Supervisão pedagógica na gestão escolar: trabalhando Direitos Humanos e cidadania a partir da literatura infantil

Eduarda Dietrich de Almeida

Licencianda em Pedagogia

Silvia Natália de Mello

Pedagoga, mestre em Educação, professora da Licenciatura em Pedagogia

A educação é um direito subjetivo garantido a todos e a cada um; compreende-se por ser essencial na constituição e desenvolvimento do ser humano de forma intelectual, psicológica e social, voltando-se para uma educação de qualidade, a qual deve buscar promover aprendizagens e experiências práticas e significativas para a constituição de uma sociedade guiada pelos Direitos Humanos e a cidadania.

Com base em vivências cotidianas e representativas, procura-se formar cidadãos ativos, reflexivos, críticos e, acima de tudo, preparados para enfrentar as características e desafios cotidianos perante as demandas sociais.

Este artigo busca refletir e contextualizar as experiências vivenciadas durante o Estágio Supervisionado IV – Gestão Escolar, realizado em uma escola estadual de Ensino Fundamental no município de Horizontina/RS. Buscou-se envolver alunos da 1ª à 5ª série e suas professoras no projeto intitulado Supervisão pedagógica: trabalhando Direitos Humanos e cidadania a partir da literatura infantil, por perceber, pelas observações e pelo acompanhamento da organização e cultura escolar, algumas questões fundamentais relacionadas à convivência entre alunos, bons hábitos cotidianos e visão deles perante a sociedade e importância no mundo.

O projeto desenvolveu-se em uma escola que oferece ensino a 180 alunos nos três turnos, atendendo do 1° ao 9° ano nos turnos matutino e vespertino, e EJA (Educação para Jovens e Adultos) nas totalidades 3, 4, 5 e 6 durante o noturno. A escola possui também espaço para Educação Infantil, porém, é cedido para o munícipio, onde são atendidas 100 crianças.

Os espaços/tempos são organizados em hora/aula, sendo quatro períodos de hora-relógio e recreio entre o 2° e 3° períodos. A escola oferece aos alunos, em forma de projetos e contraturno, projetos de leitura, aulas de música, robótica (6° ao 9° ano) e atividades extraclasse; o Mais Educação é ofertado para as turmas do 1° ao 5° anos; as propostas pedagógicas interdisciplinares organizam-se em projetos referentes a Direitos Humanos, meio ambiente, diversidade de gênero, diversidade cultural e projetos transversais.

A escola é compreendida como espaço social privilegiado para a promoção de valores e cidadania, ou seja, busca-se desenvolver práticas pedagógicas significativas e motivadoras, para assim promover mudanças e visões diferenciadas a partir da cultura onde estão inseridos e, consequentemente, na realidade social. A gestão escolar é fundamental para o andamento de uma escola, já que, além de encontrar desafios cotidianos a serem resolvidos, busca a mobilização da comunidade para auxiliar na construção de um ambiente escolar agradável, saudável e de qualidade.

O projeto ocasionou a mobilização e envolvimento por parte de alunos, professores, gestores e funcionários da escola, auxiliando assim no desenvolvimento e progresso educativo para a constituição de um ambiente agradável e voltado à cidadania. Sendo assim, a gestão escolar é essencial para a compreensão e percepção no desenvolvimento de ações educativas e reflexivas, voltadas à Educação em Direitos Humanos que auxiliem no processo de ensino-aprendizagem e constituição de cidadãos reflexivos e críticos perante as demandas cotidianas e sociais.

A Educação em Direitos Humanos é essencial para a constituição de uma sociedade digna, igualitária e cidadã, já que visa o conhecimento de direitos e deveres por parte de todos os envolvidos na realidade educacional, bem como busca auxiliar na compreensão e garantia dos direitos fundamentais a todos e a cada um.

A partir de uma educação voltada à cidadania e a práticas que promovam bons hábitos de convivência, percebe-se o progresso significativo na vida dos agentes sociais envolvidos e aos demais, procurando envolver a comunidade em uma grande corrente do bem e para o bem.

O presente artigo perpassa de forma reflexiva os temas já apresentados, buscando os aprofundar e referenciar bibliograficamente para assim relatar as experiências e vivências observadas no decorrer da intervenção e compreensão do processo e organização da equipe diretiva e supervisão pedagógica, bem como desenvolver os resultados apresentados em torno da cultura e comunidade escolar envolvida.

Gestão escolar e supervisão pedagógica

A educação compreende-se por ser um processo contínuo e dinâmico, o qual visa envolver a comunidade escolar na participação de decisões e movimentos educacionais. Assim, desenvolve e constitui uma sociedade voltada à garantia de direitos e cidadania, mediante práticas transformadoras e participativas, desenvolvendo a reflexão e, consequentemente, ações que visam o engajamento no processo de emancipação dos agentes sociais.

A educação é um processo organizado, sistemático e intencional, ao mesmo tempo que é complexo, dinâmico e evolutivo, em vista do que demanda não apenas um grande quadro funcional como também a participação da comunidade, dos pais e de organizações diversas, para efetivá-lo com a qualidade necessária que a sociedade tecnológica da informação e do conhecimento demanda (Lück, 2009, p. 19).

A gestão escolar engloba a responsabilidade de conhecer e compreender a realidade da comunidade escolar, buscando por meio dela constituir uma atuação significativa e consistente para desenvolver da melhor forma ações educacionais de promoção de conhecimento e cidadania. No decorrer do Estágio Supervisionado IV – Gestão Escolar e do projeto Supervisão Pedagógica: trabalhando Direitos Humanos e cidadania a partir da literatura infantil, percebe-se a importância dos gestores escolares e da supervisão pedagógica no ambiente educacional, já que se compreende a escola como impulsionadora do processo de constituição social.

A gestão escolar, como área de atuação, constitui-se, pois, em um meio para a realização das finalidades, princípios, diretrizes e objetivos educacionais orientadores da promoção de ações educacionais com qualidade social, isto é, atendendo bem a toda a população, respeitando e considerando as diferenças de todos os seus alunos, promovendo o acesso e a construção do conhecimento a partir de práticas educacionais participativas, que fornecem condições para que o educando possa enfrentar criticamente os desafios de se tornar um cidadão atuante e transformador da realidade sociocultural e econômica vigente e de dar continuidade permanente aos seus estudos (Lück, 2009, p. 23).

A partir de observações, do acompanhamento do cotidiano escolar e de conversa com gestores e professores da escola, nota-se a necessidade de trabalhar respeito às diferenças e principalmente a todos e a cada um, promovendo a visibilidade de ações sociais que auxiliem na compreensão do bem-estar individual e geral, demonstrando através de bons hábitos que uma sociedade exemplar e com educação de qualidade torna-se real através da ação-reflexão que todos possuímos e depositamos nela.

Pela intervenção pedagógica, procurou-se fornecer subsídios à equipe diretiva, às professoras regentes e aos alunos para a promoção de ações educativas que visaram à construção de bons hábitos e reflexões por parte dos alunos a partir do trabalho com literatura infantil, objetivando valores fundamentais para a garantia de direitos, deveres e cidadania de forma plena e digna.

O objetivo maior da comunidade educacional revela-se, portanto, o de se estabelecer uma comunidade de ensino efetivo, onde persevere, coletivamente, não somente o ideal de ensinar de acordo com o saber produzido socialmente, mas o de aprender em acordo com os princípios de contínua renovação do conhecimento, criando-se um ambiente de contínuo desenvolvimento para alunos, professores, funcionários e, é claro, gestores. O conhecimento da realidade ganha novas perspectivas: a organização do projeto político-pedagógico da escola e o seu currículo; o papel da escola e o desempenho de seus profissionais, que devem renovar-se e melhorar sua qualidade continuamente, tendo o aluno como centro de toda a sua atuação (Lück, 2009, p. 16).

Conhecer e procurar compreender a realidade escolar é uma prática emancipadora, reflexiva e necessária para realizar a gestão de forma a encontrar e traçar caminhos que permitam o envolvimento participativo de toda a comunidade na tomada de decisões e como fator relevante para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem e principalmente da constituição de sujeitos ativos e conscientes perante seus direitos, deveres e escolhas na sociedade onde encontram-se inseridos.

A intervenção desenvolvida a partir da supervisão pedagógica proporcionou momentos agradáveis, lúdicos e de interação direta por parte dos alunos do turno da tarde, buscando desenvolver ações educativas que potencializassem habilidades e características específicas individuais, bem como estimular liderança e apresentação de ideias inovadoras.

A supervisão pedagógica busca nortear caminhos para a realização dos projetos e do cotidiano escolar mediante estratégias que promovam o exercício da cidadania e do respeito a todos e a cada um. O projeto Supervisão pedagógica: trabalhando Direitos Humanos e cidadania teve como objetivo geral realizar ações via supervisão pedagógica e atividades significativas na vida dos alunos, consequentemente refletindo em bons hábitos cotidianos e de convivência, para assim fortalecer relações sociais e afetivas.

A gestão escolar constitui uma dimensão e um enfoque de atuação em educação que objetiva promover a organização, a mobilização e a articulação de todas as condições materiais e humanas necessárias para garantir o avanço dos processos socioeducacionais dos estabelecimentos de ensino, orientados para a promoção efetiva da aprendizagem dos alunos, de modo a torná-los capazes de enfrentar adequadamente os desafios da sociedade complexa, globalizada e da economia centrada no conhecimento. Por efetividade entende-se, pois, a realização de objetivos avançados em acordo com as novas necessidades de transformação sócio-econômica-cultural, mediante a dinamização do talento humano, sinergicamente organizado (Lück, 2009, p. 24).

O trabalho de supervisão pedagógica proporcionou visões diferenciadas e surpreendentes perante a realidade escolar e desafios cotidianos, bem como possibilitou a reflexão sobre os processos educacionais e de organização de espaços e tempos na escola. As vivências na realidade escolar são fundamentais para a compreensão das diferentes visões de mundo e características específicas individuais e as influências no processo de ensino-aprendizagem e de interação perante aos colegas e sociedade em geral.

A realidade escolar é imprevisível; é fundamental conhecer e compreender a cultura onde a escola está inserida e as vivências cotidianas e desafios enfrentados pela escola e seus membros participantes, principalmente, por parte dos alunos.

A partir do acompanhamento escolar e das práticas educativas realizadas pela supervisão pedagógica, percebeu-se a necessidade de reflexão e maior conhecimento sobre a gestão escolar. O trabalho pedagógico é essencial para a formação de um ambiente propício ao processo educativo e sujeitos sociais ativos e engajados em ações que buscam a constituição de uma sociedade digna e voltada à garantia de direitos e cidadania.

Direitos Humanos e cidadania

A sociedade na qual estamos inseridos, em nível nacional e mundial, carece de reflexões e práticas que envolvam Direitos Humanos e Cidadania, já que, a partir de uma educação voltada à promoção da vida, desenvolvem-se ações que refletem a importância da garantia de direitos fundamentais para o desenvolvimento e constituição de uma sociedade digna e cidadã.

Com base nessas considerações, compreende-se a importância do tema desenvolvido no Estágio Supervisionado IV – Gestão Escolar, por tratar-se de algo relevante para a escola e comunidade escolar, buscando assim a compreensão por parte dos alunos de respeito a si mesmos e aos demais, auxiliando na formação de um ambiente saudável e agradável na cultura escolar.

Como a Educação em Direitos Humanos requer a construção de concepções e práticas que compõem os Direitos Humanos e seus processos de promoção, proteção, defesa e aplicação na vida cotidiana, ela se destina a formar crianças, jovens e adultos para participar ativamente da vida democrática e exercitar seus direitos e responsabilidades na sociedade, também respeitando e promovendo os direitos das demais pessoas. É uma educação integral que visa o respeito mútuo, pelo outro e pelas diferentes culturas e tradições (Parecer CNE/CP nº 8/12).

Compreende-se Educação em Direitos Humanos como processo contínuo de promoção de direitos e valorização da vida de forma justa e digna, através de ações que visam a formação de sujeitos ativos socialmente, conscientes de seus direitos e deveres. Contribuir com a garantia dos direitos assegurados é dever de todos e cada um, para assim constituir uma sociedade baseada em respeito mútuo e educação responsável e de consciência social.

Um dos principais objetivos da defesa dos Direitos Humanos é a construção de sociedades que valorizem e desenvolvam condições para a garantia da dignidade humana. Nesse marco, o objetivo da Educação em Direitos Humanos é que a pessoa e/ou grupo social se reconheça como sujeito de direitos, assim como seja capaz de exercê-los e promovê-los ao mesmo tempo que reconheça e respeite os direitos do outro (Parecer CNE/CP n° 8/12).

A Educação em Direitos Humanos visa garantir direitos de igualdade e dignidade, respeitando e valorizando as diferenças e características singulares, para assim auxiliar na formação para a vida e convivência social saudável, exercendo direitos e deveres e promovendo a constituição de cidadãos reflexivos e críticos perante a sociedade.

Com as ações realizadas no decorrer do projeto Supervisão pedagógica: trabalhando Direitos Humanos e cidadania a partir da literatura infantil, buscou-se envolver os alunos do turno da tarde da 1ª à 5ª séries de uma escola de Ensino Fundamental da rede estadual, visando a valorização das vivências individuais e suas influências na convivência social, bem como proporcionando reflexões e momentos lúdicos a partir da literatura infantil e de atividades pedagógicas. Segundo Candau (2013),

desenvolver uma cultura permeada pelos Direitos Humanos pressupõe uma formação que vai além da sensibilização e da informação. Exige o desenvolvimento de processos formativos que permitam mudanças de mentalidades, valores, comportamentos e atitudes dos diferentes sujeitos que deles participam.

Uma educação voltada aos Direitos Humanos e à cidadania promove a conscientização de que mudanças são necessárias para auxiliar na construção de uma sociedade justa e igualitária. Percebe-se que a maior parte da sociedade cobra diariamente ações grandiosas para a garantia de direitos e deveres bem como de respeito a todos e cada um; ela esquece de realizar ações cotidianas que auxiliem na promoção de reflexões e consequentemente práticas cidadãs.

As mudanças ocorrem em um processo contínuo e gradativo, já que são necessários agentes mobilizadores e participativos para engajar os demais na construção de uma sociedade cidadã. Iniciar essa conscientização em ambiente escolar é fundamental, pois auxilia no processo de ensino-aprendizagem dos educandos e na constituição de sujeitos ativos socialmente.

A Educação em Direitos Humanos é essencial para desenvolver respeito e compreensão de diferentes ideias e escolhas; percebe-se que a convivência agradável no ambiente escolar contribui de forma significativa para o desenvolvimento intelectual e social nos alunos, bem como auxiliando-os a conviver em sociedade e com diferentes indivíduos e suas características próprias, precisando compreender e acima de tudo respeitar as diversas opiniões e perspectivas de vida.

A prática da cidadania embasada no conhecimento e garantia de direitos e deveres proporciona ambientes saudáveis para o desenvolvimento de sujeitos ativos e conscientes socialmente, os quais são fundamentais na participação e motivação dos demais no processo de constituição social.

Reflexões sobre teoria e prática: intervenção pedagógica

Os estágios e intervenções pedagógicas compreendem-se por serem essenciais para a constituição do ser professor, interligando teoria e prática e proporcionando reflexões sobre as experiências e aprendizagens realizadas no período de Estágio Supervisionado IV – Gestão Escolar.

Assim, os estágios são importantes porque objetivam a efetivação da aprendizagem como processo pedagógico de construção de conhecimentos, desenvolvimento de competências e habilidades através da supervisão de professores atuantes, sendo a relação direta da teoria com a prática cotidiana, pois unir teoria e prática é um grande desafio com o qual o educando de um curso de licenciatura tem de lidar. E, se esse problema não for resolvido ou pelo menos suavizado durante a vida acadêmica do estudante, essa dificuldade se refletirá no seu trabalho como professor. Não é apenas frequentando um curso de graduação que uma pessoa se torna profissional. É, principalmente, envolvendo-se intensamente como construtor de uma práxis que o profissional se forma (Fávero, 1992).

Os estágios são fundamentais para a constituição do ser pedagogo; durante o processo do estágio em Gestão Escolar, foi possível conhecer e compreender um pouco da realidade escolar, a organização dos espaços e tempos da escola.

A partir de observações, práticas e acompanhamento da escola onde o estágio foi desenvolvido, entende-se a importância da sua realização pelo entendimento das características de cada indivíduo que frequenta o ambiente escolar e principalmente pelos desafios que ocorrem diariamente e necessitam de conhecimento e responsabilidade para serem resolvidos de melhor forma.

A partir das vivências na realização da intervenção pedagógica, são feitas algumas reflexões sobre teoria e prática e as influências da Educação em Direitos Humanos e cidadania para o desenvolvimento contínuo e saudável dos educandos, bem como de um ambiente social agradável e cultura escolar. Considerando a escola como ambiente social rico em diversidade de ideias, as práticas educativas procuram constituir sujeitos ativos e reflexivos para enfrentar os desafios cotidianos e as demandas perante a sociedade.

O projeto realizou-se com alguns questionamentos norteadores que auxiliaram nas ações realizadas e compreensão da cultura escolar, processos e organização da equipe diretiva: qual a visão por parte dos alunos de suas histórias de vida e relevância das mesmas para sua constituição social? É possível realizar um trabalho significativo a partir da história de vida dos alunos, visando a compreensão e respeito a si mesmos e aos demais? De que forma, a escola apoiada pela equipe diretiva e supervisão pedagógica pode compreender e auxiliar seus alunos na constituição de identidade e bons hábitos cotidianos? Como desenvolver práticas que irão refletir em ações saudáveis de convivência e respeito entre os alunos?

As ações educativas desenvolvidas na intervenção pedagógica buscaram promover, pela literatura infantil e ludicidade, momentos de descontração e brincadeiras, bem como atividades reflexivas sobre Direitos Humanos e cidadania, as quais auxiliaram na promoção de reflexão sobre respeito, diferenças, generosidade e sinceridade.

Com livros de literatura infantil, os quais foram trabalhados de forma a nortear as práticas realizadas, procurou-se desenvolver o prazer pela leitura e contação de histórias, sendo relevantes para a constituição do processo de ensino-aprendizagem e formação de cidadãos ativos socialmente e dispostos a garantir seus direitos e deveres, respeitando as diferentes características e formas de vida, pensar e agir.

As práticas educativas ocorreram no turno vespertino, com as turmas de 1ª a 5ª séries, com o auxílio das professoras regentes e da equipe diretiva; tornaram-se possíveis resultados positivos e significativos para um melhor ambiente e cultura escolar. A partir de observações sobre a realidade da escola em questão e diálogo com a equipe diretiva e professoras regentes das turmas, a intervenção ocorreu de forma conjunta e interligada às atitudes diárias e cotidianas.

O trabalho em conjunto foi fundamental para traçar caminhos e formular estratégias visando o bem comum da comunidade e realidade escolar. Segundo Alarcão e Tavares (2010), o papel fundamental do supervisor pedagógico é “provocar a discussão, o confronto e a negociação de ideias, fomentar e rentabilizar a reflexão e a aprendizagem colaborativas, ajudar a organizar o pensamento e a ação do coletivo das pessoas individuais”. Ou seja, procura mediar relações sociais entre os membros da comunidade escolar em geral para assim, através de ações pedagógicas e reflexão com base nelas, desenvolver o processo de ensino-aprendizagem de forma contínua e significativa.

A partir da supervisão pedagógica, as ações educativas tornaram-se articuladas e envolveram a comunidade escolar. Novas ideias surgiram e formas de pensar/agir o fazer pedagógico proporcionaram visões diferenciadas e inovadoras para as práticas propostas. As professoras regentes possibilitaram experiências satisfatórias que contemplaram a temática central e ampliaram conhecimentos e objetivos de conteúdos já traçados.

Art. 1º É papel do especialista da educação (supervisor pedagógico ou orientador educacional) articular o trabalho pedagógico da escola, coordenando e integrando o trabalho dos coordenadores de área, dos docentes, dos alunos e de seus familiares em torno de um eixo comum: o ensino‐aprendizagem pelo qual perpassam as questões do professor, do aluno e da família (Parecer CNE/CP nº 8/12).

Ao longo do processo de intervenção pedagógica, perceberam-se mudanças importantes na postura dos alunos em relação a si mesmos, seus colegas, professores e comunidade, o que favoreceu e constituiu um ambiente saudável e agradável, propício para aprendizagens e experiências relativas para reflexão e conhecimento perante as demandas sociais.

As atividades desenvolvidas diretamente com as turmas de 1ª e 5ª séries realizaram-se de forma interativa e singular, visando práticas que auxiliassem no processo de constituição e desenvolvimento cidadão. A intervenção ocorreu de forma lúdica com base em literatura infantil e contação de histórias, sendo utilizados os livros Flicts, de Ziraldo, para a 1° série, e As coisas que a gente fala, de Ruth Rocha, para a 5°série.

As demais turmas realizaram propostas de práticas e atividades com suas respetivas professoras regentes, que visavam o respeito mútuo entre os membros escolares e promover um ambiente agradável e propício para o processo de constituição de uma educação humana e de qualidade.

Todas as turmas possuíram como fator norteador do trabalho a literatura infantil; a partir das narrativas, buscaram desenvolver atividades e reflexões sobre a cultura escolar. Foram confeccionados jogos, como Twister, jogo da memória e jogo das palavras. Também confeccionaram cartazes que representassem suas reflexões sobre os temas trabalhados e propostas de hábitos saudáveis a serem inseridos na realidade escolar.

A literatura infantil é fator fundamental no processo de ensino-aprendizagem, necessária para a constituição e formação dos sujeitos, já que promove leituras de mundo a partir de diferentes características e pontos de vista. Pelo hábito da leitura, formam-se cidadãos sensatos e instruídos de melhor forma para entender e enfrentar as demandas sociais de maneira consciente e reflexiva.

É à literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades, valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute, simbolicamente, seus impasses, seus desejos, suas utopias (Lajolo, 2008, p. 106).

Trabalhar com a literatura infantil em favor de atitudes que refletissem respeito, solidariedade e generosidade foi importante na realização da intervenção pedagógica, já que, além de proporcionar momentos de ludicidade e descontração, propôs-se a reflexão sobre os hábitos de convivência.

A partir da literatura infantil, representam-se os mais diversos sentimentos e vontades, ou seja, ao trabalhar com livros infantis, percebeu-se por expressões e falas o quão necessários e influentes são na constituição do sujeito. Os alunos da 5ª série, por exemplo, remetiam suas vivências cotidianas à história sobre verdades e mentiras, auxiliando uns aos outros a ser verdadeiros e assumir as consequências sobre seus próprios atos, sejam certos ou errados.

A partir das histórias contadas, possibilitaram-se diálogos sobre as narrativas e responsabilidades dos alunos perante si mesmos, os colegas e a comunidade escolar. Segundo Lajolo (2008, p. 24), “tanto a criança à qual se destina a literatura infantil é uma construção quanto ao jovem ao qual se destina a literatura juvenil é outra construção, ambas sociais”.

A literatura infantil constitui-se como relevante para o andamento da intervenção pedagógica, promovendo o gosto pela leitura e pelo mundo literário e principalmente auxiliando como norteadora social e lúdica na constituição de hábitos cotidianos saudáveis.

A obra Flicts, de Ziraldo, auxiliou na reflexão e conversa sobre as diferenças e aceitação e respeito a si mesmo e aos demais. Tornou-se norteador na prática realizada com a turma da 1ª série, a qual confeccionou seus próprios livros da vida, demonstrando pelos desenhos a história vivencial individual e particular de todas as crianças. O trabalho em questão auxiliou na compreensão da realidade onde estão inseridos, bem como das dificuldades e características enfrentadas pelos alunos.

Já a obra As coisas que a gente fala, trabalhada com a turma da 5ª série, proporcionou reflexão sobre de qual forma expressamos nossos sentimentos e angústias. Auxiliou no diálogo sobre verdades e mentiras, demonstrando com base na narrativa as consequências para ambas as escolhas.

A atuação do supervisor pedagógico durante a intervenção ocorreu ao articular e procurar criar diferentes caminhos que possuíssem o mesmo local de chegada. O encontro aconteceu durante uma tarde ensolarada de quarta-feira, em que todas as turmas, acompanhadas de suas professoras regentes e trabalhos desenvolvidos, apresentaram suas experiências, reflexões, entendimentos e atividades.

Com a realização do momento de sistematização das práticas realizadas, percebeu-se o envolvimento dos alunos, a vontade de conhecer e compartilhar vivências. Eles relataram suas dúvidas e reflexões e apresentaram suas práticas e atividades que desenvolveram de forma autônoma visando a melhoria do ambiente escolar e social.

Percebe-se que, no decorrer da intervenção pedagógica, a importância do estágio supervisionado em Gestão Escolar para a formação docente, por conhecer e compreender o cotidiano escolar na visão da equipe diretiva. O trabalho desenvolvido voltou-se para práticas sobre Direitos Humanos e cidadania; no decorrer, perceberam-se resultados positivos e significativos no cotidiano escolar e em hábitos de boa convivência entre os alunos.

Conclusão

Compreende-se a educação como direito fundamental a todos e a cada um, deve ser ofertada de forma igualitária e de qualidade. A educação deve proporcionar práticas reflexivas e significativas, considerando a cultura e vivências singulares, para auxiliar na construção de sujeitos ativos socialmente.

O estágio supervisionado em Gestão Escolar proporcionou experiências importantes para a formação docente, para a constituição do ser pedagogo e entendimento sobre a organização e funcionamento de um ambiente escolar. A realização da intervenção pedagógica auxiliou na reflexão sobre a educação e sua relevância para a constituição do sujeito e consequentemente de uma sociedade justa e cidadã.

Com o desenvolvimento do projeto Trabalhando Direitos Humanos e cidadania a partir da literatura infantil, percebe-se o envolvimento por parte de equipe diretiva, professores, funcionários e principalmente alunos, em busca de ações e hábitos cotidianos para uma melhoria significativa no ambiente escolar, tornando-o mais saudável e agradável. Proporcionou práticas educativas de forma lúdica e que considerassem a literatura infantil para a reflexão sobre respeito, generosidade e valorização do ser humano.

Considera-se a educação de qualidade e voltada ao trabalho de Direitos Humanos como fundamental no processo de constituição tanto do sujeito quanto da sociedade, já que, com práticas reflexivas e críticas embasadas de forma educativa e cidadã, propiciam-se experiências e vivências que auxiliem em mudanças significativas e visíveis ao longo do tempo.

Conclui-se que o processo iniciado com a realização do projeto de estágio constitui-se por ser contínuo e favorável a mudanças constantes. A construção de uma sociedade digna e cidadã é dever de todos os sujeitos, já que eles usufruem tanto dos privilégios quanto das desigualdades sociais enfrentadas de forma cotidiana.

Referências

ALARCÃO, I.; TAVARES, J. Supervisão da Prática Pedagógica. Uma perspectiva de desenvolvimento e aprendizagem. 2ª ed. Coimbra: Almedina, 2010.

BRASIIL. Ministério da Educação e Cultura. Parecer CNE/CP nº 8/12.

CANDAU, Vera Maria. 2013. Educação em Direitos Humanos e Formação de professores(as). São Paulo: Cortez, 2013.

FÁVERO, Leonor Lopes. A dissertação. São Paulo: EdUSP/Vitae, 1992.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6ª ed. São Paulo: Ática, 2008.

LÜCK, Heloísa. Dimensões de gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2009.

MINAS GERAIS. Secretaria Estadual de Educação. Resolução nº 7.150. Belo Horizonte, 16 de junho de 1993.

Publicado em 30 de abril de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

ALMEIDA, Eduarda Dietrich de; MELLO, Silvia Natália. Supervisão Pedagógica na Gestão Escolar: Trabalhando Direitos Humanos e Cidadania a partir da Literatura Infantil. Educação Pública, v. 19, nº 8, 30 de abril de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/8/supervisao-pedagogica-na-gestao-escolar-trabalhando-direitos-humanos-e-cidadania-a-partir-da-literatura-infantil