sociedade.

Conclusão

O distanciamento dos conteúdos tratados em sala de aula da realidade do aluno pode fazer com que se crie uma distância entre o aluno e o ambiente; para que o trabalho interdisciplinar possa ser desenvolvido pelos professores, é preciso, além da integração dos conteúdos, que haja aulas contextualizadas, passando a estimular e valorizar o ambiente próximo ao aluno, como os ecossistemas de sua região. É fundamental que os cursos de licenciatura adotem uma perspectiva interdisciplinar, não apenas no aporte teórico, mas também utilizando essa metodologia em sua estruturação.

Referências

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BARROS, José D’Assunção. Geografia e História: uma interdisciplinaridade mediada pelo espaço. Revista Geografia, Londrina, v. 19, nº 3, 2010. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/geografia/. Acesso em 11 dez. 2018.

BOVO, Marcos Clair. Interdisciplinaridade e transversalidade como dimensões da ação pedagógica. Urutágua - Revista Acadêmica Multidisciplinar, nº 7, ago./nov. 2004. Disponível em: www.urutagua.uem.br/007/07bovo.htm. Acesso em: 17 dez. 2018.

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MALPAS, Jeff. Geografia, Biologia e Política: Heidegger sobre lugar e mundo. Revista Natureza Humana, São Paulo, v. 11, nº 1, jun. 2008.

OCAMPO, Daniel Morin; SANTOS, Marcelli Evans Telles dos; FOLMER, Vanderlei A. Interdisciplinaridade no ensino é possível? Prós e contras na perspectiva de professores de Matemática. Bolema, Rio Claro, v. 30, nº 56, p. 1.014-1.030, dez. 2016.

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SANTOS, Vivaldo Paulo. Interdisciplinaridade em sala de aula. São Paulo: Loyola,  2007.

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, José Ribeiro dos; MÁXIMO, Dorival Rosendo.Biologia e Geografia em foco: a interdisciplinaridade como investigação da interface entre teoria e prática além dos muros da escola. Educação Pública, v. 19, nº 4, 19 fev. 2019.