Dora, a aventureira e o ensino de Geografia na Educação Infantil

Paloma Danielle Barra Coelho

Geógrafa do magistério (UERJ), funcionária da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro

Rodrigo Batista Lobato

Geógrafo do magistério (UERJ), doutorando (Programa de Pós-Graduação em Geografia/UFRJ) e tutor presencial de Cartografia do Cederj

O processo de globalização e os avanços das tecnologias da informação e da comunicação, principalmente com desenvolvimento do acesso às mídias, ganham espaço e utilidade na vida do sujeito contemporâneo. O acesso à televisão passa a ser cada vez mais presente nos lares, tendo papel predominante, evidenciando as mudanças nos costumes e nos hábitos das pessoas.

Com a modernização sociocultural, as crianças já nascem imersas nessa nova cultura de mídia; de acordo com Steinberg e Kincheloe (2001), a infância é uma criação da sociedade, e quando surgem amplas mudanças culturais e sociais a infância também está sujeita a mudar. É preciso, portanto, conhecê-las e para isso precisamos entender melhor o universo cultural em que estão inseridas.

Com isso, a mídia passa ser um instrumento, principalmente a televisão, com os desenhos educativos, e é interessante que os educadores e pais valorizem desenhos animados, já que eles podem ser uma forma de auxiliar no desenvolvimento cognitivo da criança. Logo, é valido ressaltar a grande influência que eles passam a exercer no cotidiano infantil, como ferramenta fundamental no processo de ensino-aprendizado, como estratégia de estímulo, contribuindo para seu desenvolvimento global.

Esse instrumento midiático como recurso pedagógico é, portanto, de grande valia para que os educadores os utilizem na metodologia, sendo importante que os educadores insiram os desenhos animados como metodologia de ensino. Marcados por linguagem lúdica (música, temática, cores, movimento e temporalidade), de fácil compreensão e aprendizado, passam a obter maior atenção das crianças, influenciando na educação e no desenvolvimento infantil.

Sendo assim, são conteúdos diversos que, por meio da articulação entre si, proporcionam à criança uma oportunidade de criar redes de relações significantes, possibilitando construir e reconstruir seu conhecimento, haja vista as diferentes realidades que compõem o mundo à sua volta. Sua principal característica é a linguagem lúdica, e através dela é possível ampliar e fomentar aprendizados importantes, trazer questões e novas perspectivas, porém sem perder o encantamento e a curiosidade, o que permite que a criança explore sua imaginação e sua fase pictórica, criando suas próprias expectativas sobre o que foi visto.

Baseando-se nisso, é importante que os professores valorizem essa ferramenta para futuramente inserir esse recurso pedagógico em suas atividades no espaço escolar, de forma que possa contribuir para o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e físico da criança, despertando o seu senso crítico.

A justificativa para realizar este trabalho está na observação do desenho animado Dora, a Aventureira, que pode ser utilizado em sala de aula para introduzir conceitos cartográficos, tais como identificar um mapa, o planeta Terra e sua forma.

Nosso objetivo é compreender se esse desenho animado pode ser um recurso pedagógico que auxilia no processo de Iniciação Cartográfica nas crianças com a construção de noções cartográficas por meio de atividades que estimulem o ensino-aprendizagem de forma lúdica, porém respeitando os limites e as possibilidades cognitivas de cada criança.

Contextualizando o desenho e seus personagens

O desenho animado em estudo tem uma personagem, Dora, que vive quase todas as suas aventuras com seu melhor amigo, Botas. Exceto Dora e sua família, os demais personagens do programa são antropomórficos, ou seja, são animais ou elementos da natureza que possuem características humanas, como a linguagem verbal e o raciocínio lógico (Figura 1).


Figura 1: Personagens do desenho Dora, a aventureira

Por sua vez, Raposo sempre aparece na série; é uma raposa que usa máscara e luvas azuis. “Rápido e ágil, mas não é um herói como o Zorro, pois sempre tenta atrapalhar o caminho de Dora e Botas com suas travessuras: está sempre escondendo, bagunçando e jogando fora objetos” (Barioni, 2013).

A autora, Barioni (2013), relata que a série animada segue quase sempre um padrão, mantendo a proposta durante o roteiro.

No início do programa há uma contextualização, Dora conta ao telespectador o que ela e possíveis outros personagens estão fazendo. Em seguida informa a situação-problema, que, no geral, trata de algo que ela precisa fazer ou algum lugar aonde ela necessita ir. Para alcançar seu objetivo, Dora solicita a ajuda do Mapa. Ele se abre na tela e são mostrados os três lugares por onde Dora deve passar e a ordem a seguir (Barioni, 2013).

Dora carrega uma mochila que fornece recursos para suas aventuras, instrumentos voltados para o campo geográfico; entre esses objetos existe o Mapa, que é chamado de Map. Esse personagem é solicitado quando Dora faz a seguinte pergunta: “Para quem é que vamos pedir ajuda quando não sabemos que caminho seguir?”. As crianças respondem: “o Mapa”. Ele salta da mochila de Dora, indicando que é a resposta. Esse personagem é bastante icônico, de modo que ele sempre está disponível para auxiliar Dora, oferecendo o caminho para atingir seus objetivos sempre que solicitado. Ele também avisa sobre a necessidade do uso de determinados recursos, tudo dependendo de enredo do episódio. Em sua orientação, o Mapa sempre mostra três lugares a serem alcançados e que são repetidos ao longo do programa, sempre por três vezes.

Assim, quando solicitado, Mapa (Figura 2) abre seu tabuleiro virtual para que possamos ver; aí canta: “Se você vai a algum lugar, olha, eu posso te ajudar. Quem eu sou? O Mapa. Quem eu sou? O Mapa. Se precisa chegar lá em mim pode confiar, sou o Mapa”, e representa o espaço geográfico em uma forma plana, na perspectiva obliqua e tridimensional, extremamente generalizado, sem legenda estruturada ou título.


Figura 2: O Mapa, ao abrir seu tabuleiro

Ao referir-se a tal assunto, Carter (2009) afirma que no início de cada episódio há três tarefas: chamar Map, visualizar o trajeto apresentado pelo Mapa e dizer à Dora como chegar ao local pretendido. Essa rotina constrói o conceito de mapa, ao promover a sua consulta antes de Dora sair em uma aventura. Ele relata em sua pesquisa que

Os mapas, em seu design e estilo, são fundamentais em todos os episódios. A cada passo na introdução, os mapas são apresentados pelo menos três vezes pelo personagem Map, que tem uma personalidade que agrada às crianças pequenas. Em testes feitos pelos criadores, eles descobriram que tinham que fornecer caminhos detalhados durante o percurso para que os espectadores pudessem fazer as ligações entre os lugares (Carter, 2009).

Baseando-se nisso, o autor considera que diversos fatores do desenho são fundamentais e bem pensados para a apresentação e o uso do mapa no desenho; sendo, assim, um passo significativo no ensino sobre mapas e uso deles quando se trata de crianças em fases pré-escolares.

O mesmo autor relata o cuidado dos criadores e a coerência na apresentação dos mapas; afirma que os pequenos, ao assistirem ao desenho da Dora, podem ser capazes de entender o uso de mapas; entendem também o uso de duas línguas e as introduções de cores, formas e numerais que também são apresentados na série, auxiliando muito no processo de aprendizagem.

Análise do desenho animado

Após a demonstração do Mapa, a câmera se volta para Dora, que pergunta para a criança se ela está vendo o primeiro local apresentado pelo mapa; Dora questiona o telespectador: “Você está vendo a bananeira? Onde?”, e aparece o cursor confirmando o local da bananeira, como mostra a Figura 3, do episódio “Achados e perdidos”.


Figura 3: O local indicado pelo cursor

Para dar suporte às crianças durante o desenho, as imagens dos lugares por onde Dora deve passar aparecem, então, em quadrados embaixo dela, numa versão simplificada do Mapa, não prejudicando o ritmo do programa, como ilustrado na Figura 4.


Figura 4: Versão simplificada do mapa, para auxiliar as crianças

É preciso notar que o mapa é apresentado para o telespectador, que deve repassar as informações para Dora; isso pode ser observado quando o Mapa repete três vezes o caminho para a criança. De acordo com Carter (2009),

esses programas são projetados para levar as crianças a conversar e interagir com os personagens e a tela certamente atrai as crianças da idade alvo. Mas também é a razão provável de as crianças abandonarem o programa quando chegam aos cinco ou seis anos de idade. Nessa idade eles de repente, ficam maduros demais para falar com personagens de desenhos animados na tela da televisão (Carter, 2009).

As relações topológicas, euclidianas e projetivas citadas pela BNCC (2018), por Castellar (2013) e por Lobato (2018) como importantes para o processo da iniciação cartográfica podem ser observadas no desenho animado.

A orientação do mapa tem muito a ver com o formato do show. Dora sempre viaja da esquerda para a direita, de modo que o mapa geralmente começa à esquerda e termina à direita. Além disso, no formato de TV, os objetos localizados na parte inferior da tela estão mais próximos e os objetos mais acima estão longe. O leiaute do mapa segue esse formato (a parte inferior esquerda é mais próxima e o canto superior direito está mais distante). Uma coisa interessante que encontramos ao testar a história em conceitos com crianças era que precisávamos conectar os locais (com um caminho) se queria que as crianças olhassem o mapa e contassem a jornada (Carter, 2009, aput Diaz-Wionczek, 2009).

No episódio “A pinhata”, Dora e Botas estão em um parque de diversões e, ao chegar à roda-gigante, descobrem que ela está em manutenção e o Mr. Tucan está consertando-a; como mostra a Figura 5. Dora, sempre pronta a ajudar, coloca-se à disposição. Ela explica que eles precisam indicar os pedaços necessários para o conserto da roda, mas o Mr. Tucan só fala inglês e precisa dizer “long” se o que faltar for uma peça comprida ou “short” se faltar uma peça curta (os telespectadores são convidados a repetir três vezes os nomes em inglês). Uma linha imaginária mostra o local e Dora pergunta qual pedaço cabe ali. Sendo assim, é possível perceber as noções euclidianas sendo trabalhadas de forma lúdica.

Vale ressaltar que na versão estadunidense do desenho, diferentemente do Brasil, as palavras são apresentadas na língua espanhola, de maneira que aqui é utilizado o inglês. Na versão original, ao invés de usar a palavra “long” teria sido usada a palavra “largo” e ao invés de “short” teria sido usada a palavra “curto”, no exemplo citado.


Figura 5: Roda-gigante em manutenção e Dora disposta a ajudar

Para desenvolver o letramento cartográfico, é preciso incentivar o entendimento do mapa, propiciando a iniciação cartográfica; esse desenho de Dora, de forma lúdica, confirma as palavras de Carter (2009):

é importante incentivar a compreensão dos mapas pelas crianças assim que elas são capazes de apreciar a ideia de que um mapa pode representar parte do mundo ao seu redor. Perceber que um mapa pode representar outra coisa é o primeiro passo para reconhecer a importância das representações e o ponto de partida para aprender a usar mapas como fonte de informação sobre o mundo (Carter, 2009, apud Blades, Sowden e Spencer, 1995, p. 18).

No episódio "O mapa perdido”, o personagem Mapa recebe grande destaque, pois é capturado por um pássaro pateta que o confunde com um graveto e o leva para construir seu ninho. No momento em que Mapa é tomado pelo pássaro, ele diz a Dora para fazer seu próprio mapa para encontrá-lo na “montanha altíssima”.

Dora procura em sua mochila uma caixa de desenho, composta por giz de cera e papel, no qual irá desenhar os caminhos por que precisa passar para chegar até o Mapa, e para isso é preciso passar pelo Jardim de Borboletas e pelo Campo de Milho até chegar à montanha altíssima, como ilustrado nas Figuras 6 e 7.


Figura 6: Dora desenhando o mapa

Figura 7: Dora mostrando ao telespectador o mapa pronto

Durante o percurso para chegar até a montanha altíssima sem o auxílio do amigo Mapa, Dora e Botas precisaram procurar algum recurso que lhes ajude; nesse momento eles se deparam com uma placa (Figuras 8 e 9), onde há um mapa que eles precisam compreender para passar pelo Jardim das Borboletas para chegar até o milharal.

Dora afirma estar no local marcado pelo X (semelhante aos mapas de shoppings, por exemplo, que trazem expressões do tipo “Você está aqui”, para que o indivíduo possa se localizar primeiramente), e era necessário achar o caminho que percorresse todo o Jardim das Borboletas. Ela questiona o telespectador sobre qual caminho deve seguir: com borboletas laranja, com borboletas azuis ou com borboletas verdes? Nesse momento é possível observar o desenho trabalhando as cores com as crianças, pois os personagens precisavam seguir as borboletas azuis para encontrar a saída do jardim.

Mais uma vez, nota-se o pensamento de Lobato (2018), apontando que a Iniciação Cartográfica começa com conceitos não cartográficos; neste caso, fez-se uso das cores para realizar a leitura espacial do quadro apresentado, no qual estava o posicionamento das borboletas.


Figura 8: Dora e Botas encontram uma placa com mapa

Figura 9: Dora e Botas visualizam o X no mapa

Após sair do Jardim das Borboletas, Dora segue buscando chegar ao milharal, porém toca a música do Raposo, e Dora questiona os telespectadores se eles estão vendo o Raposo. Pergunta: onde? (Figura 10). Nesse momento, é possível observar as noções topológicas.


Figura 10: Onde está o raposo?

Após esse ocorrido, Dora e Botas chegam ao milharal e Botas questiona Dora: “Como vamos saber o caminho para atravessar o milharal?” Dora responde: “Talvez tenha outra placa; você está vendo alguma placa?” (veja Figuras 11 e 12). É possível observar mais uma placa com o mapa para auxiliá-los a percorrer o milharal; e podem ser vistas as cores sendo apresentadas como instrumento de auxílio para traçar o percurso do milharal.


Figura 11: Dora e Botas localizam uma nova placa

Figura 12: Dora e Botas localizam um novo X no mapa

Depois que todos chegam à montanha e o mapa está de volta, Dora mostra o mapa que ela fez. Após isso, é apresentado ao telespectador o mapa desenhado por Dora, e o personagem Mapa a elogia (Figura 13). De acordo com Carter (2009), o “ato de Dora desenhar o próprio mapa deve ser um grande passo para demonstrar que um diagrama pode representar um mundo maior” e é possível perceber a importância do desenho na vida da criança.


Figura 13: Dora reencontra Mapa e ele vê o mapa de Dora

É possível perceber em todos os episódios, porém com mais força neste, a importância do mapa em todos os sentidos: na sua forma de falar, na sua música e na construção da sua imagem, pois, de acordo com Carter (2009), “manter as crianças interessadas em olhar para um mapa na tela da televisão mais de um minuto requer uma personalidade dinâmica, e o Mapa parece preencher bem esse papel”.

Resultados

Ao assistir a diversos episódios do desenho, é possível perceber que Dora assume o papel de um adulto, de um professor, que auxilia os pré-escolares em suas ações/representações, auxiliando-os na construção de novos saberes, no desenvolvimento infantil (Barioni, 2013).

Baseando-se no aprendizado trazido por Vygotsky (1984), a criança troca com o meio e com as demais pessoas; de acordo com Barioni (2013), ela “necessita da participação de um adulto para auxiliá-la no seu desenvolvimento, ainda que participe ativamente do seu processo”. Logo, recebendo auxílio, a criança pode ampliar e enriquecer seu universo quando participa de brincadeiras, pois “o adulto, tendo maior experiência e estando em outro nível psíquico, se encontra adiantado no desenvolvimento”.

O aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança (Vygotsky, 1984, p. 101).

Logo, quando Dora assume o papel do adulto, passa a ter função de mediadora no processo de desenvolvimento infantil, já que trabalha dentro da zona de desenvolvimento proximal – ZDP (Vygotsky, 1984) da criança pré-escolar. Barioni (2013) afirma que Dora,

através dos seus questionamentos e ações, mostra habilidades e conhecimentos que estão dentro do nível de desenvolvimento potencial de um pré-escolar, oferecendo-lhe a possibilidade de internalizar o que está sendo transmitido.

A reposta do telespectador é sempre orientada pela fala e/ou induzida pelas imagens. Como sinalizado anteriormente, isso ocorre tanto para evitar que o telespectador dê uma contribuição que não é a que foi preestabelecida pelo roteiro quanto porque o público do desenho são crianças pequenas que, assim como Botas, precisam de orientação em situações que envolvam uma compreensão que está acima do seu desenvolvimento real.

Carter (2009) relata a evolução do vocabulário das crianças que assistem aos desenhos animados, principalmente o desenho de Dora, e acredita que isso acontece devido à forma como o desenho se relaciona com o telespectador; ele afirma: “eu suspeito que os efeitos positivos em crianças que assistem a esse desenho na Nickelodeon/Nick Jr. estão diretamente relacionados ao fato de os criadores escolherem empregar apresentações repetitivas e consistentes em cada episódio”.

Carter afirma ainda que “as pessoas estão preocupadas em ensinar habilidades de leitura de mapas e os conceitos de um mapa”, porém elas devem

prestar mais atenção aos mais de 110 episódios de Dora a aventureira na televisão. Esse desenho para crianças de 2 a 5 anos usa uma atividade de leitura de mapa em cada episódio como "organizador cognitivo" para dar continuidade a todos os espetáculos e abordar a inteligência espacial. Os projetistas do programa observam que, ao testar os espectadores, as crianças entendem os mapas. Assim, o programa parece ser bem-sucedido na introdução dos conceitos de mapas e uso de mapas para crianças dessa faixa etária (Carter, 2009).

Carter fala da visibilidade desse desenho pelas crianças ao redor do mundo, e afirma que o “desenho deveria representar um passo significativo em nossos esforços para ensinar as crianças a ler mapas”, sendo então mais um recurso para auxiliar no processo de ensino-aprendizagem da criança relacionado à Cartografia, de forma completamente lúdica e interdisciplinar.

Barioni (2013) colabora para essa afirmativa quando diz que:

Dora, a aventureira não é só um desenho, é um excelente desenho, pois estabelece uma boa relação entre a criança e o aprendizado: todos os elementos presentes são passíveis de serem absorvidos por um pré-escolar, há diversas ferramentas para seu auxílio, há uma boa orientação do Mapa e de Dora, há diálogo, há contextualização, enfim, tudo favorece a aprendizagem. O objetivo da série é claramente pedagógico – pela escolha do formato, por desenvolver seu enredo num tom de “manual de boa convivência” e por mostrar os anseios, crenças e inquietudes do nosso tempo, em especial quando trata do meio ambiente e do multiculturalismo.

Além disso, como afirma Carter (2009) diversas vezes em seu artigo, a proposta do mapa para a idade das crianças que assistem ao desenho é muito boa, pois permite compreender o que é um mapa e para que ele é utilizado. O desenho relata tudo que envolve o mapa, desde a construção da imagem do mapa no desenho, a forma como o mapa se expressa com as crianças ao apresentar seu tabuleiro, prendendo a atenção delas, até sua música, que deixa claro qual é o papel do mapa.

Conclusão

O sentido de mapa do desenho animado analisado apresenta, sim, caráter tradicional, relacionado a conceitos predefinidos e baseados em uma Cartografia com a preocupação em decorar locais, utilizar mapas mudos, valorizar a localização e orientação; nele, o mapa não é visto como uma linguagem. Porém, com o auxílio do desenho, a criança na fase pré-escolar passa a ter noção dos conceitos mais básicos de mapa, que é uma espécie de metáfora do mundo real.

Como foi possível observar durante a análise do desenho de Dora, a Cartografia nos desenhos infantis é bastante introdutória e não tem preocupação extrema com a precisão cartográfica ou conceitos mais complexos. Porém, quando apresenta a ideia de mapa, cumpre o seu papel para crianças que estão em idade pré-escolar ou que ainda não foram para a escola.

Logo, pode-se compreender que ensinar a Cartografia desde a pré-escola é fornecer mecanismos para a construção do espaço em que a criança habita, de modo que os mapas possam ser lidos, interpretados e compreendidos, deixando para trás a ideia de figuras incoerentes e desconexas apresentadas nas aulas de Geografia.

Referências

BARIONI, Lígia Maria Nogueira. O lúdico e o pedagógico em “Dora, a aventureira”: um desenho animado televisivo contemporâneo. Monografia apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem - Unicamp. Campinas, 2013.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a base. Brasília, MEC/Consed/Undime, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_publicacao.pdf. Acesso em: 2 jun. 2018.

CARTER, J. R. Map: TV character and visual representation of space. 2009.

LOBATO, Rodrigo Batista. Alfabetização e letramento cartográfico. Exame de qualificação escrita do doutorado em Geografia - Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2018.

STEINBERG, Shirley R.; KINCHELOE, Joe L. Sem segredos: cultura infantil, saturação de informação e infância pós-moderna. In: _____; ______. Cultura infantil: a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

Publicado em 30 de abril de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

COELHO, Paloma Danielle Barra; LOBATO, Rodrigo Batista. Dora, a aventureira e o ensino de Geografia na Educação Infantil. Educação Pública, v. 19, nº 8, 30 de abril de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/8/dora-a-aventureira-e-o-ensino-de-geografia-na-educacao-infantil