A docência sob a perspectiva religiosa: entre a política e a reflexividade

Karina Arroyo

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana (PPGEO/UERJ), mestre em Geografia (PPGEO/UERJ), licenciada em Pedagogia

Educar é um ato político. No seio de algumas religiões abraâmicas, como no islã e no judaísmo, encontra-se no próprio corpo teórico religioso o embasamento da instrumentalização da educação. Enriquecendo o debate tão atual entre religião e educação, apresento textualmente esta fala realizada em 2018, como palestrante no painel Docência e Espiritualidade da Semana de Educação da UniRio, a fim de trazer algumas reflexões docentes baseadas na minha experiência como coordenadora pedagógica do primeiro segmento de uma escola bilíngue português-árabe na Zona Sul do Rio de Janeiro, que acolheu alunos de origem europeia e árabe. Dentre alguns desses alunos havia refugiados sírios que, por seu cotidiano escolar, trouxeram inúmeras contribuições para pensar a educação de maneira crítica, acolhedora, democrática.

É preciso apresentar a face oposta à qual estão acostumados em uma vivência outrora traumática. Aliados a esse fator, incluem-se os professores altamente capacitados, com mais de 50% dos colaboradores com doutorado, formados em instituições federais nacionais, ora brasileiras, ora libanesas e refletindo o caráter pluriétnico do Líbano, com diferentes identidades religiosas.

Esta análise centrou-se na minha vivência como educadora muçulmana. Minha vivência no islã mereceria uma autoetnografia à parte para maior aprofundamento no tema sobre o cotidiano escolar, mas objetivando adentrar nas especificidades da religião islâmica e sua relação com a educação, mediante análise breve na prática educativa; visto ser um assunto pouco abordado na vivência escolar brasileira, apresentamos alguns embasamentos teóricos.

O islã não separa a política da espiritualidade. Viver islamicamente pressupõe tomar partido, agir com objetivo. Parafraseando Norberto Bobbio (2000), a política diz respeito ao poder que um homem pode exercer sobre outros. Portanto, quando pensamos em educação, no islã, falamos indubitavelmente do sujeito docente que exerce o poder, influencia em um ato político, ensina. Toma partido naquilo que lhe é um objetivo prioritário: suscitar o conhecimento.

O que se pode concluir ao longo desse fio condutor de conceitos é que se o islã não separa a política da espiritualidade, então o ato político de educar é um ato religioso, não somente por sua finalidade moral elevada, de prover o outro com o saber e com a técnica, mas no sentido de luta, de agir em prol de um interesse e um bem comum. Quando me proponho a educar, ajo islamicamente.

Em um dos livros que tratam de grandes compêndios islâmicos enfeixando a temática da educação, o professor é visto como detentor de direitos e deveres intimamente ligados à prática religiosa. O tratado dos direitosmagnun opus dos assuntos da teoria jurídica – aponta e discute suas normas. Há duas atribuições dadas ao professor que constam como deveres sociais: a paciência e a reflexão. Esses dois conceitos encerram um mundo de significados adaptados à prática docente cotidiana. Poderíamos deter-nos aqui, afirmando que essas duas atribuições ou marcas inculcadas no papel social do professor são as mais relevantes de todo um tratado islâmico; no entanto, se pensarmos de maneira mais ampla e distanciada, podemos concluir que a educação no islã, além de um ato político autônomo e consciente – e, portanto, um ato religioso –, é planejada com base em atributos de caráter pessoal; ou seja, para ser docente e muçulmano devo exercer ato político balizado pela paciência e pela reflexão. Como complemento, na obra A educação da criança no islã, Mohammad Al Baqer (a.s), um eminente imã, para além do que já vem sendo discutido até aqui, aponta o método como um caminho a ser estabelecido no desenvolvimento dos assuntos estudados.

As metodologias conferem caráter acadêmico-científico e de lisura ao tema que nos propusemos a estudar. Esse seria o contraponto ao ato político do qual falamos, carregado de interesses pessoais e/ou de objetivos de determinado grupo. Isso significa que, a despeito de sermos ativos politicamente no ato educativo, devemos ser ativos no ato metódico do saber e da pesquisa, do fazer ciência. Ser cientista, sem dúvida, é um ato político de resistência frente às dificuldades encontradas. Não se aprende e ensina a priori somente pelo exercício do poder e para a mobilização com dada finalidade, seja para a organização de grupos partidários ou para a evolução da ciência contemporânea, senão cairíamos no princípio do “ensino bancário”, cristalizante. Mais do que objetivos ideais ou materiais, é necessário afeto na conduta, e aí retornamos à recomendação religiosa da paciência e da reflexão.

Outro aspecto importante para a educação no islã relembra a frase de Bobbio sobre política, quando afirma que "sua finalidade ou seu fim não pode se resumir apenas em um aspecto, pois (...) os fins da política são tantos quantas forem as metas, segundo os tempos e as circunstâncias” (2000, p. 167). Isso complementa o raciocínio de que o professor deve reconhecer seu contexto para a transmissão do conhecimento, pois cada ambiente tem sua finalidade ao oferecer determinado conhecimento. Em minhas experiências mais recentes, reparo que a alfabetização pode ser feita a partir da geração de palavras, tal qual o método freiriano. Encontramos aqui a importância de um método universal, aplicável ao contexto da alfabetização, mas repleto de nuances. Qual poderia ser essa palavra geradora? Em uma sondagem inicial, muito apropriadamente chegamos à palavra herói.

Para um aluno nosso, refugiado aos nove anos, vindo diretamente da Síria, herói foi aquele que o ajudou na travessia entre o Oriente Médio e a América do Sul. Para o aluno brasileiro, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, o herói é aquele que ele contempla como um personagem animado no cinema.

Ambos são heróis, mas concebidos e simbolicamente criados para funções totalmente diferentes. Enquanto um herói salva uma família de um conflito dando-lhe refúgio, o outro herói proporciona um mundo mágico e prazeroso. No entanto, a instrumentalização da palavra herói serviu a um mesmo fim: propiciar o letramento e a imersão na hipótese alfabética.

Reuniram-se em um mesmo contexto escolar de acolhimento duas histórias; um significante para dois significados. Pela escuta paciente e da reflexão instrumentalizou-se o método com objetivos muito bem definidos. Logo, neste caso, observamos uma ação política completa e, portanto, um ato religioso. Exerceu-se o poder (entendido em sentido lato como influência e controle) sobre as narrativas discentes. Perguntas dirigidas com objetivo definido conduziram à construção dos relatos que culminaram em um denominador comum apesar das alteridades culturais: todos tinham um herói. Essa ação política bobbiana foi pautada em todo seu percurso pelos dois papéis sociais que o islã determina ao professor: ser paciente na acolhida e reflexivo na escuta.

É possível agir islamicamente frente aos desafios pedagógicos. Encontrar soluções metodológicas viáveis em uma turma heterogênea. Para isso, levamos a cabo o uso do método científico sem abrir mão da afetividade na hora do acolhimento das narrativas pessoais e da valorização da experiência do aluno; isso é facilitado e encorajado quando penso baseada no exercício do meu papel social islâmico como professora: ser paciente e reflexiva. Assim, fica claro que a espiritualidade pode ser traduzida em um conjunto de práticas cotidianas em direção ao bem-estar e ao progresso intelectual dos que estão sob minha tutela.

O islã, entendido de maneira geral como ação política e filosofia que visa religar ao Altíssimo aquele que crê em seus cinco principais pilares da fé –unicidade de Deus (tauhid), saum ou jejum do ramadã, salat ou oração, hajj ou peregrinação a makah, zakat ou tributo –, estabelece como fim último dos objetivos da ação humana o bem. Como podemos ver, a título de ilustração, no versículo.

Aquele que fizer um bem, quer seja do peso de um átomo (deus) vê-lo-á, e aquele que fizer um mal, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á (Alcorão 99:07-08).

Como contraponto a essa ideia de que o conhecimento apoiado na religião apresenta as melhores perspectivas de seus docentes, podemos deixar aqui uma reflexão oportuna. Como pensar em uma medida correta para essa ação política como instrumento de poder e influência? A instrumentalização do conhecimento ou mesmo a instrumentalização das pessoas passa a ser um objetivo velado para conseguir o que se almeja.

Conclusão

Com alguma frequência ouvimos na contemporaneidade a instrumentalização do conhecimento para manipular grupos e culturas, estereotipando-os cada vez mais. Sobre isso, recorremos a um livro islâmico contundente, intitulado A educação da criança no islã, da Fundação Ahlul Bait (a.s). Nele se afirma que a criança nasce em estado de Massituma (palavra persa que pode ser traduzida no senso comum religioso como uma “folha em branco”). Na verdade, é uma metáfora, pois se sabe que há um arcabouço genético e ambiental que influencia desde o nascimento.

A metáfora, portanto, orienta a refletir com base na ideia de que não poderá haver entendimento do ambiente sem que haja esforço intelectual para que exista uma folha em branco antecedendo nossas pré-concepções. Partir da dúvida e construir o conhecimento na vivência é o melhor caminho. No islã é assim que deveriam ser empreendidas as trajetórias por meio das experiências nas quais a criança desconhecida se apresenta ao docente muçulmano como a mais rica e inovadora versão de um ser humano.

Referências

BOBBIO, N. Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.

FUNDAÇÃO AHLULBAYT. A educação da criança no islã. São Paulo: Arresala, 2012.

HUSSEIN, I. A. O tratado dos direitos. São Paulo: Arresala, 2005.

Publicado em 14 de maio de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

ARROYO, Karina. A docência sob a perspectiva religiosa: entre a política e a reflexividade. Educação Pública, v. 19, nº 9, 14 de maio de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/9/a-docencia-sob-a-perspectiva-religiosa-entre-a-politica-e-a-reflexividade