Os jogos como ferramenta de intervenção psicopedagógica na escola

Robison Zacharias Guimarães

A presente pesquisa tem o objetivo de abordar a intervenção psicopedagógica dentro da escola, utilizando os jogos como ferramenta para tal. Buscaremos analisar em um primeiro momento a Psicopedagogia em seu campo de aplicação, mais precisamente dentro da escola. Posteriormente, estudaremos a dinâmica dos jogos na aprendizagem e sua utilização, dentro da Psicopedagogia, como ferramenta de intervenção.

Ao recorrer à História, vemos que essa ciência vem sendo desenvolvida e, mesmo recente, dialoga com as demais ciências que buscam compreender o processo de aprendizagem e estudam as dificuldades de aprendizagens.

O assessoramento, por meio das intervenções psicopedagógicas, visa o sucesso do aluno, procurando melhora na qualidade do processo de aprendizagem, em que o aluno deve ser valorizado. Busca até mesmo prevenir ou corrigir a dificuldade que acomete o aluno.

Portanto, cabe ao psicopedagogo o papel de adequação e orientação das práticas educativas, promovendo e desenvolvendo habilidades inerentes ao crescimento humano. Os jogos podem contribuir para esse objetivo. 

A Psicopedagogia e o seu campo de atuação no âmbito escolar

A Psicopedagogia vem se estruturando enquanto ciência e tem como marco referencial o século XIX, com o interesse pelo estudo das dificuldades de aprendizagem. Quando a Psicopedagogia chegou ao Brasil, no século XX, estava voltada para a prevenção e a intervenção na dificuldade de aprendizagem escolar (Lamoglia; Cruz, 2014).

Sua trajetória histórica de certa forma é ampla e vem se desenvolvendo sob caráter interdisciplinar, com o intuito de melhor se fundamentar e para que possa compreender o aluno de forma integral, buscando inserir o aluno no meio social.

Na década de 1990, foram realizados inúmeros trabalhos de pesquisa voltados para as questões da aprendizagem e do fracasso escolar. A tendência era considerar o insucesso escolar como um sintoma social, e não como uma patologia do aluno. Ainda que ele tivesse um diagnóstico médico de déficit ou deficiência, caberia à escola identificar seu estilo de aprendizagem e oferecer oportunidades e recursos adequados para que pudesse aprender e se desenvolver (Lamoglia; Cruz, 2014, p. 20).

De acordo com Sánchez-Cano e Bonals (2008), a primeira função do psicopedagogo é identificar e analisar as necessidades educacionais do estudante, para que possa fazer o assessoramento, que é o passo posterior à avaliação. Para esse autor, assessoramento e avaliação possuem uma dicotomia que as torna inseparáveis e de suma importância para que se possa fazer a intervenção; sem uma das duas não há procedimento para sanar o que acomete o aluno.

O psicopedagogo pode atuar em dois âmbitos: o institucional e o clínico. Seu campo de aplicação dentro de cada âmbito se distingue de acordo com suas especificidades.

No caráter institucional, que é de nosso interesse neste estudo, o psicopedagogo atua de forma a contribuir para a aprendizagem do aluno, em contribuição com o professor regente e os demais profissionais da Educação, avaliando o aluno e auxiliando na elaboração de adaptações necessárias (Lamoglia; Cruz, 2014).

O assessoramento previsto na escola será na orientação, adequação e adaptações da estrutura organizacional e avaliativa, orientando até mesmo o professor sobre como proceder com determinado aluno, caso seja necessário.

É preciso considerar o aluno como ser ativo no processo de ensino-aprendizagem, em que ele é o foco do processo do estabelecimento da relação dialética, como bem lembram Lamoglia e Cruz (2014) sobre a contribuição de Piaget na Educação:

A contribuição de Piaget foi muito importante para reconhecimento da criança como ser ativo no processo de desenvolvimento. Sua teoria trouxe, entretanto, alguns questionamentos para a Pedagogia, particularmente no que diz respeito ao planejamento do trabalho pedagógico. Piaget ressaltou a relação da criança com o ambiente físico, mas não se deteve sobre a relação criança com outro ser humano (Lamoglia; Cruz, 2014, p. 71).

Ao observar o aluno, devemos considerá-lo ser ativo e integrante do meio no qual está inserido, para que possamos compreendê-lo de forma significativa a fim de desenvolver a aprendizagem. Como lembra Paulo Freire (2012), ao criticar a “educação bancária” – como chamou a prática em que o professor é detentor do conhecimento e o aluno nada sabe. Ao criticar essa prática, Freire propõe uma Educação que valoriza o aluno como ser holístico e integrante do processo educativo no qual está inserido a partir da prática dialógica.

Os jogos e sua aplicabilidade na Psicopedagogia

A concepção de jogo na educação ainda prevalece sob conceito errôneo. Kishimoto (2011), ao tentar explicitar a concepção de jogo, afirma que tal definição é complexa devido à sua pluralidade e ao contexto. Assim, devido à sua vasta concepção, é possível observar que o aluno durante os jogos pode desenvolver habilidades que colaboram para sua aprendizagem. Ao brincar, ele “não está preocupado com a aquisição de conhecimento ou desenvolvimento de qualquer habilidade mental ou física” (Kishimoto, 2011, p. 17). O processo de aprendizagem ocorre de forma indireta e significativa para o aluno.

O jogo deve estar para a Educação como ferramenta integrada ao processo de aprendizagem, colaborando para o desenvolvimento integral do aluno em busca da aprendizagem significativa, mediada pelo professor, cujo papel é de suma importância na escola. De acordo com Ide (2011),

o jogo não pode ser visto apenas como divertimento ou brincadeira para desgastar energia, pois ele favorece o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo, social e moral. Para Piaget, o jogo é a construção do conhecimento, principalmente nos períodos sensório-motor e pré-operatório. Agindo sobre os objetos, as crianças, desde pequenas, estruturam seu espaço e o seu tempo, desenvolvem a noção de causalidade, chegando à representação e, finalmente, à lógica (Ide, 2011, p. 106-107).

Ao desenvolver os aspectos mencionados por Ide, ele estará estimulando e desenvolvendo cada etapa do conhecimento proposta por Piaget, desenvolvendo sua inteligência e estimulando a aprendizagem. O estimulo por meio do jogo pode vir pela tentativa de superação de um desafio imposto pelo jogo, pela imaginação – de se colocar em determinado local – e até mesmo pelo uso da lógica para alcançar o objetivo.

Para Ide (2011), o jogo é uma ferramenta que contribui para a aprendizagem; que possui caráter lúdico e educativo e que pode contribuir com alunos com dificuldades de aprendizagem; nos demais alunos, como estímulo às habilidades.

Assim como Ide, outros autores, como Haidt (2003) e Lopes (2005), defendem a utilização de jogos. Haidt (2003) salienta:

O jogo é um recurso didático valioso pelas seguintes razões:

- Corresponde a um impulso natural do aluno, seja ele criança ou adulto. Nesse sentido, satisfaz uma necessidade interior, pois o ser humano apresenta tendência lúdica.

- Absorve o jogador de forma intensa e total, criando um clima de entusiasmo, pois na situação de jogo coexistem dois elementos: o prazer e o esforço espontâneo. É esse aspecto de desenvolvimento emocional que torna o jogo uma atividade com forte teor motivacional, capaz de gerar um estado de vibração e euforia (Haidt, 2003, p. 175).

Lopes (2005) enfatiza o uso do jogo nas práticas psicopedagógicas sinalizando seus bons resultados até mesmo no aspecto psicomotor. Nas escolas, na maioria das vezes, não há condições de adquirir jogos para uso, mas podem ser criados jogos que permitem trabalhar aspectos psicocognitivos que possam contribuir para o desenvolvimento do aluno. De acordo com ele,

o trabalho de criação de jogos tem-se mostrado eficiente na prática psicopedagógica com crianças de diferentes faixas etárias, produzindo excelentes resultados psicomotores.
A tarefa pode abranger desde a confecção de jogos já conhecidos até a criação de novos jogos.
Muitos jogos ganham motivação especial quando a criança os confecciona. (Lopes, 2005, p. 25).

Levar o aluno a ser protagonista de sua história é tarefa do professor. Como já mencionado, devemos considerá-lo ser ativo no processo de ensino-aprendizagem. Assim, colaboraremos para uma aprendizagem mais significativa.

Podemos observar a grande contribuição que os jogos podem trazer aos alunos com necessidades educacionais; sendo usados para além da brincadeira, do jogo pelo jogo, desenvolverão no aluno, habilidades que contribuirão para seu desenvolvimento. De acordo com a necessidade especial do aluno, haverá necessidade de planejamento do melhor jogo para a situação.

Para isso, é necessário avaliar o aluno e posteriormente planejar o assessoramento. Cada jogo tem uma regra, uma especificidade, um objetivo que irão determinar sua utilidade dentro da intervenção psicopedagógica na escola e como ela irá ocorrer.

Conclusão

Ao abordar a temática dos jogos como ferramenta de intervenção psicopedagógica, propusemo-nos a analisar a possível dialética no âmbito escolar. Falar sobre educação pode parecer fácil, porém não é! Requer que o pesquisador abdique de qualquer preconceito, para que possa analisar o objeto-sujeito educacional.

Sendo os jogos, por excelência, objetos de extrema ludicidade, facilitando a aprendizagem do aluno, colaboram com a Psicopedagogia para os alunos que possuem necessidades educacionais, mediando a aprendizagem com a supervisão do professor e do psicopedagogo, com base na avaliação e no planejamento que deverá ser elaborado.

Esta pesquisa não pretende esgotar o assunto, mas podemos observar e concluir que, ao utilizarmos jogos, estaremos contribuindo para uma aprendizagem significativa, a qual ajudará o aluno a até mesmo reintegrá-lo à sociedade, contribuindo para a sua eventual reabilitação.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

HAIDT, R. Curso de Didática Geral. São Paulo: Ática, 2003.

IDE, S. O jogo e o fracasso escolar. In: KISHIMOTO, T. (Org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 2011.

KISHIMOTO, T. O jogo e a educação infantil. In: KISHIMOTO, T. (Org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 2011.

LAMOGLIA, A.; CRUZ, M. Psicopedagogia. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.

LOPES, M. Jogos na Educação: criar fazer, jogar. São Paulo: Cortez, 2005.

SÁNCHEZ-CANO, M.; BONALS, J. Avaliação psicopedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2008.

Publicado em 26 de março de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

GUIMARÃES, Robison Zacharias. Os jogos como ferramenta de intervenção psicopedagógica na escola. Educação Pública, v. 19, nº 6, 26 de março de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/6/os-jogos-como-ferramenta-de-intervencao-psicopedagogica-na-escola