A identidade da criança negra no Centro Municipal de Educação Infantil Irmã Lucília em Arraias/TO

Rosilene Moura da Silva

Especialista em Educação Infantil (UFT) e licenciada em Pedagogia (UFT)

Emivalda Costa Cardoso Vidal

Especialista em Educação Infantil (UFT) e licenciada em Pedagogia (UFT)

Rosângila Domingos Gualberto

Mestra em Estudos de Cultura e Território (UFT) ,especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional (Faculdade Afirmativo), licenciada em Pedagogia (UFT)

Este trabalho discute a identidade da criança negra no Centro Municipal de Educação Infantil Irmã Lucília, em Arraias, Tocantins; tem por objetivo verificar como a instituição aborda a questão da identidade negra com as crianças da turma do Pré I. A escola está situada na cidade de Arraias, no sudeste do Estado do Tocantins. É uma cidade histórica, fundada em 1731, aproximadamente, no arraial da Chapada dos Negros, no período aurífero. O IBGE (2010) destaca que a população de Arraias é de 10.645 mil habitantes, sendo a maioria negra.

Percebe-se a necessidade da discussão e análise da temática em sala de aula naquela instituição, considerando ainda que a criança muitas vezes não tem conhecimento esclarecido a respeito de sua ascendência, e adota como padrão uma origem imposta pela mídia.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Brasil, 2010) “a criança é um sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva” (Brasil, 2010, p. 12). O território escolar possibilita essa realização na formação da identidade da criança, levando à compreensão por meio do brincar, imaginar, desejar, aprender, observar, experimentar, narrar, questionar e tornar então possível a valorização de uma identidade esquecida aos olhos do outro.

A relevância desta pesquisa está nas discussões pertinentes a questões étnico-raciais com o intuito de incentivar a valorização da cultura e da identidade do negro e para estudos futuros de pesquisadores e incentivadores dessa temática, buscando explorar e compreender o processo da identidade da criança negra no espaço escolar, com a perspectiva de que a escola é um dos principais meios de transformação, oportunizando o sujeito a adquirir novos valores e novas informações a respeito da vida humana.

O estudo está construído por pesquisa bibliográfica, observação e entrevista com a professora do Pré I. A entrevista foi gravada e autorizada pela professora. O texto traz num primeiro momento discussões acerca da construção da identidade da criança negra; logo após traz o resultado e análises sobre a identidade da criança negra no Centro Municipal de Educação Infantil Irmã Lucília, em Arraias/TO.

A construção da identidade da criança negra

Por meio das interações sociais que a criança observa em grupo, ela desenvolve semelhanças e diferenças entre si e o outro. Assim, esse outro pode servir de referência ou de oposição. O desenvolvimento da identidade está ligado a esses processos de socialização, formada a partir da relação cotidiana.

Essa socialização ocorre de início em família, lugar onde a criança se sente segura afetivamente. Souza, Bruno e Nascimento (2012) destacam que

o processo de evolução depende tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente que o afeta de alguma forma. Ele nasce com um equipamento orgânico que lhe dá determinado recursos, mas é o meio que vai permitir que essas potencialidades se desenvolvam (Souza; Bruno; Nascimento, 2012, p. 4).

A criança encontra no meio familiar, gestos, expressões faciais e sons; com isso, faz com que aconteça uma interação que possibilita a compreensão do meio em que vive por intermédio das imitações. Essa formação vinda por meio da família faz com que a criança adentre a escola com uma concepção pré-formada.

Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (Brasil, 1998), a imitação

é o resultado da capacidade de a criança observar e aprender com os outros e de seu desejo de se identificar com eles, ser aceita e de diferenciar-se. É entendida aqui como reconstrução interna e não meramente uma cópia ou repetição mecânica. As crianças tendem a observar, de inicio, as ações mais simples e mais próximas à sua compreensão, especialmente aquelas apresentadas por gestos ou cenas atrativas ou por pessoas de seu círculo afetivo. A observação é uma das capacidades humanas que auxiliam as crianças a construir um processo de diferenciação dos outros e, consequentemente, sua identidade (Brasil, 1998, p. 21).

Nesse sentido, a imitação é uma forma de a criança experimentar os significados das coisas boas ou más; com isso, reconstrói-as internamente, para o desenvolvimento pessoal e o surgimento da sua identidade.

A escola é o lugar onde ocorre o encontro das diferenças e a compreensão da diversidade e da identidade. Ao ser inserida no espaço escolar, a criança participa de outros grupos diferentes daquele a que está acostumada em seu âmbito familiar; isso possibilita que ela se depare com a diversidade social, ganhando uma dimensão em conhecimentos por meio do contato com outras crianças e outros adultos de culturas diversificadas. Essa interação fará com que a criança negra perceba traços particulares de cada uma e o modo como esses traços são recebidos pelo professor.

A Educação Infantil, como primeira etapa da Educação Básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectuais e sociais. Dessa forma, no convívio da criança negra no ensino, no que diz respeito à sua identidade, o professor terá que possuir amplo conhecimento para conectar à sua prática educativa, a fim de auxiliar na construção da identidade dessas crianças.

Nesse sentido, Silva (1999) afirma que

a identidade é sempre uma relação: o que eu sou só se define pelo que não sou; a definição de uma identidade é sempre dependente da identidade do outro. Além disso, a identidade não é uma coisa da natureza; ela é definida num processo de significação: é preciso que, socialmente, lhe seja atribuído um significado (Silva, 1999, p.106).

Quando a criança se desliga da mãe e passa a conviver em outro meio, ocorre então a necessidade de construção da sua identidade, tendo como referência o outro para a construção do seu “eu”. Essa identidade se torna inacabada pelo fato de o sujeito estar em contato com a diversidade e com isso internalizando informações que contribuem para a sua formação social.

Silva (2000, p. 64), considerando as ideias de Lacan, afirma que “a subjetividade é dividida e ilusória”. Isso leva a compreender que a identidade muitas vezes é construída por meios ilusórios e o que você vê não é o que é real; por exemplo, quando uma criança assiste a um desenho em que as características do personagem são opostas às dela, faz uso dessas características como se fossem as dela. Desse modo, ao ir de encontro ao espelho, sofre a frustração de que o que ela viu na personagem não é o real dela.

As representações dos grupos sociais circulam no meio social, produzindo sentidos e consequências. Na sociedade brasileira, assim como em outras, as representações que estão sendo prevalecentes são construídas por narrativas hegemônicas, que representam determinado grupo social e entram em conflito com outros.

A escola aparece em vários depoimentos como um importante espaço no qual também se desenvolve o tenso processo de construção da identidade negra. Lamentavelmente, na maioria das vezes a instituição escolar aparece nas lembranças dos depoentes reforçando estereótipos e representações negativas sobre o negro e o seu padrão estético (Gomes, 2003, p. 6).

Diante desse detrimento das representações acontecem as consequências que perpassam no contexto da Educação Infantil. A criança negra percebe no cotidiano escolar que há rejeição quanto à sua identidade, em que acontece a ilustração e a imposição da cultura europeia, por meio de metodologias, e das representações brancas, como brinquedos e contos infantis serem sempre representados por personagens brancos.

Resultados

O trabalho teve por objetivo verificar como o Centro Municipal de Educação Infantil Irmã Lucília, em Arraias, aborda a questão da identidade negra com as crianças da turma do Pré I; foi percebido que, por meio da entrevista, a professora ressalta a importância da família na conscientização de sua identidade em casa e destaca ainda que a falta de materiais didáticos sobre a temática na escola dificulta o trabalho em sala.

A professora narra que a

conscientização deve vir de berço a partir do momento em que a criança se depara com a diversidade, no momento que ela se insere no contexto escolar ela tem que agir como uma coisa natural ao ver outra criança com característica diferente da sua. Cada um tem sua cor... Um exemplo: como eu mandei uma fichinha perguntando qual é a cor dos seus olhos, seu cabelo, sua cor e tal, se a geração continuar assim não vai ter mais discriminação e preconceito racial, porém os livros ainda são voltados para outras coisas e não colocam isso como prioridade. Às vezes a gente procura um livro falando sobre o assunto, mas é muito raro achar, isso também deve mudar como também os livros didáticos e na minha sala têm um numero maior de alunos negros (Entrevista com a professora Eliana Soares Oliveira Dinalo em 2 de abril de 2018).

Na época em que ingressou na instituição, a professora observou certa rejeição à criança negra por parte das crianças brancas. A professora relata que “havia um quadro no mural [...] onde tinha fotos de várias crianças brancas e somente uma negra. Por ser somente um negro, gerava algazarras e piadas no cotidiano escolar” (Entrevista com a professora Eliana Soares Oliveira Dinalo, em abril de 2018).

Buscando compreensão diante do relato da professora, Candau (2011, p. 2) afirma que

no âmbito da educação também se explicitam cada vez com maior força e desafiam visões e práticas profundamente arraigadas no cotidiano escolar. A cultura escolar dominante em nossas instituições educativas, construída fundamentalmente a partir da matriz político-social e epistemológica da modernidade, prioriza o comum, o uniforme, o homogêneo, considerados como elementos constitutivos do universal. Nessa ótica, as diferenças são ignoradas ou consideradas um “problema” a resolver.

Na sociedade brasileira está ausência da figura do negro na questão de representações no contexto escolar. Dessa forma, há um entendimento determinando que o branco seja sinônimo de ser belo e aceito socialmente.

A cultura negra é normalmente trabalhada somente em datas comemorativas no espaço escolar; isso traz a ideia de que está certo esse esquecimento da identidade negra. Quando essa temática é trabalhada na escola, busca sempre trazer as conquistas das lutas do negro como forma histórica, deixando de lado o que realmente representa para a criança negra da Educação Infantil voltada para a representação do corpo, do cabelo e da ressignificação cultural.

A professora entrevistada afirma em suas aulas abordar as questões do negro de maneira contínua, buscando focar as diferenças encontradas na sala de aula de modo a valorizá-las, numa rotina cotidiana. A professora relata ainda que

a instituição trabalha desde a matrícula da criança a sua identidade através de perguntas feitas aos pais em relação à cor. Naturalmente no dia a dia é trabalhada. A consciência vem de casa da família e a escola ajuda a entender a sua cor naturalmente. A educação infantil é a base para quebrar preconceito. Que muitas vezes vem enraizado de casa (Entrevista com a professora Eliana Soares Oliveira Dinalo em abril de 2018).

A professora enfatiza a relevância da família no entendimento de sua identidade negra, e alerta para o fato de muitas crianças trazerem enraizadas de suas casas o preconceito diante das diferenças.

Nesse sentido, como vem debatendo Munanga (1999),

a sociedade brasileira, no entanto, tem uma característica ímpar, pelo fato de incorporar para si perspectivas eurocêntricas em muitos aspectos, criando, assim, padrões inalcançáveis para grande parcela de sua população, bastante miscigenada, que, portanto, não corresponde a tais conceitos. O negro, frente a essa sociedade tomada por valores europeus, encontra-se, muitas vezes, desprovido de um parâmetro capaz de fazê-lo se reconhecer como parte dela. Dessa forma, a identidade negra pode se constituir numa identidade frustrada e aderir ao ideal do branqueamento da nação, negando, assim, a sua condição (Munanga, 1999, p. 110).

Para que essa realidade mude, as instituições devem trazer em suas propostas metodológicas trabalhos que valorizem a identidade negra, de forma que a criança negra se identifique. E que não possa ter a negação de sua cultura, de seus valores sociais e sua significação para o mundo.

Durante a entrevista e observações em sala, foi percebido que, considerando o número de alunos de maioria negra na escola campo, a instituição pouco trabalha a questão da identidade e da cultura do negro. E isso ocorre de forma esporádica e por meio das datas comemorativas. A professora, em seu particular, busca envolver a questão do negro e sua identidade com os/as alunos/as da sua turma de maneira diversificada e de acordo com a realidade deles, voltada para o multiculturalismo, abordando a temática de acordo com a necessidade em sala de aula, de forma livre.

Porém percebe-se que seria um trabalho mais bem desenvolvido se encontrasse apoio em materiais e até mesmo em meio de cursos de capacitação de acordo com a temática, que enriqueceriam seus conhecimentos e sua prática tornaria mais atrativa na interação da criança com os conteúdos trabalhados em sala de aula, além de contribuir no fortalecimento e valorização da identidade da criança negra.

Considerações finais

Entendemos que a criança traz de casa o conhecimento de uma identidade imposta que é transmitida em informações adquiridas no seio familiar e é aperfeiçoada com a chegada ao contexto escolar.

A escola é mediadora do conhecimento sistematizado, que muitas vezes faz com que a criança se encontre em difíceis situações, conflituosas, pois a concepção de algo que elas trazem de casa entra em conflito com aquilo dito “novo” proposto pela instituição escolar.

Professores, gestores e demais profissionais da educação são fundamentais no auxílio da construção da identidade de alunos/as negros/as na escola.  Portanto, é importante que essas discussões sejam tratadas nas instituições escolares com as crianças da Educação Infantil, que são a base e primeira etapa da Educação Básica, para que seja possível a mudança necessária e uma sociedade mais tolerante e afetiva.

Este trabalho sobre a identidade negra no contexto infantil em Arraias não está finalizado; ele nos instiga e motiva a discussão. Outras pesquisas darão continuidade a essa temática relevante para a sociedade.

Referências

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.

______. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Formação pessoal e social. Brasília: MEC, 1998.

CANDAU, Vera Maria Ferrão. Diferenças culturais, cotidiano escolar e práticas pedagógicas.Currículo sem Fronteiras, v. 11, n. 2, p. 240-255, 2011. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/127987178/diferencas-culturais-vera-candau. Acesso em mar. 2018.

DINALO, Eliane Soares Oliveira. Entrevistas com Emivalda Vidal e Rosilene Moura. Arraias, abr. 2018.

GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores/as: um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo. Educação e Pesquisa, v. 29, n. 1, p. 167-182, jan./jun. 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ep/v29n1/a12v29n1.pdf. Acesso em: mar. 2018.

HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Brasileiro de 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/to/arraias/panorama. Acesso em: abr. 2018.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

______. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.

SOUZA, A. S.; BRUNO, F. J. da S.; NASCIMENTO, M. V. do N. A influência das relações afetivas na construção das aprendizagens num projeto de formação inicial Pibid/UVA. IV FIPED - Fórum Internacional de Pedagogia. Campina Grande, Realize. 2012. v. 4, p. 1-10. Disponível em: http://www.editorarealize.com.br/revistas/fiped/trabalhos/8d328a7d6ba37e191b197c320f33864c_734.pdf. Acesso em: abr. 2018.

Publicado em 14 de maio de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Rosilene Moura da; VIDAL, Emivalda Costa Cardoso; GUALBERTO, Rosângila Domingos. A identidade da criança negra no Centro Municipal de Educação Infantil Irmã Lucília em Arraias, Tocantins. Educação Pública, v. 19, nº 9, 14 de maio de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cederj.edu.br/artigos/19/9/a-identidade-da-crianca-negra-no-centro-municipal-de-educacao-infantil-irma-lucilia-em-arraias-to