O ideário pessoal e intransferível de um renegado

Hugo Maddalena Junior

Nada cuja dramaticidade efusiva seja a tal ponto contagiante que possa suscitar um desmaio, ou cujo teor de pathos seja tão insolitamente alto a ponto de que não caiba entre as quatro paredes de um vestíbulo sombrio, chafurdando de imagens. Nada cujo aceite temerário da realidade não possa demolir com um único e impiedoso golpe. Nada cujos parcos volteios teoréticos possam dotar de um caráter substancial algo semelhante à ação benfazeja da luz do sol sobre as alfazemas do campo em uma magnífica tarde de primavera. Nada cuja amargura refinada represente algo mais do que um ingrediente de valor duvidoso que não inebria os sentidos. Nada cuja lascívia e lubricidade mundana não possam servir de contraponto aos anseios sufocados no peito humano pelos dissabores oriundos de todas as formas de rejeição. Nada além de um regurgitar de possibilidades vividas e esquecidas em uma sucessão de tempos interiores, desprovidos de um significado maior que o próprio desgosto. Nada que não possa ser dito e, no entanto, nada que possa ser de algum modo modificado pelo ato de dizê-lo em si mesmo.

Nada que possua uma existência plausível para além das fronteiras do próprio ser confrontado com a própria vida miseranda. Nada além da memória do próprio dissabor, organizada de forma tal que lhe confira ares de registro sociológico de vanguarda, pontificando sobre a própria, incontável e insuprimível fragilidade. Nada cuja tênue volatilidade emane de um cômodo personagem fictício, elaborado in vitro e sob medida para atender às exigências estéticas de um discurso político preconcebido. Nada tão plástico como um manequim nem tão pneumático como um homem qualquer que possa se apaixonar profunda e intensamente pela beleza das formas e atribuir, de livre e espontânea vontade, certo valor simbólico às desventuras inevitáveis da vida em sociedade. Nada tão digno de nota, nada tão permeado de resplendor: simplesmente um resquício de sentimento incorporado a cada aspecto isolado da sua visão de mundo, seja ele trágico ou patético, dotando a sua inacabada cosmogonia de um inegável lampejo de ressentimento, algo nostálgico, presente até mesmo nas suas melancólicas tentativas de libertar-se do asco que lhe inspira a visão da própria face diante do espelho, quando se barbeia. A condenação tácita que lhe é imposta pelo mundo que o circunda condiciona a própria imagem que ele alimenta de si mesmo. Minando a sua própria autoestima, o mundo que o condena logra o seu intuito maior: modifica o conceito que ele tem de si mesmo e, subjugando-o, acaba por transformá-lo em um veículo propagador da própria ideologia que visa aniquilá-lo para depois eliminá-lo. Condenando a si próprio em uníssono com o ponto de vista imposto pela sociedade, ele ratifica a própria condenação.

Nada que possa suscitar uma única lágrima em um leitor terrivelmente habituado aos inúmeros percalços de um cotidiano repleto de luta e de competição de um mundo hostil e superpovoado, farto de óbitos em desastres de automóveis, quedas de avião, crimes, atentados terroristas, guerras fratricidas, tempestades, enchentes, furacões, nevascas e epidemias.

Nada cuja intensidade dramática ultrapasse os limites estreitos do mero interesse pessoal de um homem sem maiores atrativos pela sua própria sobrevivência; interesse este, aliás, que foi se esvaindo aos poucos no curso da narrativa até transmutar-se em uma espécie de desprezo crônico pelo próprio destino. Nada que possa impedir um leitor desavisado de virar a página.

A narrativa tem início com uma breve exposição dos motivos que o levaram a semelhante empresa, a qual ele mesmo classifica como sendo muito pouco alvissareira. A ação inconsequente de escrever um livro no qual relata os próprios passos, depois de ter vivido um asfixiante e opressivo período de dezessete longos anos de desemprego, não representa uma vitória pessoal do autor, ele afirma. Trata-se tão somente de um desencargo de consciência, algo tramado pela própria cupidez diante da irreversibilidade do destino hostil, adverso e, por que não dizer, torpe, que ele acusa abertamente de ter lhe reservado uma existência reles, insossa e sem maiores atrativos. Reproduzindo textualmente as suas palavras: “Escrever este livro, por mais que ele possa conter conceitos de algum valor e alguma aderência à realidade dos fatos, não passou de uma catarsis altamente recomendável, em função dos longos anos de ostracismo, vividos no mais profundo obscurantismo. Eu procurei fazer um relato fiel dos acontecimentos, isto é, do peso insuportável dos anos de desemprego, assim como de todas as suas implicações no desenvolvimento intrincado da minha personalidade”.

Um autor que não alimenta um interesse maior pela empresa literária em si vê na aventura de escrever um livro apenas a oportunidade de utilizar um veículo adequado para exteriorizar o seu libelo contumaz. Páginas de denúncia seguem páginas de denúncia cujo maior intuito é exprimir um tímido lamento.

O caráter essencialmente político do texto se desfaz no rosário de lamúrias, eminentemente pessoais, do autor-personagem e, não obstante todo o seu esforço intelectual para revestir a sua tardia e desdenhada obra de um colorido social que a insira de forma decisiva no contexto social e político da comunidade na qual vive, ele, de forma alguma, consegue atingir a sua longínqua meta, que seria, precisamente, alinhavar a sua pequena tragédia pessoal na tragédia maior de todos os demais indivíduos que fazem parte do mundo, que resta ainda ser alcançada. Segue que o tão esperado ajuste de contas do desempregado crônico com a sociedade vil e difamadora que o perseguiu por toda a sua vida não passa de um balido insignificante, inaudível, de um murmúrio ininteligível que mais parece um choramingar sem qualquer objetivo para além do próprio benefício de verter as lágrimas. Segue que o ajuste de contas do desempregado crônico com a sociedade que o grande público lerá não passa de uma autobiografia banal, cuja banalização maior é justamente o tom queixoso do autor que, provavelmente, teria feito melhor uso de um alto-falante montado sobre um palanque em praça pública. Assim, ao menos ele teria poupado as árvores que foram inutilmente sacrificadas para produzir as folhas de papel de excelente qualidade utilizadas na confecção do livro.

O autor parte, sem mais delongas, para a descrição apressada e vaga de um dia longínquo no tempo e no espaço no qual ele teria se dado conta pela primeira vez do fato de que teria de passar sem a comodidade e o conforto de um emprego com salário fixo. Ele conta, algo lamuriento, que então atribuía a sua desolação simplesmente ao fato de não poder dispor sequer de uns trocados no bolso para jogar boliche aos sábados. Desse fatídico dia de maio até o dia de hoje passaram-se dezessete longos anos de desemprego e completo abandono, quase todos tristes e iguais na sua uniformidade marcada pela falta de tudo: dias uniformes, uniformizados, vazios de sentido e de significado, nos quais a única certeza que tinha sempre era precisamente o fato de que não podia contar com ninguém. Não podia contar com ninguém e, talvez, não pudesse contar nem mesmo consigo próprio.

As descrições rudes das situações vivenciadas sob a égide da exiguidade e do desconforto, ao longo desses autênticos anni di piombo,desses anos intermináveis de luta pela própria sobrevivência que pouco ou nada acrescentaram ao seu crescimento e desenvolvimento pessoais são, em verdade, algo inteiramente sem sentido: uma leitura pouco recomendável para quem quer que seja; exceção feita, é claro, para os algozes de licença em busca de uma satisfação adicional na descoberta do martírio experimentado pelo autor-personagem na sua tão rebuscada via crucis. Os episódios infames se sucedem interminavelmente, dando vazão a um clamor de justiça extemporâneo, cuja insuportável extemporaneidade é capaz de levar até o mais experimentado leitor a um estado próximo do desespero. Desespero esse nada literário, diga-se de passagem. Aquilo que o autor-personagem certamente tencionava fosse um romance autobiográfico de protesto, ambientado em uma determinada realidade social que lhe servia de pano de fundo e cujo espectro de ação seria a ela limitado, converte-se em uma ladainha digna do mais profundo dó, cujo despropósito o transforma em um boomerang escatológico que regressa incontinente às suas mãos.

A formação da consciência política, em Espinhozo, deriva quase diretamente das experiências vivenciadas sob o jugo da fome, da miséria, do desemprego, do endividamento, da marginalidade, do abandono a si mesmo e de muitas outras formas menores de carência e de desolação. O assistencialismo social que ele tanto propala como sendo a solução mais condizente com a realidade social e política do país e de todo o planeta, através do qual os segmentos provenientes das camadas mais desfavorecidas da população poderiam estar no centro das atenções de todos e, desse modo, receber algum tratamento mais digno, é geralmente tido em sede de ciência política como um mero paliativo; isto é, um recurso político de eficácia restrita, empregado unicamente em situações de emergência flagrante e patente, situações essas que são caracterizadas principalmente pelo fato de serem uma manifestação aguda e não uma condição permanente ou um estado crônico.

A estagnação e a prostração diante do destino adverso é uma imagem fundamental que emerge do discurso tecido pelo imaginário político de Espinhozo. A total ausência de meios que, em sua eficácia, possibilitem uma tomada de posição no sentido de fazer com que o autor-personagem passe a desempenhar um papel produtivo no seu grupo social torna-se uma constante onipresente em seu estreito horizonte literário: uma variável determinante, com o auxílio da qual ele equaciona todos os seus cálculos e operacionaliza toda e qualquer projeção ideológica do seu ideário idiossincrático.

O letargo contínuo que lhe é imposto como única alternativa viável de sobrevivência assume em Espinhozo as roupagens luxuriosas de um modus vivendi consagrado, isto é, de um autêntico estilo de vida, dotado de premissas e de exigências próprias. Basta lembrar que o autor chega até mesmo a enumerar uma série de falsas virtudes que, no seu entender, são sumamente necessárias à nata da marginália, na sua maneira toda especial de levar a vida.

O mundo de Dagoberto Espinhozo começa e termina na sala de estar do seu conjugado.

A sua visão de mundo compreende apenas e tão somente as relações notadamente patológicas dos seres humanos com as suas próprias carências e deficiências adquiridas no curso de um processo de aniquilamento da própria personalidade, que é característico do seu relacionamento conflituoso com o modo de produção capitalista, o qual se alastra de forma incontrolável por todos os cantos do planeta, no espoucar da Idade Nuclear. E o que é a Idade Nuclear? O que é a Idade Nuclear, senão o período histórico imediatamente sucessivo à Idade do Jazz, já adentrando o período de transição para o Pós-Industrial. Cumpre notar que Espinhozo é responsável pela elaboração de uma weltansschauung das mais ínfimas e sintéticas de que se tem notícia no mundo contemporâneo; o conteúdo diminuto das suas considerações, que são a essência da sua doutrina filosófica, pode caber até mesmo no interior de uma caixinha de fósforos.

Em Espinhozo, toda insatisfação emana do fato de que o ser está alijado do processo de aquisição dos meios de produção na sociedade, em virtude de algumas razões que são inteiramente ignoradas por ele, além de serem também valores transcendentais que lhe são superiores na axiomática escala de valores etiológicos que, no seu entender, disciplina as relações entre os seres. Para Espinhozo, o desemprego é a peste dos nossos dias, chaga aberta que supera em dramaticidade e em periculosidade potencial todo e qualquer mal espiritual ou psicofísico passível de ser contraído pelo homem, em seu relacionamento com a criação e seus desígnios. Ele ressalta o fato de que vivemos as consequências nefastas do mau uso institucionalizado do conhecimento adquirido com os avanços científicos significativos das últimas décadas, principalmente no campo da Química, citando como exemplo desse gritante mal do século o surgimento e proliferação de laboratórios clandestinos de fundo de quintal; os quais não só fazem uso de processos de fabricação inidôneos, inteiramente inadequados e anti-higiênicos, como também de receitas inteiramente errôneas. O relacionamento do ser com a própria essência não representa algo além da ausência do ordenado no fim do mês, a qual, no seu entender, condiciona negativamente toda a percepção cósmica do homem comum, vinculando-o aos excrementos e ao ânus.

Ele se estende um pouco mais em um dos seus temas prediletos, que é precisamente o relacionamento do ser com a própria essência, pontificando que a música de hoje é um verdadeiro sinal dos tempos. De acordo com o ponto de vista tendenciosamente sintético de Espinhozo, o Heavy Metal Rock é o alimento mundano do ser humano decaído a meio caminho da própria extinção, ou seja, é a música que prepara o jovem de hoje para a hecatombe nuclear de amanhã. E, para que o leigo possa compreendê-lo melhor, cita dois outros símbolos fundamentais do seu imaginário, capazes de, por si sós, sintetizar de modo abrangente, como aliás nenhuma palavra o faria, a quintessência da sua visão de mundo. Ambos são reveladores dos rumos da civilização contemporânea. Em primeiro lugar, a rosa de plástico, imitação barata da rosa genuína que se encontra à venda nas lojas e estabelecimentos que vendem bijuterias e utilitários derivados do plástico. Há algumas até mesmo que borrifam perfume, desde que você as recarregue com esse líquido agradabilíssimo aos sentidos. O outro símbolo do seu imaginário é o explosivo plástico C-4, acessório indispensável a todos aqueles que desejam mandar tudo pelos ares.

Espinhozo destaca a vantagem da rosa feita de matéria plástica sobre a original, argumentando que a primeira não morre, por mais barata que seja a imitação, prosseguindo o seu raciocínio escatológico uniformizador ao afirmar que a imitação da vida é o segredo da sobrevivência do homem contemporâneo em um mundo que vai, a passos largos, rumo ao próprio fim dos tempos.

A imitação da vida é a pedra de toque do discurso ontológico de Espinhozo, que, por razões que ele mesmo desconhece, permanece viva na mente do autor, embora sujeita a inúmeros golpes desferidos pelo destino cruel e adverso. E, por razões que o leitor mais ávido por penetrar na enigmática personalidade do autor-personagem também desconhece, ele, ao invés de nos brindar com uma cosmogonia que busque representar de alguma forma inteligível a própria origem e a criação do universo, oferece-nos, isto sim, uma enfadonha cantilena apocalíptica cuja tônica é a própria destruição do cosmos, por intermédio da hecatombe nuclear.

O leitor mais atento poderá facilmente perceber que, no curso de suas especulações filosóficas de valor dúbio, o autor-personagem jamais se preocupa com a possibilidade, remota que seja, da existência de uma ordem cósmica superior no universo, a qual possa constituir um elemento transcendental de valor indiscutível. Em Espinhozo, o ser não se indaga sobre a origem da vida ou do universo, tampouco lança fundamentos de qualquer espécie sobre uma pretensa ordem dos elementos que constituem a natureza, ou mesmo sobre os princípios que regem o cosmos. Il ne parle que à soi-même de la merde qui a tout à fait secoué sa vie et rempli ses jours de souffrance et douleur.

A sua divagação ontológica se ocupa da própria ruína, descambando pouco cerimoniosamente para a enumeração das mais diversas causas prováveis da destruição do universo, inscrevendo no seu rosário de lamentações feitas de matéria plástica toda uma gama de fatores capitais para a aferição do real. A aferição do real e dos elementos que constituem a realidade se opera no mundo, mundo este que é o domínio da realidade. O mundo é o domínio da realidade e é no mundo que a realidade tem lugar. Sendo o universo o próprio locus da realidade, é nele que tudo acontece. É nele que tudo tem lugar. É nele, portanto, que tais fatores capitais se manifestam, tomando o lugar da natureza e das leis que a regem, na apreciação humana dos referenciais mais apropriados para a determinação do real. Espinhozo defende a existência desses novos referenciais capitais para a determinação do real, os quais seriam construtos sintéticos fundamentais para a determinação das relações de um ser com os demais seres e destes com o próprio mundo. De acordo com a cosmogonia de Espinhozo, a grande nave Mãe-Terra está à deriva. Nessa derivação forçosa, o construto sintético se apropria da realidade, impingindo aos seres a sua nova ótica. Não importa mais, por conseguinte, saber qual é o âmago do ser nem saber o que o move nas suas relações com o mundo, porque tais questões perderam completamente o seu valor essencial: o que importa agora é saber o que conduzirá o ser ao nada.

A sua patente inversão de referencial ontológico constitui, sem sombra de dúvida, a faceta mais revolucionária desta obra, não menos inacabada do que é despreparado para a divagação metafísica o seu autor. A autêntica supressão de um interesse mais genuíno pelo conhecimento da natureza última do ser provoca uma descambação levianíssima para os construtos sintéticos, que, assim como os derivados do plástico, vão tomando as prateleiras das lojas e dos supermercados, vão infestando o seu discurso de paralogias enigmáticas. Tudo é fruto do seu estranhamento em relação ao mundo e da total falta de um amor maior nutrido pela Nave-Mãe. Todas as suas especulações são presa do terror fundamental que o autor-personagem experimenta diante do futuro da humanidade e do planeta Terra. O terror é um elemento fundamental na sua compreensão do mundo e da realidade.

Como autêntica child of the times que é, o autor-personagem alinha a imagem do desemprego à da dernière hecatombe, tentando astuciosamente alinhavar a rejeição que o mundo lhe consagra na destruição de tudo e de todos, que é iminente e que lhe parece ser o único remédio para todo o mal que lhe foi infligido. Enfant térrible da criação literária, o autor-personagem não procura brindar o leitor com um samba da criação do mundo qualquer, mas trata, isto sim, de professar o seu credo escatológico no sintético e no descartável, reservando para o leitor apenas um simulacro de busca da realidade e das coisas que estão no mundo. Ao invés de se dedicar à elaboração do seu próprio argumento ontológico, ele propõe a imitação da vida como o placebo apropriado para o tratamento do tema. Ao invés de uma concepção metafísica fundada na essencialidade do ser e na sua natureza última, que são as bases da metafísica desde Platão e Aristóteles, ele nos propõe um sucedâneo sintético da liberdade e do prazer que é um componente de matéria plástica imperecível.

O imaginário de Espinhozo fabrica a fantasia da inter-relação entre o desemprego e a dernière hecatombe, alinhavando uma coisa na outra, como se elas fossem intimamente ligadas e não pudessem mesmo ser separadas uma da outra. No ideário ingênuo do autor-personagem, o desemprego representa o fim da possibilidade de que o homem desempenhe um papel produtivo na sociedade, e isto equivale ao fim do mundo. O desemprego é o fim do mundo. É, sem a menor sombra de dúvida, a condição social mais contígua ao fim de tudo. A morte paira como uma sombra sobre a figura desprotegida do desempregado, em uma terceira imagem fundamental que emerge do discurso do autor-personagem. O desemprego, aliás, é um dos seus fetiches prediletos. O desemprego é uma forma de viver a vida sem qualquer prazer, em uma imitação barata da sua plenitude potencial de bem-estar e de autorrealização. É uma redução patológica do prazer de viver à mera busca pela sobrevivência, na qual as principais virtudes da existência humana são abandonadas, inclusive a higiene. O desemprego é algo semelhante à rosa de plástico, que não possui vida e que, por isso mesmo, jamais morrerá. O desempregado, habituado aos percalços dessa vida atribulada, jamais será pego de surpresa por uma demissão. O desempregado jamais perderá algo que ele nunca teve.

As imitações baratas desta vida que está se esvaindo sem que nos demos conta é que constituem símbolos dignos da nossa humaníssima reverência, porque, no entender de Espinhozo, eles jamais morrerão. Esse caráter de inexistência é que os reveste de um tão imenso valor filosófico, porque, uma vez que não morrerão, estarão sempre ali onde estão, sobrevivendo a tudo e a todos e jamais sentindo dor alguma. Os objetos de plástico são dignos da nossa humaníssima reverência porque jamais morrerão. São os únicos que não sentirão dor de espécie alguma. São os mais cômodos e os mais adequados objetos de meditação, exatamente porque são dotados da imunidade à tragédia que só a inexistência pode assegurar a algo. Sobreviverão ao bombardeio nuclear. Sobreviverão à fome.

Para Espinhozo, estamos todos morrendo. Ele, mero espectador da própria existência, sentencia que, a cada dia vivido, estamos caminhando resolutamente em direção à própria tão temida morte. Estamos um pouco mais mortos a cada milésimo de segundo transcorrido. A morte é o futuro de cada um de nós e da inteira espécie humana. Em um tempo como o que vivemos, pontifica Espinhozo, é preferível imitar a vida do que vivê-la. A imitação da vida é o que resta a cada um de nós que deseje reconciliar-se com a própria consciência moribunda.

Espinhoso credita à redução significativa do espaço físico destinado à habitação humana o valor substancial de um outro sinal dos tempos. A morada do homem é um dos seus bens mais valiosos e os cubículos modernos nos quais os homens vivem hoje, nos grandes centros urbanos de altíssima concentração populacional, não são mesmo adequados para tal fim. Por obra de mera racionalização dedutiva, ele chega à constatação de que o homem contemporâneo está sendo privado progressivamente da sua força vital, submetido a um processo permanente de aniquilamento chamado desenvolvimento científico. Para Espinhozo, o homem contemporâneo está vendo a sua vitalidade esvair-se diante dos próprios olhos incrédulos, em um processo incrivelmente acelerado de nadificação, que tem curso de todas as maneiras possíveis e imagináveis, arrastando o ser em um turbilhão de perdas que não tem mais fim. Inicialmente, o seu espaço físico foi brutalmente reduzido. Sucessivamente, a sua voracidade para se alimentar foi cuidadosamente refreada, de maneira que a ação de se alimentar não mais representasse um prazer fenomenal.

O mundo de Dagoberto Espinhozo é um mundo sem pathos.

O seu dia a dia se arrasta em uma sucessão de possibilidades sem atrativos e sem o menor significado existencial, ou mesmo um valor intrínseco qualquer. Em Espinhozo não há futuro algum no amanhã.

Não há futuro algum em um amanhã que será exatamente igual ao dia de hoje: tão vazio e privado de significado quanto todos os demais dias que ele viveu. O terrível mal que aflige o nosso século já nos privou de antemão de qualquer esperança de uma réussite métaphisique de qualquer espécie. O sucesso profissional tampouco nos liberta dessa catástrofe iminente. Ser bem-sucedido nessa sua empresa literária tampouco representa uma vitória significativa para um autor-personagem embrenhado na floresta de vinil e papel crepom do seu imaginário atormentado pela presença constante da morte. A ausência total e absoluta de perspectivas condiciona fortemente o corpo do discurso articulado pelo autor-personagem, conferindo-lhe o aspecto de um miserere nobis cujo tom melancólico e eminentemente omisso não é apropriado para se enfrentar um mundo feroz que está à sua caça, mas que, paradoxalmente, não representa para ele algo cuja existência seja mesmo plausível. O mundo de Dagoberto Espinhozo é um mundo paralisado pela própria e fundamental inexistência de quaisquer perspectivas de sucesso, para além do próprio cotidiano insosso, vivido entre as quatro paredes limítrofes do seu universo desde sempre desagregado. Em Espinhozo, a realidade quase não existe e, portanto, trata-se de um ângulo de visão, isto é, de algo que não é passível de se construir ou de se moldar conforme a própria conveniência. A realidade é um lampejo da magnificência cósmica que, todavia, não perdurará por tempo suficiente para que homens como ele, Dagoberto Espinhozo, possam vivenciá-la.

Extirpada que foi e será da sua grandeza e de todos os seus atrativos, no confronto com a porção mais torpe e vil de si mesma, a realidade não o transportará mais para o seu âmago, e não o acomodará mais na sua benfazeja morada, reservando para ele apenas aquilo que de pior houver na sua natureza de coisa geneticamente modificada. Em Espinhozo, a realidade nada mais é do que um portal para a irrealidade, e a existência nada mais é do que um passo dado em direção à inexistência. Mero espectador da própria existência, o autor-personagem não se permite desfrutar emoções mais fortes do que aquilo que ele erradamente julga ser tolerável. Isto porque ele tem plena consciência do fato de que não há, no seu mundo inerte e doentio, espaço algum para as reverberações mais profundas do ser. Não há na natureza do ser qualquer motivação de caráter sublime que possua um significado maior do que a própria sobrevivência. Talvez seja este o seu veraz ‘imperativo categórico’, o seu moto fundamental que motiva e confere um sentido a todas as ações executadas nesse seu universo mesquinho e enfadonho. O ser não necessita mais tecer cogitações de natureza essencial porque está prestes a não ser.

Não há espaço físico ou psíquico para emoções no mundo sensacional de Dagoberto Espinhozo. Há apenas as manchetes de jornal e os takes do noticiário na tevê, que lhe fornecem um sucedâneo de engajamento na realidade, indispensável para que reine certa ordem no seu mundo feito de matéria sintética artificialoide. Não há, na sua cosmogonia inacabada, um lugar reservado para as paixões humanas, sejam elas benignas ou não, virtuosas ou corrompidas. Em Espinhozo o ser não dispõe mais da possibilidade de amar a si mesmo ou a outro ser, simplesmente porque não pode esperar que os seus sentimentos tão sublimados deitem raízes através da superfície de asfalto que ele mesmo, ser, concebeu em laboratório e que reveste a essência de todo relacionamento mantido em sociedade. Porque o homem não pode amar a sua própria não existência, que é iminente, é que o ser deverá abdicar da devoção fervorosa que dedica à ideia de amor em si. Não há no universo algo que justifique a existência do amor ou de qualquer emoção humana, sentencia o autor-personagem pouco antes de profetizar que o amor deixará mesmo de existir como prática social indiscriminada em um dado momento da Idade Nuclear. Após ter inicialmente rejeitado todo erotismo, por considerá-lo uma manifestação acessória e inteiramente supérflua da natureza humana, agora esta turbulenta época o baniria por completo da face da terra. Como consequência da inexistência de um campo propício para enlevos ou envolvimentos amorosos, ou mesmo para a genuína expressão dos sentimentos humanos, toda atividade amorosa ou erótica ver-se-á gradativamente relegada a um segundo plano, e é precisamente um instantâneo desta metamorfose comportamental já iniciada em nossos dias, que o autor-personagem deseja nos ofertar através da sua narrativa.

Prosseguindo a exploração sistemática deste veio escatológico por ele aberto, o autor-personagem prevê o surgimento em sede psicanalítica de uma confutação formal da teoria orgonômica de Wilhelm Reich, na qual se nega o valor da sexualidade como uma forma de canalizar as energias psíquicas do ser e de manifestar a sua vitalidade, condenando as práticas excessivamente liberais da sociedade contemporânea e estatuindo que o ser quando ama torna-se anômico e anômalo.

Uma outra imagem fundamental que emerge do seu discurso é o crepúsculo do amor e do prazer sexual, isto é, a institucionalização do descaso pela conquista da fêmea e todo o novíssimo desprezo pela energia vital desencadeada pela sexualidade, acompanhados da indiferença sexual manifesta na falta de importância atribuída ao orgasmo, tanto feminino quanto masculino, em que o ser procura se libertar de tudo aquilo que possa lançá-lo em um comportamento dito de risco. O quadro pictórico do Solstício do Descaso pelo intercurso sexual é pintado pelo autor, na descrição pormenorizada de uma cena em que um homem recém-divorciado se vê atormentado pela possibilidade, para ele nada promissora, de ter de manter relações sexuais com uma belíssima desconhecida, às vinte e duas horas e quarenta e sete minutos de um sábado, em uma balada qualquer de uma megalópole, exatamente por julgar tratar-se de uma agente de contágio potencial. Tal cena inusitada será muito frequente em um futuro não muito longínquo, assegura-nos o autor, em que a humanidade se desinteressará progressivamente do intercurso sexual. A enorme perda de valor atribuído à experiência erótica em si, conduzirá a sociedade à desconfortável tarefa de rever os seus conceitos, passando de uma época de extrema liberalidade nos costumes, em que legiões inteiras de mulheres podiam expressar de forma livre e inteiramente despreconceituosa a própria sexualidade, comportando-se de acordo com os ditames do próprio desejo, e sem ter mais de prestar contas a uma sociedade que antes esperava delas apenas que desempenhassem o papel de mães nas famílias que constituíam; para o seu exato oposto, no qual tanto homens quanto mulheres fugirão declaradamente das ocasiões propícias para o desenlace erótico, temerosos das consequências dos seus atos.

Em uma época marcada pela negação do erotismo, todo envolvimento erótico terá lugar sem emanar qualquer fragrância sedutora ou afrodisíaca, ou possuir em seu âmago qualquer arremedo de encanto. Em uma época sucessiva a outra na qual diversas camadas da população feminina terão como praxis a manutenção de um alto índice de intercurso sexuais, jamais anteriormente verificado, com um sem-número de parceiros de todas as idades, o próprio conceito de perfeito inserção social terá sofrido uma alteração de caráter substancial. A mulher livre para expressar a sua sexualidade da forma que desejar, representará uma mudança revolucionária nos padrões de comportamento social, a qual será sucessivamente deixada de lado pelo ocaso do envolvimento erótico característico do período sucessivo. No universo pleno de ethos; do discurso tecido por Espinhozo, todo sentimento de amor remanescente será paulatinamente confinado em um claustro do ser reservado para tudo aquilo que é considerado inútil, ou, mais precisamente, extremamente perigoso, por obra de uma atividade autocensória inata, que será executada pelo próprio indivíduo na mais perfeita solidão.

Em Espinhozo a origem de todo sofrimento jaz no eu-também.

E é neste contexto devastadoramente fantástico que o autor-personagem situa o mais inquietante dos seus instantâneos fotográficos, o qual reproduz com inegável riqueza de detalhes e uma plasticidade contagiante, em um ângulo de visão pelo menos incômodo, o flagrante de um ser enfastiado consigo mesmo, enfadado pela própria insensatez de uma existência insípida, que não vê mais no encontro fortuito com outro ser a possibilidade de amar como uma libertação do sofrimento e das trevas, mas apenas uma possibilidade nefasta de se envolver em problemas ainda maiores dos que ele já tem. Ou seja, um homem socialmente atraente prestes a vivenciar um momento de raro prazer que, encara tal possibilidade como algo inteiramente fora de cogitação, absolutamente indesejável, em que há apenas o risco potencial de contágio.

Em um universo povoado por seres que terão desperdiçado todas as oportunidades de amar que lhes foram concedidas, devido à exploração mecânica, irresponsável e exaustiva de todas as possíveis variáveis eróticas, assim como pela repetição estéril ad infinitum de coitos sem qualquer significado maior, nos quais o ser verterá o perfume que enlaça o outro sem todavia consumar o propósito original do envolvimento erótico, todo encontro casual representará a iminência de um desfecho ainda mais trágico para a tragédia já consumada, muito ao invés de uma experiência de crescimento pessoal que o arrebatará e o lançará nas nuvens e nas alturas de um olimpo imaginário que é a própria morada do ser.

Em um mundo de seres que deixaram de lado as convenções e mergulharam de cabeça no gozo dos sentidos, todo o charme do encontro terá sido subtraído dos seus eflúvios mais sublimes e mais encantadores, pelo desgaste inevitável ao qual toda matéria está sujeita, ao ser exposta a um uso constante e indiscriminado.

Em um mundo em que todos se dedicarão à práticas pouco recomendáveis de atos libidinosos e libertinos, viver-se-á uma dicotomização comportamental divisora de águas, pois, ao mesmo tempo que a prática sexual terá sido levada a uma amplitude tal, em decorrência da extrema liberalização dos costumes vigentes na sociedade contemporânea, segmentos inteiros desta mesma sociedade repudiarão em seu íntimo aquele comportamento libidinoso que eles julgam ser inteiramente inaceitável, permanecendo vinculados pela memória dos costumes antigos ao passado da civilização.

Com a parcimônia de envolvimento emocional no objeto da narrativa que lhe é característica, Espinhozo, com o intuito de melhor ilustrar toda a intensidade emblemática do seu ângulo de visão, resolve executar um corte seccional em uma cena comum ao cotidiano de uma megalópole do futuro, perscrutando-a até o limite de suas possibilidades especulativas. E é com a desfaçatez de um traidor sob a proteção do próprio disfarce de eunuco do templo de Thanatos, que ele nos traça o quadro melancólico e lúgubre de um indivíduo adulto do sexo masculino, situado aleatoriamente em algum ponto de um futuro não muito longínquo, o qual terá perdido irremediavelmente o interesse pela fêmea de sua própria espécie.

Estabelecendo uma tal condição vexaminosa de fazer ‘forfait’ como padrão comportamental do futuro, ele desfere um golpe terrível de foice no senso comum. Qual espírito são poderia conceber um tamanho despropósito?

Abandonando um pouco a sua fantasia inconsciente de uma pretensa reviravolta comportamental, na qual uma parcela significativa da humanidade se veria presa de um sistemático desinteresse pelo exercício da própria sexualidade, em função de um assomo de paixão repentina e desenfreada pelas coisas últimas, o autor-personagem julga, então, oportuno regressar àquele veio do qual ele se apartara, e que ele mesmo qualificara como pouquíssimo prazeroso ofício de descrever as próprias experiências pessoais, em um esforço notável para ater-se aos próprios limites estipulados quando da concepção inicial da sua opera mundi.  Isto pois, ele, um mero personagem da própria narrativa da qual também era o autor, não alimentava qualquer interesse particular em “ditar cátedra em teologia” e nem tampouco tencionava tornar-se um “instrumento para a veiculação de ideias cujo espectro de ação transcendesse a esfera de mera denúncia política”. Ele, que tampouco tencionava proceder fria e impessoalmente, através da simples enumeração de dados estatísticos que viessem a corroborar o seu ponto de vista, mas que visava, isto sim, “expor a veracidade contumaz do seu testemunho pessoal ao julgamento da história”.

E foi movido por este desígnio de cunho eminentemente social e político, que o autor-personagem fez de si mesmo um autêntico manequim de plástico, digno de figurar nas vitrines mais requintadas das boutiques mais sofisticadas do mundo, cuja infinita plasticidade do discurso conseguiu, um tanto quanto inadvertidamente, aliás, reunir num só personagem a passividade tacanha de um Míchkin, o estranhamento diante do mundo e a perplexidade implacável de um Winston Smith, o sentimento de dignidade ultrajada, a estreiteza de horizontes e a rigidez dos costumes de um Mattia Pasquale, e arrematar tudo com o seu preciosismo descritivo impregnado de esnobismo ‘dândi’ de um Marcelino.

O mundo sem o menor sentido de Dagoberto Espinhozo não é senão uma projeção do seu próprio inconsciente, mergulhado nas profundezas mais recônditas e pouco auspiciosas do ser. A sua descrença permanente no valor do progresso científico e a sua incerteza com relação aos rumos da civilização contemporânea, são, sem qualquer sombra de dúvida, um mero reflexo da sua própria condição social de eterno marginalizado, e fazem dele, um verdadeiro símbolo da luta pela sobrevivência destes indivíduos pertencentes aos segmentos sociais marginalizados. É, com toda certeza, uma projeção ampliada ao extremo do seu desejo de compartilhar com os outros seres o seu (e só seu) fracasso; o seu próprio, imutável e inalterável fracasso diante de um mundo seletivo e excludente, que ele, um tanto quanto presunçosamente, crê seja a condição natural e inalienável de todos os seres.

Seria oportuno acenar ao leitor que o volume proposto por Dagoberto Espinhozo não se trata de um encargo por demais extenuante ou mesmo exasperante, como talvez a nossa exposição demasiadamente livre dos seus tropeços literários e das suas diatribes filosóficas tenha sugerido. Gostaríamos de ressaltar o fato que, malgrado se trate de uma descrição autobiográfica pormenorizada, e, portanto, de um testemunho pessoal escrito em primeira pessoa que lida com fatos reais, as maiores virtudes de sua obra residem na intensa literariedade que subjaz às situações fantasticamente absurdas por ele narradas, que ele oferta ao leitor sob o pretexto de expor o seu testemunho pessoal ao julgamento da história. A causa órfã da sua dignidade, confinada a ele próprio e às quatro paredes inertes e sem vida do seu conjugado, talvez não possa ser resgatada pela vaidade tamanha de uma obra que não logra o seu intento, e que, por isto mesmo, vê-se privada do seu tão sonhado prêmio e da almejada recompensa de inscrevê-lo na condição de autor protagonista da história.

O pretenso valor inestimável do sintético na sociedade pós-industrial, apregoado por Espinhozo, não passa de uma hipótese que ainda não foi comprovada. A sua tese, que somada à sua antítese, produz esta tão decantada síntese espiritual do homem contemporâneo, também não passa de uma especulação das mais chulas e vulgares, que não encontra correspondência nos dados da realidade de que dispomos.

As elaborações singulares do imaginário do autor representam o valor maior desta obra que, no seu apego conceitual à ideia de sintético em si, arrasta o leitor mais atento pelo seu percurso rumo ao vazio. O discurso que conduz o leitor para o vazio de si mesmo é uma proposta capital de um autor-personagem que não dá trégua para o sentimento de estranheza com relação ao mundo. O seu estranhamento por um mundo que o exclui de forma decisiva e permanente, é manifesto de forma impiedosa em um discurso que arrebata o leitor e o empurra para o vazio. O vazio é a tônica do seu discurso. O vazio é uma tônica do seu discurso que representa um fim em si mesmo.

Em outras palavras, Espinhozo abusa de tons lúgubres e melancólicos na tentativa de caracterização do inesgotável filão de situações vivenciadas sob a égide da exclusão social, ao mesmo tempo que trata de evidenciar o caráter de transitoriedade de tais situações, realçando o sentido de limiar do qual elas estão revestidas, transformando tudo que viveu em um repetitório desprovido de pathos que beira a mera caricatura.

Ele transforma a aventura de escrever a própria autobiografia em um tour de force pela sua cota de miséria humana, cuja tônica é a ausência e cujo único atrativo reside justamente no fato de ele ter sobrevivido a tamanha iniquidade. E é sob a influência nefasta do vazio em que está mergulhada a sua existência que ele cunha os seus símbolos e valores fundamentais, atribuindo a estes um valor e um significado que vão muito além daquele de mero fetiche de sua predileção, na sua brincadeira perigosa de representar o mundo.

Espinhozo recriou a si mesmo no personagem da sua obra literária, dotando-o das virtudes essenciais da iniciativa própria e do engajamento decisivo na construção da realidade, que ele não possui em vida. Espinhozo veio, com a chuva ácida e a dissidência política admissível do pós-guerra fria, povoar as manifestações oníricas da grande consciência planetária, contrapondo a realidade à sua imitação mais barata como forma de sobreviver à ignomínia e à desonra. Desabitado que é e sempre foi, de iniciativa e de amor-próprio, Espinhozo jamais sequer cogitou dedicar a sua vida inteiramente à produção artística e literária, mas apenas colocar o seu passado a serviço de uma causa política, como uma forma de combater a opressão que pairava sobre o seu ser. O seu esforço para retratar a realidade era apenas um produto da necessidade de arregimentar gentes e consciências em torno do seu ideal de realizar um ajuste de contas com o próprio destino. Era preciso que ele trouxesse mais pessoas para junto daquilo que ele julgava ser certo. Era preciso que ele os arregimentasse para a luta ainda a ser travada, em um futuro não muito distante.

Entretanto, a sua sensatez de pragmático sobrevivente às agruras de um cotidiano inóspito, peca profundamente pela ausência total de uma maior consistência filosófica e, principalmente, metafísica. O que ele julga sensato nos parece mais uma sucessão infindável de caprichos e de excentricidades, cujo denominador comum se encontra insepulto no imaginário fértil ao qual ele recorre com frequência, na elaboração de imagens do próprio discurso.

A sua tentativa frustrada de aprisionar a própria angústia e debelá-la através da síntese de um comportamento que fosse adequado para todas as situações e circunstâncias, revelou-se apenas mais um quase, em uma infinidade de quases que se amontoam na composição do próprio discurso e da própria visão de mundo. Espinhozo, em seu delírio materializado em criação textual, constitui-se em um veraz protagonista do desamor universal.

Em Espinhozo o pouco caso é um must;, isto é, um artifício literário do qual ele faz uso constante, com o intuito de abordar a realidade nada aprazível do seu mundo em franco processo de desagregação.

Outro conceito revisitado pelo imaginário fecundo de Espinhozo é aquele usualmente denominado savoir vivre. Em Espinhozo, savoir vivre ou joie de vivre adquirem uma penosa conotação de subserviência, uma demão de marginalidade e de privilégio de poucos, que se aplica sobre o estudado pouco caso pela realidade que é a sua proposta fundamental. Saber viver é adotar uma postura básica de desprezo pela própria existência insípida em um mundo dessacralizado e sem maiores atrativos. É a totemização de um mal-estar, o fingimento que é pura afetação diante de uma realidade opressora e malsã que, não importa quão torpe ou vil, continuará sempre sendo a realidade e, por isto mesmo, digna da mais profunda consideração e respeito.

Espinhoso se veste com a toga imaginária da sua consciência de classe para fazer a apologia do renegado caramel colored, disparando centelhas por entre suspiros e desmaios, e brada aos sete ventos que sopram dentro do seu apartamento que, apesar de tudo e de todos, ele é um homem do seu próprio tempo, e que, se a felicidade é um boi de piranha que custa a bagatela de cinquenta e sete centavos de dólar, para onde irá o mundo?

Para onde irá o mundo?

Se a felicidade é um boi de piranha que custa a bagatela de cinquenta e sete centavos de dólar, o mundo, que não comporta mais desejos, só poderá mesmo estar indo rumo ao vazio.

Para onde irá o mundo?

Espinhozo, navegando em um mar abissal de self-abasement, diz que o mundo vai para o vazio.

Para o vazio. O mundo vai para o vazio.

Publicado em 30 de abril de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

MADALENA Jr., Hugo. O ideário pessoal e intransferível de um renegado. Educação Pública, v. 19, nº 8, 30 de abril de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/8/o-ideario-pessoal-e-intransferivel-de-um-renegado